Capítulo 120 — O Peso das Coroas
A noite havia finalmente tomado conta de Sunspire.
A cidade, que durante o dia parecia um lugar abandonado pela própria esperança, agora era iluminada apenas por algumas poucas lanternas espalhadas pelas ruas quebradas.
O vento passava entre os prédios antigos, carregando o som distante das ondas batendo contra a costa.
No pequeno bar onde os Kurotsume haviam encontrado Bartholomeu D. Kidd, a porta principal estava fechada.
As cadeiras estavam viradas sobre as mesas.
As garrafas haviam sido guardadas.
E pela primeira vez em muitos anos, aquele lugar não estava recebendo desconhecidos procurando problemas.
Billy havia encerrado o expediente.
Agora, dentro daquele ambiente simples, apenas duas tripulações estavam reunidas.
Os antigos piratas de Kidd.
E os homens que carregavam o legado de Veyrion.
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Ravik estava sentado próximo à mesa principal, seus olhos ainda fixos no velho pirata à sua frente.
Kidd permanecia com seu enorme casaco negro sobre os ombros.
Mesmo aposentado, mesmo vivendo como um simples dono de bar...
Ainda havia algo nele.
Uma presença.
Aquela sensação de que aquele homem já havia enfrentado coisas que a maioria das pessoas nem conseguiria imaginar.
Ao seu lado, Billy limpava alguns copos enquanto ouvia a conversa.
Isamu estava em silêncio.
Ele ainda segurava o antigo casaco de Veyrion.
O casaco do capitão.
Algo que pesava mais que qualquer arma.
Kidd observou aquilo por alguns segundos.
Então sorriu levemente.
— Então... vocês realmente pretendem me colocar de volta no mar?
Ravik cruzou os braços.
— Não estamos pedindo que volte pelo passado.
Ele olhou para os outros.
— Estamos pedindo porque precisamos de alguém como você.
Kidd soltou uma pequena risada.
— Alguém como eu?
Ele pegou seu copo.
— Um velho pirata que abandonou tudo?
Ravik não desviou o olhar.
— Um dos maiores piratas que esse mundo já viu.
O silêncio ficou por alguns segundos.
Billy apenas sorriu.
Ele já conhecia aquele olhar.
Conhecia aquela pequena faísca que começava a surgir em Kidd.
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— Sobre encontrar seu antigo bando...
Ravik continuou.
— Nós podemos ajudar.
Kidd olhou para ele.
Billy parou de limpar o copo.
Então os dois trocaram um olhar.
E começaram a rir.
Não uma risada de deboche.
Uma risada de quem sabia de algo.
Ravik franziu a testa.
— O que foi?
Billy colocou o copo na mesa.
— Vocês realmente acham que dois velhos como nós ficaram esses anos sem saber onde eles estão?
Kidd apoiou o cotovelo na mesa.
— Nós sabemos.
Todos ficaram surpresos.
— Então por que nunca foram atrás deles? — perguntou Nyra.
Kidd ficou alguns segundos em silêncio.
— Porque eles estão espalhados.
Ele olhou para a janela.
— Cada um seguiu seu próprio caminho.
— Encontrar todos eles não seria impossível...
Billy completou:
— Mas levaria tempo.
Ravik imediatamente respondeu:
— Então vamos usar esse tempo.
Kidd olhou para ele.
— Hm?
— Nós ajudamos vocês.
Ravik colocou a mão sobre a mesa.
— Vocês ajudam a gente.
— Um bando.
— Dois legados.
Kidd observou todos.
Então sorriu.
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— Vocês realmente parecem com ele.
Isamu levantou o olhar.
— Com quem?
Kidd não respondeu.
Apenas olhou para o casaco.
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Depois de alguns minutos de conversa, Kidd ficou mais sério.
O sorriso desapareceu.
Ele colocou o copo na mesa.
— Agora eu quero saber uma coisa.
Todos olharam para ele.
— O homem que matou Veyrion.
O ambiente mudou.
Ravik fechou a expressão.
— Yang.
O nome sozinho já carregava ódio.
— Não sabemos muita coisa.
Ravik continuou.
— Apenas que ele é extremamente forte.
— E agora ocupa o cargo de vice-presidente de Celestria.
Kidd ficou quieto.
Mas antes que Ravik continuasse...
Isamu falou.
— Tem algo que vocês precisam saber.
Todos olharam para ele.
Isamu abaixou o olhar.
Ele respirou fundo.
— Yang nunca foi da Igreja.
Silêncio.
— Ele é de Aetheryon.
A reação foi imediata.
— O quê?!
Nyra levantou.
Drogan arregalou os olhos.
Brakk parou de mexer em sua arma.
Selka ficou completamente confusa.
— Como assim Aetheryon?
Isamu continuou:
— Ele estava infiltrado em Celestria.
— Provavelmente estava reunindo informações para reconstruir Aetheryon junto com Eryndor.
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Kidd ficou parado.
Então...
Começou a rir.
Uma risada baixa.
Billy também sorriu.
Os Kurotsume olharam sem entender.
— O que foi?
Kidd levou o copo até a boca.
— Aetheryon...
Ele olhou para Billy.
— Eryndor...
Os dois pareciam lembrar de algo distante.
— Então aquele garoto realmente conseguiu chegar tão longe?
Ravik franziu a testa.
— Vocês conhecem Eryndor?
Billy respondeu:
— Não pessoalmente.
Ele colocou o copo de lado.
— Mas ouvimos histórias.
Kidd completou:
— Quando ainda estávamos no mar.
Ele olhou para o teto.
— Um homem que queria desafiar a Igreja.
— Pensamos que seria apenas mais um.
Ele deu um sorriso.
— Mais um que acabaria desaparecendo.
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Então Kidd voltou sua atenção para Isamu.
Seu olhar ficou sério.
— Se Yang realmente pertence a Aetheryon...
Ele fez uma pausa.
— Ele não ficará muito tempo em Celestria.
Todos ficaram atentos.
— Um homem como ele não conseguiria esconder isso para sempre.
Kidd fechou os olhos.
— Ou ele será descoberto...
— Ou pegará tudo que precisa e fugirá.
Ele abriu os olhos.
— E pelo que vocês contaram...
— Provavelmente já fez isso.
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O silêncio voltou.
Mas então...
Kidd olhou para todos os Kurotsume.
Um por um.
Veyrion.
O mar.
O passado.
Tudo parecia voltar naquele momento.
Ele levantou lentamente.
Pegou sua espada.
A antiga Cutlass presa na cintura.
E colocou sobre o ombro.
Um sorriso apareceu.
— Sabe...
Ele disse.
— Eu achei que nunca mais pisaria no mar.
Todos ficaram atentos.
Kidd olhou para Billy.
Depois para os Kurotsume.
— Mas talvez...
Ele fechou os olhos.
— Eu não tenha mais nada a perder.
Então abriu um sorriso.
— Bando Kurotsume...
A espada brilhou levemente sob a luz da lua.
— Nós aceitamos sua proposta.
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Mesmo tentando manter a postura...
Todos ficaram felizes.
Nyra sorriu.
Brakk riu baixo.
Drogan abriu um enorme sorriso.
Ravik apenas abaixou a cabeça.
Mas era possível ver.
Ele estava satisfeito.
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Celestria
Enquanto isso...
A cidade ainda carregava as marcas da traição.
A capela principal, destruída pela fuga de Yang e Eryndor, estava sendo reconstruída.
Moradores trabalhavam juntos.
Pedras eram carregadas.
Paredes eram refeitas.
Mas mesmo com a reconstrução...
A sensação de perda ainda permanecia.
Chinatsu caminhava sozinha pela rua central.
Seu olhar estava fixo na capela.
Naquele lugar onde Yang revelou sua verdadeira face.
Ela apertou os punhos.
A raiva ainda queimava.
Mas ela continuou andando.
Até chegar em uma construção distante.
Um enorme prédio branco.
Diferente da capela.
Mais elegante.
Mais imponente.
As paredes tinham grandes cruzes decorando sua estrutura.
Ela entrou.
E imediatamente abaixou levemente a cabeça.
Respeito.
À sua frente...
Shinji estava sentado.
Um cigarro entre os dedos.
Ao lado dele...
Um homem mais velho.
Cabelos cinzas.
Barba bem cuidada.
Um terno negro impecável.
Uma flor presa no peito.
Um charuto queimava lentamente em sua mão.
Ele abriu os olhos.
— Sente-se.
Chinatsu obedeceu.
Atrás dela, soldados de elite fecharam as portas.
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— Eu peço desculpas...
Chinatsu começou.
— Eu deveria ter percebido.
Ela abaixou a cabeça.
— Eu deveria ter investigado mais sobre Yang.
— Mas depois da morte de Veyrion...
Ela apertou os dentes.
— Eu confiei nele.
O homem apenas continuou fumando.
Então interrompeu.
— Shinji já explicou tudo.
Silêncio.
— Vocês falharam.
Chinatsu ficou séria.
O homem continuou.
— Como acha que os moradores irão reagir?
Ele olhou para ela.
— A família responsável por essa cidade colocou um estrangeiro dentro da nossa estrutura.
— Um homem que roubou nossos arquivos.
Ele soltou a fumaça.
— O que acha que pensarão de mim?
Pausa.
— Da minha família?
Ele colocou o charuto na mesa.
— Eu sou o presidente de Celestria.
A voz ficou mais pesada.
— Minha reputação foi destruída pelo erro de vocês.
Shinji permaneceu calado.
Chinatsu rangeu os dentes.
Mas não respondeu.
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O homem continuou:
— Vocês estão afastados de seus cargos.
Os olhos de Chinatsu se abriram.
— Aproveitem esse tempo para encontrar aqueles que fugiram com as informações.
Ele virou o rosto.
— Dispensados.
As portas abriram.
Chinatsu levantou.
Shinji também.
Os dois saíram em silêncio.
Mas a raiva estava evidente.
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Do lado de fora...
Aoi caminhava pela rua.
Ainda abalada.
Mas melhor.
Ela parou ao ver os dois saindo.
— Chinatsu?
Ela percebeu a expressão deles.
— O que aconteceu?
Nenhuma resposta.
Antes que a porta fechasse completamente...
Aoi conseguiu olhar para dentro.
E viu aquele homem sentado.
A presença dele era diferente.
Muito diferente.
— Quem era aquele?
Shinji jogou o cigarro no chão.
— O presidente.
Aoi piscou.
— Presidente?
Shinji suspirou.
— Ah...
Ele percebeu.
— Você ainda não sabe.
Ele olhou para ela.
— Aquele homem era Leif Hoshikawa.
Aoi ficou confusa.
— Ele comanda Celestria.
Pausa.
— Os Shinpan-Kan também.
Aoi arregalou os olhos.
— Shinpan-Kan?
Shinji explicou:
— A maior força da Igreja.
— Guerreiros responsáveis por missões especiais.
Ele olhou para ela.
— Kagetsu.
— O homem que você conheceu em Vorthal.
— Ele é o Shinpan-Kan número 5.
Aoi ficou em silêncio.
Shinji continuou:
— Leif controla ordens de ataque, territórios...
Ele fez uma pausa.
— E também...
Olhou para Chinatsu.
— É o nosso pai.
Aoi congelou.
— Pai...?
Chinatsu desviou o olhar.
E naquele momento...
Aoi percebeu que havia muito mais naquela família do que imaginava.
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Em algum lugar distante
A noite cobria uma pequena cidade abandonada.
Dentro de uma casa simples...
Ren estava sentado.
Seu capuz escondia parte do rosto.
Na mesa...
Documentos.
Arquivos.
Informações roubadas.
Yang permanecia em pé.
Eryndor observava tudo.
— A caça aos ancestrais começará.
Yang pegou um arquivo.
Entregou para Ren.
Na capa:
Gunnar.
Poucas informações.
Nenhuma imagem.
Apenas uma descrição.
"Criatura extremamente perigosa."
"Aparência demoníaca."
"Nível de ameaça desconhecido."
Ren guardou o documento.
Yang continuou:
— Ele está próximo da mesma região onde você encontrou o último ancestral.
— Uma caverna congelada.
— Atualmente coberta pela neve.
Ele olhou para Ren.
— Você vai abrir.
Silêncio.
— Como antes.
— Mate.
— Traga o corpo.
— E nós faremos o resto.
Ren apenas assentiu.
Então desapareceu pela porta.
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Restaram apenas Yang e Eryndor.
O trovão distante ecoou.
Eryndor cruzou os braços.
— Você realmente acredita que isso vai funcionar?
Yang olhou pela janela.
— Se queremos destruir a Igreja...
Ele respondeu.
— E reconstruir Aetheryon...
Ele sorriu.
— Esse é o único caminho.
Eryndor ficou em silêncio.
Enquanto, do lado de fora...
A sombra de Ren desaparecia na neve.
Em direção ao próximo ancestral.