Capítulo 105 — Sangue Maldito
O som da moeda ainda ecoava pela caverna.
Clinc.
Clinc.
Clinc.
Ren permanecia parado, respirando pesado.
O sangue escorria por seus braços.
Pela ponta dos dedos.
Pingando lentamente nos ossos espalhados pelo chão.
À frente dele…
Lily continuava sentada naquele trono grotesco feito de esqueletos humanos.
Calma.
Sorrindo.
Como se nada naquela luta tivesse significado algo.
Como se Ren jamais pudesse tocá-la.
A moeda girava entre seus dedos.
— Não adianta, Ren.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Você ainda é fraco demais para me matar.
Silêncio.
O sangue ao redor da foice começou a vibrar.
Ren abaixou lentamente a cabeça.
Os cabelos cobrindo parcialmente os olhos.
O corpo tremendo.
Não de medo.
De raiva.
Então—
— Por quê…?
A voz saiu baixa.
Rouca.
Lily observou em silêncio.
Ren levantou lentamente o rosto.
Os olhos vermelhos.
Cheios de ódio.
— POR QUE VOCÊS EXISTEM?!
BOOOOM!!
O Kai de sangue explodiu ao redor dele.
A caverna inteira tremeu.
Os ossos começaram a deslizar pelo chão.
O sangue subia pelos braços dele como uma criatura viva.
— Por que os ancestrais continuam aparecendo?!
A voz dele ecoava pela montanha.
— Por que matam?!
— Por que destroem tudo?!
Ele apertou a foice com tanta força que sangue escorreu da própria mão.
— EU ESTOU CANSADO!!
A pressão do Kai começou a rachar as paredes da caverna.
— Cansado dessa agonia maldita!
— Dessas guerras!
— Dessas mentiras da Igreja!
— Desse governo podre usando todo mundo como peça!!
As memórias começaram a atravessar sua mente.
Daichi sendo executado.
Takemura morrendo em Aetheryon.
O olhar frio de Aoi.
Sangue.
Sempre sangue.
Ren avançou alguns passos.
A voz falhando de raiva.
— Vocês aparecem… e tudo vira inferno!
— Então me responde!
— QUAL O SENTIDO DE TUDO ISSO?!
Silêncio.
A moeda parou.
Pela primeira vez…
o sorriso de Lily desapareceu.
Ela fechou os olhos lentamente.
E então falou.
Baixo.
Calmo.
— Eu entendo sua dor, Ren.
A caverna ficou silenciosa.
— Mas você está odiando as pessoas erradas.
Ren travou o olhar nela.
Lily levantou devagar do trono de ossos.
O vestido branco deslizando pelo chão escuro.
— Nós não criamos esse mundo.
Ela caminhava lentamente.
Sem medo.
— Nós apenas sobrevivemos nele.
Ren apertou os dentes.
— Para de falar como se fossem inocentes.
— Inocentes…?
Lily deu uma pequena risada sem humor.
Então levantou o olhar.
Pela primeira vez… seus olhos pareciam tristeza pura.
— Você realmente acha que os ancestrais começaram essa guerra?
Silêncio.
O sangue ao redor de Ren diminuiu um pouco.
Lily continuou andando.
— Há centenas de anos…
— Antes da Igreja controlar o mundo…
— Antes dos grandes reinos caírem…
— Humanos e ancestrais coexistiam.
Ren estreitou o olhar.
Lily parou diante dele.
— Existia medo.
— Existiam conflitos.
— Mas existia equilíbrio.
A voz dela ficou fria.
— Até a Igreja nascer.
As sombras da caverna começaram a mudar.
Imagens surgiam nas paredes.
Como memórias vivas.
Ren observava.
Cidades queimando.
Ancestrais presos em correntes.
Experimentos.
Corpos mutilados.
Crianças chorando.
Lily continuava:
— Eles nos chamaram de monstros.
— Depois nos caçaram.
— Depois usaram nosso sangue.
Ren arregalou os olhos.
O sangue ao redor dele pulsou.
Lily apontou lentamente para ele.
— E ainda usam.
Silêncio.
— O que…?
Ela se aproximou mais.
Muito perto.
— Eu vejo seu sangue, Ren.
— Eu sinto ele.
— Você não percebeu ainda?
As memórias explodiram na mente dele.
A transformação em Aetheryon.
O sangue enlouquecendo.
A luta contra Karthus.
Aquela sensação monstruosa crescendo dentro dele.
A voz de Lily ecoou lentamente.
— Ren…
Ela tocou o próprio peito.
— Você é um ancestral.
Silêncio absoluto.
O mundo pareceu parar.
Ren deu um passo para trás.
— Cala… a boca…
Mas sua voz falhou.
As imagens continuavam vindo.
O sangue.
As transformações.
A força absurda.
Lily continuou:
— A Igreja fez pactos.
— Criaram armas usando nosso sangue.
— Misturaram humanos e ancestrais.
— Transformaram vidas em experimentos.
Ela olhou diretamente nos olhos dele.
— Você não nasceu normal, Ren.
O peito dele subia violentamente.
As mãos tremiam.
— Não…
— Não…
Lily fechou os olhos.
— Nunca foram os ancestrais os verdadeiros causadores do mal.
As paredes mostravam cidades destruídas pela própria Igreja.
Execuções.
Massacres.
Reinos apagados.
— Os humanos fizeram isso.
— A Igreja fez isso.
— E depois culparam monstros para manter o medo vivo.
Ren ficou imóvel.
Confuso.
Perdido.
A voz de Lily ficou mais suave.
Quase humana.
— Nós só queríamos sobreviver.
Ela estendeu lentamente a mão para ele.
— Então acredite em mim, Ren.
Silêncio.
O sangue ao redor dele tremia sem controle.
Sua mente parecia quebrando.
Tudo que acreditava…
Tudo que odiava…
Tudo parecia errado.
Então Lily voltou a falar.
— E tem mais uma coisa.
Ela olhou diretamente nos olhos dele.
— O artefato.
Ren travou.
Lily continuou:
— O objeto que Eryndor entregou para Yang.
Os olhos de Ren se estreitaram lentamente.
— Eu vi.
As ilusões ao redor começaram a mostrar flashes.
Eryndor entregando o artefato.
Yang observando.
A energia estranha daquele objeto.
Lily fechou lentamente a mão.
— Aquilo pertenceu à nossa raça muito antes da Igreja tocar nele.
— Eles roubaram.
— Como sempre fazem.
Ela se aproximou mais.
— Traga aquilo de volta para nós.
Silêncio.
Ren abaixou lentamente o olhar.
E então…
memórias começaram a surgir.
Eryndor acolhendo ele.
Treinando ele.
Dando abrigo quando não tinha nada.
Yang treinando ao lado dele.
Ensinando.
Observando suas evoluções.
Mas então…
as palavras deles voltaram.
"Se fizer tudo certo… podemos entrar em um acordo."
Mentira.
Ren percebeu.
Eles nunca pretendiam cumprir aquilo.
Nunca se importaram de verdade.
Yang queria o poder ancestral.
Eryndor queria uma arma.
O sangue ao redor de Ren começou a pulsar mais forte.
Lily observava em silêncio.
Esperando.
Então Ren ergueu lentamente o rosto.
Os olhos vazios.
Frio.
— Eu quero a cabeça de uma pessoa.
Lily permaneceu em silêncio.
Ren apertou a foice.
O sangue começou a subir por seu braço.
— Se vocês me derem a cabeça dela…
As memórias de Aoi surgiram.
O sorriso dela.
A espada atravessando Daichi.
Ela indo embora.
Escolhendo outro lado.
A voz dele saiu pesada.
Quase quebrada.
— Então eu faço o que for preciso…
O Kai explodiu ao redor dele.
— Pra expulsar a Igreja desse mundo.
Silêncio.
Então—
Lily sorriu.
Um sorriso verdadeiro dessa vez.
Ela começou a rir baixo.
Quase satisfeita.
— Ah…
— Então era isso.
Ela virou de costas lentamente.
— Quando voltar, Ren…
As sombras da caverna começaram a se mover.
Como criaturas despertando.
— Eu vou apresentar você aos outros.
Ela olhou por cima do ombro.
Os olhos brilhando em branco.
— Aos outros “de nós”.
Silêncio.
Ren permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então guardou lentamente a foice nas costas.
Virou de costas.
E começou a caminhar.
O sangue escorria de seu corpo pelos ossos da caverna.
Passo.
Após passo.
Até alcançar a saída.
A neve caía do lado de fora.
O vento soprava forte nas montanhas.
Então—
uma fumaça branca atravessou diante dele.
E quando ela passou…
Ren havia desaparecido.
Apenas o som do vento permaneceu.
Lá dentro da caverna…
Lily observava a saída.
Sorrindo.
Satisfeita.
Enquanto as sombras atrás dela começavam lentamente a despertar.