Capítulo 119 — A Máscara Cai
O céu de Celestria estava cinzento.
Não por causa de nuvens.
Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, parecia que algo estava errado.
Muito errado.
...
Após horas de repouso forçado, Aoi finalmente havia conseguido parar de chorar.
Não porque a dor havia diminuído.
Mas porque seu corpo simplesmente não tinha mais forças.
Sentada na cama do quarto que lhe deram na ala principal da Igreja, ela segurava o crucifixo de Kanzaki contra o peito.
Os dedos tremiam.
Os olhos estavam inchados.
A cabeça abaixada.
O silêncio era esmagador.
Até que...
Toc.
Toc.
A porta se abriu.
Chinatsu entrou.
Pela primeira vez desde que haviam chegado, ela parecia séria.
Sem seu sorriso habitual.
Sem sua expressão tranquila.
Apenas séria.
Ela observou Aoi por alguns segundos.
Então falou.
— Está pronta?
Aoi levantou os olhos lentamente.
— ...
— O vice-presidente deseja conhecê-la.
Aoi assentiu devagar.
Sem dizer nada.
...
Minutos depois.
As duas caminhavam pelos enormes corredores da Capela Principal.
Os vitrais coloridos espalhavam luz pelo chão.
O som dos passos ecoava pelo lugar.
Cada vez mais perto.
Mais perto.
Até que finalmente chegaram.
As gigantescas portas principais.
Chinatsu empurrou uma delas.
A madeira pesada rangeu.
E as portas se abriram.
Aoi entrou.
E imediatamente percebeu que não estavam sozinhos.
Shinji estava encostado próximo à parede.
Fumando como sempre.
Seraphiel estava alguns metros à frente.
De braços cruzados.
Observando tudo em silêncio.
E então...
Mais ao fundo.
Perto das enormes janelas da capela.
Uma única figura.
De costas.
Observando a cidade.
Parada.
Imóvel.
O vento entrava pelas janelas abertas.
Movendo lentamente seus cabelos longos.
Aoi congelou.
Não sabia por quê.
Mas alguma coisa naquele homem...
Incomodava.
Muito.
Atrás dela.
As portas se fecharam.
BUM.
Shinji as trancou.
Então Chinatsu sorriu levemente.
— Aoi.
Ela apontou para a figura.
— Esse é o atual vice-presidente de Celestria.
A figura permaneceu imóvel.
Então lentamente...
Começou a virar.
Os cabelos.
O rosto.
Os olhos.
O sorriso.
E naquele instante...
O coração de Aoi parou.
Não literalmente.
Mas pareceu.
Os olhos dela se arregalaram.
A respiração falhou.
O corpo congelou.
A garganta travou.
Porque ela lembrava.
Ela lembrava daqueles olhos.
Daquele sorriso.
Daquele rosto.
Daquele homem caminhando entre cadáveres durante a guerra.
Daquele homem usando poderes monstruosos.
Daquele homem matando soldados.
Daquele homem...
Em Aetheryon.
Yang.
Tan Yang.
O sorriso dele aumentou levemente.
Sem mostrar os dentes.
Calmo.
Como se estivesse esperando por aquilo.
Aoi deu um passo para trás.
Depois outro.
A respiração acelerou.
O coração disparou.
E então...
Chinatsu percebeu.
— Aoi?
Seraphiel imediatamente ficou alerta.
Shinji também.
Yang apenas observava.
Calmo.
Como se estivesse assistindo uma peça de teatro.
— Aoi?
Chinatsu se aproximou.
— O que aconteceu?
Aoi tremia.
As lágrimas voltavam.
Ela levantou lentamente a mão.
Apontando.
Diretamente para Yang.
A voz saiu falhando.
— E-ele...
Silêncio.
— Ele estava lá...
Todos congelaram.
— O quê?
Aoi engoliu seco.
— Ele estava em Aetheryon...
O sorriso de Yang não mudou.
— Ele estava lutando por Aetheryon...
A sala inteira ficou imóvel.
— Ele é um deles.
Silêncio absoluto.
...
Shinji lentamente retirou o cigarro da boca.
Seraphiel ergueu a cabeça.
Chinatsu virou lentamente para Yang.
E naquele instante...
Entendeu.
Porque Yang não tentou negar.
Não tentou explicar.
Não tentou se defender.
Ele apenas...
Sorriu.
Chinatsu sentiu o sangue ferver.
— ...
— Você...
Yang inclinou levemente a cabeça.
— Finalmente.
A expressão dela se transformou completamente.
Raiva.
Pura.
Absoluta.
Shinji também percebeu.
E seu rosto endureceu.
Seraphiel deu um passo à frente.
Preparando energia celestial em silêncio.
Yang observou todos.
Então suspirou.
Como alguém cansado de esconder um segredo.
— Bem...
Ele colocou as mãos nos bolsos.
— Acho que acabou.
Silêncio.
Então começou a caminhar.
Devagar.
Enquanto falava.
— Vocês realmente facilitaram meu trabalho.
...
Pequenos flashes surgiram.
Memórias.
Momentos.
Peças de um quebra-cabeça.
Yang analisando arquivos secretos.
Yang observando documentos proibidos.
Yang lendo registros ancestrais.
Yang entrando em salas restritas.
Yang manipulando decisões.
Manipulando pessoas.
Manipulando reuniões.
Manipulando tudo.
...
Outra imagem.
Eryndor recebendo pergaminhos.
Mapas.
Relatórios.
Informações sobre ancestrais.
Informações militares.
Rotas.
Artefatos.
Segredos.
Tudo.
Tudo que Aetheryon precisava.
...
A sala ficou em silêncio.
Ninguém conseguia acreditar.
Yang abriu os braços.
— Obrigado pela confiança.
A veia no pescoço de Chinatsu saltou.
Ela sacou uma pistola da cintura.
E disparou.
BANG.
Yang desviou.
Como se já soubesse.
O projétil atravessou uma janela.
Explodindo os vitrais.
Mas naquele mesmo instante...
O braço direito de Yang ficou negro.
Completamente negro.
Como uma sombra viva.
E disparou.
Se esticando pela sala.
Até agarrar o pescoço de Chinatsu.
— CHINATSU!
Ela foi levantada do chão.
Yang ria.
Baixo.
Divertido.
Shinji desapareceu.
Uma estrela gigantesca surgiu em sua mão.
Dourada.
Sagrada.
Complexa.
Símbolos religiosos giravam ao redor dela.
O ar vibrava.
E então ele avançou.
— MORRA!
A estrela disparou.
Uma rajada divina atravessou a capela.
Mas...
Passou por Yang.
Como se ele não estivesse ali.
A energia atravessou seu corpo.
Acertando a parede atrás.
Explodindo metade da estrutura.
Todos ficaram chocados.
Yang saltou.
Subindo em direção ao teto destruído.
E então sorriu.
— Agora.
O mundo explodiu.
BOOOOOOOOOOOOOOM
Uma descarga elétrica colossal atravessou o teto.
Pedras.
Madeira.
Vitrais.
Tudo foi destruído.
Eryndor caiu dos céus.
Relâmpagos explodiam ao redor dele.
O impacto abriu uma cratera dentro da capela.
A fumaça cobriu tudo.
Poeira.
Destroços.
Gritos.
Caos.
Seraphiel avançou.
Shinji também.
Aoi sacou sua katana.
Todos procuravam.
Mas quando a fumaça baixou...
Nada.
Ninguém.
Apenas destruição.
Silêncio.
Então alguém apontou para cima.
O céu.
Uma criatura gigantesca cortava as nuvens.
Uma ave gigante.
Negra.
Feita de puro Kai.
E sobre ela...
Yang.
Eryndor.
Fugindo.
Levando tudo.
Todos sentiram o mesmo sentimento.
Ódio.
Puro.
Absoluto.
— MALDITOS!
Shinji deu um soco numa parede.
Chinatsu ergueu a cabeça.
Os olhos brilhando.
E então...
Algo surgiu.
Do próprio olho dela.
Uma ave branca.
Sagrada.
Majestosa.
Muito parecida com a criatura de Yang.
Mas divina.
Ela disparou para o céu.
Como um míssil.
Perseguindo os dois.
A esperança surgiu.
Talvez alcançasse.
Talvez...
Mas então.
Linhas vermelhas apareceram.
Líquidas.
Como sangue vivo.
Amarraram a ave.
Uma.
Duas.
Dez.
Centenas.
E então...
BOOM.
A ave explodiu.
Todos ficaram chocados.
— O quê...?
Então olharam mais alto.
E viram.
Uma figura.
Caindo do céu.
Foice nas costas.
Manto negro.
Capuz.
Ren.
Apenas Seraphiel e Aoi reconheceram imediatamente.
O coração de Aoi afundou.
Ren pousou na ave de Yang.
Sem dizer nada.
Sem emoção.
Então virou a cabeça.
E olhou.
Diretamente para ela.
A quilômetros de distância.
Mas parecia perto.
Muito perto.
Não era mais o olhar do garoto que ela conhecia.
Não era mais o olhar de Ren.
Era algo frio.
Vazio.
Assustador.
Por um segundo...
Aoi sentiu medo.
Medo de verdade.
Como se estivesse olhando para sua própria morte.
A ave negra acelerou.
As nuvens explodiram.
E então...
Desapareceram no horizonte.
Como um cometa negro.
Levando Aetheryon embora.
...
Silêncio.
A capela destruída.
A fumaça.
Os escombros.
A derrota.
Aoi levou as mãos à boca.
Tremendo.
As lágrimas voltaram.
Seraphiel fechou os punhos com tanta força que sangue escorreu de seus dedos.
Shinji acertou outra parede.
— POR QUE CONFIAMOS NELE?!
A parede rachou inteira.
Chinatsu respirava pesado.
Olhando para o horizonte.
Onde Yang desapareceu.
— Reclamar não adianta.
A voz dela saiu baixa.
Mas carregada de ódio.
— Não mais.
Ela virou.
— Não existe mais espera.
Silêncio.
Então começou a caminhar.
— Vou avisar a família Hoshikawa.
Shinji a acompanhou.
Furioso.
Sem dizer nada.
Seraphiel se aproximou de Aoi.
E colocou uma mão em seu ombro.
— Venha.
Aoi apenas assentiu.
Ainda tremendo.
Enquanto era guiada para fora da capela destruída.
Atrás deles.
Chinatsu e Shinji deixavam o local.
Consumidos pela raiva.
E acima de todos.
Muito distante.
Três sombras desapareciam no horizonte.
Yang.
Eryndor.
E Ren.
E naquele dia...
A Igreja finalmente percebeu.
A guerra ainda estava longe de acabar.