CAPÍTULO 70 — ONDE O MAR SE CURVA
O mundo havia diminuído.
Não existia mais horizonte.
Não existia mais céu.
Apenas o som pesado da água se movendo… e algo acima dela.
Algo que não deveria existir.
Abyssarion pairava.
Seu corpo longo, serpentino, cortava o ar como uma divindade antiga despertando de um sono que jamais deveria ter sido interrompido. As rachaduras em sua pele pulsavam como estrelas mortas, emitindo uma luz violeta profunda que tingia o oceano abaixo.
Cada movimento dele… deslocava o mar.
Cada respiração… fazia o vento recuar.
No convés, ninguém ousava falar.
Nem mesmo Veyrion.
Mas seus olhos… brilhavam.
— Então… esse é o verdadeiro rosto de um ancestral.
Silêncio.
O vento passou.
E então Abyssarion desceu.
O MAR SE ERGUE
Não houve aviso.
Não houve preparação.
O mar simplesmente… respondeu.
MAR DO ABISMO.
A água ao redor do navio se elevou em colunas colossais, girando como pilares vivos. Elas não caíam de forma caótica — havia intenção. Direção. Consciência.
— Recue o navio! — Lorian ordenou, firme.
Nyra já estava se movendo, puxando cordas, ajustando o leme com precisão.
Selka corria entre os companheiros, distribuindo frascos, preparando o que fosse necessário.
Drogan e Brakk tomaram posição.
Mas à frente…
Três não recuaram.
Veyrion.
Ravik.
Isamu.
— Permaneçam afastados — disse Lorian, sem tirar os olhos da criatura. — Se se aproximarem demais, serão apenas mais alvos.
Ele então completou, em tom mais baixo:
— O capitão sabe o que está fazendo.
A LINHA DE FRENTE
Ravik girou a pistola nos dedos, encaixando o gatilho com calma.
— Você deveria ficar com eles.
Ele lançou um olhar rápido para Isamu.
— Ainda dá tempo.
Isamu não respondeu.
Seus olhos estavam fixos.
Não no mar.
Mas naquilo que o dominava.
— Eu já fiquei para trás tempo demais.
Sua voz saiu baixa.
Sem tremor.
Veyrion sorriu de lado.
— É disso que eu estou falando.
Ele deu um passo à frente.
E o mundo respondeu.
— Vamos ver até onde você aguenta.
O PRIMEIRO IMPACTO
Os tentáculos vieram.
Não como antes.
Agora eram extensões de um corpo consciente.
Precisos.
Mortais.
Ravik foi o primeiro a agir.
— Sequência Zero.
Os disparos cortaram o ar em uma linha perfeita.
Cada tiro explodia ao impacto, abrindo espaço.
Isamu avançou logo atrás.
As pétalas surgiram.
Girando.
Flutuando.
E então—
fogo.
— Dança Carmesim das Cinzas.
O corte rasgou o tentáculo.
As pétalas explodiram em chamas, consumindo a carne escura.
Veyrion ergueu a mão.
— Prisão do Criador.
Estruturas surgiram do nada, envolvendo outro tentáculo e esmagando-o contra si mesmo.
— Agora!
Isamu não hesitou.
— Corte do Jardim em Chamas.
A lâmina atravessou o ponto preso.
As chamas se expandiram.
O impacto reverberou pelo corpo de Abyssarion.
O mar se agitou.
Mas ele não caiu.
Ele respondeu.
O RUGIDO
A cabeça colossal se ergueu.
Os olhos focaram.
E então—
RUGIDO ABISSAL.
O som não foi ouvido.
Foi sentido.
Como se o próprio corpo estivesse sendo pressionado de dentro para fora.
Nyra caiu de joelhos.
Selka levou as mãos à cabeça.
Brakk travou os pés no convés.
Até o ar pareceu se curvar.
Mas Ravik—
Respirou fundo.
E atirou.
— Marca da Morte.
O disparo atravessou diretamente um dos olhos.
A explosão rompeu o efeito do rugido.
— Mantenham o foco!
Veyrion avançou.
— Isso ainda é uma luta!
A CONTRA-OFENSIVA
Abyssarion mergulhou.
O mar afundou com ele.
E então—
Subiu.
COLAPSO OCEÂNICO.
Uma onda colossal se ergueu, apagando a luz do céu.
— Veyrion! — Selka gritou.
Ele fechou os olhos por um instante.
E então—
— Reino Efêmero.
O mundo ao redor mudou.
Plataformas surgiram da água.
Estruturas impossíveis.
Como se o próprio mar estivesse sendo moldado.
A onda colidiu.
Destruiu parte delas.
Mas não tudo.
Drogan avançou.
Arrancou um bloco inteiro do convés destruído.
E arremessou.
Brakk seguiu.
— Impacto de Forja.
O martelo desceu.
O impacto ecoou como um trovão.
Nyra surgiu pelas laterais.
— Dança das Lâminas Frias.
Cortes rápidos.
Precisos.
Escamas se abriram.
Sangue escuro caiu no mar.
Abyssarion foi forçado a recuar.
Pela primeira vez.
O JULGAMENTO
O silêncio veio.
Breve.
Pesado.
E então a energia começou a se formar.
Na boca do ancestral.
Violeta.
Densa.
Impossível.
Lorian percebeu primeiro.
— Afastem-se!
Mas já era tarde.
— Julgamento do Horizonte.
O feixe disparou.
Uma linha de destruição absoluta.
Veyrion criou barreiras.
Drogan segurou.
Brakk reforçou.
Mas tudo tremia.
Tudo cedia.
— Não vamos segurar isso… — murmurou Veyrion.
E então—
Isamu avançou.
Sozinho.
O ÚLTIMO AVANÇO
As pétalas surgiram novamente.
Mas agora…
Eram mais.
Muito mais.
Girando ao redor dele como um mundo próprio.
O fogo cresceu.
Mais intenso.
Mais vivo.
Ele não olhou para trás.
Não pensou.
Apenas avançou.
Ravik entendeu.
Sem palavras.
— Último Aviso.
O disparo explodiu sob os pés de Isamu.
Impulsionando-o.
Veyrion criou plataformas no ar.
Uma após a outra.
Isamu correu sobre elas.
Direto para o feixe.
Para a cabeça do ancestral.
Para o fim.
— Eu não vou fugir.
Sua voz foi baixa.
Mas firme.
— Não mais.
Ele ergueu a lâmina.
As pétalas se concentraram.
O fogo se intensificou.
E então—
— Lâmina do Último Adeus.
O mundo desacelerou.
O som desapareceu.
Apenas o corte existia.
E então—
— Funeral das Mil Pétalas.
A lâmina desceu.
Mil cortes em um instante.
Mil chamas.
Mil despedidas.
A cabeça de Abyssarion foi atravessada.
A energia se rompeu.
O feixe se dissipou.
As escamas racharam.
O corpo colossal se partiu.
O rugido final ecoou…
E morreu.
O SILÊNCIO
O corpo caiu.
Lentamente.
Afundando.
Desaparecendo nas profundezas.
O mar… se acalmou.
As ondas cessaram.
O céu clareou.
A luz do sol atravessou as nuvens.
E tocou o oceano.
Isamu caiu de joelhos no convés.
Respiração pesada.
A katana ainda em mãos.
As pétalas desapareceram.
O fogo se apagou.
Silêncio.
Longo.
Até Veyrion se aproximar.
Parou ao lado dele.
Olhou o mar.
Depois… ele.
E sorriu.
— Agora sim.
Uma pausa.
— Você lutou como um de nós.
Ravik soltou o ar devagar.
— Não foi nada mal.
Nyra se apoiou no mastro, ainda ofegante.
Brakk descansou o martelo no ombro.
Drogan cruzou os braços.
Selka finalmente relaxou.
O mar… estava calmo.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas havia.
E todos sabiam.
Lá embaixo…
Nas profundezas…
Algo ainda aguardava.