Capítulo 102 — Ecos em movimento
No extremo leste do continente, onde as cidades deixavam de existir nos mapas e as montanhas escondiam reinos que o mundo jurava não existir, Vorthal permanecia como uma sombra viva.
As ruínas que antes pareciam apenas uma cidade morta agora respiravam. Não com povo — mas com soldados, vigias e monstros de guerra. Bandeiras negras tremulavam nas torres quebradas, tochas azuis queimavam ao redor das muralhas rachadas, e o silêncio daquele lugar tinha algo errado, como se até o vento evitasse tocar as pedras.
Num pátio interno, entre colunas antigas quebradas, três figuras conversavam.
Aoi estava diferente.
Muito diferente.
O cabelo havia crescido até abaixo dos ombros, preso parcialmente atrás, com fios soltos caindo pelo rosto. O kimono negro substituíra completamente suas roupas antigas — mais simples, mas muito mais imponente, marcado por linhas discretas que lembravam luas em fases diferentes. Sua espada repousava ao lado, a lâmina negra como noite sem estrelas, atravessada por pequenos entalhes em forma de luas crescentes. O cabo era estranho: pequenas luas esculpidas, cada uma com um sorriso discreto, quase perturbador.
Mas o que mais chamava atenção era seu rosto.
Seu olho direito permanecia fechado.
Uma cicatriz fina cortava acima da pálpebra até a lateral do rosto.
Marca de treino. Marca de sobrevivência.
À sua frente, encostado numa coluna, estava Kaien.
Ele também havia mudado.
Os cabelos, antes mais curtos, agora caíam sobre o pescoço. Seu uniforme de Vorthal havia sido trocado por uma armadura negra e vermelha, placas metálicas leves cobrindo parte do torso e braços. No peito, o número 6, gravado em aço escurecido. Em volta do número, um símbolo circular de fogo entalhado, como se o próprio metal tivesse queimado.
Nas costas, parte da tatuagem escapava pela gola: chamas desenhadas subindo pela nuca.
E ele sorria como sempre — mas agora havia peso naquele sorriso.
Sentada sobre os degraus quebrados, observando ambos, estava Shizuna.
Seu braço esquerdo não era mais carne.
Era gelo puro.
Um membro inteiro reconstruído por Kai — translúcido, azul pálido, com veios brilhando por dentro. A mão se movia normalmente, como se fosse viva.
Sua espada repousava em seu colo. Mais longa, mais fina. A lâmina azul-clara emitia vapor gelado mesmo parada.
Kaien cruzou os braços.
— Encontramos outro grupo de ancestrais na região norte.
Aoi ergueu o olhar.
— E?
Kaien sorriu.
— Morreram.
Shizuna fechou os olhos.
— Quase levou o braço dele.
Kaien riu.
— Quase.
Aoi observava os dois, mas sua mente estava longe.
Pensava no mar. Pensava em casa. Pensava em Kanzaki.
Quanto tempo mais?
Quanto mais teria que fingir? Treinar. Lutar. Se aproximar de monstros.
Shizuna abriu um dos olhos.
— Está distraída.
Aoi respondeu de imediato.
— Não.
Shizuna apenas sorriu de lado.
Sabia.
Naquela noite, sozinha em seu quarto de pedra, iluminado apenas por uma vela baixa, Aoi sentou diante da pequena mesa.
Pegou um pedaço fino de papel.
Respirou fundo.
As mãos tremiam.
Então canalizou Kai pela ponta dos dedos e começou a escrever.
As letras surgiam sozinhas, marcadas pela energia.
Pai.
Se essa carta chegar, por favor leia sozinho.
Estou viva. Estou no leste do continente, em uma cidade abandonada perto das falésias. Eles usam o lugar como base temporária.
O general disse que o Número Um vai mover todos em poucos dias.
Eu não tenho muito tempo.
Não consegui descobrir o suficiente.
Me desculpe.
Tenho medo dele.
Por favor, pai…
venha rápido.
Uma lágrima caiu no papel.
Aoi limpou imediatamente.
Dobrou a carta.
Ergueu a mão.
Kai negro e prateado girou ao redor dos dedos, formando um pequeno pássaro lunar. A carta foi absorvida dentro da criatura.
Ela abriu a janela.
O pássaro bateu as asas e voou para o céu.
Aoi ficou observando até desaparecer.
As mãos fechadas no parapeito.
Como se sua vida tivesse sido enviada junto.
Em Celestria, no alto da sede administrativa, a noite seguia.
A mesma sala luxuosa.
Sentados à mesa, Chinatsu Hoshikawa e Shinji Hoshikawa recebiam dois visitantes.
Kagetsu.
Seinaru Hitomi.
Seinaru tragava o charuto em silêncio. Kagetsu mantinha os braços cruzados.
Chinatsu sorriu.
— Fomos informados da morte de Veyrion D. Kael.
Shinji apoiou o queixo na mão.
— E agradecemos por resolver aquilo sem mobilizar os outros três.
Kagetsu respondeu apenas:
— Era necessário.
Seinaru soltou fumaça.
— O garoto era forte.
Shinji riu.
— Ainda assim caiu.
Chinatsu:
— Serão recompensados.
Levantou-se.
— Podem ir.
Os dois saíram sem responder.
A porta fechou.
Chinatsu virou o rosto.
— Chame Kanzaki.
Minutos depois, Kanzaki entrou.
Seu rosto parecia mais pesado.
Chinatsu juntou as mãos sobre a mesa.
— Desde ontem, enviei soldados para a extremidade do continente.
Ela continuou:
— Ainda não encontramos sua filha.
Kanzaki permaneceu imóvel.
Chinatsu prosseguiu:
— Mas estou tentando.
— Aguarde mais alguns dias.
O silêncio durou.
Kanzaki abaixou levemente a cabeça.
— Obrigado.
Virou-se e saiu.
Assim que a porta fechou, Shinji acendeu um cigarro.
A fumaça subiu lenta.
Ele olhou para a irmã.
— O que pretende fazer se acharem a filha dele?
Pausa.
— Você sabe quem lidera Vorthal.
Chinatsu fechou os olhos.
— Sei.
Shinji soltou fumaça.
— Ele nunca deixaria uma traidora sair viva.
Chinatsu olhou a cidade pela janela.
— Por isso vou avisar o resto da família.
Seu olhar endureceu.
— Estamos entrando numa área de risco.
Nas ruínas ocultas de Aetheryon, o salão subterrâneo vibrava com velas verdes.
Yang estava encostado numa parede.
À sua frente, Eryndor.
Yang perguntou:
— O garoto consegue?
Eryndor sorriu.
— Treinei ele exatamente para isso.
Yang cruzou os braços.
— Não tenho medo de ele morrer.
Ergueu os olhos.
— Tenho medo de traição.
Eryndor assentiu.
— Não acontecerá.
Mas havia algo estranho em seu tom.
Yang percebeu. Mas não comentou.
No extremo norte.
Montanhas cobertas de neve.
Silêncio absoluto.
Ren caminhava sozinho.
As botas afundavam na neve.
À sua frente, uma abertura enorme na montanha.
Escura.
Respirando frio.
Ele entrou.
Cada passo ecoava.
O chão mudava.
Neve. Pedra. Depois…
ossos.
Centenas.
Espalhados.
Caveiras. Costelas. Braços. Restos de algo devorado.
A caverna se abria num salão natural gigantesco.
Escuridão total.
Ren parou.
Lentamente levou a mão às costas.
Puxou a foice.
A lâmina riscou o chão ao ser erguida, soltando faíscas.
Seu rosto endureceu.
Os olhos se estreitaram.
E sem dizer uma palavra…
deu o primeiro passo rumo à escuridão.
Lá dentro…
algo respirava.