Capítulo 79 — Rumo ao Oeste
O papel ainda estava aberto nas mãos de Isamu.
Mas ele não lia mais.
Ele… estava preso.
Os olhos parados em um único ponto, como se as palavras tivessem atravessado ele e ficado presas em algum lugar mais fundo.
O vento passava pelo convés, mexendo levemente o papel, fazendo um som seco… repetitivo… quase irritante.
Mas ele não reagia.
Lysera.
“Se você estiver vivo…”
A mão dele apertou o pergaminho sem perceber.
“Eu consegui chegar ao continente.”
“Aqui existe um país enorme… cheio de gente, comércio, política… oportunidades…”
Uma pausa.
“…mas não existe segurança.”
O peito dele pesa.
“Aetheryon está aqui.”
“Eles estão se movendo. Eu não sei exatamente o quê… mas estão planejando algo.”
O ar parece desaparecer.
“Eu não sei quanto tempo tenho.”
Silêncio.
“Se você ainda estiver vivo… venha.”
“Rápido.”
O vento bate mais forte.
“Siga para o oeste.”
“Celestria.”
O mundo volta de uma vez.
— EI!
Nyra puxa o braço dele com força.
— Vai ficar travado aí até quando?
Brakk já está praticamente grudado.
— Fala logo!
Drogan cruza os braços.
— Isso não tá com cara de coisa boa.
Selka observa em silêncio, mas o olhar já diz tudo: responde.
Isamu demora alguns segundos.
Respira.
E então fala.
— Quando eu fugi de Aetheryon…
A voz sai baixa, mas firme o suficiente.
— …teve alguém que me ajudou.
Ele levanta o olhar.
— Uma amiga.
— Ela ficou pra trás.
Silêncio.
— Eu achei que ela tinha morrido.
Uma pausa curta.
— Mas… ela tá viva.
Agora todos prestam atenção de verdade.
— Ela chegou no continente.
— Está em um país chamado Celestria.
— E Aetheryon também está lá.
O clima muda completamente.
— Eles podem encontrar ela a qualquer momento.
Isamu para.
De novo.
E então—
Veyrion se aproxima.
Sem pressa.
— Essa garota…
Ele cruza os braços.
— Ela é importante pra você?
— É.
Sem hesitar.
— Importante de verdade?
— É.
Mais firme.
Silêncio.
Veyrion sorri.
— Então ela é importante pra gente também.
E tudo muda.
— Mudando rota!
Ele gira o corpo.
— Oeste!
— Vamos buscar ela!
Ele olha de volta.
— Nome?
— Lysera.
— Então pronto.
Ele aponta pro horizonte.
— Vamos buscar a Lysera.
O navio entra em movimento.
Cordas sendo puxadas com força.
Velas girando.
Passos apressados.
Nyra sobe nos mastros.
Drogan ajusta as cordas com precisão.
Brakk ajuda rindo alto.
Ravik se move sem dizer nada.
Selka organiza o que precisa.
O navio gira.
Agora… rumo ao oeste.
O sol começa a cair.
Lorian fala, pensativo.
— Já ouvi falar de Celestria.
— Centro do continente.
— Política, comércio, gente de todo tipo.
Uma pausa.
— Um lugar onde alguém pode recomeçar.
Ele olha pro mar.
— Longe disso tudo.
— Longe dessa vida.
O vento passa.
Veyrion para.
O sorriso some.
— Recomeçar…
Ele repete devagar.
Um riso curto.
Sem humor.
— Eu não fui feito pra isso.
Ele encara o horizonte.
— Viver como peça.
— Abaixo de alguém.
— Abaixo da Igreja.
Silêncio.
O sol desaparece.
A noite chega.
O convés se acalma.
E lá na frente…
Veyrion.
Sozinho.
O mar escuro.
O céu cheio de estrelas.
Passos leves.
— Capitão.
— O que foi?
Sem se virar.
Isamu se aproxima.
Para ao lado.
— Você tá quieto.
Silêncio.
O vento passa entre os dois.
E então…
Veyrion fala.
— Lembra quando você perguntou sobre o meu passado?
— Lá naquele jantar.
— E eu não respondi.
Uma pausa.
— Hoje eu lembrei.
FLASHBACK
— Eu nasci dentro do território da Igreja.
A voz de Veyrion acompanha as cenas.
— E por muito tempo… eu achei que aquilo era o mundo inteiro.
Uma vila organizada.
Limpa.
Silenciosa demais.
— Minha mãe…
Uma pequena casa.
— Ela era uma curandeira.
— Não qualquer uma.
— Uma das melhores que eles tinham.
A cena mostra ela trabalhando.
Sem parar.
Mãos firmes.
Rápidas.
Precisas.
— Ela tratava soldados.
— Civis.
— Qualquer um que aparecesse.
Um homem ferido grita.
Ela limpa o sangue.
— Respira.
— Olha pra mim.
— Você vai ficar bem.
Uma criança chora.
Ela segura a mão.
— Eu estou aqui.
— Ela nunca parava.
O pequeno Veyrion observa da porta.
— E mesmo assim… ela sempre sorria pra mim.
Ela olha pra ele.
Cansada.
Mas sorri.
— Já comeu?
— Eu achava… que ela era invencível.
A cena muda.
— Mas um dia…
Ela tosse.
— Tudo começou a quebrar.
A tosse piora.
— No começo… ela escondia.
Ela continua trabalhando.
— Depois… ela já não conseguia mais.
As mãos tremem.
Ela derruba frascos.
— E eu comecei a perceber.
— Mãe…?
— Tá tudo bem.
— Ela sempre dizia isso.
Dias passam.
Ela deitada.
Respiração pesada.
— Vai melhorar… né?
Ela sorri.
— Vou.
— Ela mentia mal.
Silêncio.
— Eu vi ela morrer… aos poucos.
Dias.
Semanas.
Cada dia mais fraca.
Cada respiração mais difícil.
— Até que um dia…
O quarto.
Silêncio.
— Mãe…?
Nenhuma resposta.
— Eu toquei nela…
Frio.
— E ali… acabou.
O choro ecoa.
— Eu não consegui nem me despedir.
Soldados entram.
— Leva ele.
— NÃO!
— Eu gritei.
— Eu lutei.
— Eu implorei.
Mas foi arrastado.
MAR
— E então…
— eles me jogaram fora.
O pequeno corpo cai no mar.
— Como lixo.
Afunda.
— Eu achei que ia morrer.
Desespero.
— E talvez… eu até quisesse.
E então—
Uma mão.
— Mas naquele dia…
Um homem puxa ele.
Ar.
— alguém mudou tudo.
Um pirata.
Sorrindo.
— Oi, garoto.
— Ele riu.
— Como se nada daquilo fosse importante.
— Eu odiei ele.
— Devia ter me deixado morrer.
— E ele só… riu mais.
— Eu sou Kael Vorthan.
— Capitão dos Dread Maw.
Navio.
Tripulação.
Vida.
— Eu lutei contra.
— Gritei.
— Recusei.
Kael vira.
— Então vou te devolver.
A igreja aparece.
— E foi aí… que eu entendi.
Desespero.
— Eu não tinha mais lugar lá.
— ESPERA!
— EU VOU!
— E ele… já sabia.
ANOS DEPOIS
— Eles viraram minha família.
Treino.
Lutas.
Risos.
— Foi com eles que eu cresci.
— Que eu aprendi a lutar.
— Que eu despertei meu Kai.
— Eu finalmente… tinha um lugar.
Silêncio.
— Mas naquele dia…
A voz de Veyrion pesa.
Outro navio.
— tudo acabou.
Ataque.
Mais homens.
Mais armas.
— Eles eram mais fortes.
Gritos.
Sangue.
— E eu…
Veyrion escondido.
— eu tive medo.
Kael luta.
Sozinho.
— Ele não recuou.
Mesmo ferido.
— Ele lutou por todos.
Um golpe.
No estômago.
— E mesmo assim…
— ele continuou de pé.
Silêncio.
Inimigos vão embora.
— Quando tudo acabou…
Veyrion corre.
— CAPITÃO!
Kael ainda está de pé.
Sangue.
Sorriso.
— Garoto... Vire um grande pirata.
Tosse.
— Melhor que eu.
Respiração falha.
— E ache… sua família... cuide deles e os proteja nem que custe sua vida!
— E então…
Ele cai.
VOLTA
O mar.
A noite.
Veyrion em silêncio.
— Os Kurotsume…
Ele fala baixo.
— são essa família.
Ele olha pra Isamu.
— E quando eu te vi…
— eu vi a mim.
Uma pausa.
— Obrigado…
— por ficar.
O vento passa.
— A gente vai encontrar a Lysera.
— Não importa quem esteja lá.
Ele encara o horizonte.
— E não importa o que aconteça…
Ele olha pra Isamu.
— A gente nunca vai te deixar pra trás.
O navio segue.
Rumo ao oeste.
Rumo a Celestria.