Capítulo 29 — Ecos de Sangue e Destinos em Movimento
O vento frio de Aetheryon soprava constante sobre as estruturas de pedra branca suspensas acima do mar. O céu estava limpo, mas havia uma tensão invisível no ar — como se o próprio reino sentisse que novos caminhos estavam começando a se cruzar.
Ren e Eryndor — Verdades que Ferem
Ren permanecia em silêncio há alguns minutos.
Ele estava sentado em uma das plataformas de treinamento, observando o horizonte. O som distante das ondas batendo nas rochas era quase hipnótico, mas sua mente estava longe dali.
Daichi.
A execução ainda ecoava em sua cabeça.
O olhar de Aoi.
O sangue.
Eryndor se aproximou sem fazer barulho, como sempre.
— Você ainda está preso nisso.
Não foi uma pergunta.
Ren respirou fundo.
— Ele era meu melhor amigo.
Silêncio.
— E eu não consegui fazer nada.
Eryndor não respondeu imediatamente. Apenas ficou olhando o mar.
— A igreja executa aqueles que fazem perguntas — disse ele calmamente. — Não é novidade.
Ren fechou os punhos.
— Ele descobriu coisas… sobre os ancestrais… sobre pactos.
Eryndor virou o rosto lentamente.
Agora havia interesse.
— Continue.
Ren então começou a contar.
Falou sobre a investigação de Daichi.
Falou sobre as dúvidas.
Falou sobre como ele foi condenado.
E então, quase sem perceber, mencionou:
— Antes disso… teve uma luta grande na vila. Um guerreiro chamado Raizen… liderava um grupo chamado Kurogane. Ele lutou contra o Kanzaki… e morreu.
Por um instante…
O mundo pareceu parar.
Eryndor não demonstrou reação imediata.
Nenhuma expressão.
Nenhum movimento.
Mas algo mudou.
Muito sutil.
Quase imperceptível.
— Raizen… — repetiu, em um tom neutro demais.
Ren não percebeu.
— Dizem que ele era extremamente forte.
Silêncio.
O vento aumentou.
Eryndor voltou a olhar para o horizonte.
Por dentro, porém, uma memória antiga surgia como um corte profundo.
Mas desapareceu tão rápido quanto veio.
— Continue.
Ren então voltou ao assunto de Daichi, sua voz ficando mais pesada.
— Eu não consegui salvar ele… e a Aoi…
Ele parou.
A voz falhou.
— Ela… foi quem executou.
Agora Eryndor voltou o olhar.
Não havia empatia.
Não havia conforto.
Apenas uma análise fria.
— Então ela escolheu.
Ren não respondeu.
Eryndor falou:
— Ódio é mais útil que tristeza.
Ren levantou o olhar.
— Aprenda a usar isso.
O Treinamento Começa
Horas depois, no grande campo circular de combate de Aetheryon, Ren já estava ofegante.
O treinamento de Eryndor era completamente diferente do da igreja.
Não havia pausas longas.
Não havia discursos.
Não havia cerimônia.
Só combate.
Movimento.
Erro.
Dor.
E evolução.
Ren avançou com um golpe direto.
Eryndor desviou com facilidade e respondeu com um impacto seco no estômago.
Ren caiu de joelhos.
— Lento.
Ren tentou se levantar.
Eryndor jogou algo no chão à frente dele.
Duas lâminas curvas.
Elegantes.
Escuras.
As bordas tinham um leve brilho vermelho.
— Pegue.
Ren olhou.
— Essas armas pertenciam a um guerreiro antigo que acreditava que batalhas não devem ser rápidas… mas inevitáveis.
Ren segurou as espadas.
Elas eram leves.
Perigosamente leves.
— Cada corte abre o caminho para o próximo — disse Eryndor. — O sangramento aumenta a cada golpe.
Ren entendeu imediatamente.
Mesmo sem um golpe fatal…
O inimigo morreria.
Lentamente.
Inevitavelmente.
— Aprenda a dançar com elas.
Eryndor avançou.
E o treinamento ficou ainda mais brutal.
Agora Ren precisava aprender a usar as duas espadas ao mesmo tempo.
Movimentos cruzados.
Passos rápidos.
Controle total.
O estilo começava a nascer.
Isamu e Lysera — Um Caminho Inesperado
Enquanto isso, em outra parte de Aetheryon…
Isamu caminhava ao lado de Lysera.
Ele observava tudo com curiosidade.
As construções suspensas.
Os guerreiros treinando.
As bandeiras marcadas com símbolos antigos.
— Você parece perdido — disse Lysera, com um leve sorriso.
— Eu estou.
Ela riu.
— Normal.
Isamu coçou a cabeça.
— Eu nunca estive em um lugar assim.
Lysera observou o coque samurai dele balançando com o vento.
— Você luta?
— Não.
Resposta direta.
— Nunca precisei.
Lysera ergueu uma sobrancelha.
— Aqui… todo mundo precisa.
Eles pararam perto de um pequeno campo de treinamento.
Alguns guerreiros praticavam técnicas com espadas.
— Eu posso te treinar, se quiser.
Isamu levantou as mãos rapidamente.
— Não, não… eu não sou esse tipo de pessoa.
Lysera inclinou a cabeça.
Curiosa.
— Ainda.
Isamu riu, meio sem jeito.
— Ainda.
Ela não insistiu.
Ainda.
Mas a ideia já havia sido plantada.
A Vila — A Chegada do Grande Líder
De volta à vila…
A presença dele mudava tudo.
Sacerdotes se mantinham em postura rígida.
Guardas evitavam até respirar alto demais.
O grande líder da igreja havia chegado.
Seu nome era:
Seraphiel.
Alto.
Postura impecável.
Vestes brancas com detalhes dourados.
Os olhos transmitiam uma calma quase assustadora.
Mas havia poder ali.
Muito poder.
Dentro do salão principal, Kanzaki caminhava ao lado dele.
— Então você enviou sua filha?
A voz de Seraphiel era serena.
Mas pesada.
— Sim.
— Para uma missão de reconhecimento de um reino desconhecido.
Kanzaki manteve a postura firme.
— Aoi está preparada.
Seraphiel parou.
Virou lentamente.
— Ou você quer acreditar que está.
Silêncio.
— Ela é jovem.
— Ela é forte — respondeu Kanzaki.
Seraphiel observou alguns sacerdotes treinando ao fundo.
— Não é porque ela é sua filha que deve receber preferência.
A tensão ficou clara.
Kanzaki respondeu sem hesitar:
— Não é preferência.
Pausa.
— É confiança.
Seraphiel analisou o olhar dele.
Longos segundos.
Então voltou a caminhar.
— Espero que esteja certo.
A Partida de Aoi
O céu estava tingido de laranja.
O mar refletia o pôr do sol.
A embarcação já estava pronta.
Aoi carregava apenas o essencial.
Leve.
Silenciosa.
Precisa.
Kanzaki se aproximou.
Por alguns segundos…
Não era um comandante.
Era apenas um pai.
— Essa missão não é simples.
— Eu sei.
— Observe mais do que lute.
— Sempre.
Kanzaki respirou fundo.
— Se algo parecer errado…
— Eu volto.
Ela respondeu antes que ele terminasse.
Os dois ficaram em silêncio.
O vento balançava o cabelo de Aoi.
— Tome cuidado.
Ela apenas assentiu.
Mas então disse:
— Eu sempre tomo.
Ela subiu na embarcação.
As cordas foram soltas.
O barco começou a se afastar lentamente.
Kanzaki permaneceu parado, observando até que ela se tornasse apenas uma silhueta no horizonte.
O reino desconhecido aguardava.
Vorthal.
E com ele…
novos perigos começavam a se mover.
Aetheryon — O Começo das Mudanças
De volta ao campo de treinamento…
Ren caiu novamente.
Respiração pesada.
Mãos tremendo.
Mas agora…
Havia algo diferente.
Os movimentos estavam mais rápidos.
Mais precisos.
Mais perigosos.
Eryndor observava.
Em silêncio.
O garoto estava mudando.
E aquela mudança…
seria impossível de parar.
Ao longe, Lysera observava Isamu novamente.
Ela já sabia.
Era apenas questão de tempo.
O destino dele ainda não tinha começado.
Mas começaria em breve.
E quando começasse…
nada seria como antes.
O vento soprou forte sobre Aetheryon.
E pela primeira vez…
vários caminhos começaram a se aproximar do mesmo ponto.