Capítulo 85 — Peões e Reis
Salões amplos.
Altos.
Arquitetura imponente.
Pedras claras.
Colunas erguidas como pilares de autoridade.
A base principal da Igreja em Celestria não era apenas um quartel.
Era um símbolo.
E naquele símbolo…
Homens de poder se reuniam.
Vestes refinadas.
Capas com insígnias.
Olhares atentos.
Discussões baixas.
Estratégias.
Política.
Controle.
E entre eles…
Tan Yang.
De pé.
Postura firme.
Sem hesitação.
Como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.
— A movimentação recente dos piratas precisa ser contida com mais eficiência.
A voz de um dos oficiais ecoa pelo salão.
— A população já está em alerta.
Outro responde.
Yang observa.
Em silêncio.
— Precisamos de uma resposta firme.
— Uma demonstração de poder.
Yang dá um leve passo à frente.
Todos os olhares se voltam para ele.
— Eu concordo.
A voz sai limpa.
Controlada.
— O medo mantém a ordem.
Uma pausa.
— E nada gera mais medo do que um exemplo público.
Silêncio.
Os homens trocam olhares.
— Você se refere ao prisioneiro?
Um deles pergunta.
Yang inclina levemente a cabeça.
— Sim.
— Um pirata.
— Um desconhecido.
— Mas ligado a um bando perigoso.
Ele cruza os braços.
— Executá-lo diante de todos…
Uma pequena pausa.
— Vai mostrar que a Igreja não hesita.
Silêncio.
Um dos homens sorri.
— Você fala como alguém que entende bem o povo.
Yang apenas retorna o olhar.
— Eu entendo o que mantém o controle.
Outro homem concorda.
— A população já está do seu lado.
— Essa execução só vai fortalecer isso.
— Você tem futuro aqui.
Yang inclina levemente a cabeça.
— Eu pretendo.
Sem medo.
Sem dúvida.
Como se aquilo tudo fosse apenas… parte de algo maior.
A reunião continua.
Mas Yang já não precisa dizer mais nada.
Ele já ganhou o espaço.
Mais tarde…
Noite.
O mar reflete a lua.
Silencioso.
Distante do movimento da cidade.
Uma área afastada.
Pedras irregulares.
Vento frio.
Yang está parado.
Observando o horizonte.
Imóvel.
Como se esperasse.
E então—
Um som leve.
Algo pousa atrás dele.
Depois outro.
Duas presenças.
Ele não se vira.
— Demoraram.
Silêncio.
Eryndor sorri levemente.
— Tínhamos coisas a resolver.
Ren permanece em silêncio.
Capuz cobrindo o rosto.
Yang cruza os braços.
— Tenho notícias.
Uma pausa.
— Isamu foi capturado.
Silêncio.
E então—
Eryndor ri.
— Eu imaginei.
Yang continua.
— Ele será executado.
Mais silêncio.
— Em público.
Eryndor solta um pequeno riso.
— Que fim perfeito.
Yang sorri de leve.
— Melhor do que ele merece.
Ren permanece imóvel.
— Um traidor…
Yang continua.
— Um pirata…
— E agora…
Uma pausa.
— Um espetáculo.
Eryndor cruza os braços.
— Sempre soube que ele não iria longe.
Yang olha para Ren.
— Você também, não é?
Ren não responde.
O silêncio dele pesa.
Eryndor percebe.
Mas ignora.
Yang continua.
— Depois da execução…
Ele olha para o mar.
— A população vai estar completamente do meu lado.
Uma pausa.
— Eu vou subir rápido.
— Muito rápido.
Eryndor sorri.
— E então começamos de verdade.
Yang concorda com um leve movimento.
— Tudo está se encaixando.
Silêncio.
O vento sopra mais forte.
E então—
Eryndor quebra o clima.
— Yang.
Ele vira levemente o rosto.
— Kanzaki.
Uma pausa.
— Você tem alguma informação?
Yang pensa por um segundo.
— Nada concreto.
Ele dá de ombros.
— Mas se ele estiver no continente…
Uma pausa.
— Ele vai aparecer.
Eryndor desvia o olhar.
— E Seraphiel…
Silêncio.
Yang não responde.
Em vez disso—
Ele se vira.
Para Ren.
— Você.
Silêncio.
— Procure sinais.
Uma pausa.
— Kanzaki.
— E principalmente…
O olhar fica mais sério.
— Vorthal.
— Descubra se eles já chegaram.
Silêncio.
Ren não se move.
Não responde.
O vento passa.
Pesado.
Yang franze levemente o cenho.
Eryndor vira completamente.
— Você não ouviu?
Uma pausa.
— Anda logo, Ren.
Silêncio.
E então—
Ren fala.
Baixo.
— Eu não sou o cavalo de vocês.
O vento para por um segundo.
— Só me dão ordens…
Uma pausa.
— Sem me dar nada em troca.
A mão dele se fecha sob o manto.
— Eu não sou um peão.
Silêncio.
Eryndor…
Ri.
Baixo no começo.
— Engraçado.
Ele dá um passo à frente.
— Eu salvei sua vida.
Uma pausa.
— Você veio correndo pra mim…
O sorriso cresce.
— Depois que seu amigo morreu.
Silêncio.
— Isso não foi o suficiente?
Ren permanece imóvel.
Mas os dentes rangem.
Yang observa.
Sem interferir.
Eryndor continua.
— Anda.
O tom endurece.
— Faz o que o Yang mandou.
Uma pausa.
— E seja rápido.
Silêncio.
Ren levanta levemente o rosto.
Mas o capuz ainda esconde tudo.
E então—
Ele desaparece.
Um salto.
E some na escuridão.
Silêncio.
O vento volta.
Yang observa o ponto onde ele estava.
— …
Uma pausa.
— O que foi isso?
Ele pergunta.
Eryndor dá de ombros.
— Nada demais.
Yang estreita levemente os olhos.
— Você está cumprindo o acordo?
Silêncio.
— As recompensas.
— A parte dele.
Eryndor vira o rosto.
Sorri.
— Yang…
Uma pausa.
— Pensa.
Ele caminha lentamente.
— Se ficarmos dividindo tudo com ele…
— Vamos ficar sem recursos.
Uma pausa.
— Precisamos de soldados.
— Bases.
— Armas.
Ele abre levemente os braços.
— Isso não é egoísmo.
— Nem roubo.
Ele para.
— E nem estamos usando ele.
O sorriso volta.
— Estamos salvando o futuro dele.
Uma pausa.
— E o nosso.
Silêncio.
Yang observa por um momento.
E então—
Sorri também.
— Faz sentido.
Os dois ficam em silêncio.
O mar continua.
Como se nada estivesse acontecendo.
De volta à cela…
Escuridão.
Mais profunda agora.
Isamu está sentado.
Encostado na parede.
Os olhos abertos.
Mas distantes.
Os pensamentos…
Rápidos demais.
Kurotsume.
Veyrion.
Nyra.
Selka.
Ravik.
— Onde vocês estão…?
Silêncio.
Ele fecha os olhos.
Lysera.
O corpo.
O símbolo.
Eryndor.
Os punhos se fecham.
— Por que…?
A respiração pesa.
— Por que eu nunca consigo…?
Hikari.
Lysera.
O mesmo final.
Sempre.
— Eu não protegi ninguém…
Silêncio.
A mente tenta fugir.
Mas volta.
Execução.
Dez dias.
Público.
Fim.
Ele respira fundo.
Longo.
E então…
Para de resistir.
Os ombros relaxam.
O olhar cai.
— …
Talvez…
Seja isso.
Talvez…
Seja o fim mesmo.
Silêncio.
Passos.
Um soldado se aproxima.
Apaga a tocha do corredor.
A escuridão aumenta.
CLANG.
A lança bate nas grades.
— Dorme.
O tom é seco.
— Amanhã você ainda tá vivo.
Silêncio.
Os passos se afastam.
E tudo volta ao escuro.
Completo.
Isamu não se move.
Os olhos abertos.
Mas agora…
Sem luta.
Só esperando.