Capítulo 101 — O eco após o capitão
O mar estava escuro naquela madrugada.
As velas do navio dos Kurotsume rasgavam o nevoeiro enquanto o barco se afastava de Celestria, deixando para trás o caos da praça destruída. Nenhum deles falava.
O convés estava coberto de sangue. Madeira quebrada. Marcas de Kai queimadas. E no centro… coberto por um pano escuro preso às pressas, o corpo de Veyrion D. Kael permanecia imóvel.
O som das ondas era o único ruído.
Ninguém tinha coragem de olhar para aquele pano por muito tempo.
Isamu estava sentado perto dele, mãos fechadas, cabeça baixa, os olhos secos… como se já tivesse chorado tudo.
Ao redor, o resto do bando permanecia ferido, alguns deitados, outros encostados, sem forças nem para falar.
O navio seguia. Sem capitão. Sem rumo.
Muito longe dali, no centro político de Celestria, o mundo já começava a esquecer.
No topo da fortaleza administrativa da Igreja, a noite era silenciosa. Uma sala enorme, cercada por janelas altas, iluminada por lustres dourados e paredes de mármore branco.
No centro, uma mesa longa.
Sentado de um lado, com o corpo ainda enfaixado por baixo do uniforme escuro, estava Yang.
À sua frente, duas figuras.
A mulher cruzava as pernas com elegância. Os cabelos negros longos caíam como seda sobre o manto escuro ornamentado com detalhes prateados. Seus olhos estreitos observavam tudo como se já soubessem o final de qualquer conversa.
Chinatsu Hoshikawa.
Ao lado, um homem jovem, postura impecável, terno negro alinhado e gravata prata. O rosto sereno, quase simpático demais, escondia um olhar impossível de ler.
Shinji Hoshikawa.
Shinji apoiou o cotovelo na mesa, sorrindo.
— Ficamos sabendo do ocorrido. O capitão dos Kurotsume caiu.
Chinatsu levou a xícara aos lábios.
— A população adorou. A execução se transformou em espetáculo. Você fez um ótimo trabalho.
Yang inclinou a cabeça.
— A situação saiu um pouco do controle.
Shinji observou os cortes em seu rosto.
— Difícil?
Yang sorriu de leve.
— Nada demais. Com dois Shinpan-kan presentes, não havia possibilidade de falha.
Ele fechou a expressão.
— Me desculpo por deixar os outros escaparem. Eliminar todos ali seria arriscado. A cidade já sofreu danos demais.
Chinatsu pousou a xícara.
— O suficiente já foi feito.
Ela sorriu.
— E o resultado superou expectativas.
Shinji se levantou devagar.
— Yang.
Ele caminhou até a janela e olhou a cidade.
— A diretoria aprovou sua ascensão.
Virando o rosto:
— Bem-vindo… ao cargo de vice-presidente da diretoria de Celestria.
Yang ergueu o olhar.
Pela primeira vez, algo em seus olhos brilhou de verdade.
Mas antes que falasse—
toc.
toc.
toc.
Batidas na porta.
Os irmãos Hoshikawa trocaram um olhar breve e sorriram.
Chinatsu:
— Ah… chegaram.
Shinji abriu um pouco os braços.
— Queremos que conheça algumas pessoas.
A porta se abriu.
E então os passos entraram.
Yang congelou.
Dois homens.
O primeiro, alto, cabelos claros e longos, vestes religiosas impecáveis, aura calma como uma tempestade escondida.
Seraphiel.
Ao lado, cabelos negros presos para trás, expressão firme e pesada, presença esmagadora.
Kanzaki.
Yang reconheceu na hora.
Mas seu rosto não mudou.
Shinji apresentou:
— Kanzaki. Um dos guerreiros mais leais da Igreja desde a antiga era.
Chinatsu continuou:
— Seraphiel. Líder religioso das regiões externas do continente.
Yang levantou-se.
— É uma honra conhecê-los. Meu nome é Yang.
Seraphiel sorriu cordialmente.
— O novo vice-presidente. Parabéns.
Kanzaki estendeu a mão.
— Bom trabalho em Celestria.
Yang apertou.
As mãos se tocaram.
E naquele instante, Yang sentiu algo estranho.
O peso daquele homem.
A mão de Kanzaki parecia uma muralha.
Mesmo sorrindo, Yang percebeu: aquele homem poderia esmagá-lo se quisesse.
Shinji bateu palmas levemente.
— Infelizmente temos outros assuntos.
Chinatsu:
— Continuaremos depois.
Os Hoshikawa saíram. Kanzaki e Seraphiel também.
Antes de cruzar a porta, Kanzaki virou o rosto.
Olhou Yang.
Por apenas um segundo.
— Foi bom conhecê-lo.
A porta fechou.
Silêncio.
Yang ficou imóvel.
Os punhos se fecharam lentamente.
Seu olhar fixou o vazio.
O peito subia devagar.
Pensando.
Por que eles estavam ali?
Naquela mesma noite, abaixo da cidade, nas ruínas ocultas onde Aetheryon se reunia, o ar era úmido.
Yang caminhava pelo salão de pedra.
À sua frente, duas figuras.
Ren, em silêncio.
E Eryndor, sorrindo como sempre.
Yang foi direto:
— Kanzaki e Seraphiel estão em Celestria.
Ren ergueu o olhar.
Eryndor estreitou os olhos.
— Isso é inesperado.
Yang respirou fundo.
— Demais.
Eryndor então abriu o manto.
Retirou um objeto pequeno.
Uma espécie de esfera metálica escura, coberta de símbolos antigos.
Ele a entregou.
Yang pegou com cuidado.
Eryndor sorriu.
— O artefato que pediu.
Yang apertou.
Sentindo o pulsar daquela coisa.
Eryndor:
— Pode roubar qualquer poder. Uma vez absorvido, o usuário herda o Kai ou essência.
Yang sorriu.
— Excelente.
Então virou o rosto para Ren.
Silêncio.
E então:
— Moleque.
Ren ergueu os olhos.
Yang:
— Registros antigos da Igreja falam de um demônio ancestral vivendo nas montanhas do norte. Fora do continente.
Ele ergueu a esfera.
— Mate-o. Traga o corpo. Vamos tomar o poder.
Ren ficou em silêncio.
Então respondeu:
— Só se me derem esse poder.
Eryndor olhou para Yang.
Trocaram um olhar breve.
Mentira silenciosa.
Yang assentiu.
— Se fizer tudo certo… podemos negociar.
Ren os observou.
Sabia que algo estava errado.
Mas precisava acreditar.
Sem dizer mais nada—
desapareceu nas sombras.
Muito distante.
Na costa escura do continente.
A noite caía sobre um pequeno posto avançado da Igreja.
Uma varanda silenciosa.
Kanzaki estava parado.
Os olhos sobre o mar.
Passos atrás dele.
Chinatsu surgiu.
Manto balançando ao vento.
Kanzaki falou sem virar:
— Preciso encontrar minha filha.
Chinatsu aproximou-se.
Silêncio.
Kanzaki:
— Ela está com Vorthal. Em algum lugar do continente.
Ele fechou os punhos.
— Procuramos no antigo reino. Nada.
Virou o rosto.
Pela primeira vez, havia cansaço em seus olhos.
— Descubra onde ela está.
Chinatsu sorriu discretamente.
— Vou tentar.
Fez uma pausa.
— Mas não prometo.
Atrás deles, Seraphiel apareceu.
As vestes brancas movidas pelo vento.
Olhou para Kanzaki.
E disse, com firmeza:
— Farei o que for preciso para trazer Aoi de volta.
O vento soprou mais forte.
E em algum lugar do continente, longe dali…
uma guerra começava a se mover.