Capítulo 106 — O Caminho Para Vorthal
O céu de Celestria estava coberto por nuvens escuras.
A chuva fina escorria pelas enormes janelas da torre principal da Igreja enquanto uma reunião silenciosa acontecia em uma das salas superiores.
O ambiente era luxuoso.
Mesa longa de madeira negra.
Símbolos religiosos dourados nas paredes.
Velas acesas iluminando fracamente os rostos presentes.
Chinatsu Hoshikawa permanecia sentada calmamente na ponta da mesa, as mãos apoiadas uma sobre a outra.
Ao lado dela, Shinji Hoshikawa fumava lentamente um cigarro enquanto observava a chuva pela janela.
Na frente deles estavam:
Kanzaki.
Seraphiel.
E Yang.
O silêncio era pesado.
Até que Chinatsu finalmente falou.
— Encontramos pistas importantes sobre Vorthal.
Kanzaki imediatamente ergueu o olhar.
Chinatsu continuou:
— Nossos homens localizaram movimentações suspeitas numa região extremamente afastada do continente.
Ela abriu alguns documentos sobre a mesa.
Mapas.
Relatórios.
Marcas de batalha.
— Inicialmente acreditávamos ser apenas refugiados armados…
Shinji então soltou a fumaça do cigarro lentamente.
E tomou a palavra.
— Mas há poucos dias… guardas da Igreja encontraram Vorthal diretamente.
O clima da sala mudou.
Yang permaneceu quieto.
Mas seus olhos focaram imediatamente em Shinji.
— Houve confronto.
A voz de Shinji permanecia fria.
— E fomos obrigados a recuar.
Kanzaki fechou levemente o rosto.
— Perdemos um líder de esquadrão durante o ataque.
Seraphiel arregalou os olhos.
— Então realmente são eles…
Shinji assentiu.
— Agora sabemos a localização exata.
Chinatsu cruzou lentamente as pernas.
— Essa é provavelmente nossa melhor chance de resgatar Aoi antes que mudem novamente de esconderijo.
Kanzaki apertou os punhos.
A preocupação no rosto dele era impossível de esconder.
Yang apenas observava em silêncio.
Mas por dentro…
pensava.
"Então finalmente começou…"
Shinji voltou a falar:
— Por segurança…
Ele olhou para Yang.
— Senhor Yang permanecerá em Celestria conosco.
Yang manteve a expressão neutra.
— Entendo.
Por dentro, porém…
um pequeno incômodo surgiu.
"Então não vou encontrar você agora…"
"Velho amigo…"
"Rei de Vorthal."
Mas ele manteve a calma.
Mais tempo dentro da Igreja significava mais influência.
Mais documentos.
Mais acesso.
Mais poder.
Chinatsu então continuou:
— Já esperávamos que Kanzaki e Seraphiel fossem pessoalmente.
Ela fez um pequeno sinal com a mão.
— Então disponibilizamos um Shinpan-Kan para acompanhar a missão.
Kanzaki imediatamente abaixou levemente a cabeça.
— Muito obrigado.
A voz dele falhava minimamente.
— Eu realmente agradeço.
Chinatsu sorriu de maneira elegante.
— Também preparamos um navio de guerra e um esquadrão de patente alta.
Shinji completou:
— Não haverá riscos.
— A missão será concluída rapidamente.
Seraphiel fechou os olhos por alguns segundos.
— Graças aos céus…
Kanzaki respirou fundo.
— Onde está o Shinpan-Kan?
Chinatsu respondeu calmamente:
— Esperando no navio.
Silêncio.
Então Kanzaki se levantou rapidamente.
A determinação em seus olhos havia voltado.
— Então não temos tempo a perder.
Seraphiel também se levantou.
— Vamos trazer Aoi de volta.
Yang observava os dois em silêncio.
Enquanto Chinatsu dizia pela última vez:
— Kanzaki…
Ele olhou para ela.
— Obrigada pela paciência.
A voz dela ficou mais suave.
— Rezarei para que sua filha volte em segurança.
Kanzaki assentiu profundamente.
— Obrigado.
Então ele e Seraphiel deixaram rapidamente a sala.
A porta se fechou.
Yang permaneceu ali por alguns segundos antes de caminhar também.
Mas antes de sair…
ele lançou um último olhar para Shinji.
E para Chinatsu.
Depois desapareceu pelo corredor.
Silêncio.
A chuva continuava batendo contra as janelas.
Shinji tragou lentamente o cigarro.
— Você realmente acha que eles conseguem?
Chinatsu fechou os olhos calmamente.
— Claro.
Ela respondeu sem hesitar.
— Um Shinpan-Kan está junto.
— Não haverá mortes.
Shinji permaneceu quieto.
Mas por algum motivo…
o vento forte lá fora parecia estranho naquela noite.
O grande navio da Igreja balançava lentamente nas águas escuras do porto de Celestria.
Soldados caminhavam rapidamente pelo convés carregando armas, suprimentos e caixas.
O símbolo da Igreja tremulava nas bandeiras enormes.
Kanzaki e Seraphiel subiram a embarcação rapidamente.
Diversos soldados imediatamente abaixaram a cabeça em respeito.
— Senhor Kanzaki.
— Senhor Seraphiel.
Kanzaki apenas assentiu enquanto procurava alguém no convés.
Então—
Passos.
Lentos.
Calmos.
Uma figura surgiu da fumaça fria próxima aos canhões do navio.
Cabelos claros.
Óculos redondos.
Casaco branco elegante balançando ao vento.
Kagetsu.
Shinpan-Kan Número 5.
Seraphiel sorriu levemente.
— Então será você…
Kagetsu ajustou os óculos.
— Parece que sim.
Kanzaki o cumprimentou respeitosamente.
— Soube da batalha contra Veyrion D. Kael.
Kagetsu permaneceu em silêncio por alguns segundos.
O vento soprava os cabelos dele.
— Foi uma luta complicada.
A resposta saiu simples.
Mas pesada.
Seraphiel assentiu.
— Ainda assim… venceu.
Kagetsu desviou levemente o olhar para o mar.
— Não sozinho.
Silêncio.
Então ele voltou a olhar para os dois.
— Já podemos partir?
Kanzaki e Seraphiel trocaram olhares.
E assentiram.
Kagetsu então ergueu levemente a mão.
A voz calma ecoou pelo navio:
— Soltem as âncoras.
— Partida imediata.
BOOOOM…
As correntes começaram a subir.
O navio inteiro tremeu.
As velas se abriram violentamente.
E lentamente…
a enorme embarcação começou a avançar pelas águas escuras.
Em direção…
a Vorthal.
Em direção…
ao futuro.
Neve.
Somente neve.
O vento congelante atravessava a floresta branca enquanto Ren caminhava lentamente.
Sozinho.
A foice apoiada nos ombros.
Os passos afundavam na neve.
O rosto dele permanecia sério.
Mas sua mente…
estava destruída.
"Eu fiz certo?"
O vento soprou mais forte.
As palavras de Lily voltavam sem parar.
"Você é um ancestral."
"A Igreja roubou tudo de nós."
"Traga o artefato de volta."
Ren apertou os dentes.
— Não importa…
A voz saiu baixa.
Fria.
— Eu só preciso matar ela.
Os olhos dele escureceram.
Aoi.
A imagem dela apareceu imediatamente em sua mente.
Então outra memória veio logo atrás.
Daichi.
Sangue escorrendo.
A espada atravessando o corpo dele.
Depois…
Takemura.
Caído em Aetheryon.
O peito perfurado.
E então…
Kaien.
O homem que matou alguém que o tratava como filho.
Ren parou de andar.
O vento atravessava seus cabelos negros.
Uma lágrima escorreu lentamente pelo rosto dele.
Apenas uma.
Ele fechou os olhos.
Respirando pesado.
Então limpou rapidamente o rosto.
E voltou a caminhar.
Sem olhar para trás.
Celestria.
Noite.
As luzes da cidade brilhavam abaixo da torre principal enquanto Eryndor observava o mar pela varanda.
Passos ecoaram atrás dele.
Yang surgiu calmamente.
Nas mãos…
o artefato.
Aquele objeto estranho pulsava uma energia escura e viva.
Yang sorria observando aquilo.
Como uma criança olhando um brinquedo proibido.
Eryndor cruzou os braços.
— Ainda não entendo como isso será útil.
Yang continuava encarando o artefato.
— Com o ancestral que Ren vai trazer…
O sorriso dele aumentou lentamente.
— Conseguiremos um poder absurdo.
Ele apertou o objeto.
A energia pulsou.
— Mas isso não é o principal.
Eryndor estreitou o olhar.
Yang então virou lentamente o rosto.
Os olhos brilhando de ambição.
— O verdadeiro plano…
A voz dele ficou baixa.
Sombria.
— É criar o nosso próprio ancestral.
Silêncio.
O vento atravessou a varanda.
Yang começou a caminhar lentamente enquanto explicava.
— Existem documentos proibidos escondidos pela Igreja.
— Localizações.
— Relatórios.
— Registros de ancestrais extremamente poderosos.
Ele ergueu o artefato.
— Nós vamos atrás deles.
— Matamos.
— Roubamos seus poderes.
A energia negra começou a girar em volta da mão dele.
— E então colocamos tudo… em um único ser.
Eryndor arregalou minimamente os olhos.
Finalmente entendendo.
— Espera…
Ele encarou Yang.
— E quanto ao Ren?
Yang sorriu.
— O que tem ele?
— Você prometeu um acordo.
Eryndor continuou sério.
— Ele quer esse poder.
Yang ficou alguns segundos em silêncio.
Então começou a rir baixo.
Calmo.
Quase assustador.
— E ele vai receber.
Eryndor franziu o rosto.
Yang então virou completamente para ele.
O vento movimentava o casaco negro.
— Ren será o receptáculo.
Silêncio.
— O quê…?
Yang abriu ainda mais o sorriso.
— Ren será o ancestral de Aetheryon.
A energia do artefato pulsou violentamente.
— O demônio de Aetheryon.
O silêncio ficou pesado.
Até Eryndor parecer desconfortável.
— Isso é loucura…
Ele falou baixo.
— Usar o Ren como arma desse jeito…
— É arriscado.
A expressão dele endureceu.
— Se ele perder o controle…
— Pode matar todos nós.
Yang apenas observava o mar.
Completamente tranquilo.
— Não vai.
Eryndor ficou em silêncio.
Yang então respondeu calmamente:
— Eu sei controlar o que ele faz.
Ele olhou de lado para Eryndor.
— Só preciso que continue dando ordens a ele.
A cidade brilhava atrás deles.
O vento soprava forte.
— E como Ren vai receber exatamente o que deseja…
Yang sorriu.
— Ele nunca vai recusar.
Silêncio.
Os dois permaneceram olhando para o oceano escuro.
Enquanto atrás deles…
Celestria continuava viva.
Sem imaginar…
o monstro que estava sendo criado dentro dela.