Capítulo 90 — Últimas palavras
O vento sopra.
Alto.
Pesado.
O topo da torre permanece em silêncio.
A multidão, inquieta.
A tensão… visível.
Kagetsu Arashi dá um passo à frente.
Sua presença domina o altar.
Sem pressa.
Sem hesitação.
Ele ergue sua arma.
A lâmina da alabarda brilha sob a luz do dia.
E então…
Ele encosta a ponta no pescoço de Isamu.
Frio.
Preciso.
Imóvel.
Isamu não recua.
Não há para onde.
Kagetsu levanta o olhar.
E então sua voz ecoa.
— População!
Silêncio absoluto.
— Kurotsume Isamu…
Uma pausa.
— Irá ser morto hoje.
O peso daquelas palavras se espalha.
— Agora!
A multidão reage.
Gritos.
Euforia.
Ódio.
Kagetsu continua.
— Damos a ele…
Uma pausa.
— O direito de suas palavras finais.
Ele abaixa levemente o olhar.
Encara Isamu.
— Kurotsume Isamu…
A voz fica mais baixa.
Mais direta.
— Abandonado pelo bando Kurotsume…
O silêncio cresce.
— Suas últimas palavras…
Uma pausa.
— Garoto?
Silêncio.
Total.
Todos olham.
Esperam.
Observam.
Isamu permanece imóvel.
Cabeça baixa.
Respiração irregular.
O mundo parece distante.
Mas então—
Ele fala.
Fraco.
Mas claro.
— Os Kurotsume…
Uma pausa.
— São minha verdadeira família…
O vento passa.
— Vocês estão enganados…
Ele levanta lentamente o olhar.
Os olhos ainda carregam dor.
Mas algo mudou.
— Eles nunca me abandonariam.
Silêncio.
E então—
Risos.
Altos.
Cruéis.
A multidão explode em desprezo.
— Família?!
— Piratas?!
— Ridículo!
Yang, ao fundo…
Sorri.
Confiante.
Satisfeito.
Kagetsu fecha levemente os olhos.
E então—
— Suas palavras finais acabaram.
Ele gira levemente a arma.
A lâmina pressiona mais o pescoço.
— Agora…
Ele ergue a voz.
— Mundo…
Uma pausa.
— Celestria…
O vento aumenta.
— Veja…
— A execução de um Kurotsume!
E então—
BOOOOOM.
Um som.
Surdo.
Distante.
Mas… errado.
A multidão para.
Os gritos cessam.
Isamu levanta o olhar.
Kagetsu também.
Yang franze o cenho.
Todos olham.
Para o mar.
Mas…
Nada.
Apenas o horizonte.
Vazio.
Silêncio.
Alguns murmúrios.
Confusão.
Mas então…
Nada acontece.
A tensão se dissolve.
A multidão começa a voltar ao normal.
Kagetsu gira novamente sua arma.
Retoma a posição.
— …
E então—
— Como eu dizia—
BOOOOOOOOOOOOOOM.
Dessa vez…
Não é um som.
É um impacto.
Um estrondo.
Gigantesco.
O chão treme.
O ar vibra.
A água se parte.
E então—
No horizonte.
Algo surge.
Uma sombra.
Enorme.
Crescendo.
Avançando.
E então…
Ele aparece.
O navio.
Gigante.
Negro.
Imponente.
Cortando o mar como um monstro vivo.
O navio dos Kurotsume.
A multidão congela.
Silêncio absoluto.
Medo.
Confusão.
Descrença.
E então—
Na proa.
De pé.
O bando.
Todos.
E à frente deles…
Veyrion.
Sorrindo.
Os olhos brilhando.
E então ele grita.
— IGREJA!
A voz ecoa como um trovão.
— VOCÊS ESTÃO COM UM DE NÓS!
O vento explode ao redor dele.
— ACHARAM MESMO…
Ele abre os braços.
Rindo.
— QUE IA SER FÁCIL ASSIM?!
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E então—
Caos.
A multidão entra em pânico.
Gritos.
Correria.
Desespero.
— PIRATAS!
— KUROTSUME!
No topo…
Kagetsu observa.
Sem se mover.
Mas os olhos…
Atentos.
Ele fala baixo.
Só para Isamu.
— Esses piratas…
Uma pausa.
— Parece que realmente gostam de você.
Isamu…
Congela.
Os olhos tremem.
O coração dispara.
— Eles…
Yang, ao fundo…
Fecha o sorriso.
O olhar endurece.
— Não é possível…
Os dentes rangem.
— Esses imundos…
— Vão atrapalhar meu plano?!
A cidade entra em alerta.
Sinos tocam.
Soldados aparecem.
Dezenas.
Centenas.
Se posicionando.
Preparando-se.
Mas o navio já está perto.
Muito perto.
E então—
Sem hesitação.
Os Kurotsume saltam.
Um por um.
Do navio…
Para a cidade.
Impactos.
Fortes.
Precisos.
Eles pousam.
Direto.
Diante da torre.
Diante da igreja.
Diante de tudo.
Veyrion à frente.
Atrás dele—
Ravik.
Nyra.
Selka.
Drogan.
Brakk.
Lorian.
Todos.
Inteiros.
Prontos.
A multidão começa a ser evacuada.
Guardas gritam ordens.
Mas ninguém tira os olhos daquilo.
O confronto.
O impossível.
No topo…
Yang.
Kagetsu.
E Isamu.
Ajoelhado.
Acorrentado.
Assistindo.
Sem acreditar.
Veyrion dá um passo à frente.
O sorriso firme.
— Isamu!
A voz sobe.
— Aguenta só mais um pouco!
Uma pausa.
— A gente resolve isso rápido!
O bando sorri.
Confiante.
Como sempre.
Kagetsu observa.
E então fala.
— Vocês realmente pretendem…
Uma pausa.
— Fazer isso?
O olhar dele pesa.
— Enfrentar a Igreja…
— Por um homem?
Silêncio.
Mas então—
Ravik dá um passo.
— Não é só um homem.
Nyra sorri.
— É um de nós.
Selka, ainda nervosa…
Mas firme.
— E a gente não abandona ninguém.
Drogan cruza os braços.
— Nunca.
Brakk bate o punho na palma.
— Família é família.
Lorian completa.
— Sempre foi.
Silêncio.
Pesado.
Veyrion então dá mais um passo.
O olhar sério agora.
— Nós não somos só um bando.
Uma pausa.
— Somos uma família.
Os olhos dele brilham.
— E uma família…
Ele aponta levemente para Isamu.
— Não abandona um membro.
Silêncio.
Yang…
Ri.
Baixo.
Mas crescente.
— Interessante…
Ele dá um passo à frente.
Fica ao lado de Kagetsu.
— Muito interessante.
O sorriso volta.
— Piratas imundos…
— Mas corajosos.
Uma pausa.
— Eu gosto disso.
Ele levanta a mão.
— Soldados.
Todos param.
— Fiquem fora.
O olhar dele endurece.
— Ou vão morrer.
Silêncio.
Os soldados hesitam.
Mas recuam.
Deixando espaço.
Para aquilo.
O inevitável.
No topo da torre…
Duas forças.
De um lado—
A Igreja.
Yang.
Kagetsu.
Do outro—
Os Kurotsume.
Todos alinhados.
Prontos.
E ao fundo…
Isamu.
Acorrentado.
Entre dois mundos.
Assistindo…
Sua família.
Vir por ele.
O vento sopra.
Mais forte.
Mais pesado.
E então—
Silêncio.
Antes da guerra.