Capítulo 100
O mundo ainda ecoava.
O som da explosão parecia preso no ar, como se o próprio céu tivesse sido rasgado… e ainda não tivesse se recuperado.
Fumaça.
Cinzas.
Pedras caindo.
E no meio daquilo tudo—
um corpo.
Parado.
Imóvel.
Veyrion D. Kael.
— VEYRIOOOOOON!!!
Isamu gritou.
E correu.
Não pensou.
Não hesitou.
Não sentiu dor.
Seu corpo estava destruído, seus músculos gritavam, seu peito ardia… mas nada disso importava.
Ele tropeça.
Cai.
Levanta.
Corre de novo.
— NÃO… NÃO… NÃO… NÃO…
A voz dele sai quebrada, desesperada, negando antes mesmo de chegar.
— SELKA!! — ele grita, olhando para trás enquanto corre — SELKA, VEM LOGO!! RÁPIDO!!
O bando tenta vir junto.
Nyra manca, quase caindo.
Ravik se arrasta com os dentes cerrados.
Selka corre, tremendo, com as mãos manchadas de sangue.
Mas Isamu chega primeiro.
Sempre ele.
Sempre tarde demais.
Ele cai de joelhos ao lado do corpo.
As mãos tremem.
Ele tenta tocar… mas para.
Como se tivesse medo de confirmar.
— Levanta…
A voz sai baixa.
Quebrada.
— Levanta, capitão…
Nada.
— Você não pode… você não pode…
Ele segura o manto rasgado de Veyrion.
Sacode levemente.
— VEYRION!!
Silêncio.
O mundo inteiro… em silêncio.
E então—
— …Isamu…
Fraco.
Quase inexistente.
Mas real.
Os olhos de Isamu se arregalam.
O ar volta com violência.
— EU TÔ AQUI!!
Ele se aproxima rápido.
Desesperado.
— Eu tô aqui, capitão, eu tô aqui!!
Veyrion respira com dificuldade.
O peito sobe… e desce… como se cada movimento fosse uma luta.
Mas ele abre os olhos.
E sorri.
Um sorriso pequeno.
Mas… verdadeiro.
E então…
sem interrupções.
Sem pressa.
Sem medo.
Ele fala.
— Isamu… escuta…
A voz sai baixa… mas firme o suficiente.
— Eu cumpri a minha promessa…
O olhar dele não se desvia.
— Eu disse… que ia proteger todos…
— E eu protegi…
Um pequeno silêncio.
— Mesmo que tenha custado tudo… eu protegi…
A respiração falha… mas ele continua.
— Eles estão vivos… e isso… é o que importa…
— Sempre foi…
Os olhos dele se movem levemente… como se enxergasse cada membro do bando, mesmo sem virar o rosto.
— Eu queria… ter feito mais…
— Queria ter impedido cada golpe… cada ferida… cada grito…
— Queria ter sido forte o bastante… pra ninguém precisar sofrer…
Um suspiro pesado escapa.
— Mas eu aprendi… que não é assim que funciona…
O sorriso dele cresce um pouco.
Fraco… mas carregado de verdade.
— Ser capitão… não é evitar dor…
— É carregar ela… por todos…
O vento passa, levantando poeira e cinzas ao redor.
— E eu carreguei… com orgulho…
A voz falha por um segundo… mas volta.
— Você… mudou tudo, Isamu…
— Naquele dia… no mar…
— Eu não salvei só você…
Ele respira fundo.
Com dificuldade.
— Você… me salvou também…
Os olhos dele brilham… mesmo fracos.
— Eu tava perdido…
— Sem direção… sem propósito…
— Só navegando… sem saber o porquê…
— Mas quando eu te vi…
Uma pequena pausa.
— Com medo… sozinho… lutando pra sobreviver…
— Eu lembrei…
O olhar dele se intensifica.
— Lembrei de quem eu era…
— Lembrei do garoto que eu fui…
— Lembrei do motivo de eu ter escolhido esse caminho…
Um sorriso sincero surge.
— E naquele momento… eu soube…
— Eu ainda podia ser alguém…
— Eu ainda podia ser… um capitão de verdade…
A respiração fica mais pesada.
Mais lenta.
Mas ele não para.
— Você me trouxe de volta… Isamu…
— Trouxe de volta minha vontade…
— Minha força…
— Minha razão…
A voz abaixa.
Mais íntima.
— E por isso… eu nunca vou me arrepender…
— Nem por um segundo…
— De ter te puxado daquele mar…
Um silêncio curto.
— Se eu tivesse outra chance…
— Eu faria tudo de novo…
— Cada escolha…
— Cada batalha…
— Cada erro…
— Cada momento com vocês…
Os olhos dele começam a perder o foco… mas ainda lutam.
— Eu salvaria você de novo…
— Eu escolheria vocês de novo…
— Eu viveria tudo de novo…
Um fio de sangue escorre.
Mas ele sorri.
— Porque essa… foi a melhor vida que eu poderia ter…
O vento sopra mais forte.
Como se o mundo estivesse ouvindo.
— Eu me tornei… um grande pirata…
— Melhor do que eu jamais imaginei…
— Melhor… do que aquele homem esperava…Kael...eu fiz o que ele me pediu.
Um suspiro.
Longo.
Pesado.
— E tudo isso… foi por causa de vocês…
A voz agora… quase um sussurro.
— Minha família…
Uma pausa.
Silêncio.
— Isamu…
Os olhos dele encontram os de Isamu pela última vez.
— Cuida deles…
— Não deixa ninguém ficar pra trás…
— Não importa o quanto doa…
— Não importa o quanto você tenha que lutar…
— Protege eles…
A respiração falha.
— Porque eles… são tudo…
Um último esforço.
Um último brilho nos olhos.
— E agora…
O sorriso final.
Calmo.
Em paz.
— Eles… são seus…
Silêncio.
Total.
A respiração…
para.
Os olhos…
perdem a luz.
O corpo…
fica imóvel.
E o mundo…
quebra.
— …não…
A voz de Isamu falha.
Baixa.
Quase inaudível.
— …não…
Ele segura o corpo.
Aperta.
Como se pudesse trazer de volta.
Como se pudesse impedir aquilo.
— NÃO!!
O grito explode.
Rasgando tudo.
Atrás…
o bando chega.
E quando veem…
eles entendem.
Selka leva a mão à boca.
Nyra cai de joelhos.
Ravik fecha os olhos com força… os dentes rangendo.
Drogan abaixa a cabeça.
Lorian… não consegue nem respirar direito.
E então…
todos desabam.
O choro ecoa.
A dor toma tudo.
Mas Isamu…
não larga.
Não solta.
Não aceita.
Ele segura o corpo do capitão…
como se ainda houvesse calor.
Como se ainda houvesse vida.
Mas não havia.
Hoje…
os céus recebiam a alma de um grande guerreiro.
De um homem que lutou até o fim.
De um capitão que nunca abandonou sua família.
Um pirata…
que carregou o impossível…
e ainda assim permaneceu de pé.
Esse homem…
Veyrion D. Kael.
Capitão dos Kurotsume.