Capítulo 123 — O Retorno de Vorthal
O vento soprava sobre as ruínas.
A cidade que um dia havia sido um esconderijo, um lugar onde Vorthal conseguiu sobreviver longe dos olhos da igreja, agora era apenas uma lembrança destruída.
As construções estavam quebradas.
As ruas estavam cobertas por pedras e pedaços das antigas casas.
Marcas de batalhas ainda estavam espalhadas por todos os lugares.
O cheiro de fumaça e destruição permanecia no ar mesmo depois de tantos dias.
Desde o confronto em que a igreja invadiu Vorthal para resgatar Aoi, aquele lugar nunca mais voltou a ser o mesmo.
Poucos soldados ainda permaneciam ali.
Não para proteger.
Mas para reconstruir o pouco que restava.
Entre os destroços...
Três figuras observavam o horizonte.
De frente para o mar.
Kaien.
Shizuna.
E o General Zareth.
Zareth ainda carregava as marcas da guerra.
Seu corpo estava coberto por faixas.
Seus movimentos eram mais lentos.
A batalha contra Aetheryon havia deixado feridas que ainda não haviam cicatrizado.
Mas mesmo machucado, ele permanecia de pé.
Como um líder.
Como alguém que não podia demonstrar fraqueza.
O silêncio entre os três era pesado.
Ninguém falava.
Até que Kaien finalmente quebrou.
— Eu ainda não consigo entender...
Sua voz estava baixa.
Cheia de raiva e confusão.
Ele olhava para o mar.
— Como nós não percebemos?
Shizuna ficou em silêncio.
Kaien apertou os punhos.
— Como?
Ele virou o rosto lentamente.
— Ela estava aqui.
Uma pausa.
— Todos os dias.
Sua expressão ficou mais triste.
— Ela treinou com a gente.
Ele lembrava.
Aoi sorrindo durante os treinamentos.
As conversas depois das batalhas.
Os momentos em que ela parecia apenas uma garota tentando ficar mais forte.
— Ela comeu com a gente.
— Lutou com a gente.
— Conversou com a gente.
Sua voz começou a falhar.
— Como uma verdadeira...
Ele parou.
A palavra demorou para sair.
— ...amiga.
O vento passou entre os três.
Shizuna fechou os olhos.
Por alguns segundos, parecia que ela não iria responder.
Mas então...
— Amiga?
Sua voz saiu fria.
Kaien olhou para ela.
Shizuna encarava o chão destruído.
— Tudo aquilo...
Ela apertou a mão.
— Foi uma manipulação.
Silêncio.
— Ela olhava para nós todos os dias sabendo quem era.
Shizuna levantou o rosto.
— Eu treinei aquela garota.
Sua expressão ficou pesada.
— Eu ensinei ela.
Uma pausa.
— Eu tratei ela como uma aluna que eu queria proteger.
Ela cerrou os dentes.
— Para no final descobrir que ela estava do outro lado esse tempo todo.
Kaien abaixou o olhar.
Mesmo com raiva...
Ele não conseguia negar.
A dor era maior.
Zareth continuava parado.
Sem dizer nada.
Seus olhos estavam fixos no oceano.
Mas sua expressão mostrava que ele também carregava aquele peso.
Então...
Um som.
Um simples estalar de dedos.
Estalo.
Os três imediatamente ficaram alertas.
O ar mudou.
A pressão aumentou.
E na frente deles...
Uma figura apareceu.
Número Um.
Mas diferente das outras vezes.
Sem sorriso.
Sem aquela expressão calma e superior.
Sem qualquer diversão.
Apenas vazio.
Ele encarou os três.
E começou a andar lentamente.
— A igreja...
Sua voz era fria.
— Nunca aprendeu a controlar seus desejos.
Kaien e Shizuna ficaram atentos.
Número Um continuou.
— O desejo de dominar.
— O desejo de julgar.
— O desejo de matar.
Ele parou.
Seus olhos ficaram mais escuros.
— Eles sempre acreditaram que eram diferentes.
Uma pausa.
— Mas no final...
Ele colocou as mãos para trás.
De forma elegante.
Quase como um rei dando uma ordem.
— São apenas mais um grupo usando poder para decidir quem merece viver.
O vento ficou mais forte.
— Então Vorthal devolverá esse desejo para eles.
Kaien segurou sua arma.
— Do que você está falando?
Número Um olhou para o horizonte.
— Uma guerra começará.
Silêncio.
— Em Celestria.
O nome fez todos ficarem sérios.
— A cidade onde a igreja construiu seu trono.
Ele virou o rosto.
— Eles serão atacados.
Uma pausa.
— E Vorthal participará.
Os olhos de Shizuna se abriram.
Número Um continuou:
— Igreja.
— Reinos.
— Inimigos.
— Civis.
Sua voz não mudou.
— Todos aqueles que ficarem no caminho serão eliminados.
Então...
Ele estalou os dedos novamente.
Estalo.
— Em breve...
Sua voz ecoou.
— Nós atacaremos Celestria.
E desapareceu.
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Enquanto isso...
Muito longe dali.
O oceano estava calmo.
Uma enorme embarcação navegava pelas águas.
O navio dos Kurotsume.
Agora com novos integrantes.
Kidd.
E Billy.
Na ponta do navio...
Isamu e Ravik conversavam com Kidd.
O velho pirata observava o mar.
Seu rosto estava tranquilo.
Mas seus olhos carregavam lembranças.
— Existe algo que eu preciso contar.
Isamu e Ravik olharam para ele.
Kidd respirou fundo.
— Eu sei onde meu antigo bando está.
Ravik imediatamente levantou a cabeça.
— Por que está falando isso mais uma vez?
— Você já disse que sabe onde eles estão.
Kidd olhou para ele.
— Porque...
Uma pausa.
— A maioria deles estão mortos.
Silêncio.
Ravik ficou sem reação.
— Mortos?
Kidd assentiu.
— Sim.
O vento passou.
— Mas não todos.
Isamu ficou sério.
— Quem sobrou?
Kidd olhou para o horizonte.
— Uma pessoa.
Ele fechou os olhos.
— Uma mulher.
Ravik cruzou os braços.
— Quem?
Kidd respondeu:
— Lady Freeda.
Uma pausa.
— Mas todos chamavam apenas de Freeda.
O nome chamou atenção.
— Ela era uma das pessoas mais fortes do meu antigo bando.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Tinha um Kai poderoso.
Um pequeno sorriso apareceu.
— Elegante também.
Billy, ao fundo, ouviu.
Mas permaneceu quieto.
Kidd continuou:
— A última informação que tive...
Ele apontou para o sul.
— Ela estava em uma ilha.
— Uma ilha de neve.
Isamu franziu a testa.
— Neve?
Kidd assentiu.
— O nome dela é New Moon.
Ele sorriu levemente.
— Um lugar estranho.
— Parece um paraíso.
Uma pausa.
— Os moradores vivem em paz.
— Sem guerras.
— Sem escravidão.
Ravik girou lentamente o tambor da sua arma.
Click.
Isamu colocou a mão sobre suas duas espadas.
A primeira.
E a espada que um dia pertenceu a Lysera.
Depois ajeitou a arma que Ravik havia dado para ele.
— Então vamos buscar ela.
Kidd olhou para os dois.
— Mesmo se ela não quiser voltar?
Ravik respondeu imediatamente:
— Vamos convencer.
Isamu sorriu.
— Não importa o que aconteça.
Kidd soltou uma risada baixa.
— Vocês realmente são insistentes.
Ravik olhou para ele.
— Onde fica?
Kidd apontou.
— Sul.
Isamu virou o rosto.
— NYRA!
A navegadora olhou para trás.
— Mude a rota.
Ela entendeu.
— Para onde?
Isamu respondeu:
— Sul.
Nyra assentiu.
O leme começou a girar.
O enorme navio mudou sua direção.
Seguindo para a ilha de New Moon.
Billy observava tudo de longe.
Ele olhou para Kidd.
Depois para o horizonte.
E deu um pequeno sorriso.
Porque ele sabia exatamente quem eles estavam indo buscar.
E sabia que aquela viagem...
Estava apenas começando.