Capítulo 74 — Terra à Vista
O impacto veio suave.
Um leve tremor percorreu o casco do navio quando a madeira finalmente encontrou a terra firme. O som das cordas sendo tensionadas, o rangido da estrutura desacelerando… e então, silêncio.
Por um instante, ninguém disse nada.
Até que—
— TERRA À VISTA!
A voz de Drogan ecoou pelo convés, forte, vibrante.
E aquilo foi o suficiente.
A energia contida por dias explodiu de uma vez.
Brakk foi o primeiro a rir, girando o martelo sobre o ombro com um sorriso aberto.
— Finalmente…
Nyra esticou o corpo, soltando o ar devagar, como se estivesse se livrando de um peso invisível.
Selka levou a mão ao peito, observando à frente com um leve alívio nos olhos.
— Então… chegamos mesmo…
Isamu se aproximou da borda do navio.
Devagar.
Sem pressa.
E então olhou.
O continente.
Construções de pedra alinhadas em ruas estreitas, algumas torres mais altas ao fundo, carregadas de símbolos entalhados — marcas da Igreja. Pequenos sinos pendiam de portas e entradas, balançando com o vento do mar, emitindo um som constante… baixo… quase inquietante.
Não havia grandiosidade.
Mas havia… peso.
— Esse é o continente… — Isamu murmurou, mais para si do que para os outros.
— É aqui que as coisas mudam — respondeu Lorian atrás dele, com sua voz calma e precisa.
Passos firmes se aproximaram.
Veyrion.
Ele parou ao lado de Isamu, cruzando os braços, observando a cidade com um olhar tranquilo, quase satisfeito.
— Chegamos, Kurotsume.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
— Hora de trabalhar.
As cordas foram lançadas.
A madeira da ponte improvisada bateu contra o chão.
Um por um, eles desceram.
O som dos passos sobre a terra firme ecoava diferente.
Mais pesado.
Mais real.
E então…
foram vistos.
Uma mulher parada na porta de casa congelou ao encarar o grupo.
Um homem deixou uma caixa cair no chão.
Uma criança, no meio da rua, parou de correr.
O silêncio cresceu.
Lento.
Denso.
Os olhares percorriam cada rosto, cada arma, cada detalhe.
Reconhecimento.
Medo.
— Não…
A voz saiu baixa.
Tremida.
— Não pode ser…
Um homem mais velho deu um passo à frente, mesmo com o corpo tremendo.
Seus olhos estavam arregalados… mas fixos neles.
— Eles são… os Kurotsume…
O efeito foi imediato.
— Piratas…?
— Aqui…?
— Isso não pode estar acontecendo…
O homem ergueu o braço, apontando.
— Aquele ali… Veyrion D. Kael… recompensa de 480 milhões…
O murmúrio virou pânico.
— Ravik “Deadshot” Kross… 210 milhões…
— Nyra Vell… 160 milhões…
— Brakk… 190 milhões…
— Drogan… 170 milhões…
— Selka… a médica deles…
— Lorian… o estrategista…
Cada nome… cada valor…
aumentava o medo.
Os olhos do homem então pararam em Isamu.
Ele franziu o rosto.
Confuso.
— Esse… eu não conheço…
Isamu não reagiu.
Apenas observou.
Mas já era tarde.
— Fujam!
— Chamem a Igreja!
— Corram!
E então a cidade… desmoronou em caos.
Portas sendo fechadas com força.
Passos ecoando pelas ruas.
Gritos.
Choro.
Desespero.
Mas no meio de tudo isso…
os Kurotsume não recuaram.
Brakk ajustou o martelo.
Nyra girou a lâmina entre os dedos.
Ravik verificou sua arma, em silêncio.
Veyrion deu um passo à frente.
Calmo.
— Espalhem-se.
Sua voz não precisou ser alta.
Ainda assim… todos obedeceram.
— Peguem o que puderem.
Uma breve pausa.
— E não sejam descuidados.
Eles se moveram.
Portas foram arrombadas.
Vidros quebraram.
Caixas foram abertas.
Moedas caíram ao chão.
O som do saque tomou as ruas.
Enquanto isso…
um homem corria.
Respiração falhando.
Passos descompassados.
Sem olhar para trás.
Virou uma esquina.
Depois outra.
Quase caiu.
Mas continuou.
Até parar diante de um prédio diferente.
Mais alto.
Mais limpo.
Marcado com símbolos sagrados.
A Igreja.
Ele bateu na porta com força.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Por favor… abram…
A porta se abriu.
Lentamente.
Um homem vestido de branco apareceu.
Postura ereta.
Olhar frio.
— O que houve?
O morador caiu de joelhos, sem fôlego.
— Piratas…
Respiração pesada.
— Os Kurotsume… estão na cidade…
Silêncio.
O homem da Igreja não demonstrou surpresa.
Mas seus olhos… mudaram.
— Entendo.
Ele se virou.
Lá dentro…
alguém já estava se levantando.
O som de um tecido pesado sendo ajustado.
Um passo.
Depois outro.
O leve tilintar de metal ecoou pelo salão.
E então…
o fogo.
Uma chama branca surgiu por um instante.
Calma.
Controlada.
E desapareceu.