Capítulo 28 – Ventos que Anunciam Tempestades
O mar estava mais calmo do que nos dias anteriores.
As ondas ainda se moviam com força suficiente para balançar o pequeno barco, mas já não havia aquela agressividade típica das águas próximas à ilha. O céu estava parcialmente encoberto, com nuvens longas e claras se espalhando como véus sobre o horizonte.
Ren permanecia sentado na parte frontal da embarcação.
Os olhos fixos no vazio.
Não exatamente olhando o mar — mas também não olhando para dentro de si.
Era um estado estranho.
Como se sua mente estivesse cansada demais para continuar lembrando.
Isamu, por outro lado, ajustava as cordas da vela com movimentos tranquilos. Ele parecia acostumado com aquele tipo de viagem.
O vento soprou mais forte.
A vela estalou.
O barco inclinou levemente.
— Você já perdeu alguém importante? — perguntou Ren de repente.
A voz saiu seca.
Sem emoção.
Isamu não respondeu imediatamente.
Continuou mexendo nas cordas por alguns segundos.
Depois se sentou também.
— Já.
Silêncio.
Ren não perguntou quem.
Isamu também não explicou.
O som do mar preencheu o espaço entre os dois.
— Você está indo para Aetheryon por causa de alguém? — perguntou Isamu.
Ren demorou alguns segundos.
— Estou indo por causa de uma verdade.
O vento voltou a soprar.
Mais forte.
Isamu observou o horizonte.
— Verdades costumam ser perigosas.
Ren respondeu:
— Eu já percebi.
O silêncio voltou.
Mas agora havia algo diferente nele.
Não era mais apenas tristeza.
Era direção.
A passagem dos dias
A viagem levou tempo.
Dois dias.
Talvez três.
O céu mudou várias vezes.
Houve momentos de chuva leve.
Momentos de sol intenso.
Momentos de vento tão forte que o barco parecia querer girar sozinho.
Durante as noites, o mar ficava quase completamente escuro.
Apenas o brilho distante das estrelas refletia na água.
Ren quase não dormia.
Sempre que fechava os olhos, via a mesma cena.
A lâmina.
Daichi.
Aoi.
No terceiro amanhecer, algo mudou.
Isamu ficou em pé rapidamente.
Os olhos atentos.
— Estamos chegando.
Ren levantou o olhar.
Primeiro não viu nada.
Apenas névoa.
Uma camada densa cobrindo o horizonte.
Mas então…
Uma estrutura começou a surgir lentamente.
Como uma sombra gigante.
Torres.
Pontes.
Formações de pedra elevadas.
Ilhas conectadas por estruturas que pareciam naturais… mas organizadas demais para serem apenas obra do acaso.
Aetheryon.
O ar ali era diferente.
Mais leve.
Mas ao mesmo tempo… mais pesado espiritualmente.
Como se a própria energia do lugar fosse densa.
Antiga.
Observadora.
Ren sentiu algo.
Uma pressão suave.
Como se o lugar estivesse avaliando sua presença.
Isamu também percebeu.
— Esse lugar…
Ren respondeu:
— É.
A chegada
Quando o barco se aproximou das formações principais, estruturas de observação começaram a aparecer entre as rochas elevadas.
Guardas.
Vestindo mantos claros com detalhes azul-prateados.
Eles não apontaram armas.
Mas estavam atentos.
Muito atentos.
Uma ponte estreita de pedra levava até uma plataforma principal.
Isamu conduziu o barco até ali.
Antes mesmo de atracar completamente…
Uma presença surgiu.
Silenciosa.
Natural.
Mas dominante.
Eryndor.
Os cabelos longos claros se moviam com o vento.
Sua postura era calma.
Os olhos, porém, eram extremamente atentos.
Ele olhou primeiro para Ren.
Sem surpresa.
Como se já esperasse.
— Então você veio.
Ren saiu do barco lentamente.
Ainda carregando o peso emocional dos últimos dias.
— Eu vim.
Eryndor analisou o rosto dele por alguns segundos.
— Você mudou.
Ren respondeu:
— Ainda não o suficiente.
O silêncio se manteve por alguns instantes.
Então Eryndor desviou o olhar.
Para Isamu.
A análise foi rápida.
Direta.
Profunda.
— Ele não entra.
A frase saiu simples.
Sem agressividade.
Mas definitiva.
Isamu não reagiu.
Parecia já esperar algo assim.
Ren imediatamente respondeu:
— Ele salvou minha vida.
Eryndor não disse nada.
Ren continuou:
— Sem ele eu não chegaria aqui.
O vento soprou forte naquele momento.
As roupas de todos se moveram.
Os olhos de Eryndor voltaram para Ren.
Longos segundos se passaram.
Até que finalmente ele disse:
— Então a responsabilidade é sua.
Isamu soltou o ar lentamente.
Mas não sorriu.
Ainda não.
Eryndor virou o corpo.
— Venham.
E começou a caminhar.
Assim começava um novo arco.
A Vila
Enquanto novos caminhos se abriam em Aetheryon, a vila permanecia envolta em um clima estranho.
A execução de Daichi ainda era recente demais.
As pessoas falavam pouco.
E quando falavam…
Falavam baixo.
Como se o próprio ar estivesse ouvindo.
Kanzaki
No pátio de treinamento, Kanzaki observava soldados praticando formações.
O olhar sério.
Analítico.
Cada movimento era avaliado.
Cada erro era corrigido.
Mas sua mente não estava totalmente ali.
Algo maior estava se movendo.
Ele sentia.
A presença que chega
O sino principal da igreja tocou.
Um som grave.
Profundo.
Diferente do normal.
Os soldados pararam.
Sacerdotes começaram a se alinhar.
Kanzaki virou o rosto.
Sabia o que aquilo significava.
O líder supremo da igreja havia chegado.
Pela estrada principal, uma pequena comitiva avançava lentamente.
Não havia exército.
Não havia demonstração de poder.
Mas mesmo assim…
A atmosfera mudou completamente.
No centro da comitiva caminhava um homem de vestes brancas longas.
Detalhes dourados percorriam todo o tecido.
Seu rosto era calmo.
Sereno.
Mas sua presença…
Era esmagadora.
Não uma presença agressiva.
Mas absoluta.
Como se o ambiente naturalmente se curvasse ao redor dele.
Seus olhos eram profundos.
Antigos.
Observadores.
Kanzaki se aproximou.
Ao lado do velho padre da vila.
Ambos se ajoelharam levemente.
— Seja bem-vindo.
O homem apenas assentiu.
Nenhuma palavra.
Mas o silêncio dele dizia mais do que discursos inteiros.
A energia espiritual ao redor parecia vibrar.
Mas ele não demonstrava nada.
Nenhum poder.
Nenhuma técnica.
Apenas presença.
E isso já era suficiente.
Aoi
Do alto das estruturas da igreja, Aoi observava.
Sentia a energia daquele homem.
Era diferente de qualquer coisa que já havia sentido.
Mesmo comparado ao próprio Kanzaki.
Seu olhar ficou mais sério.
Algo estava mudando.
E ela sabia.
A missão
Mais tarde, dentro de uma sala fechada da igreja, Kanzaki estava de pé diante de um mapa.
Aoi entrou.
Silenciosa.
Respeitosa.
— Você me chamou.
Kanzaki não respondeu imediatamente.
Apenas apontou para uma região distante no mapa.
— Um reino pequeno.
Recente.
Pouco documentado.
Aoi se aproximou.
Observou.
— Qual o problema?
— Movimentações estranhas.
— Ligadas à igreja?
Kanzaki virou o rosto.
— Talvez.
Aoi entendeu imediatamente.
Aquilo era sério.
Muito sério.
Kanzaki continuou:
— Não sabemos o nome oficial ainda.
— Nem a estrutura militar.
— Nem o objetivo.
O silêncio tomou conta da sala.
Aoi perguntou:
— Qual é a missão?
Kanzaki respondeu sem hesitar:
— Rank S.
O ar pareceu ficar mais pesado.
Mesmo para Aoi.
Rank S significava:
Alto risco.
Possibilidade real de morte.
Missões normalmente destinadas a guerreiros muito mais experientes.
Mas Kanzaki não demonstrava dúvida.
— Você vai se infiltrar.
— Coletar informações.
— Confirmar se representam ameaça direta à igreja.
Aoi não demonstrou medo.
Nem surpresa.
Apenas perguntou:
— Quando parto?
Kanzaki respondeu:
— Em breve.
Ele se aproximou.
Agora não como comandante.
Mas como pai.
Por um breve instante.
— Confio em você.
Aoi manteve o olhar firme.
— Eu sei.
Nenhuma emoção exagerada.
Nenhum drama.
Apenas confiança.
E dever.
Mas quando Aoi saiu da sala…
Seu olhar mudou levemente.
Muito pouco.
Quase imperceptível.
Mas mudou.
Porque aquela missão…
Não era comum.
E algo dentro dela dizia:
Esse caminho não teria volta fácil.
Enquanto isso…
em Aetheryon…
três destinos começavam a se entrelaçar:
Ren.
Isamu.
Eryndor.
E em algum lugar distante…
um reino ainda desconhecido observava tudo nas sombras.
Um reino que não queria destruir os ancestrais.
Mas dominá-los.
Vorthal.