Capítulo 109 — Oração ao Mar
O pôr do sol cobria Vorthal em tons dourados e vermelhos.
O vento do oceano atravessava lentamente as ruínas da cidade abandonada enquanto as ondas batiam nas pedras abaixo dos penhascos.
Tudo parecia calmo.
Quieto.
Mas aquela calma carregava algo sufocante.
Como se a guerra estivesse apenas esperando o momento certo para cair sobre aquele lugar.
No alto de uma das pedras próximas à costa…
Aoi permanecia sentada.
Sozinha.
Os cabelos negros agora mais longos balançavam lentamente com o vento.
Seu kimono completamente negro contrastava com a luz dourada do entardecer.
O olho direito fechado pela cicatriz.
E em suas mãos…
o crucifixo.
Aquele pequeno crucifixo antigo dado por seu pai tantos anos atrás.
Os dedos dela apertavam o objeto com força.
Como se aquilo fosse a única coisa impedindo ela de quebrar completamente.
O mar refletia o céu vermelho diante dela.
Mas Aoi sequer conseguia enxergar beleza naquilo.
Seus olhos estavam perdidos.
Distantes.
Cansados.
"Quanto tempo mais…?"
O vento soprou mais forte.
"Quanto tempo mais eu vou precisar ver pessoas morrerem…?"
As memórias começaram a surgir lentamente.
Daichi.
A antiga igreja destruída.
Sangue.
Gritos.
E então…
Ren.
Os olhos dela tremeram levemente.
"Ren…"
"Por quê…?"
A imagem dele desaparecendo na guerra voltou claramente em sua mente.
O garoto que um dia treinava ao lado dela…
agora caminhava rumo ao ódio.
Rumo à escuridão.
A garganta dela apertou.
"Mais quantos amigos eu vou perder…?"
"Mais quantas pessoas vão virar monstros…?"
Uma lágrima escorreu lentamente pelo rosto dela.
Descendo exatamente pela cicatriz em seu olho.
O brilho do pôr do sol refletia naquela lágrima enquanto ela apertava ainda mais o crucifixo.
E então…
lentamente…
Aoi ergueu os olhos para o céu.
A voz saiu baixa.
Fraca.
Quebrada.
— Por favor…
O vento carregou aquelas palavras pelo oceano.
— Alguém…
Os dedos dela tremiam.
— Me tira dessa angústia…
Outra lágrima caiu.
— Desse mundo cruel…
Ela respirou fundo.
Tentando não desmoronar.
Mas a dor era grande demais.
— Eu só quero…
A voz falhou.
— Que tudo volte a ser como antes…
Silêncio.
Apenas o mar respondeu.
As ondas continuavam quebrando nas pedras.
Indiferentes ao sofrimento humano.
O céu lentamente escureceu.
E Aoi permaneceu ali.
Sozinha.
Pequena diante daquele oceano infinito.
Como uma garota cansada demais para continuar lutando.
Horas depois.
A noite já cobria completamente Vorthal.
As ruas abandonadas da cidade escondida eram iluminadas apenas por tochas espalhadas pelos corredores antigos.
Guardas caminhavam atentos.
Soldados conversavam baixo.
Alguns treinavam.
Outros descansavam.
Próximo aos dormitórios improvisados…
Kaien caminhava ao lado de Shizuna.
Os dois conversavam baixo enquanto o vento frio atravessava os corredores externos.
Kaien agora parecia muito mais imponente.
A armadura negra de Vorthal carregava o número 6 marcado no peito envolto pelo símbolo flamejante de seu Kai.
O cabelo maior caía parcialmente sobre os olhos.
A presença dele estava muito mais pesada do que antes.
Shizuna caminhava calmamente ao lado dele.
O braço feito completamente de gelo brilhava levemente na escuridão.
— Os soldados da Igreja estão chegando mais perto da gente.
Ela falou friamente.
Kaien desviou o olhar.
— Eu sei.
Eles continuaram andando até os corredores internos dos dormitórios.
Kaien então parou diante de uma porta de madeira velha.
E começou a retirar lentamente a armadura.
As peças metálicas caíam pesadas no chão.
Revelando suas costas completamente cobertas pela tatuagem de chamas negras.
As marcas subiam das costas até o pescoço como fogo vivo.
Ele então guardou lentamente sua katana.
Shizuna apenas observou por alguns segundos.
Depois virou o corpo.
Seguindo em direção ao grande salão principal da cidade.
Os passos dela ecoavam frios pelo corredor vazio.
Enquanto isso…
mais ao fundo…
dentro de um dos quartos antigos—
Aoi permanecia sentada numa cama velha.
Silenciosa.
A katana negra repousava próxima dela.
As marcas de luas na lâmina refletiam fracamente a luz da tocha.
Ela olhava apenas para o chão.
Pensando.
Esperando.
Tentando não enlouquecer naquela prisão silenciosa.
TOC TOC.
Uma batida ecoou na porta.
Aoi levantou lentamente o rosto.
— Entre.
A porta abriu parcialmente.
Um guarda de Vorthal apareceu.
— Prepare-se.
A voz dele era séria.
— Em dois dias partiremos para outro lugar.
O coração dela acelerou.
— Ordem do rei.
Silêncio.
Aoi apenas abaixou lentamente o olhar novamente.
— Entendido…
A porta se fechou.
E o quarto voltou ao silêncio.
Mas agora…
o nervosismo tomava conta dela.
"Dois dias…"
"Pai…"
Os dedos dela apertaram lentamente o lençol velho da cama.
"Por favor…"
"Venha logo…"
O oceano cortava a madrugada.
O navio da Igreja seguia avançando pela escuridão.
Alguns soldados dormiam próximos aos canhões.
Outros ainda remavam sem parar.
O som da madeira rangendo ecoava continuamente.
Na ponta do navio…
Kanzaki permanecia acordado.
Os olhos fixos no horizonte.
Sem conseguir descansar nem por um segundo.
O vento atravessava seu manto enquanto pensamentos destruíam sua mente.
"Aoi…"
"Aguente mais um pouco…"
Então—
um soldado estreitou os olhos.
— Terra…!
Imediatamente vários homens levantaram o rosto.
Sombras começaram a surgir no horizonte.
Pequenas casas.
Árvores.
Mato.
Uma costa escondida.
A cidade.
O coração de Kanzaki disparou.
Ele avançou rapidamente até a frente do navio.
— TODOS PREPARADOS!
A voz dele ecoou pelo oceano.
Os soldados imediatamente começaram a se mover.
Armas foram erguidas.
Cordas puxadas.
Tochas apagadas.
Kagetsu surgiu calmamente ajustando os óculos.
Seraphiel também caminhou até a frente do convés.
A tensão era absurda.
Cada segundo parecia mais pesado.
O navio começou a diminuir a velocidade.
Lentamente.
Silenciosamente.
Até parar atrás da cidade abandonada.
Escondido pelas formações rochosas.
De longe…
o lugar parecia vazio.
Somente algumas luzes acesas entre as construções antigas.
O vento frio atravessava a costa.
Kagetsu imediatamente se posicionou para saltar do navio.
Mas—
Kanzaki colocou o braço na frente dele.
Todos olharam confusos.
Kagetsu franziu levemente o rosto.
— O que está fazendo?
Kanzaki olhou para a cidade.
Os olhos completamente determinados.
— Vamos seguir seu plano, Shinpan-Kan.
Silêncio.
— Mas deixe comigo.
O vento movimentou o manto dele.
— Eu vou pegar minha filha.
— E voltar o mais rápido possível.
Seraphiel observava atentamente.
Kanzaki continuou:
— Se formos todos juntos…
— Vão nos encontrar mais fácil.
Kagetsu imediatamente respondeu:
— Isso é arriscado demais.
Mas Seraphiel ergueu a mão.
— Deixe ele ir.
Kagetsu olhou para ele.
Seraphiel então encarou Kanzaki.
— Mas se for visto…
Ele retirou lentamente um antigo sinalizador do manto.
Entregando para Kanzaki.
— Dispare isso.
A chama vermelha dentro do objeto brilhava fracamente.
— E atacaremos imediatamente.
Kanzaki pegou o sinalizador.
Assentindo lentamente.
Então virou o rosto novamente para a cidade escondida de Vorthal.
O lugar onde sua filha estava.
O lugar onde tudo podia acabar.
Ou começar.
Ele respirou fundo.
E então—
saltou do navio.
THUD.
Os pés tocaram silenciosamente a terra úmida da costa.
Sem hesitar…
Kanzaki avançou rapidamente em direção à cidade.
Desaparecendo na escuridão.