Capítulo 117 — O Homem do Cartaz
O mar revolto ficou para trás.
Depois de dias navegando sem rumo definido, guiados apenas pelas palavras misteriosas de Ravik, os Kurotsume finalmente avistaram o destino.
Sunspire.
Uma cidade que parecia ter sido construída por homens que perderam o medo de morrer.
E também o medo de matar.
Grandes muralhas quebradas cercavam parte da cidade. Torres antigas surgiam entre fumaça e ferrugem. Bandeiras rasgadas balançavam no vento. Algumas casas estavam abandonadas.
Outras pareciam esconder coisas piores.
O navio atracou lentamente.
O silêncio do grupo dizia tudo.
Ainda doía.
Ainda doía não ouvir a risada de Veyrion.
Ainda doía olhar para o convés e não ver seu capitão.
Ainda doía.
Muito.
Ravik foi o primeiro a saltar para o cais.
Logo atrás dele vieram:
Nyra.
Lorian.
Brakk.
Drogan.
Selka.
E Isamu.
Agora usando o antigo casaco negro que pertencia a Veyrion.
O vento balançava o tecido enquanto ele observava a cidade.
Nenhum deles falava muito ultimamente.
Todos carregavam o mesmo peso.
Todos carregavam o mesmo ódio.
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Enquanto caminhavam pelas ruas de Sunspire, dezenas de olhares os acompanhavam.
Homens armados.
Mercenários.
Caçadores de recompensa.
Criminosos.
Alguns exibiam tatuagens enormes.
Outros carregavam cicatrizes assustadoras.
Alguns sequer escondiam as armas.
Era o tipo de cidade onde uma faca no pescoço era considerada uma conversa educada.
Selka apertou um pouco mais sua bolsa médica.
— Não gosto daqui...
Brakk caminhava ao lado dela.
O enorme martelo preso às costas parecia ainda maior naquela rua apertada.
— Relaxa.
Ele respondeu.
— Só não faz contato visual com ninguém.
— Isso ajuda?
— Não faço ideia.
Selka suspirou.
— Que ótimo.
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Mais à frente.
Isamu caminhava ao lado de Ravik.
— Então onde exatamente está essa pessoa?
Ravik manteve os olhos à frente.
— Tem um bar famoso perto daqui.
— E?
— Se ele estiver na cidade...
Ravik colocou uma bala em sua arma.
Click.
— Vai estar lá.
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Não chegaram.
Porque alguém apareceu antes.
Seis homens surgiram bloqueando a rua.
E na frente deles...
Um sujeito alto.
Barba mal feita.
Olhos vermelhos.
Cheiro de álcool que podia ser sentido a metros.
Uma garrafa de saquê pendia em sua mão.
O homem abriu um sorriso torto.
— Ora, ora...
Ele deu mais um gole.
— O famoso bando Kurotsume.
Silêncio.
— Achei que tinham se aposentado depois que perderam o capitão.
O sorriso desapareceu lentamente do rosto de Ravik.
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Nyra já levou a mão para suas lâminas.
Drogan estalou os dedos.
Brakk ajustou a posição do martelo.
Selka engoliu seco.
Lorian apenas observava.
Analisando.
Calculando.
Como sempre.
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O bêbado apontou a garrafa para Ravik.
— Vocês parecem menores sem o Veyrion.
Ravik continuou andando.
— Sai da frente.
— Não.
— Último aviso.
— Não.
O homem abriu os braços.
— Todo mundo que entra em Sunspire paga uma taxa.
— Não vou pagar.
— Vai sim.
— Não vou.
— Vai.
— Não.
— Vai.
— Não.
O homem sorriu.
— Então vamos ter um problema.
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Ravik nem piscou.
— O problema é seu.
O sorriso desapareceu.
Completamente.
O homem então girou a garrafa.
E a esmagou contra uma parede próxima.
CRASH!
Vidros voaram.
Agora apenas o gargalo quebrado permanecia em sua mão.
Apontado para Ravik.
— Você se acha corajoso?
Ele avançou um passo.
— Sem Veyrion vocês não são nada.
Mais um.
— Um bando de cachorros.
Mais um.
— Revirando lixo.
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Ravik apertou os dentes.
Uma veia surgiu em sua testa.
Mas antes que pudesse agir...
Isamu passou por ele.
Calmo.
Silencioso.
A mão repousando sobre a bainha de uma de suas espadas.
O homem levantou a garrafa.
— O quê foi, moleque—
TAC
Isamu segurou seu braço.
Sem esforço.
O bêbado arregalou os olhos.
No instante seguinte...
CRACK
A garrafa foi arrancada de sua mão e lançada longe.
Explodindo contra o chão.
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O homem tentou reagir.
Mas já era tarde.
CLICK.
Uma arma encostou diretamente em seu estômago.
Ravik.
O cano pressionava sua barriga.
Os olhos do atirador eram vazios.
Mortos.
— Saia.
Da.
Frente.
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Os cinco homens atrás dele hesitaram.
Ninguém queria morrer.
Principalmente por aquele idiota.
Então deram um passo para trás.
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O bêbado foi empurrado.
Cambaleou.
Mas ainda gritou.
— VOCÊ SE ACHA CORAJOSO?!
— ...
— NÃO VAI DURAR MUITO TEMPO AQUI!
Ravik simplesmente virou as costas.
— Tanto faz.
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E continuaram caminhando.
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Poucos minutos depois.
Chegaram ao local.
O famoso bar.
Velho.
Escuro.
Mas limpo.
Surpreendentemente limpo.
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O grupo entrou.
A porta rangeu.
O interior estava quase vazio.
Apenas duas pessoas.
Um atendente atrás do balcão.
E um homem sentado sozinho.
De costas.
Bebendo.
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O atendente levantou os olhos.
E imediatamente reconheceu quem havia entrado.
Seu rosto mudou.
— Então é verdade...
Ele suspirou.
— Sinto muito pelo capitão de vocês.
O silêncio do grupo respondeu por eles.
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Ravik aproximou-se do balcão.
— Não viemos beber.
— Então?
— Preciso encontrar alguém.
O atendente cruzou os braços.
— Quem?
Ravik retirou um papel dobrado do casaco.
E o colocou sobre a mesa.
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O cartaz deslizou.
Parando diante do homem.
RECOMPENSA: 5.000.000
VIVO OU MORTO
A imagem mostrava um homem rindo.
Cabelos negros.
Cicatriz atravessando o rosto.
Olhar perigoso.
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BARTHOLOMEU D. KIDD
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O atendente soltou uma risada baixa.
— Arriscado.
— Sabe onde ele está?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
O homem riu novamente.
— Sair procurando Kidd desse jeito costuma acabar mal.
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Ravik pegou o cartaz.
— Se ouvir algo...
Ele virou as costas.
— Estamos na embarcação perto da costa.
— Entendido.
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Os Kurotsume começaram a sair.
Mas...
BANG
A porta fechou.
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Todos se viraram.
Os mesmos seis homens.
O bêbado à frente.
Sorrindo.
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— Eu disse que não tinha acabado.
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O atendente suspirou.
— Não façam isso aqui.
— Cala a boca.
O bêbado respondeu.
E então revelou um revólver.
Os outros fizeram o mesmo.
Armas.
Facas.
Punhais.
Correntes.
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Nyra estalou o pescoço.
Drogan sorriu.
Brakk apoiou a mão no martelo.
Selka deu dois passos para trás.
Lorian apenas observou.
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Isamu suspirou.
— É tão difícil deixar as pessoas em paz?
— Cala a boca você também.
O bêbado apontou a arma.
— Vocês moleques são folgados demais.
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Ele ergueu o revólver.
— Os Kurotsume mexeram com quem não deviam.
Então apontou para Ravik.
— Eu sou Garron Voss.
— Rei desta rua.
— E agora vocês vão aprender sobre respeito.
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Dois homens avançaram.
Mas nem chegaram perto.
THUMP
Isamu derrubou um.
CRACK
Ravik jogou outro no chão.
Tudo em menos de um segundo.
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Garron perdeu a paciência.
— MATEM ELES!
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CLICK
Nada.
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CLICK
Nada.
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CLICK CLICK CLICK
Nada.
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Silêncio.
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Todos olharam para as armas.
Confusos.
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E então...
As armas começaram a derreter.
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Como sangue.
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Líquido vermelho escorreu pelos canos.
Pelos cabos.
Pelas lâminas.
Pingando no chão.
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Todos congelaram.
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Até os Kurotsume.
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O atendente continuava sorrindo.
Calmo.
Como se já soubesse.
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Então.
FWOOSH
Uma faca atravessou o bar.
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E se cravou na parede.
Ao lado da cabeça de Garron.
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O homem gritou.
Quase caiu.
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Preso à faca...
Estava o cartaz.
O mesmo cartaz.
De Bartholomeu D. Kidd.
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Silêncio absoluto.
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Todos olharam para o balcão.
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O homem sentado ali terminou sua bebida.
Colocou o copo sobre a madeira.
E lentamente virou o banco.
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Primeiro apareceu a cicatriz.
Depois o sorriso.
Depois os olhos.
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Era ele.
Exatamente como no cartaz.
Só mais velho.
Mais perigoso.
Mais assustador.
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Cabelos parcialmente grisalhos.
Casaco negro de couro aberto.
Sem camisa.
Botas elegantes.
E tatuado no peito:
KIDD
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Ele observou Ravik.
Depois Isamu.
Depois todo o grupo.
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E então abriu um sorriso.
Um sorriso idêntico ao de Veyrion quando queria arrumar problemas.
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— Então...
Ele se levantou e pegou o cartaz preso na faca.
— Vocês são mesmo da tripulação do meu filho?
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O bar inteiro ficou em silêncio.
Ninguém respondeu.
Ninguém se moveu.
Ninguém respirou.
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Apenas encaravam.
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Bartholomeu D. Kidd.