Capítulo 113 — O Preço da Missão
A costa inteira tremia.
O mar agitava-se violentamente.
As árvores gigantes balançavam como se uma tempestade estivesse nascendo apenas pela presença daquele homem.
Número Um.
Os relâmpagos negros percorriam seu corpo.
A energia desconhecida distorcia o próprio ar.
Na frente dele—
Kanzaki.
Aoi.
Feridos.
Cansados.
Mas ainda de pé.
E então Número Um avançou.
BOOOOOOM!!
O chão explodiu.
Uma cratera gigantesca ficou para trás.
Os olhos de Aoi arregalaram.
Ela sequer conseguia acompanhar aquela velocidade.
Kanzaki imediatamente avançou na frente dela.
As duas adagas cruzaram.
— Kai Espiritual: Escudo Celestial de Azrael!
Uma barreira branca surgiu.
Ao mesmo tempo Aoi saltou para o lado.
— Kai Lunar: Lua Cadente!
Luas negras surgiram ao redor dela tentando escapar da trajetória do ataque.
Mas os dois perceberam instantaneamente.
Não seria suficiente.
A pressão daquele golpe era monstruosa.
A barreira de Kanzaki já começava a rachar.
CRACK.
CRACK.
CRACK.
— Droga...!
Então—
TRIIIIIIIIIIIIIM.
Sinos.
O som ecoou pelo campo inteiro.
Uma energia celestial explodiu atrás de Número Um.
Correntes gigantes feitas de luz surgiram do chão.
— Kai Sacro: Correntes do Julgamento Divino!
CLANG!
CLANG!
CLANG!
As correntes envolveram braços.
Pernas.
Torso.
Pescoço.
Travando completamente Número Um.
Seraphiel havia chegado.
O rei de Vorthal olhou para trás.
E sorriu.
No mesmo instante—
outra presença surgiu.
Uma onda de fogo branco cortou o céu.
Kagetsu.
Girando sua alabarda.
As Chamas Sagradas explodiam ao redor da arma.
— Chamas Sagradas: Sol da Extinção!
A alabarda avançou.
O golpe carregava energia suficiente para partir uma montanha.
Todos sentiram.
Aoi.
Kanzaki.
Seraphiel.
Todos sabiam.
Se aquilo acertasse—
seria devastador.
Mas então...
o mundo pareceu parar.
Silêncio.
O olho esquerdo de Número Um se abriu completamente.
Uma energia negra girou dentro da pupila.
O espaço ao redor dele distorceu.
Como vidro derretendo.
Como realidade quebrando.
E então—
o golpe desapareceu.
Simplesmente desapareceu.
As chamas.
A energia.
O Kai.
Tudo.
Absorvido para dentro daquele olho.
Silêncio.
Ninguém entendeu.
Kagetsu travou.
Seraphiel arregalou os olhos.
Kanzaki sentiu um arrepio.
Até Aoi ficou imóvel.
Então—
BOOOOOOOOOOOOOOM!!!!
O olho de Número Um brilhou.
E um feixe colossal de fogo branco explodiu para fora dele.
Mas não era o mesmo golpe.
Era pior.
Muito pior.
Mais destrutivo.
Mais comprimido.
Mais violento.
O próprio ataque de Kagetsu.
Amplificado.
— O QUÊ?!
Kagetsu tentou defender.
Girou a alabarda.
Mas foi tarde.
A explosão engoliu seu corpo.
Uma montanha de fogo atravessou a floresta.
Casas foram destruídas.
Árvores desapareceram.
O chão foi arrancado.
Kagetsu foi lançado quilômetros para trás.
Batendo em pedras.
Destruindo tudo pelo caminho.
BOOOOOM!!
Quando a fumaça baixou...
ele ainda estava de pé.
Sangue escorria pelo rosto.
O uniforme rasgado.
As mãos tremendo.
Mas ainda segurava sua alabarda.
— Esse maldito...
Seraphiel cerrou os dentes.
E então ergueu ambas as mãos.
Uma luz celestial tomou os céus.
— Kai Sacro: Lança dos Mil Céus!
Uma coluna colossal de energia caiu sobre Número Um.
Mas novamente—
o olho.
A distorção.
A absorção.
E então—
BOOOOOOOOM!!!
A mesma energia voltou.
Multiplicada.
Seraphiel foi atingido em cheio.
Sangue escapou de sua boca.
O corpo deslizou vários metros.
Mas diferente de Kagetsu—
ele permaneceu.
Ainda segurando as correntes.
Ainda prendendo Número Um.
Mesmo ferido.
Mesmo sangrando.
Mesmo com os braços tremendo.
Ele não soltou.
— N-NÃO...!
As correntes continuavam firmes.
Número Um finalmente pareceu surpreso.
Por um instante.
Aoi viu.
E avançou.
O rosto molhado de lágrimas.
Os dentes cerrados.
A cicatriz no olho queimando.
— AAAAAAAH!!
Luas surgiram por todo o céu.
Centenas.
Milhares.
Como uma constelação viva.
A katana negra brilhou.
— Kai Lunar: Eclipse das Mil Luas!
Aoi desapareceu.
E reapareceu diante de Número Um.
O golpe atravessou o espaço.
Uma linha negra cortou o campo de batalha.
SHIIIIIIIIIIIIIIIIIIING!!
Impacto direto.
Silêncio.
Aoi pousou vários metros atrás.
Respirando pesado.
Os olhos tremendo.
Todos olharam.
O corpo de Número Um.
Imóvel.
Parado.
E então...
intacto.
Nenhum corte.
Nenhuma gota de sangue.
Nada.
Aoi sentiu o coração parar.
E então percebeu.
As correntes.
As correntes de Seraphiel estavam destruídas.
Os olhos dela se arregalaram.
— N-Não...
Número Um havia alterado a trajetória do golpe.
De alguma forma.
Manipulado o alvo.
O ataque que deveria acertá-lo...
acertou as correntes.
Libertando-o.
Aoi caiu de joelhos.
O rosto pálido.
Número Um apenas sorria.
Aquele sorriso monstruoso.
Aquele sorriso impossível de ler.
Então—
Kanzaki gritou.
— SERAPHIEL!!
Todos olharam.
A voz dele ecoou pela costa inteira.
— PEGUE AOI E KAGETSU!!
— E VÃO EMBORA!!
Aoi arregalou os olhos.
— NÃO!!
— PAI!!
Seraphiel também hesitou.
— Kanzaki, isso é loucura!
— A MISSÃO ACABOU!
A voz dele explodiu.
— LEVE ELA DE VOLTA!
— CUSTE O QUE CUSTAR!
Aoi começou a chorar.
— Eu não vou te deixar aqui!!
— Eu não vou!!
Mas Kanzaki virou o rosto.
E pela primeira vez...
gritou com ela.
— AOI!!
Silêncio.
Ela congelou.
— VÁ!
— AGORA!
O mundo pareceu parar.
Aoi correu.
E abraçou o pai.
Com força.
Como quando era criança.
Kanzaki fechou os olhos.
Apenas por um segundo.
E colocou a mão sobre a cabeça dela.
— Vai ficar tudo bem.
A voz saiu calma.
Mesmo sabendo que talvez fosse mentira.
Mesmo sabendo o que estava prestes a acontecer.
Seraphiel apareceu ao lado deles.
Os olhos vermelhos.
Furiosos.
Mas entendendo.
Ele segurou Aoi.
Depois Kagetsu.
E então ativou seu Kai.
— Kai Sacro: Arca dos Céus.
Luz.
As velas do navio tornaram-se brancas.
Runas celestiais cobriram toda a embarcação.
O próprio mar começou a empurrá-la.
Como se os céus carregassem o barco.
Seraphiel olhou para trás.
Viu os corpos.
Soldados mortos.
A destruição.
Kaien e Shizuna inconscientes entre os escombros.
A guerra terminada.
E então...
uma lágrima quase invisível escorreu.
Ele a limpou imediatamente.
E disparou.
BOOOOOOM!!
O navio sumiu pelo oceano.
Voltando para Celestria.
Levando Aoi.
Levando a esperança da missão.
---
O silêncio voltou.
A cidade destruída.
O vento.
As chamas.
E dois homens.
Apenas dois.
Kanzaki.
E Número Um.
Frente a frente.
Número Um soltou uma risada baixa.
— Bela atitude.
Os relâmpagos negros começaram a surgir novamente.
— Mas você acabou de decretar sua própria morte, Kanzaki.
Kanzaki girou lentamente as adagas.
O Kai Espiritual voltou a cobrir seu corpo.
Mesmo ferido.
Mesmo sangrando.
Mesmo exausto.
Ele permaneceu de pé.
— Eu disse...
A voz dele saiu pesada.
— Que você não tocaria na minha filha.
A energia espiritual explodiu ao redor dele.
— Nem que isso custe minha vida.
O sorriso de Número Um desapareceu.
Pela primeira vez.
Completamente.
Os olhos dele ficaram frios.
Pesados.
Antigos.
E então respondeu:
— Então vamos acabar logo com isso.
Relâmpagos negros explodiram pelos céus.
— Porque você também machucou os meus.
O vento rugiu.
O mar se agitou.
E naquela cidade destruída...
os dois guerreiros finalmente se prepararam para decidir quem permaneceria de pé.