Capítulo 107 — O Som do Desconhecido
A madrugada cobria Celestria.
As ondas batiam violentamente contra as estruturas de pedra da costa enquanto a neblina avançava lentamente pelo mar escuro.
O vento era frio.
Pesado.
E parado próximo ao limite do cais, duas figuras aguardavam em silêncio.
Yang.
E Eryndor.
Os mantos balançavam com a ventania enquanto os dois observavam o horizonte negro.
Nenhum dos dois falava.
Até que—
Eryndor estreitou o olhar.
Sentindo algo.
Yang sorriu levemente.
— Ele chegou.
BOOM.
Uma rajada de vento desceu do alto das estruturas do porto.
E então…
lá estava ele.
Ren.
Parado sobre uma estrutura elevada de madeira e ferro próxima ao mar.
O manto negro voava atrás de si.
A foice presa nas costas.
O rosto escondido pelo capuz.
Eryndor quebrou o silêncio:
— Conseguiu?
Ren não respondeu.
Apenas ergueu um saco enorme preso por cordas… e lançou na direção deles.
THUD.
O objeto caiu pesadamente no chão molhado da costa.
Yang abriu um sorriso satisfeito.
— Excelente trabalho, Ren.
Eryndor se aproximou lentamente.
A mão deslizou até o cabo da katana.
SHING.
A lâmina saiu parcialmente da bainha refletindo a luz da lua.
Então ele cortou o saco.
Rasgo.
O tecido caiu lentamente…
revelando um corpo grotesco.
Pele deformada.
Braços alongados.
Rosto distorcido.
Olhos completamente vazios.
Um ancestral.
Ou pelo menos…
o que parecia ser um.
Lily havia entregue aquele cadáver para Ren antes dele partir.
Um corpo antigo.
Mort o.
Sem identidade.
Perfeito para enganar Yang.
E funcionou.
Yang começou a rir baixo.
Satisfeito.
— Então esse é o resultado…
Eryndor observava o cadáver com atenção.
Claramente impressionado.
— Você realmente conseguiu…
Yang voltou o olhar para Ren.
— Foi difícil?
O silêncio permaneceu.
O manto de Ren apenas balançava ao vento.
Yang riu novamente.
Então lentamente retirou o artefato de dentro do próprio manto.
Aquele objeto pulsava uma energia negra e viva.
Agora…
mais intensa do que antes.
O brilho fazia até o ar ao redor distorcer levemente.
Yang ergueu o artefato.
Os olhos brilhando de obsessão.
— O mundo verá…
A energia começou a vibrar.
— O verdadeiro poder de Aetheryon.
FWOOM.
Uma energia escura disparou do artefato em direção ao cadáver.
O ancestral começou a ser absorvido.
A pele se desfazia.
Os ossos quebravam.
A energia era puxada violentamente para dentro do objeto.
Até…
não restar nada.
Somente o brilho.
Mais forte.
Mais vivo.
Yang respirou fundo olhando aquilo.
Fascinado.
Então virou lentamente o rosto para Ren.
— Você quer isso… não quer, Ren?
Silêncio.
— Eu aceito sua proposta.
Eryndor estreitou levemente o olhar.
Mas não interrompeu.
Yang então apontou o artefato diretamente para Ren.
Naquele instante…
o coração dele acelerou.
"Isso pode ser perigoso…"
"Lily não me disse o que tinha naquele corpo…"
"Que poder era aquele?"
Mas Ren não podia hesitar.
Não agora.
Não diante deles.
Então apenas permaneceu imóvel.
Aceitando.
FWOOSH.
A energia disparou violentamente.
Acertando diretamente o peito de Ren.
Os olhos dele arregalaram.
O chão abaixo de seus pés rachou.
— GHHH…!
Ren caiu de joelhos violentamente.
Veias vermelhas surgiram pelo pescoço.
O sangue dentro do corpo parecia ferver.
A energia atravessava cada parte dele.
Yang observava atentamente.
Eryndor também.
Esperando alguma transformação.
Alguma mutação.
Algum poder absurdo.
Mas…
segundos passaram.
E nada aconteceu.
O silêncio dominou o cais.
Então lentamente…
Ren se levantou.
Respiração pesada.
Mas intacto.
Yang franziu levemente o rosto.
Eryndor parecia genuinamente surpreso.
— Nada…?
Yang rapidamente voltou a sorrir.
— Talvez seja um poder ativado apenas em combate.
Ele guardou o artefato novamente.
— Se o Kai desse ancestral for realmente poderoso…
Os olhos dele focaram em Ren.
— Você ficará muito forte.
Yang começou a caminhar lentamente até ele.
— Então?
— Aceita mais trabalhos assim?
A manipulação na voz era quase invisível.
Mas Ren percebeu.
Ainda assim…
precisava continuar.
Precisava matar Aoi.
Precisava destruir a Igreja.
Precisava entender quem era.
Então respondeu friamente:
— Aceito.
O vento soprou forte.
— Mas antes preciso treinar.
— Preciso descobrir esse poder.
Yang abriu um sorriso satisfeito.
— Claro.
Ren apenas virou o corpo.
— Obrigado.
E então…
desapareceu na escuridão.
Silêncio.
Eryndor guardou lentamente a katana.
Yang começou a rir alto.
— Tudo está seguindo exatamente como planejei.
Eryndor imediatamente virou o rosto.
A expressão endureceu.
— Não esqueça uma coisa, Yang.
O vento atravessou o cais.
— O rei de Aetheryon sou eu.
Yang parou de rir.
Eryndor continuou:
— Se você matar Ren usando poderes desconhecidos e instáveis…
Relâmpagos começaram a surgir ao redor dele.
— Eu mesmo corto sua cabeça.
Yang ficou sério por alguns segundos.
Então respondeu friamente:
— Isso nunca vai acontecer.
Os olhos dos dois se encontraram.
Pesados.
Hostis.
Yang então deu um passo à frente.
— E mesmo que acontecesse…
A voz dele ficou mais fria.
— Você continuaria afundado junto de Aetheryon.
Silêncio.
— Então deixe seu ego de lado.
CRACK.
Os relâmpagos explodiram ao redor de Eryndor.
A cicatriz em seu olho pulsou.
A raiva era visível.
Mas…
ele apenas desapareceu como um trovão.
BOOOOM.
Yang permaneceu sozinho.
E então…
voltou a sorrir.
Calmamente.
Enquanto caminhava de volta para o centro iluminado de Celestria.
Regiões afastadas próximas ao continente.
Florestas enormes.
Vento forte.
Árvores gigantescas.
E no meio delas—
Ren treinava.
A foice cortava o ar violentamente enquanto sangue girava ao redor da lâmina como serpentes vivas.
SHHHHK.
Um golpe atravessou o ar.
— Kai de Sangue…
O sangue explodiu do chão.
— 「Ketsueki: Akai Kiba」
(Presa Vermelha)
Várias lâminas feitas de sangue dispararam contra uma árvore colossal.
BOOOOM.
Ela explodiu ao meio.
Ren respirava pesadamente.
Muito diferente de antes.
Mais rápido.
Mais técnico.
Mais perigoso.
Ele girou a foice novamente.
O sangue começou a subir pelos braços.
Veias vermelhas brilhavam na pele.
— 「Ketsueki: Jigoku no Rasen」
(Espiral do Inferno)
Ele avançou.
Girando a foice.
O sangue virou uma espiral gigantesca ao redor do corpo.
SHRAAAAK.
Três árvores enormes foram cortadas ao mesmo tempo.
Os troncos deslizaram lentamente…
antes de caírem violentamente.
BOOOOOOM.
Naquele instante—
CRACK.
Um relâmpago caiu atrás dele.
Ren imediatamente virou a foice.
Eryndor estava parado.
Os raios dançavam ao redor de seu corpo.
— Você evoluiu.
Ren respirava pesadamente.
Então…
pela primeira vez em muito tempo…
retirou lentamente o capuz.
O vento atravessou seus cabelos médios negros.
E agora…
no lado esquerdo do rosto…
uma marca vermelha.
Como sangue vivo correndo pela pele.
Eryndor observou em silêncio.
— Então até sua aparência mudou…
Ren apenas segurou a foice.
Eryndor então sorriu levemente.
— Vamos testar isso.
A mão dele tocou lentamente o cabo da katana.
Ren assumiu posição.
O vento parou.
Uma folha caiu entre os dois.
Silêncio absoluto.
Ela girou lentamente…
descendo…
descendo…
E no instante em que tocou o chão—
BOOOOOOOM.
Os dois desapareceram.
RAIO CONTRA SANGUE.
CLAAAAANG.
A katana de Eryndor chocou contra a foice de Ren.
A explosão partiu o chão abaixo deles.
Ren girou o corpo imediatamente.
— 「Ketsueki: Hebi no Mai」
(Dança da Serpente)
O sangue se moveu como chicotes vivos tentando perfurar Eryndor.
CRACK.
Eryndor desapareceu em eletricidade.
Surgindo atrás dele.
— 「Raijin: Kaminari Sen」
(Linha do Trovão)
Um corte elétrico atravessou o ar.
Ren bloqueou parcialmente.
Mas foi empurrado vários metros.
O chão explodia abaixo dos pés.
Ren sorriu.
O sangue começou a subir pela própria foice.
— Então vamos de verdade…
Ele avançou.
Mais rápido.
Muito mais rápido que antes.
SHRAAAK.
A foice passou raspando pelo rosto de Eryndor.
Cortando alguns fios de cabelo.
Eryndor arregalou minimamente os olhos.
"Ele melhorou tanto assim?"
Ren então chutou o chão.
— 「Ketsueki: Chishio no Ōkami」
(Lobo Carmesim)
O sangue explodiu atrás dele formando uma criatura gigantesca.
Um lobo feito de sangue.
Que avançou contra Eryndor rugindo.
BOOOOOOM.
Relâmpagos explodiram.
— 「Raijin: Ikazuchi Hakai」
(Destruição Trovejante)
Eryndor atravessou o lobo numa velocidade absurda.
Mas Ren já estava acima dele.
A foice descendo violentamente.
CLAAAAANG.
As armas colidiram novamente.
Ondas de choque destruíram árvores ao redor.
A luta continuava aumentando.
Velocidade.
Sangue.
Raios.
Explosões.
Até—
Ren errou um movimento.
Por um segundo.
Eryndor viu.
Os olhos brilharam.
— Acabou.
CRACK.
Ele apareceu atrás de Ren instantaneamente.
Katana elétrica preparada para cortar suas costas.
Mas então—
DON.
Um som.
Como uma batida profunda num tambor.
O ar tremeu.
Eryndor arregalou os olhos.
Uma força invisível explodiu do corpo de Ren.
BOOOOOOOOM.
Eryndor foi lançado violentamente dezenas de metros longe.
Destruindo árvores no caminho.
Silêncio.
Ren também ficou imóvel.
Sem entender.
Eryndor lentamente se levantou.
Confuso.
— O que… foi isso?
Nem Ren sabia.
Então Eryndor avançou novamente.
Numa velocidade absurda.
Mais rápida que antes.
Mas—
DON.
O som ecoou novamente.
A força invisível explodiu outra vez.
BOOOOOOOOM.
Eryndor foi arremessado ainda mais longe.
A cicatriz em seu olho esquerdo abriu.
Sangue escorreu.
Silêncio.
O vento soprava.
Eryndor respirou fundo.
Então…
começou a rir baixo.
Ele guardou lentamente a katana.
— Chega por hoje.
Ren continuava olhando as próprias mãos.
Sem entender.
Eryndor caminhou lentamente.
— Interessante…
A voz dele estava séria agora.
— Deve ser o poder daquele ancestral.
Ele olhou diretamente para Ren.
— E mesmo antes disso despertar…
Um pequeno sorriso surgiu.
— Você conseguiu me cansar.
Ren permaneceu em silêncio.
Eryndor então virou o corpo.
Relâmpagos começaram a surgir novamente.
— Parabéns.
CRACK.
E desapareceu.
Ren ficou sozinho na floresta destruída.
O vento atravessava as árvores quebradas.
Ele fechou lentamente a mão.
"Que poder foi aquele…?"
"E aquele som…?"
"Por que só acontece quando estou em perigo?"
Nenhuma resposta veio.
Então apenas guardou lentamente a foice nas costas.
E ficou olhando o vazio da floresta escura.
Enquanto ao longe…
um trovão ecoava no céu.