CAPÍTULO 71 — O CHAMADO DO FUNDO
O mar havia se acalmado.
Mas não era uma calma verdadeira.
Era uma calmaria pesada, estranha… como se algo ali embaixo ainda estivesse observando, esperando, respirando.
O sol começava a atravessar as nuvens lentamente, iluminando o oceano em tons dourados. A superfície parecia tranquila, mas quem estava ali sabia: aquilo não era paz.
Era silêncio depois de um grito.
O navio dos Kurotsume ainda rangia.
Partes quebradas.
Cordas soltas.
Marcas profundas do combate espalhadas por toda a madeira.
Drogan levantava pedaços do convés destruído com facilidade brutal, reorganizando o que ainda podia ser salvo. Brakk caminhava lentamente, o martelo apoiado no ombro, respirando fundo, cada passo pesado depois do esforço extremo.
Nyra já havia retomado o leme, mesmo com os braços tremendo. Seu olhar continuava atento, varrendo o horizonte como se esperasse outra ameaça surgir a qualquer momento.
Selka se movia rápido entre todos, limpando ferimentos, pressionando cortes, aplicando curativos improvisados.
— Não relaxem agora — disse ela, firme, enquanto amarrava o braço de Brakk. — O corpo de vocês ainda está em choque.
Ravik permanecia encostado na lateral do navio.
Sua pistola desmontada nas mãos.
Ele limpava cada peça com precisão.
Mas seus olhos… não estavam ali.
Estavam no mar.
Fixos.
E na proa…
Veyrion.
Imóvel.
O vento movia levemente seus cabelos e o tecido de sua roupa. Seu olhar estava distante, mas focado.
Ele não parecia cansado.
Nem aliviado.
Apenas atento.
Como se estivesse esperando algo que os outros ainda não percebiam.
Foi Nyra quem notou primeiro.
— Capitão…
A voz dela saiu baixa.
Sem tirar os olhos de um ponto específico do convés.
Isamu.
Ele ainda estava de joelhos.
Exatamente onde havia caído após o golpe final.
O corpo inclinado para frente.
Respiração irregular.
Pesada.
Como se cada inspiração exigisse esforço.
Sua katana ainda estava em sua mão… mas frouxa.
Quase escorregando.
Algo estava errado.
Ele não olhava para ninguém.
Não reagia ao som.
Não piscava.
Seus olhos estavam fixos no mar.
Como se estivessem… sendo puxados.
— Isamu…?
Selka chamou.
Sem resposta.
Ravik ergueu levemente o olhar.
Franziu o cenho.
— Isso não é só cansaço…
Isamu se moveu.
Devagar.
Sem pressa.
Sem consciência.
A katana caiu de sua mão.
O som seco ecoou no convés.
Nítido.
Mas ele não reagiu.
Ele se levantou.
O corpo parecia mais pesado do que antes.
Mas ainda assim… caminhou.
Passo por passo.
Direto até a borda do navio.
— Ei!
Nyra deu um passo à frente.
— Para aí!
Mas Veyrion levantou a mão.
— Ninguém se mexe.
Selka virou para ele, incredulidade evidente no olhar.
— Ele vai cair!
— Eu sei.
A resposta foi imediata.
Calma.
Absoluta.
Isamu não olhou para trás.
Não hesitou.
Não disse nada.
E então deu mais um passo.
Seu corpo caiu no mar.
O som foi pequeno.
Quase insignificante.
Mas o impacto…
ecoou em todos.
— ISAMU!
Nyra avançou.
Mas Drogan segurou seu braço.
Selka já estava pronta para pular.
— Capitão, eu vou—
— Não.
A voz de Veyrion cortou tudo.
— Isso não é afogamento.
O mar fechou.
E ficou imóvel.
O FUNDO
Isamu não sentia frio.
Não sentia pressão.
Não sentia falta de ar.
Ele apenas… descia.
A água ao redor era densa, escura… mas não o tocava como deveria. Não o esmagava. Não o rejeitava.
Era como se o aceitasse.
Ele não nadava.
Não se movia.
Algo o puxava.
O silêncio era absoluto.
Nenhum som.
Nenhuma corrente.
Apenas…
presença.
Sombras começaram a surgir.
Enormes.
Indefinidas.
Movendo-se lentamente na escuridão.
Olhos.
Abrindo.
Fechando.
Observando.
Mas ele não parou.
Não tentou fugir.
E então…
ele chegou.
ABYSSARION
O corpo estava lá.
Imenso.
Muito maior do que parecia na superfície.
Uma massa colossal que ocupava o fundo como se fosse parte do próprio oceano.
Ferido.
Cortado.
Mas intacto o suficiente para ainda existir.
Não estava morto.
Um dos olhos se abriu.
Lentamente.
Pesado.
Antigo.
E olhou diretamente para Isamu.
Não havia ódio.
Não havia fúria.
Havia consciência.
A água ao redor começou a vibrar.
Como se estivesse viva.
E então…
as imagens vieram.
O ABISMO FALA
Não com palavras.
Mas com memórias.
O mar em fúria.
Navios sendo destruídos como brinquedos.
Homens sendo engolidos.
Cidades desaparecendo sob ondas gigantescas.
E depois…
silêncio.
Sempre o silêncio.
E então—
Isamu.
Sua vila.
O som do vento.
O cheiro da madeira.
Hikari.
Sorrindo.
Viva.
Próxima.
Real.
E então—
o chão manchado de sangue.
O corpo dela imóvel.
Os olhos sem vida.
A dor voltou.
Inteira.
Sem filtro.
Sem defesa.
Outra imagem.
Lysera.
Correndo.
Desaparecendo.
A pressão aumentou.
Como se o próprio oceano estivesse tentando esmagá-lo.
Uma presença.
Profunda.
Antiga.
Uma mensagem clara.
Tudo acaba.
Tudo afunda.
Tudo desaparece.
O corpo de Isamu tremia.
Mas seus olhos…
não se fecharam.
A ESCOLHA
Ele respirou.
Mesmo sem precisar.
— Eu sei…
A voz saiu baixa.
Mas firme.
— Eu sei que tudo acaba.
Hikari.
Lysera.
Tudo que ele perdeu.
— Eu vi isso.
O olhar dele não desviou.
Não recuou.
— Mas eu ainda estou aqui.
A pressão não diminuiu.
Mas algo mudou.
— E enquanto eu estiver…
As pétalas surgiram.
Mesmo ali.
Mesmo no fundo.
Girando lentamente.
Iluminadas por um brilho fraco.
— eu não vou parar.
Silêncio.
O olho de Abyssarion… se fechou.
E então…
o corpo começou a se desfazer.
O PODER
Não foi suave.
Não foi bonito.
A energia saiu do corpo do ancestral.
Escura.
Pesada.
Densa como o próprio fundo do oceano.
E entrou em Isamu.
A dor veio imediatamente.
Violenta.
Abrupta.
Total.
Seu corpo se arqueou.
Mesmo sem chão.
Mesmo sem ar.
Veias escureceram.
Como se algo estivesse se espalhando dentro dele.
Seus olhos mudaram.
Por um instante.
Algo antigo… olhou através deles.
Uma silhueta surgiu atrás dele.
Um dragão.
Longo.
Serpentino.
Feito de água e escuridão.
Um rugido ecoou.
Não no ouvido.
Mas dentro dele.
E então—
tudo desapareceu.
A SUPERFÍCIE
A água explodiu.
Isamu emergiu.
Inconsciente.
— AGORA!
Veyrion foi o primeiro a se mover.
Drogan se lançou para frente e o puxou com força.
Ravik ajudou a erguer o corpo.
Selka já estava ajoelhada antes mesmo dele tocar o convés.
O corpo de Isamu caiu pesado na madeira.
Molhado.
Frio.
Quase sem vida.
— Respiração irregular…
Selka pressionou o peito dele levemente.
— Mas está vivo.
Ninguém falou por alguns segundos.
Porque todos sentiram.
Algo havia mudado.
Não era só cansaço.
Não era só batalha.
Era presença.
O CASACO
Veyrion caminhou até ele.
Sem pressa.
Sem tensão.
Parou ao lado de seu corpo.
Olhou.
Em silêncio.
Ele não perguntou.
Não precisava.
Com um movimento simples…
retirou o próprio casaco.
O símbolo dos Kurotsume.
O peso do bando.
E colocou sobre Isamu.
— Você não pediu ajuda.
A voz saiu calma.
Firme.
— Mas escolheu lutar.
O vento passou pelo convés.
Leve.
— Isso é o suficiente.
Ele se virou.
Mas antes de sair—
— Use isso com orgulho.
Uma pequena pausa.
— Kurotsume.
O MAR
O navio balançou suavemente.
O céu estava claro.
O sol finalmente dominava o horizonte.
E o mar…
se moveu.
Sem vento.
Sem onda.
Apenas um leve deslocamento.
Quase imperceptível.
Como se estivesse…
respondendo.
Isamu permaneceu inconsciente.
Mas algo dentro dele…
já havia acordado.