CAPÍTULO 73 — AQUILO QUE OBSERVA NO ESCURO
A madrugada havia tomado o mar.
O navio dos Kurotsume cortava a água em silêncio, guiado apenas pelo vento constante e pelo som ritmado das ondas batendo contra o casco. O céu estava limpo, pontilhado por estrelas que pareciam imóveis demais… como se até o firmamento estivesse atento.
No convés, quase ninguém estava acordado.
Exceto ele.
Veyrion estava sozinho na proa.
De pé.
Imóvel.
Os olhos voltados para o horizonte escuro.
Não havia tensão em seu corpo.
Nem preocupação.
Mas também não havia relaxamento.
Era o tipo de postura de alguém que… nunca deixa de estar pronto.
O vento movia levemente seu cabelo.
O tecido de suas roupas balançava com suavidade.
Mas seu olhar permanecia fixo.
E então…
algo mudou.
Não foi o som.
Não foi o vento.
Foi a presença.
Um peso sutil no ar.
Uma mudança quase imperceptível… mas suficiente.
Alguém estava ali.
Atrás dele.
O pouso foi silencioso.
Nenhum impacto.
Nenhum ruído de madeira cedendo.
Mas ainda assim…
inquestionável.
Veyrion não se virou.
Nem por um segundo.
Apenas falou.
— …o que quer?
A voz saiu baixa.
Sem pressa.
Sem ameaça.
Mas carregada de algo claro:
consciência.
Atrás dele…
uma figura.
Alta.
Coberta por um manto escuro.
O capuz escondia completamente o rosto, mergulhando-o em sombra. Apenas o contorno do corpo era visível — firme, ereto… e absolutamente parado.
Por alguns segundos…
ninguém se moveu.
O mar continuou.
O vento passou.
E então…
um riso baixo.
Seco.
Leve.
Desprezível.
— Piratas imundos…
A voz saiu calma.
Mas carregada de um desprezo quase palpável.
A figura levantou lentamente a mão direita.
O ar ao redor dela… começou a distorcer.
Algo se formava.
Não surgiu de uma vez.
Não foi criado de forma simples.
Foi… moldado.
Como se o próprio espaço estivesse sendo puxado, comprimido e forçado a assumir forma.
Primeiro, o cabo.
Escuro.
Alongado.
Depois… a lâmina.
Curva.
Afiada.
Fria.
Uma foice.
— Estou atrás de alguém…
A voz continuou, tranquila.
— Um colega meu.
Uma leve pausa.
— De Aetheryon.
O vento soprou mais forte por um instante.
O capuz balançou levemente.
E então…
o rosto apareceu.
Ren.
Seus olhos estavam calmos.
Mas havia algo neles…
que não pertencia àquele momento.
Algo mais profundo.
Mais distante.
Veyrion finalmente virou o rosto.
Apenas o suficiente para enxergá-lo.
E então…
sorriu.
— Está no lugar errado, garoto.
Simples.
Direto.
— Aqui não tem ninguém de Aetheryon.
Uma pausa.
O sorriso não desapareceu.
— E eu recomendo que escolha melhor suas palavras.
O olhar de Ren não mudou.
— Prefere me entregar o traidor por bem…
Ele desapareceu.
Sem som.
Sem aviso.
E reapareceu.
Na frente de Veyrion.
A foice já estava lá.
A lâmina… a centímetros do pescoço do capitão.
O vento parou por um instante.
— …ou por mal?
Silêncio.
Veyrion não recuou.
Não se moveu.
Seu sorriso… permaneceu.
— Não vai levar ele.
A voz saiu mais baixa.
Mais firme.
— Não enquanto eu estiver aqui.
Seus olhos encontraram os de Ren.
Sem desvio.
Sem hesitação.
— Acha que aguenta?
O ar entre eles ficou pesado.
Ren apertou o cabo da foice.
Um instante.
Apenas um.
E então—
clique.
Um som seco.
Pequeno.
Mas definitivo.
Atrás dele.
Ren não se virou.
Mas sabia.
Ravik “Deadshot” Kross.
De pé.
Silencioso.
A arma apontada diretamente para a parte de trás da cabeça de Ren.
Sem tremor.
Sem dúvida.
— Quem você pensa que é?
A voz de Ravik foi baixa.
Fria.
— Invade nosso navio…
Uma pausa.
— E ameaça meu capitão?
O dedo já estava no gatilho.
O olhar de Ravik não era de raiva.
Nem de ódio.
Era cálculo.
— Quer levar seu amigo?
Uma respiração curta.
— Vai ter que passar por mim primeiro.
Silêncio.
O mar voltou a se mover.
Lentamente.
Ren não reagiu imediatamente.
Então…
ele riu.
Baixo.
Contido.
A lâmina da foice desceu.
Devagar.
Ele deu um passo para trás.
E então…
desapareceu.
Reapareceu alguns metros afastado.
Sobre o próprio ar.
O manto balançava ao vento.
Seus olhos passaram por Veyrion.
Depois por Ravik.
E então ele falou.
— Ele tem sorte.
Uma pausa.
— Nos veremos de novo.
O olhar escureceu levemente.
— Piratas miseráveis.
E então…
sumiu.
Sem rastro.
Sem som.
Apenas o vento voltou.
O mar seguiu.
Silêncio.
Ravik não abaixou a arma de imediato.
Seus olhos ainda estavam fixos no ponto onde Ren havia desaparecido.
Alguns segundos se passaram.
Então ele abaixou lentamente.
— Quem era aquele moleque?
A pergunta saiu direta.
Sem rodeios.
Veyrion não respondeu de imediato.
Ele olhava para o horizonte.
E então…
riu.
Não alto.
Não exagerado.
Mas genuíno.
— Problema.
Ravik estreitou levemente os olhos.
— Isso eu já percebi.
Uma pausa.
— Ele volta?
Veyrion virou o rosto.
Um leve sorriso ainda presente.
— Com certeza.
Silêncio.
O vento passou novamente.
Veyrion então fez um gesto com a mão.
— Volta pro convés.
Ravik hesitou por um segundo.
Mas assentiu.
Guardou a arma.
E saiu.
Os passos dele desapareceram aos poucos.
E então…
Veyrion ficou sozinho novamente.
O mar à frente.
O céu acima.
E um leve brilho em seus olhos.
— Interessante…
O navio continuou avançando.
E dentro dele…
Isamu ainda não fazia ideia.
De que o passado…
já havia o encontrado.