Capítulo 110 — O Rei de Vorthal
A madrugada cobria Vorthal em silêncio.
O vento frio atravessava as ruas abandonadas daquela cidade escondida enquanto tochas fracas iluminavam alguns corredores antigos.
Tudo parecia quieto.
Mas naquela noite…
o destino finalmente havia chegado.
Dentro de um dos quartos velhos da cidade—
Aoi abria lentamente os olhos.
O quarto escuro era iluminado apenas pela luz fraca da lua entrando pela janela quebrada.
Ela permaneceu sentada na cama por alguns segundos.
Pensando.
O coração acelerado.
"Dois dias…"
"Se eu não descobrir pra onde vamos…"
"Meu pai nunca vai me encontrar."
Ela respirou fundo.
E então lentamente pegou sua katana negra.
O som da lâmina encaixando no obi ecoou baixo no quarto silencioso.
As luas desenhadas na espada brilhavam fracamente.
Aoi então colocou o capuz negro.
E saiu silenciosamente do quarto.
Os corredores da cidade estavam vazios.
Guardas caminhavam em pontos mais afastados.
O vento fazia portas antigas rangerem.
Aoi andava rápido.
Silenciosa.
Tentando não chamar atenção.
Ela conhecia aquele caminho.
Escadas escondidas.
Corredores subterrâneos.
Salas usadas para guardar documentos e mapas das movimentações de Vorthal.
Se descobrisse o próximo destino…
poderia deixar alguma pista para Kanzaki.
Talvez ainda desse tempo.
Ela finalmente chegou até uma estrutura parcialmente destruída próxima ao centro da cidade.
Olhou para os lados.
Ninguém.
Então abriu lentamente uma porta velha de madeira.
CREAK.
Escuridão.
Escadas desciam para um subsolo frio e úmido.
Aoi começou a descer.
Passo por passo.
O som ecoava pelas paredes de pedra.
Quando chegou lá embaixo…
viu prateleiras antigas.
Mapas.
Papéis.
Documentos espalhados.
Ela começou a procurar rapidamente.
Virava folhas.
Mapas.
Registros.
Mas nada.
Nada dizia para onde Vorthal iria.
Nada útil.
O nervosismo começou a aumentar.
"Droga…"
"Nada…"
Ela apertou os dentes.
Então lentamente fechou os olhos.
E juntou as mãos próximas ao peito.
Segurando o pequeno crucifixo.
Rezando em silêncio.
"Pai…"
"Por favor…"
"Chegue logo…"
Silêncio.
Apenas o som distante da água pingando no subsolo.
Até que—
TOC.
Um passo ecoou na escada.
O corpo dela congelou imediatamente.
TOC.
Outro passo.
Os olhos de Aoi arregalaram.
"Não…"
"Um guarda?"
Ela rapidamente levou a mão até o cabo da katana.
O coração disparado.
TOC.
TOC.
A figura começou a descer lentamente.
A sombra crescendo pelas escadas.
Aoi tremia.
Preparada para lutar.
Mas então—
o homem finalmente apareceu.
E naquele instante…
os olhos dela arregalaram completamente.
— Pai…?
Kanzaki estava ali.
Respirando pesado.
O manto balançando levemente.
Aoi imediatamente levou a mão até a boca.
Os olhos enchendo de lágrimas.
E então correu.
Abraçando ele com força.
Kanzaki segurou ela imediatamente.
— Shhh…
A voz dele saiu baixa.
— Fica em silêncio.
Mas Aoi já chorava no ombro dele.
O corpo tremendo.
Depois de tanto tempo…
de tanta guerra…
de tanta dor…
ele finalmente estava ali.
Ela apertava o manto dele como uma criança perdida.
— Graças aos céus…
A voz dela falhava entre lágrimas.
— Graças aos céus…
Kanzaki fechou os olhos por um segundo.
E sorriu minimamente.
Um sorriso raro.
Real.
— Eu disse que viria buscar você.
Aoi tentava parar de chorar enquanto segurava ele.
Kanzaki então olhou ao redor.
A expressão voltou a ficar séria.
— Não temos muito tempo.
Ele segurou os ombros dela.
— Precisamos voltar para o navio agora.
Aoi assentiu rapidamente.
Kanzaki então continuou:
— Tem pessoas importantes da Igreja esperando por você.
— E sinceramente…
Um pequeno sorriso apareceu novamente.
— Estão ansiosos para conhecer a filha problemática que me fez atravessar metade do oceano.
Aoi soltou uma pequena risada chorando.
Kanzaki então observou melhor o rosto dela.
Os cabelos maiores.
A presença mais madura.
Mais forte.
Os olhos cansados.
E então…
a cicatriz.
Os dedos dele tocaram lentamente a marca no olho direito dela.
Silêncio.
Ele não perguntou nada.
Não precisava.
Apenas entendeu.
Aoi percebeu aquilo.
E sorriu fraco.
— Eu fiquei mais forte…
Kanzaki assentiu lentamente.
— Eu consigo ver isso.
Então ele começou a se virar.
Preparado para sair dali.
Mas antes—
Aoi segurou novamente o braço dele.
E abraçou o pai mais uma vez.
Com força.
Como se tivesse medo dele desaparecer.
Kanzaki apenas colocou a mão sobre a cabeça dela.
Silenciosamente.
Então…
lentamente…
ela se afastou dele.
Mas naquele instante—
TOC.
Passos.
O ar mudou completamente.
A respiração de Aoi falhou.
O ambiente inteiro pareceu ficar pesado.
Mais frio.
Mais sufocante.
TOC.
TOC.
Alguém descia lentamente as escadas.
Kanzaki imediatamente puxou Aoi para trás dele.
As mãos já indo até as adagas.
Os passos continuavam.
Lentos.
Calmos.
Elegantes.
Até que uma figura surgiu na escuridão.
Manto negro.
Longo.
Luxuoso.
Cabelos compridos balançando levemente.
Uma cicatriz atravessando o rosto.
E então…
os olhos.
A presença.
Aquele homem.
Aquele mesmo homem que salvou Aoi na guerra contra Aetheryon.
Aquele homem que destruiu Aetheryon.
O rei de Vorthal.
Número Um.
Kanzaki tremeu por um instante ao reconhecê-lo.
A pressão daquele homem era absurda.
Número Um terminou de descer os degraus.
As botas ecoando lentamente no subsolo.
Ele observou os dois.
Calmamente.
Sorrindo.
— Hmm…
Os olhos dele analisaram Kanzaki.
As roupas.
As armas.
A postura.
E então…
o sorriso aumentou.
— Ah…
— O guerreiro da Igreja.
Os olhos dele então foram lentamente até Aoi.
E por um instante…
o sorriso ficou curioso.
— E você…
— A guerreira de Vorthal que eu salvei.
Silêncio.
Kanzaki imediatamente empurrou Aoi para trás dele.
A voz saiu fria.
— Não chegue perto da minha filha.
Número Um parou.
O sorriso diminuiu minimamente.
— Filha…?
Silêncio.
Então ele começou a rir baixo.
Um riso genuinamente surpreso.
— Que interessante…
Ele levou a mão até o próprio rosto.
Ainda sorrindo.
— Então era isso…
Os olhos dele voltaram lentamente para Aoi.
— Alguém enganando meu reino bem debaixo do meu nariz.
A voz ficou mais fria.
— Alimentando uma traidora…
— Que trabalha para aquela maldita Igreja.
O olhar dele então voltou para Kanzaki.
— Filha de um dos maiores guerreiros da Igreja…
Ele sorriu novamente.
— Como eu não percebi antes?
Aoi tremia atrás do pai.
Número Um então começou a caminhar lentamente na direção deles.
O manto arrastando pelo chão.
— Eu senti uma energia estranha se aproximando…
— E vim verificar.
Os olhos dele ficaram pesados.
Perigosos.
— Mas parece que além dessa energia…
— Encontrei dois ratos tentando fugir.
Kanzaki segurou firmemente as adagas.
Número Um então inclinou levemente a cabeça.
— Me diga, Aoi…
A voz dele era calma.
Assustadoramente calma.
— Por que acha que nunca encontrou nada importante durante sua infiltração?
Os olhos dela arregalaram.
Silêncio.
Número Um sorriu.
— Eu deixei.
O ar ficou ainda mais pesado.
— Eu manipulei tudo…
— Esperando que algum homem importante da Igreja viesse até mim.
Os olhos dele agora encaravam diretamente Kanzaki.
— E agora…
A energia ao redor dele começou a distorcer levemente o ambiente.
— Posso matar dois ao mesmo tempo.
Naquele instante—
ele ergueu lentamente a mão.
WHOOSH.
O sinalizador escondido nas mãos de Kanzaki foi puxado violentamente.
Os olhos de Kanzaki arregalaram.
O objeto voou diretamente até Número Um.
Que o deixou cair no chão.
CRACK.
E esmagou lentamente com o pé.
Silêncio.
Pesado.
Aoi sentiu o desespero crescer.
"Ele sabia…"
"Ele sabia de tudo…"
Kanzaki então puxou lentamente as adagas.
As lâminas refletiram a luz fraca do subsolo.
Os olhos dele endureceram completamente.
— Talvez você seja forte.
A voz saiu firme.
— Talvez tenha um Kai monstruoso.
A pressão de Kanzaki começou a crescer também.
O chão abaixo dos pés rachando levemente.
— Mas escute bem, rei de Vorthal…
Ele deu um passo à frente.
Se colocando completamente entre Número Um e Aoi.
— Eu atravessei oceanos…
— Entrei no território inimigo sozinho…
— E pisaria até no inferno se fosse preciso…
As adagas giraram lentamente nas mãos dele.
A presença esmagadora de um guerreiro da antiga era tomou aquele subsolo.
— Porque nenhum homem neste mundo…
Os olhos dele queimavam de determinação.
— Vai tocar na minha filha enquanto eu ainda estiver respirando.
Silêncio.
Número Um apenas sorriu.
E então—
lentamente…
uma aura absurda começou a surgir ao redor dos dois.
O início da batalha estava diante deles.