Capítulo 121 — A Era dos Ancestrais
A neve caía silenciosamente.
O mundo parecia ter esquecido daquele lugar.
Aquela região branca e congelada permanecia isolada de tudo, como se nem mesmo o tempo ousasse tocar naquele território. As montanhas cobertas pelo gelo escondiam segredos antigos, histórias apagadas e poderes que existiam antes mesmo da própria Igreja de Celestria.
E no meio daquele vazio...
Um homem caminhava.
Seu manto negro balançava com o vento congelante enquanto seus passos afundavam lentamente na neve.
Ren.
Ele não demonstrava medo.
Não havia hesitação em seus olhos.
Diferente da primeira vez que esteve ali...
Agora ele sabia exatamente onde estava indo.
Aquela caverna.
A caverna onde tudo começou.
A caverna de Lily.
---
A entrada permanecia exatamente como antes.
Uma enorme abertura entre as montanhas, coberta parcialmente pela neve.
Ren parou por alguns segundos.
Seus olhos encararam a escuridão lá dentro.
No passado, aquele lugar havia feito seu corpo inteiro reagir.
Uma sensação de perigo.
Uma presença impossível de compreender.
Mas agora...
Ele apenas entrou.
Seus passos ecoavam pelo enorme corredor de pedra.
O frio aumentava conforme ele avançava.
Até que...
Uma voz surgiu.
Calma.
Doce.
Quase acolhedora.
— Eu sabia que voltaria...
Ren parou.
A mesma voz.
A mesma presença.
Lentamente, no fundo da caverna, uma luz começou a aparecer.
E então ela surgiu.
Sentada no mesmo trono feito de ossos antigos.
Lily.
A ancestral das ilusões.
Seu longo cabelo branco caía pelos ombros enquanto suas roupas religiosas brancas contrastavam com aquele lugar sombrio.
Ela sorria.
Não um sorriso falso.
Mas um sorriso de satisfação.
— Ren... — disse ela calmamente. — Você realmente retornou.
Ren permaneceu parado.
Lily levantou lentamente.
— Confesso que existia uma parte de mim que imaginava que você poderia desistir.
Ela caminhou até ele.
Cada passo ecoava pela caverna.
— Afinal... confiar em mim significava abandonar tudo que você conhecia.
Ela parou na frente dele.
— Mas você voltou.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.
— Isso significa que cumpriu sua parte do acordo.
Ren ficou em silêncio.
Ele sabia exatamente do que ela estava falando.
Então levou a mão até dentro do seu manto.
E retirou um objeto.
Um artefato escuro.
O artefato de Yang e Eryndor.
O objeto capaz de roubar e armazenar energias.
Poderes.
Forças.
Tudo aquilo que pertencia aos maiores guerreiros daquele mundo.
Ren estendeu a mão.
Lily pegou o artefato.
No instante em que tocou nele...
Seus olhos brilharam.
Ela sentiu a energia presa dentro daquela peça.
E sorriu.
— Impressionante...
Ela passou os dedos pelo artefato.
— Você roubou algo que poderia mudar o destino desse mundo.
Então olhou para Ren.
— Eu admiro sua coragem.
Um silêncio tomou conta da caverna.
— E admiro ainda mais sua lealdade.
Ren não respondeu.
Mas Lily percebeu.
Ele ainda carregava dúvidas.
Mesmo assim...
Ela virou de costas.
— Venha.
Ela começou a caminhar.
— Está na hora de conhecer os outros.
---
Os dois avançaram pelos corredores profundos da caverna.
Até que algo aconteceu.
Um som cortou o silêncio.
Uma lâmina.
Uma espada completamente negra atravessou o ar.
Ren percebeu.
Mas antes que pudesse reagir...
A espada caiu no chão ao lado dele.
Cravando na pedra.
Uma energia negra começou a sair dela.
Uma fumaça escura se espalhou.
E daquela energia...
Uma figura começou a surgir.
Primeiro os pés.
Depois o corpo.
Depois o rosto.
Um homem extremamente alto.
Muito mais alto que Ren.
Seus cabelos eram longos e vermelhos.
Caíam sobre seus ombros.
Seus olhos eram fundos.
Vazios.
Como se não existisse emoção alguma dentro deles.
Suas roupas eram semelhantes às de Lily.
Mas completamente negras.
Uma versão sombria das vestes religiosas.
Ele olhou para Ren.
Sem expressão.
— Finalmente.
Sua voz era fria.
Mas curiosamente...
Não parecia hostil.
Lily soltou um pequeno suspiro.
— Você continua sem saber esperar.
O homem olhou para ela.
— Eu estava curioso.
Ela sorriu.
— Ren...
Ela apontou para ele.
— Esse é Yorm.
O homem inclinou levemente a cabeça.
— Ancestral das Verdades.
Uma pausa.
— E meu braço direito.
Ren observou ele.
Yorm então olhou para Lily.
— Os outros deveriam se apresentar também.
Lily sorriu.
E naquele momento...
A caverna mudou.
As paredes começaram a se iluminar.
Revelando uma enorme sala escondida.
Três grandes tronos estavam ali.
Um deles vazio.
O de Yorm.
Os outros dois ocupados.
Duas figuras estavam sentadas.
Ambas usando capuzes negros.
Yorm caminhou até eles.
— Vocês podem parar de esconder seus rostos.
Os dois retiraram os capuzes.
---
O primeiro era jovem.
Muito jovem.
Sua aparência lembrava quase a de um adolescente.
Cabelos loiros.
Olhos verdes.
Mas havia algo estranho.
Sua boca.
Completamente costurada.
Como se ele tivesse sido proibido de falar.
Em suas mãos...
Um livro.
Um livro branco.
Brilhando com uma energia poderosa.
Uma energia quase divina.
Ele levantou o olhar.
— Syvan.
Silêncio.
— Anjo ancestral.
Ren encarou ele.
Havia algo naquele homem que parecia errado.
Algo impossível de explicar.
---
Então Yorm apontou para o último trono.
Uma mulher.
Alta.
Cabelos completamente brancos.
Pequenos chifres surgiam em sua cabeça.
Seus olhos tinham uma aparência demoníaca.
Uma presença assustadora.
Ela sorriu.
— Emma.
Sua voz carregava confiança.
— Ancestral demoníaca.
Agora todos estavam reunidos.
Lily.
Yorm.
Syvan.
Emma.
E Ren.
Os ancestrais.
---
Syvan abriu lentamente seu livro.
A energia branca iluminou seu rosto.
Então perguntou:
— Finalmente...
Ele olhou para Lily.
— Qual é o verdadeiro motivo dessa reunião?
Emma cruzou os braços.
— Faz anos desde que todos nós estivemos juntos.
Yorm sorriu levemente.
— Então espero que seja algo interessante.
Lily caminhou até o centro da sala.
O artefato roubado estava em sua mão.
— Ren também é um ancestral.
Todos olharam para ele.
Ela continuou:
— E ele também deseja destruir a Igreja.
Ren permaneceu quieto.
Lily levantou o artefato.
— Com isso...
A energia negra dentro dele começou a pulsar.
— Nós podemos derrubar cada pilar da Igreja de Celestria.
Imagens começaram a surgir na mente deles.
Shinpan-Kan.
Guerreiros.
Territórios.
Poderes.
— Cada guerreiro derrotado.
— Cada poder roubado.
— Cada energia armazenada.
O sorriso dela aumentou.
— Até que não reste nada.
Ela fechou a mão.
— O último passo será derrubar a família que governa Celestria.
Uma pausa.
— O líder dos Shinpan-Kan.
— E todos aqueles que protegem essa mentira.
O ambiente ficou pesado.
— Quando todos os poderes estiverem dentro desse artefato...
Ela olhou para ele.
— Nós iremos liberar tudo.
Silêncio.
— Um único ataque.
— Contra todo o continente.
Ren arregalou levemente os olhos.
Lily continuou:
— A Igreja será destruída.
— O governo cairá.
— E uma nova era nascerá.
Ela abriu os braços.
— A Era dos Ancestrais.
---
Yorm sorriu.
— Então esse é o plano.
Syvan fechou o livro.
Emma riu.
— Finalmente algo interessante.
Yorm olhou para Ren.
— E você?
Lily respondeu:
— Ele irá colaborar.
Então olhou para Ren.
— Seu único pedido será atendido.
Ren permaneceu em silêncio.
Mas todos entenderam.
Ele queria alguém.
Alguém específico.
---
Syvan perguntou:
— Mas como faremos isso?
Ele olhou para Lily.
— A Igreja mantém seus guerreiros próximos.
Emma completou:
— Atacar Celestria diretamente seria suicídio.
Lily sorriu.
— Nós não atacaremos.
Todos olharam para ela.
— Aetheryon fará isso por nós.
Ren congelou por um instante.
Ela sabia.
Sabia antes dele.
— Durante a guerra...
Lily continuou.
— Celestria estará distraída.
Ela fechou os olhos.
— E nós iremos caçar cada peça.
Yorm sorriu.
— Você realmente pensou em tudo.
---
Depois de algum tempo...
Lily acompanhou Ren até a entrada da caverna.
A neve caía novamente.
Ren estava prestes a partir.
Mas Lily parou.
— Ren.
Ele olhou para trás.
O tom dela mudou.
Agora era sério.
— Yang e Eryndor já sabem.
Ren ficou imóvel.
— Eles sabem que você roubou o artefato.
Silêncio.
Os olhos dele se abriram levemente.
Lily continuou:
— Quando retornar...
Ela encarou ele.
— Eles tentarão matar você.
O vento soprou.
— Sem hesitar.
Ren abaixou o olhar.
Lily se aproximou.
Colocou a mão no peito dele.
E uma enorme onda de energia atravessou seu corpo.
Ren caiu de joelhos.
A neve explodiu ao redor.
— Isso é parte do meu poder.
Ele levantou o olhar.
— Você conseguirá prever alguns movimentos.
Uma pausa.
— Mas não todos.
Ela retirou a mão.
— Não dependa disso.
Ren levantou lentamente.
Lily sorriu.
— Volte em duas semanas.
Ele assentiu.
E partiu.
---
Enquanto Ren desaparecia na neve...
Outro lugar.
Outra jornada começava.
---
Sunspire.
O porto estava movimentado.
O enorme navio dos Kurotsume estava pronto.
Kidd e Billy caminhavam pela embarcação.
Isamu ajudava Ravik a subir.
Quando Ravik finalmente conseguiu entrar...
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou:
— Isamu.
O rapaz olhou.
— Eu...
Ravik desviou o olhar.
— Eu fui injusto com você.
Isamu ficou surpreso.
— Eu duvidei.
— Fui cruel.
Ele respirou fundo.
— Mas agora...
Olhou para ele.
— Eu respeito você.
Uma pausa.
— Como capitão.
Isamu sorriu.
Um sorriso verdadeiro.
— Eu também respeito você.
Ele respondeu:
— Assumir o lugar que era do Veyrion não deve ser fácil.
Ravik ficou sério.
Mas logo deu um tapa nas costas dele.
— Não fique sentimental.
Ele saiu andando.
— Temos um navio para preparar.
---
Mais ao fundo...
Selka, Nyra e Lorian conversavam com Kidd.
Ele mostrava algumas cicatrizes.
Cada uma carregava uma história.
Enquanto isso...
Billy mostrava ferramentas para Brakk.
Drogan observava impressionado.
Brakk analisava tudo.
Aquele grupo...
Que antes estava quebrado...
Agora começava novamente.
Isamu observou todos.
E pensou:
"Isso vai ser por todos vocês..."
---
Mas longe dali...
Ren ainda caminhava.
A neve cobria tudo.
Seu manto voava com o vento.
Até que...
Ele caiu de joelhos.
Sua foice caiu ao lado.
Ele olhou para o céu.
E falou baixo:
— O que você está pensando agora... Daichi?
O silêncio respondeu.
Uma lágrima caiu.
E então vieram as memórias.
Sua família.
Sua perda.
Daichi.
Takemura.
A voz chamando ele de filho.
Isamu.
O barco.
Aquela antiga vila.
Aoi.
Os treinamentos.
Os momentos que pareciam tão distantes.
Ren fechou os olhos.
Os dentes rangeram.
— Por quê...
Sua voz falhou.
— Por que tudo teve que acabar assim?
A neve continuou caindo.
Ele ficou ali.
Sozinho.
Mas então...
Pegou sua foice.
Colocou novamente nas costas.
Levantou.
Limpou o rosto.
E voltou a caminhar.
Com o mesmo olhar vazio.
O olhar de alguém que já perdeu tudo...
Mas ainda continua andando.