Capítulo 104 — A Ancestral das Ilusões
A caverna pulsava como um organismo vivo.
O chão era coberto por ossos antigos, alguns esmagados pelos passos de Ren, outros presos nas paredes negras como se tivessem sido engolidos pela própria montanha.
O sangue girava ao redor de sua foice.
Vivo.
Respirando junto dele.
À frente…
Lily sorria calmamente.
O vestido branco arrastava pelos ossos enquanto seus olhos completamente brancos encaravam Ren sem qualquer medo.
— Então esse é o herdeiro do sangue…
Ren apertou a foice.
— Cala a boca.
BOOM.
O chão explodiu.
Ren surgiu diante dela instantaneamente.
A foice rasgou o ar numa velocidade monstruosa.
— Ketsueki Kai: Chigiri Fang!!
O sangue ao redor da lâmina virou presas gigantescas.
O golpe atravessou Lily—
mas o corpo dela virou fumaça.
Ren já percebeu.
Girou imediatamente.
Mas tarde demais.
A mão dela tocou sua testa.
E o mundo mudou.
Silêncio.
Ren arregalou os olhos.
Uma praça.
Correntes.
Sangue.
Pessoas gritando.
E no centro…
Daichi.
Ajoelhado.
Ferido.
Coberto de sangue.
Atrás dele…
Aoi segurava a espada.
Ren congelou.
Seu peito travou.
Não.
Não aquilo.
A voz de Lily ecoava ao redor.
— Você lembra.
Daichi levantou lentamente o rosto.
Os olhos vazios encararam Ren.
Então—
Aoi moveu a espada.
O sangue explodiu.
A cabeça de Daichi caiu diante de Ren outra vez.
Exatamente como naquele dia.
Exatamente como ele lembrava.
O som da execução ecoou pela praça inteira.
Ren começou a respirar pesado.
As mãos tremendo.
Então a ilusão mudou novamente.
O céu ficou vermelho.
Fogo.
Explosões.
Destruição.
Aetheryon.
E no meio dos escombros…
Takemura.
Caído.
O corpo destruído.
A espada quebrada ao lado.
Sangue escorrendo pela boca.
Ren ficou imóvel.
Takemura tossiu.
Mesmo naquela memória… levantou lentamente o rosto.
E sorriu.
Um sorriso cansado.
— Você ainda é fraco demais, Ren.
A voz de Lily ecoava pela destruição.
— Todos ao seu redor caem.
— Todos que lutam por você morrem.
As sombras começaram a surgir entre as chamas.
Cadáveres.
Ruínas.
Sangue.
Então—
Aoi apareceu novamente.
Mas agora usando o uniforme negro de Vorthal.
O kimono escuro.
A espada lunar.
O olho marcado.
Ela caminhava lentamente entre cadáveres.
Mas não eram corpos desconhecidos.
Não.
Ren reconheceu todos.
Takemura.
Daichi.
E até Karthus, o general de Vorthal, caído entre sangue e ruínas.
Aoi passava pelos corpos sem emoção.
Pisando no sangue.
Sem sequer olhar para os mortos.
Quando chegou diante de Ren…
parou.
O olhar dela era frio.
Vazio.
Como se ele fosse nada.
— Você realmente acreditou em mim?
Ren arregalou os olhos.
Aoi continuou:
— Eu escolhi a Igreja.
A espada dela encostou lentamente no peito dele.
— Escolhi eles.
— Não você.
CRACK.
O sangue explodiu do braço de Ren.
As ilusões estremeceram.
Mas Lily apareceu atrás dele imediatamente.
A mão deslizou em seu ombro.
— Você sabe qual é o problema, Ren?
Ela sorriu perto de seu ouvido.
— Parte de você acredita nisso.
As ilusões começaram a cercá-lo.
Daichi sem cabeça.
Takemura morto.
Aoi olhando para ele como um estranho.
Todos observando.
Todos acusando.
Ren abaixou a cabeça.
Silêncio.
As mãos começaram a tremer.
O sangue escorria pelos dedos.
Pingando no chão da ilusão.
Lily abriu mais o sorriso.
— Isso.
— Esse vazio dentro de você.
— Esse medo ridículo de perder tudo.
As sombras começaram a agarrar o corpo dele.
Correntes negras surgiam do chão.
Prendendo seus braços.
Seu pescoço.
As pernas.
Lily caminhava lentamente ao redor dele.
— Você luta tentando parecer forte…
Ela tocou o rosto dele.
— Mas continua sendo aquele garoto perdido implorando por valor.
Silêncio.
Então—
uma gota de sangue subiu do chão.
Depois outra.
Outra.
Lily parou.
As gotas começaram a vibrar.
Subiram lentamente ao redor de Ren.
Girando.
Pulsando.
Até explodirem.
BOOOOOOM!!
O Kai de sangue saiu do corpo dele como uma fera.
As correntes foram destruídas.
As ilusões racharam.
A praça.
Aetheryon.
As sombras.
Tudo quebrando como vidro.
A caverna voltou.
Ren surgiu diante de Lily já atacando.
A velocidade dele era absurda.
Muito maior que antes.
O treinamento durante os últimos dias havia mudado completamente seu jeito de lutar.
Seus passos eram precisos.
Seu controle de Kai era brutal.
A foice girava como parte do próprio corpo.
— Ketsueki Kai: Guren Spiral!!
O sangue ao redor da arma virou uma espiral monstruosa.
Ren avançou girando o corpo.
A foice destruiu pilares de pedra enquanto rasgava a direção de Lily.
Mas dezenas de cópias dela surgiram ao redor.
Ren cortou uma.
Fumaça.
Outra.
Nada.
Outra.
Nada.
Então todas atacaram juntas.
Ilusões surgiram em cada canto da caverna.
Daichi morto.
Takemura sangrando.
Aoi apontando a espada para ele.
As imagens piscavam sem parar.
Tentando quebrar sua mente.
Mas Ren continuou avançando.
Mesmo respirando pesado.
Mesmo ouvindo as vozes.
A foice girava cada vez mais rápido.
O sangue começou a cobrir seu braço inteiro.
Subindo até o ombro.
Pulsando.
Vivo.
Lily apareceu no teto da caverna observando.
— Você está tentando fugir da dor.
Ren cuspiu sangue no chão.
E sorriu.
Um sorriso torto.
Cansado.
Insano.
— Não.
O sangue explodiu atrás dele formando asas monstruosas.
— Eu tô usando ela.
BOOOOOOM!!
Ren desapareceu.
O chão desmoronou.
Lily arregalou os olhos.
Ele surgiu diante dela instantaneamente.
Muito mais rápido.
Muito mais brutal.
A foice girou.
— Ketsueki Kai: Jigoku no Gekirin!!!
O sangue comprimido na lâmina explodiu.
O golpe atravessou TODAS as ilusões.
Todas.
A foice acertou Lily em cheio.
CRACK.
A cabeça dela voou.
Girando no ar.
O corpo caiu de joelhos.
Depois tombou entre os ossos.
Silêncio.
Apenas a respiração pesada de Ren.
Sangue escorrendo pelo rosto.
A foice tremendo em sua mão.
Então—
clinc.
Um som metálico.
Ren congelou.
Clinc.
Clinc.
Moeda girando.
Lentamente…
ele virou o rosto.
E então viu.
No fundo da caverna.
Sentada num trono feito de ossos humanos…
Lily.
Intacta.
Sorrindo.
Girando uma moeda antiga entre os dedos.
Os olhos brancos fixos nele.
Ela cruzou as pernas lentamente.
— Ren…
A moeda continuava girando.
— Você nunca vai me acertar.
O sorriso aumentou.
A escuridão atrás dela parecia respirar.
E então ela sussurrou:
— Afinal…
A moeda parou entre seus dedos.
— Tudo aqui…
Os olhos dela brilharam em branco.
— É só uma ilusão.