Capítulo 122 — O Herdeiro do Sangue
O sol começava a desaparecer atrás das enormes muralhas de Celestria.
A cidade, que antes parecia intocável, agora carregava marcas da batalha recente. Algumas construções ainda tinham rachaduras, partes das ruas estavam sendo reconstruídas e vários soldados trabalhavam junto com moradores para recuperar o que havia sido destruído pelo ataque de Yang e Eryndor.
Mas, no meio daquela movimentação, existia uma sensação diferente.
Uma sensação de desconfiança.
A confiança que a cidade tinha em seus próprios líderes havia sido quebrada.
No campo de treinamento da igreja, o som de espadas se chocando ecoava.
Aoi respirava profundamente enquanto segurava sua arma.
Mesmo depois de tudo que aconteceu em Vorthal, mesmo depois de perder seu pai, ela não havia parado.
Ela sabia que Kanzaki não tinha lutado para que ela desistisse.
Ele tinha lutado para que ela continuasse.
— Mais uma vez! — gritou um dos soldados.
Aoi avançou.
Seu corpo ainda não estava completamente recuperado, mas sua velocidade havia aumentado muito desde sua chegada.
Ela girou sua arma e liberou uma pequena quantidade de seu Kai Lunar.
Uma lâmina de energia prateada atravessou o ar.
O soldado conseguiu bloquear, mas foi empurrado alguns metros para trás.
Alguns guerreiros ao redor observaram em silêncio.
A filha de Kanzaki.
Mesmo sem seu pai ao lado, ela carregava o mesmo olhar determinado.
Mas naquele momento...
Aoi parou.
Seus olhos foram para a rua principal da cidade.
Lá estavam eles.
Shinji e Chinatsu.
Parados.
Sem fazer nada.
Sem ordens.
Sem missões.
Sem posição.
Aoi observou os dois em silêncio.
Ela sabia que eles também estavam sofrendo.
Eles perderam um companheiro.
Foram enganados por alguém em quem confiavam.
E agora carregavam a culpa de não terem percebido antes.
Aoi abaixou lentamente sua arma.
Por alguns segundos, ela apenas observou os dois.
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Enquanto isso...
Muito longe dali, em uma das estruturas mais importantes de Celestria...
O silêncio dominava a sala.
Era um edifício completamente branco.
As paredes eram decoradas com símbolos religiosos antigos, enormes cruzes de pedra e pinturas que representavam a história da igreja.
No centro do salão principal existia uma mesa circular.
E sentado nela estava um homem.
Leif Hoshikawa.
O presidente de Celestria.
O homem responsável por comandar os maiores poderes da igreja.
Ele estava completamente tranquilo.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se a traição de Yang fosse apenas um pequeno problema.
Em sua mão estava um charuto.
A fumaça lentamente subia enquanto seus olhos observavam um pequeno dispositivo no centro da mesa.
Um aparelho de comunicação.
Leif levantou um dedo.
Apertou o botão vermelho.
Um pequeno brilho apareceu.
Então sua voz ecoou.
— Atenção todas as unidades de busca.
Do outro lado, soldados receberam a mensagem.
— A prioridade mudou.
Leif deu uma tragada calma no charuto.
— Encontrem Aetheryon.
Silêncio.
Então ele continuou.
— Não importa onde estejam escondidos.
Seus olhos ficaram frios.
— Vasculhem todas as regiões.
— Destruam qualquer cidade que possa servir como esconderijo.
A voz dele não demonstrava emoção.
— Aqueles que resistirem... eliminem.
A fumaça saiu lentamente de sua boca.
— Aqueles que protegerem inimigos da igreja... também serão eliminados.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Aproveitem essa busca para limpar o continente daqueles que não merecem estar nele.
Então...
Clic.
Ele soltou o botão.
O silêncio voltou.
Leif apenas pegou novamente seu charuto.
Como se tivesse acabado de dar uma ordem comum.
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Mais tarde...
Aoi caminhava pelas ruas centrais de Celestria.
Ela ainda parecia distante.
Ainda parecia presa nas lembranças.
Então ouviu uma voz.
— Aoi.
Ela se virou.
Seraphiel estava parado atrás dela.
O guerreiro celestial parecia diferente.
Mais cansado.
Mais velho.
Desde Vorthal, ele carregava uma expressão pesada.
— Podemos conversar?
Aoi assentiu.
Os dois caminharam até uma área mais vazia da cidade.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Até que Seraphiel abaixou o olhar.
— Eu preciso pedir desculpas.
Aoi ficou surpresa.
— Pelo quê?
Seraphiel apertou os punhos.
— Pelo seu pai.
Silêncio.
— Eu prometi proteger vocês.
Ele respirou fundo.
— Mas eu falhei.
Aoi ficou quieta.
Seraphiel continuou.
— Kanzaki...
Ele fechou os olhos.
— Foi o maior guerreiro que esses olhos já viram.
Sua voz ficou mais baixa.
— Ele sabia que provavelmente não voltaria.
Aoi sentiu seu peito apertar.
— Mas mesmo assim...
Seraphiel olhou para ela.
— Ele escolheu lutar.
Uma pausa.
— Por você.
Aoi abaixou o rosto.
Seraphiel então colocou a mão no ombro dela.
— Eu prometo.
Seus olhos ficaram determinados.
— Não importa quanto tempo passe.
— Não importa o que aconteça.
Ele cerrou o punho.
— Aquele homem vai cair.
Aoi olhou para ele.
— E quando isso acontecer...
Seraphiel completou:
— Eu quero que seja você.
— A filha dele.
— A pessoa que ele protegeu até o último segundo.
Aoi ficou alguns segundos em silêncio.
Então...
Ela abraçou Seraphiel.
O guerreiro ficou surpreso.
Mas lentamente correspondeu.
— Obrigada...
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Muito longe dali...
A neve caía.
O vento cortava a paisagem branca.
E uma figura caminhava sozinha.
Ren.
Seu manto balançava enquanto ele se aproximava da pequena vila abandonada usada por Aetheryon.
Ele finalmente havia retornado.
Mas havia algo estranho.
Um silêncio.
Um silêncio que parecia uma armadilha.
Ren deu alguns passos.
Então...
Parou.
Seus olhos se abriram.
Um instante.
Um único instante.
E ele saltou para trás.
No lugar onde estava...
Um raio negro caiu.
BOOOOM.
O chão explodiu.
A neve voou para todos os lados.
Ren pousou segurando sua foice.
Seus olhos ficaram frios.
Então dezenas de pássaros negros começaram a surgir no céu.
Feitos completamente de Kai.
Eles desciam lentamente.
E no meio deles...
Uma figura apareceu.
Yang.
Ele estava sorrindo.
— Eu sabia.
Ren não respondeu.
Yang abriu os braços.
— Eu sabia que você faria isso.
Ele riu.
— Desde o momento em que discordou de minhas ideias.
Um trovão ecoou.
E então...
Outro homem apareceu.
Eryndor.
Seu corpo surgiu junto com uma explosão elétrica.
Sua katana estava em sua mão.
Pequenos raios amarelos e negros percorriam a lâmina.
Ele encarou Ren.
— Por quê?
Ren ficou parado.
Eryndor continuou.
— Por que está tornando tudo mais difícil?
Ele apertou a espada.
— Yang disse que você teria tudo que queria.
— Poder.
— Vingança.
— Sua liberdade.
Um silêncio.
— Então por que trair Aetheryon?
Yang perdeu lentamente o sorriso.
Ele encarou Ren.
— Onde está o artefato?
Ren segurou sua foice.
Nada respondeu.
Eryndor avançou um passo.
— Responda.
Sua voz ficou mais agressiva.
— Você trabalha para nós.
— Você deve uma resposta.
Ren continuou parado.
Até que...
Ele sorriu.
Depois de tanto tempo...
Um sorriso verdadeiro.
— O artefato...
Ele olhou para os dois.
— Está onde nunca deveria ter saído.
Yang estreitou os olhos.
Ren continuou:
— Com seus verdadeiros donos.
Silêncio.
Eryndor franziu a testa.
— O que você quer dizer?
Ren levantou o rosto.
— Os ancestrais.
O sorriso de Yang desapareceu.
Pela primeira vez...
Ele pareceu realmente surpreso.
— Não...
Eryndor ficou imóvel.
— Você...
Ele rangeu os dentes.
— Você se juntou àqueles monstros?
Ren soltou uma pequena risada.
— Monstros?
Ele olhou para sua mão.
— Interessante ouvir isso de vocês.
As marcas começaram a surgir.
Linhas negras.
Energia.
O ar ficou pesado.
Yang e Eryndor observaram.
O corpo de Ren começou a mudar.
Aquela presença.
Aquela mesma sensação que eles sentiram antes.
A forma ancestral.
Ren levantou lentamente a cabeça.
Seus olhos mudaram.
Sua voz ficou mais profunda.
Mais distorcida.
— Finalmente...
A energia ao redor dele explodiu.
— Eu posso controlar.
Yang ficou sério.
Eryndor apertou sua katana.
— Ren...
Yang olhou para Eryndor.
— Não é uma brincadeira.
Ele fechou o rosto.
— Prepare-se.
E então...
Os dois atacaram.
Um raio negro.
Uma explosão dourada.
Os dois Kai avançaram juntos.
Mas...
Nada.
Quando a fumaça desapareceu...
Ren não estava lá.
E então...
Atrás deles.
Uma presença.
Um enorme tigre surgiu.
Preto e branco.
Seus olhos brilhavam com energia vermelha.
O sangue do Kai de Ren.
O tigre abriu a boca.
Energia começou a se concentrar.
Ren apareceu acima dele.
Sua voz ecoou:
— Kekkai no Kiba...
O feixe vermelho disparou.
Uma explosão atravessou o campo.
Yang e Eryndor foram atingidos diretamente.
Seus corpos foram jogados para trás.
Por alguns segundos...
Seus movimentos ficaram presos.
Quando a fumaça finalmente desapareceu...
Nada.
Ren havia sumido.
Yang se levantou furioso.
— DESGRAÇADO!
Ele olhou para a antiga casa.
Destruída.
Yang fechou os punhos.
— Ele nos enganou...
A energia negra começou a escapar de seu corpo.
— Eu vou matar Ren.
Eryndor encarou o horizonte.
Ainda tentando entender.
— Por quê...
Ele apertou a espada.
— Por que você fez isso, Ren?
Mas a única resposta foi o vento.
E a neve continuando a cair.