Capítulo 103 — Sombras em movimento
O topo da torre principal de Celestria estava silencioso naquela manhã.
O céu cinzento parecia parado acima da cidade, e o vento frio passava entre as colunas brancas da varanda, levantando a fumaça do cigarro entre os dedos de Shinji Hoshikawa.
Ele observava a cidade abaixo, calmo, enquanto tragava devagar.
Atrás dele, a porta se abriu.
Passos.
Yang surgiu e parou alguns metros distante.
— Senhor Shinji.
Shinji virou o rosto levemente, sem largar o cigarro.
— Yang. Algo importante?
Yang manteve a postura séria.
As mãos atrás do corpo.
— Ontem… ouvi parte da conversa entre Kanzaki e Lady Chinatsu. Sobre a filha dele. A garota em Vorthal.
Shinji tragou, sem mudar a expressão.
Yang continuou:
— Se encontrarem a localização… eu gostaria de acompanhar. Quero ajudar.
Shinji soltou a fumaça devagar.
Pensou por alguns segundos.
Então assentiu.
— Se descobrirmos algo, eu aviso.
Ele apagou o cigarro na pedra.
Passou ao lado de Yang.
As mãos nos bolsos do terno.
Sem mais palavras.
A porta se fechou.
Yang ficou sozinho.
Caminhou lentamente até o parapeito.
Olhou para o horizonte.
E então sorriu.
Um sorriso fino, quase imperceptível.
A mão apertou a pedra.
— Espere só mais um pouco…
O vento soprou mais forte.
— Eu ainda vou te dar a luta que quer.
Seus olhos se estreitaram.
— Velho amigo… Rei de Vorthal.
Nas ruínas do acampamento de Vorthal, o som de metal já ecoava desde cedo.
Aoi avançava contra Shizuna como sombra.
O kimono negro rasgava o vento.
Sua espada desenhava luas no ar, reflexos curvos e frios.
O cabelo maior balançava no rosto.
O olho direito fechado e marcado pela cicatriz deixava sua expressão ainda mais rígida.
Shizuna bloqueava.
O braço inteiro feito de gelo brilhava enquanto suportava os cortes.
Faíscas de gelo se espalhavam a cada choque.
Ao lado, Kaien observava apoiado numa pedra, girando sua katana com um sorriso. A armadura nova refletia a luz. O número 6 no peito era cercado por marcas de fogo.
Mas então—
cavalos.
Trombetas.
Gritos.
Todos pararam.
Da trilha acima das ruínas, dezenas de cavaleiros da Igreja surgiram, descendo em formação.
Kaien franziu o cenho.
— Como acharam…
Sem hesitar, correu junto com soldados de Vorthal.
O comandante inimigo parou à frente da tropa.
Ergueu a espada lentamente.
Observou o acampamento.
As bandeiras.
As ruínas.
Os soldados.
Seu rosto fechou.
— Então era verdade… Vorthal voltou a rastejar pelo continente.
Kaien puxou a katana.
Fogo começou a escorrer pela lâmina.
— Fala bonito. Vai morrer bonito também?
O homem apertou o cabo.
— Vocês estão em território da Igreja. Não possuem direito sobre essas terras.
Kaien deu um passo à frente.
O fogo subiu pelo braço.
— A terra não liga pra bandeira.
O comandante sorriu.
— Se afastem agora e pouparemos suas vidas.
Kaien inclinou o pescoço.
Sorrindo.
— Tenta.
O comandante ergueu a espada.
— ATAQUEM!
O céu escureceu.
Centenas de flechas.
Kaien fincou a katana no chão.
As chamas mergulharam na terra.
Por um segundo, tudo silenciou.
Então o solo explodiu.
Um rugido monstruoso.
Um dragão colossal de fogo rompeu a terra, subindo em espiral e abrindo as asas sobre o campo.
— Ryūen: Homura no Tenkū.
O dragão atravessou a chuva de flechas.
Queimou tudo.
As flechas viraram cinzas no ar.
Kaien já corria.
A katana incendiada cortou o primeiro cavaleiro ao meio.
Girou.
Atravessou outro.
Pulou sobre um cavalo tombando e caiu sobre um terceiro soldado, quebrando seu pescoço com a bainha.
O fogo explodia em volta dele.
Vorthal avançava.
Shizuna entrou logo atrás.
Seu braço de gelo perfurava armaduras.
Seu corte congelava carne antes do sangue cair.
A Igreja começou a perder terreno.
Ao fundo, Aoi segurava o cabo.
Seu peito subia rápido.
Olhava aqueles símbolos.
Sua própria origem.
Sua própria casa.
Mas então—
Kaien matou um soldado.
Virou.
E o comandante já estava atrás.
Rápido demais.
A espada veio reta.
No pescoço.
Um golpe sem chance.
Mas antes—
luas.
Aoi surgiu.
A lâmina brilhou.
Um corte.
Apenas um.
— Mangetsu: Shingetsu Zankai.
A cabeça do comandante caiu.
Rolando.
O corpo tombou depois.
Os soldados da Igreja recuaram em pânico e fugiram.
Kaien respirou fundo.
Sorriu.
— Salvou meu pescoço.
Shizuna observou Aoi.
Mas ela apenas guardou a espada e foi embora.
Sem olhar para ninguém.
No extremo norte.
A montanha era morta.
O vento uivava entre pedras cobertas de neve.
No meio delas, a abertura da caverna parecia a boca de um cadáver.
Ren entrou sem hesitar.
A foice apoiada nos ombros.
Os passos esmagavam ossos no chão.
Crânios.
Costelas.
Mandíbulas partidas.
O cheiro era podre. Úmido. Antigo.
A escuridão parecia viva.
Mas Ren não parava.
Cada passo fazia o eco voltar distorcido, como se dezenas de pessoas caminhassem junto.
Mais fundo.
Mais escuro.
As paredes começaram a mudar.
Cruzes.
Símbolos riscados.
Marcas de unhas.
Como se algo tivesse tentado sair dali.
Então a voz surgiu.
Doce.
Quase gentil.
Como uma mulher sussurrando ao ouvido.
— O que deseja… garoto?
Ren parou.
O silêncio da caverna ficou pesado.
Ele não virou.
Apenas respondeu:
— Pare de falar e apareça.
A risada ecoou.
Mas não vinha de um lugar só.
Da frente.
De trás.
Do teto.
Do próprio chão.
Então—
o ar apertou.
Algo agarrou seu pescoço.
Invisível.
Brutal.
Ren foi levantado do chão.
A foice caiu.
Seus pés chutaram o vazio.
As mãos apertavam o próprio pescoço tentando arrancar a força.
Mas não havia nada.
A voz se aproximava.
Passos.
Leves.
Lentos.
Ecoando.
— Ren.
Mais perto.
— Filho do medo.
Ren arregalou os olhos.
A voz continuava.
— A Igreja te criou como cão.
Passos.
Uma silhueta branca começou a surgir na escuridão.
— Depois te descartou.
Ren apertava o ar, tossindo.
Sangue escorreu da boca.
A voz continuava.
— Você odeia seu passado.
Mais perto.
— Odeia sua fraqueza.
Mais perto.
— E por isso… está aqui.
A figura finalmente saiu da sombra.
Lily.
Branca.
Pálida.
Cabelos longos como neve.
Vestes religiosas rasgadas.
Pés descalços.
Um colar de cruz pendendo do pescoço.
Mas seus olhos…
não tinham pupila.
Só branco.
Ela sorria.
Gentil.
Quase maternal.
Isso tornava tudo pior.
Ela ergueu a mão.
E Ren sentiu a pressão aumentar.
O pescoço estalou.
A visão escurecia.
Mas então—
uma gota de sangue caiu da boca.
E parou.
No ar.
Outra.
Outra.
Lily inclinou a cabeça.
Observando.
As gotas começaram a vibrar.
Subiram.
Giraram ao redor do corpo de Ren.
Se esticaram.
Viraram fios.
Lâminas.
Sangue vivo.
E cortaram a força invisível.
Ren despencou.
Caiu de joelhos.
Tossindo.
Respirando com dificuldade.
A mão tocou o chão.
Sangue escorreu dos dedos.
Mas se moveu.
Subiu.
Como serpentes.
Enrolou-se no cabo da foice caída.
A arma deslizou sozinha pelo chão até sua mão.
Ele a agarrou.
Levantou lentamente.
Respiração pesada.
Sangue escorrendo do queixo.
Mas então—
sorriu.
O sangue ao redor da foice começou a girar.
Mais.
Mais.
Até envolver a lâmina inteira, pulsando como um coração vivo.
Lily o observava.
Sem mover um músculo.
Então falou.
Ainda sorrindo.
— Você herdou o sangue daquele homem…
Ren ergueu a foice.
A ponta arrastou nos ossos.
Fazendo faíscas.
Seu sorriso aumentou.
Os olhos estavam vazios.
Famintos.
A voz saiu baixa.
Mas pesada.
— Eu vim buscar seu poder.
O sangue começou a escorrer pelo braço.
Subindo até o ombro.
Como se o próprio corpo respondesse.
Lily fechou o sorriso.
Pela primeira vez.
Ren deu um passo.
A caverna inteira pareceu tremer.
O sangue no chão subiu ao redor dele como dezenas de mãos.
A foice girou em seu braço.
E ele apontou a lâmina para ela.
Os olhos fixos.
Sem medo.
Sem hesitar.
— E só saio daqui com ele.