Capítulo 124 — A Ilha da Lua Nova
O vento uivava pelas montanhas congeladas.
A neve deslizava lentamente pelas encostas, formando pequenas espirais brancas que desapareciam no céu acinzentado.
No topo de um dos picos...
Uma única figura permanecia imóvel.
Seu manto negro balançava violentamente.
O capuz escondia quase completamente seu rosto.
A foice repousava presa às costas.
Ren.
Ele permanecia olhando o horizonte em silêncio.
Nenhum som além do vento.
Nenhuma expressão além daquele vazio que já havia tomado conta de seus olhos.
Lentamente...
Sua mão saiu de dentro do manto.
Entre os dedos havia um papel já um pouco amassado pelo tempo.
Um cartaz.
Ren abaixou os olhos.
No centro dele...
O rosto de Isamu.
Muito diferente do garoto que havia conhecido meses atrás.
Agora sua expressão era firme.
Seus cabelos balançavam ao vento da fotografia.
Abaixo da imagem...
«ISAMU
Membro importante dos Piratas Kurotsume
Recompensa: 500.000 Coroas de Prata
Vivo ou Morto»
Ren permaneceu encarando aquele rosto durante vários segundos.
Seu olhar ficou distante.
Na própria memória...
Ainda existia aquele garoto simples entrando num pequeno barco.
Ainda existia o sorriso tímido.
As conversas durante a viagem.
O momento em que Isamu insistiu para que Ren comesse junto dele.
O dia em que dividiram pão enquanto o mar permanecia completamente silencioso.
Tudo aquilo...
Parecia pertencer a outra vida.
O vento aumentou.
Ren apertou o cartaz.
Sua voz saiu quase inaudível.
— ...Me desculpe...
Fechou os olhos por um instante.
— Isamu.
Silêncio.
O vento continuou soprando.
Então...
Algo passou voando diante de seus olhos.
Um papel.
Levado pela ventania.
Ele girava diversas vezes no ar antes de cair dezenas de metros abaixo, sobre a neve.
Ren franziu a testa.
No instante seguinte...
BOOM!
A neve explodiu.
Seu corpo desapareceu do topo da montanha.
Apenas uma rajada branca ficou para trás.
Em menos de um segundo...
Ele já estava lá embaixo.
Ajoelhado.
Sua mão segurava o papel antes mesmo dele tocar totalmente o chão.
Ren virou lentamente o cartaz.
...
Seu corpo congelou.
Seus olhos se abriram discretamente.
Era uma fotografia antiga.
Muito antiga.
Aquela roupa...
Aquele rosto...
Aquela expressão...
Era ele.
Ainda na antiga vila da Igreja.
A fotografia era uma das poucas que existiam.
Kanzaki havia tirado aquela foto anos atrás.
Aoi também possuía uma cópia.
Ren permaneceu imóvel.
Abaixo da fotografia...
«REN
Ex-guerreiro da Igreja
Traidor — Membro de Aetheryon
Inimigo declarado de Celestria
Recompensa: 250.000 Coroas de Prata
Vivo ou Morto»
O papel tremia entre seus dedos.
Ren apertou lentamente o cartaz.
Amassando-o.
Seu maxilar travou.
Pela primeira vez...
Aquilo era oficial.
Ele não era apenas alguém escondido.
Não era apenas um homem procurado por alguns soldados.
Agora...
Todo o continente conhecia seu rosto.
Todo caçador de recompensas.
Todo reino.
Toda cidade.
Qualquer pessoa poderia tentar matá-lo.
Ren fechou lentamente os olhos.
— Então...
Abriu novamente.
— Agora eu realmente não tenho para onde voltar.
O vento levou pequenos flocos de neve enquanto ele guardava os dois cartazes dentro do manto.
Sem dizer mais nada...
Voltou a caminhar entre as montanhas congeladas.
---
Dias depois...
Muito ao sul do continente.
O enorme navio dos Kurotsume cortava o mar tranquilamente.
As ondas batiam contra o casco.
As velas estavam completamente abertas.
Nyra permanecia firme no leme.
Então...
Ela sorriu.
— Terra à frente!
Todos imediatamente levantaram a cabeça.
Isamu caminhou até a ponta do navio.
Ravik fez o mesmo.
Billy colocou as mãos sobre o balcão improvisado da embarcação.
Kidd levantou devagar.
Quando a névoa começou a desaparecer...
Todos ficaram em silêncio.
Uma ilha.
Mas diferente de qualquer outra.
As casas eram pequenas.
Coloridas.
As ruas eram limpas apesar da neve.
Crianças corriam umas atrás das outras.
Velhos conversavam sorrindo nas portas.
Mulheres preparavam comida enquanto outras pessoas tocavam instrumentos simples perto da praça principal.
Pássaros cruzavam o céu azul.
Não havia fumaça.
Não havia gritos.
Não havia medo.
Parecia...
Um pedaço de outro mundo.
Lorian foi o primeiro a falar.
Sua voz saiu quase como um sussurro.
— Eu...
Respirou fundo.
— Nunca imaginei que existisse um lugar assim.
Selka tampou a boca com as mãos.
Os olhos estavam brilhando.
— É...
Ela nem conseguia terminar.
— É lindo...
Brakk soltou uma gargalhada.
— HAHAHA!
— Então ainda existem lugares normais nesse mundo!
Drogan cruzou os braços.
Sorriu pela primeira vez em dias.
— Gostei daqui.
Mais atrás...
Isamu observava tudo em silêncio.
Seu sorriso apareceu lentamente.
Sem perceber...
Pensou consigo mesmo.
"Capitão..."
"Você ia gostar desse lugar..."
"Muito..."
Por alguns segundos...
Era como se pudesse imaginar Veyrion caminhando por aquelas ruas.
Rindo.
Conversando com os moradores.
Provavelmente bebendo com metade da ilha.
Isamu abaixou levemente a cabeça.
Mas Ravik rapidamente trouxe todos de volta.
— Não esqueçam o motivo da viagem.
Sua voz voltou a ficar séria.
— Estamos aqui para encontrar uma antiga companheira do Kidd.
Todos assentiram.
O navio finalmente diminuiu a velocidade.
As velas começaram a ser recolhidas.
Nyra travou o leme.
— Chegamos.
Ela desceu até o restante do grupo.
Enquanto isso...
No solo.
Os primeiros moradores começaram a perceber a enorme embarcação.
Um...
Depois outro...
Até que dezenas de pessoas já observavam o navio.
Alguns cochichavam.
Outros seguravam seus filhos.
O clima alegre da ilha começou a desaparecer.
Um homem arregalou os olhos.
— Aquela bandeira...
Outra mulher levou a mão à boca.
— Piratas...
Em poucos segundos...
Sinos começaram a tocar.
Pelas ruas.
Pela praça.
Pela ilha inteira.
E então...
Cavalos apareceram.
Cerca de vinte soldados montados.
Armaduras simples.
Brancas.
Com símbolos de luas gravados no peito.
Espadas comuns.
Nada extravagante.
Apenas defensores daquela pequena ilha.
O comandante puxou as rédeas.
Parando diante da embarcação.
— Piratas Kurotsume!
Sua voz ecoou pela praia.
— Vocês não são bem-vindos em New Moon!
— Retirem-se imediatamente!
Isamu permaneceu quieto.
Ravik colocou a mão perto da arma.
Brakk segurou discretamente o cabo do martelo.
Mas antes que qualquer um respondesse...
Kidd desceu sozinho.
Seus pés tocaram a neve.
Todos os soldados ficaram tensos.
O velho pirata sorriu.
— Calma.
Levantou as mãos.
— Não viemos causar confusão.
O comandante não abaixou a espada.
— Então o que desejam?
Kidd respondeu naturalmente.
— Procuramos uma velha conhecida.
— Lady Freeda.
Os moradores começaram imediatamente a cochichar.
Os soldados trocaram olhares.
O comandante franziu a testa.
— O que querem com Lady Freeda?
Kidd riu.
— Somos antigos companheiros.
— Tenho uma proposta para ela.
O silêncio tomou conta da praia.
O comandante começou a ligar os pontos.
Companheiros...
Lady Freeda...
Velho pirata...
Ele olhou melhor para Kidd.
Depois para Billy.
Depois para a espada presa na cintura daquele homem.
Seus olhos se arregalaram.
Ele murmurou.
— Não...
Respirou fundo.
— É ele...
Sua voz falhou.
— Bartholomeu D. Kidd...
Os moradores começaram a recuar.
Algumas crianças foram puxadas pelos pais.
O comandante levantou lentamente a espada.
— Eles vão...
Mas uma voz feminina interrompeu tudo.
— Tá...
Todos olharam para trás.
— Já chega.
O silêncio dominou completamente a praia.
Entre os moradores...
Uma mulher caminhava tranquilamente.
Bebia um gole de saquê.
Como se nada estivesse acontecendo.
Ela continuou andando.
— O que deseja...
Outro gole.
— Em minha ilha...
Mais alguns passos.
— Kidd?
Kidd abriu um sorriso.
— Olha só...
— Achei que demoraria mais para aparecer.
Ela finalmente saiu da sombra das construções.
A luz do sol revelou completamente sua aparência.
Cabelos longos e loiros.
Bandana negra com o símbolo de uma lua.
Olhos escuros.
Uma expressão dura.
Um casaco aberto coberto por pequenas luas desenhadas.
Regata branca simples.
Calça preta.
Botas escuras.
Uma antiga pistola repousava presa em sua cintura.
Lorian observou de cima do navio.
— É ela?
Selka respondeu baixinho.
— Acho...
Billy sorriu.
— Não.
— Tenho certeza.
— Aquela é Lady Freeda.
Kidd permaneceu sorrindo.
— Você continua exatamente igual.
Freeda continuou caminhando.
Passando entre soldados e moradores.
— Vocês assustaram minha ilha.
Parou diante dele.
— Então fala logo.
— O que quer?
Kidd respirou.
— Tenho uma proposta interessante.
No mesmo instante...
CLACK!
Ninguém viu.
A pistola já não estava mais na cintura dela.
Agora...
O cano frio encostava na testa de Kidd.
Todos os soldados prenderam a respiração.
Os Kurotsume imediatamente ficaram tensos.
Freeda tremia de raiva.
— Interessante?
Sua voz saiu carregada de ódio.
— Você ainda tem coragem de aparecer aqui...
— Depois de tantos anos?
Ela apertou ainda mais a arma.
— Você destruiu nossas vidas.
Olhou rapidamente para Billy.
— E você...
Sua voz endureceu.
— Como conseguiu continuar ao lado desse homem?
Billy permaneceu em silêncio.
Freeda continuou.
— Kidd traiu todos nós.
— Ele desapareceu.
— Nos abandonou.
— E por causa disso...
Sua voz finalmente falhou.
— Eles morreram.
Os olhos começaram a marejar.
— Nossos amigos morreram, Billy!
Ela gritou.
— Por culpa dele!
Silêncio.
Nem Kidd...
Nem Billy...
Sorriam mais.
Kidd olhou diretamente para ela.
Sem desviar.
— Você não sabe o que realmente aconteceu.
Freeda respondeu imediatamente.
— Não tente mentir.
— Eu vi vocês desaparecerem!
Kidd balançou a cabeça.
— Eu voltei.
Ela ficou imóvel.
— Eu lutei por vocês.
— Cheguei tarde.
— Mas lutei.
Sua voz ficou pesada.
— Eu fui obrigado a abandonar o mar.
— Não por covardia.
— Mas porque não existia outra escolha.
Freeda apertou novamente a arma.
— Mentira.
Kidd respirou fundo.
Depois...
Olhou diretamente em seus olhos.
— Se você me odeia...
Abriu levemente os braços.
— Então atire.
O silêncio ficou insuportável.
— Eu não vou impedir.
Freeda tremia.
— Mas quando chegar seu último dia...
Sua voz ficou baixa.
— Você vai morrer acreditando numa mentira.
— Sem nunca ter escutado a verdade.
Mais um segundo de silêncio.
Kidd deu um pequeno passo.
— Freeda...
Sua voz era sincera.
— Nós podemos destruir a Igreja.
— Me dê...
— Apenas...
— Mais uma chance.
...
A mão dela tremia.
Os dedos perderam força.
A pistola abaixou lentamente.
Ela respirava com dificuldade.
Então guardou a arma novamente.
Virou de costas.
Começou a caminhar.
Sem olhar para ninguém.
Antes de desaparecer entre as ruas da ilha...
Disse apenas uma frase aos soldados.
— Mostrem o caminho.
No instante seguinte...
Ela desapareceu em um borrão.
Os moradores permaneceram completamente confusos.
Os soldados também.
Mas obedeceram imediatamente.
O comandante respirou fundo.
Olhou para Kidd.
— Sigam-nos.
Os Kurotsume finalmente desembarcaram.
Billy caminhava ao lado de Kidd.
Sorriu de leve.
— Ela ficou mais séria.
— Achei que isso fosse impossível.
Kidd soltou uma pequena risada.
— Eu também.
Os dois seguiram os soldados.
Enquanto, muito à frente...
Escondida entre as montanhas geladas de New Moon...
Lady Freeda caminhava sozinha.
E pela primeira vez em muitos anos...
Seu coração voltava a ficar inquieto.