CAPÍTULO 64 — À DERIVA
AETHERYON — O QUE RESTOU
O silêncio era pesado.
Não havia mais gritos. Nenhum choque de lâminas. Nenhum rugido de Kai.
Apenas o vento.
Passando por estruturas quebradas, carregando cinzas e o cheiro de sangue que ainda impregnava o ar.
Aetheryon… estava em ruínas.
Corpos espalhados entre pedras, fogo ainda consumindo o que restava de algumas construções, soldados vivos andando sem rumo… como se ainda não tivessem entendido que aquilo havia acabado.
No alto de uma estrutura parcialmente destruída, alguém observava tudo.
Tan Yang.
Imóvel.
Frio.
Seus olhos percorriam o cenário sem pressa, como se estivesse analisando cada consequência.
Atrás dele, passos pesados.
Eryndor.
Ferido. Coberto de sangue. A respiração irregular… mas ainda de pé.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Então Yang falou:
— Você perdeu.
Eryndor não respondeu.
Apenas ficou ali.
— Não a guerra — continuou Yang. — Mas isso aqui…
Ele abriu levemente os braços, indicando o reino destruído.
— Isso você perdeu.
O vento soprou mais forte, levantando cinzas entre os dois.
Eryndor apertou a espada.
— Não acabou.
Yang soltou um leve som, quase um riso.
— Eu sei.
Silêncio.
Então ele continuou:
— Aquele papel…
Os olhos de Eryndor se estreitaram.
— O continente.
Agora havia atenção.
— Se existe algo lá — disse Yang — algo que a igreja escondeu…
Uma pausa.
— É pra lá que isso vai.
Eryndor o encarou.
— Você vai fugir?
Yang virou levemente o rosto.
— Eu vou entender.
Ele deu um passo à frente.
— Você pode continuar aqui… lutando contra as consequências.
Outra pausa.
— Ou pode ir atrás da causa.
E então…
Desapareceu.
ENTRE OS DESTROÇOS
Ren caminhava.
Sem pressa.
Sem expressão.
Os pés esmagando pedaços de pedra e madeira enquanto ele atravessava o que restava da antiga capela.
Parou.
Seus olhos se fixaram em um ponto específico.
Os destroços da estrutura principal.
Por um momento… ele apenas ficou ali.
Então começou a remover as pedras.
Sem falar.
Sem hesitar.
Até encontrar.
Uma pequena caixa, parcialmente queimada.
Ele se ajoelhou.
Abriu.
Dentro… um pano.
E envolta nele…
A arma.
Uma foice.
O cabo escuro, com marcas gravadas profundamente na madeira. A lâmina curvada, irregular… quase brutal.
Não era uma arma bonita.
Era… pesada.
Ren a encarou por alguns segundos.
Então a pegou.
No momento em que seus dedos tocaram o cabo…
Uma sensação percorreu seu corpo.
Fria.
Profunda.
Ele a ergueu devagar.
Testou o peso.
Perfeita.
Seus olhos desceram lentamente até o chão.
Ali…
Suas duas espadas curvas.
Por um instante… ele apenas olhou.
Memórias.
Treinos.
Takemura.
Silêncio.
Então…
Soltou.
As espadas ficaram ali.
Enterradas entre os destroços.
Ren girou a foice uma vez.
O som do corte no ar foi seco. Preciso.
Seus olhos se estreitaram.
E um leve sorriso surgiu.
Frio.
MAR ABERTO
O mar era infinito.
Sem direção.
Sem terra.
Apenas água… e céu.
Um pequeno barco de madeira seguia à deriva.
E nele…
Isamu.
Seu corpo estava caído contra a lateral.
A respiração fraca. Irregular.
Os olhos quase se fechando.
O mundo ao redor já não fazia sentido.
O som das ondas… distante.
O corpo… pesado demais para reagir.
E então…
A escuridão começou a tomar sua visão.
Mas antes que tudo desaparecesse—
Algo voltou.
FLASHBACK — A VILA
O som veio primeiro.
Risos.
Passos.
Vento passando por folhas.
Uma vila simples.
Casas pequenas. Caminhos de terra. Pessoas vivendo sem pressa.
E no meio disso…
Isamu.
Mais jovem.
Mais leve.
Correndo.
— ISAMU!
Ele virou.
E viu ela.
Hikari.
Correndo na direção dele, o cabelo balançando, o sorriso fácil… vivo.
— Você demorou! — ela disse, parando na frente dele.
— Eu tava ocupado — respondeu ele.
— Ocupado fazendo o quê?
— Trabalhando.
Ela estreitou os olhos.
— Mentira.
Ele deu um leve sorriso.
— Não é.
— Então prova.
Silêncio.
— Tá.
Ela sorriu.
— Então corre.
E saiu na frente.
Isamu ficou parado por um segundo.
Observando ela se afastar.
E então…
Correu atrás.
MAIS TARDE
Os dois estavam sentados perto de um campo aberto.
O sol se pondo no horizonte.
Silêncio.
Tranquilo.
— Você já pensou em sair daqui? — ela perguntou.
Isamu não respondeu na hora.
— Às vezes.
— Eu penso sempre.
Ele olhou pra ela.
— E iria?
Hikari sorriu, olhando o horizonte.
— Se não for pra tentar… a gente vai ficar aqui pra sempre.
Pausa.
Ela virou o rosto pra ele.
— Você iria comigo?
O vento passou entre eles.
Isamu desviou o olhar por um segundo.
— Iria.
Ela sorriu.
E encostou levemente o ombro nele.
Silêncio.
Mas dessa vez… diferente.
O RETORNO
Noite.
Isamu caminhava pela estrada.
Cansado… mas tranquilo.
— Hikari?
Silêncio.
Ele franziu a testa.
A vila… quieta demais.
Nenhuma luz.
Nenhum som.
Seu passo acelerou.
— Hikari?
A porta estava aberta.
Ele entrou.
E parou.
O mundo… travou.
Hikari.
No chão.
Sem vida.
Os olhos abertos… vazios.
Isamu não reagiu.
Não na hora.
Seu corpo apenas… ficou imóvel.
Tentando entender.
Tentando negar.
Seus joelhos cederam lentamente.
Ele caiu ao lado dela.
A mão tremendo…
Parando antes de tocar.
Como se… tocar tornasse tudo real.
Seus lábios se abriram.
Mas nenhum som saiu.
DE VOLTA AO MAR
O som das ondas voltou.
Fraco.
Distante.
Isamu ainda estava ali.
Deitado.
Sem forças.
Seus olhos… finalmente cedendo.
Mas seus lábios se moveram.
Quase sem voz.
— …Hikari…
Uma pausa.
A respiração falhando.
— …acho que…
O vento passou.
— …eu vou finalmente…
Seus olhos começaram a se fechar.
— …te reencontrar.
E então…
Escuridão.