Capítulo 125 — O Último Convite (Parte 1)
A noite já havia tomado conta de New Moon.
Lá fora, uma fina camada de neve cobria lentamente os telhados das pequenas casas espalhadas pelas montanhas. O vento frio descia dos picos mais altos carregando pequenos flocos que brilhavam sob a luz da lua.
Apesar do frio intenso...
A ilha continuava viva.
Ao longe ainda era possível ouvir algumas crianças correndo pelas ruas estreitas da vila, moradores conversando próximos às lareiras e o som distante de instrumentos musicais vindo de alguma taverna.
Era um lugar estranho.
Parecia... um pedaço de paz perdido naquele mundo.
...
No alto de uma das montanhas...
Uma casa de madeira, simples por fora, mas extremamente aconchegante por dentro.
As paredes eram cobertas por quadros antigos, mapas envelhecidos e algumas armas já enferrujadas, guardadas apenas como lembranças.
Uma enorme lareira aquecia todo o ambiente.
Seu fogo estalava calmamente.
Sobre uma grande mesa de madeira escura...
Os Kurotsume estavam sentados.
Ninguém dizia absolutamente nada.
Apenas o som do fogo queimando preenchia a sala.
De um lado da mesa...
Isamu.
Ao seu lado, Ravik.
Depois Nyra, Selka, Lorian, Brakk e Drogan.
Do outro...
Billy e Kidd.
E, na cabeceira da mesa...
Lady Freeda.
Ela segurava uma pequena garrafa de saquê pela metade.
Seu cotovelo repousava sobre a mesa enquanto seus olhos permaneciam baixos.
Nem sequer olhava para Kidd.
O silêncio parecia durar uma eternidade.
...
Até que...
Ela ergueu lentamente a garrafa.
Bebeu um pequeno gole.
Respirou pelo nariz.
E finalmente levantou os olhos.
Eles encontraram diretamente os de Kidd.
Seu semblante permanecia completamente sério.
Sem qualquer traço do sorriso debochado que provavelmente um dia ela teve.
— ...
Sua voz ecoou baixa pela casa.
— Então...
Ela apoiou a garrafa na mesa.
— Qual é essa proposta?
Silêncio.
Todos olharam discretamente para Kidd.
Ele cruzou os braços atrás da cabeça.
Sorriu como se nada tivesse acontecido.
— Antes disso...
Olhou para a garrafa de saquê.
— Você realmente vai receber velhos amigos sem oferecer uma bebida?
Billy levou a mão ao rosto.
Já imaginando a resposta.
Freeda apenas fechou lentamente os olhos.
Respirou fundo.
— Vinte anos...
Ela voltou a encará-lo.
— Vinte anos...
— E você continua exatamente o mesmo idiota.
Billy acabou soltando uma risada baixa.
— Eu avisei...
Kidd deu uma pequena risada.
— Isso foi um elogio.
— Não foi.
— Pra mim foi.
Ela balançou a cabeça.
— Continua folgado.
— Continua vivo.
— Continua me irritando.
Kidd abriu um sorriso maior.
— Ainda bem.
— Achei que tivesse perdido esse talento.
Os dois permaneceram alguns segundos apenas se encarando.
Era estranho.
Mesmo depois de tantos anos...
Aquela conversa parecia de dois antigos companheiros que haviam brigado apenas na semana anterior.
Mas...
A atmosfera mudou.
O sorriso de Kidd desapareceu.
Ele descruzou os braços.
Apoiou lentamente as mãos sobre a mesa.
E olhou para todos os presentes.
— Certo...
Sua voz ficou mais baixa.
— Acho melhor começar pelas apresentações.
Ele virou levemente a cabeça para os Kurotsume.
— Eles...
— São a tripulação do meu filho.
...
O tempo pareceu parar.
Freeda simplesmente ficou olhando para ele.
Sem reação.
Piscou apenas uma vez.
— ...
— Filho?
Sua voz saiu quase num sussurro.
Ela lentamente virou o rosto para os Kurotsume.
Os observou um por um.
Primeiro...
Brakk.
O enorme homem cruzava os braços em silêncio.
Depois Drogan.
Sentado reto como uma muralha.
Nyra mexia distraidamente uma pequena lâmina entre os dedos.
Selka parecia desconfortável desde que entraram naquela casa.
Lorian permanecia completamente imóvel.
Como sempre.
Então...
Ravik.
Armas presas à cintura.
Olhar firme.
...
E por último...
Isamu.
Seu olhar parou nele.
Ela franziu levemente a testa.
"..."
Os olhos dela desceram lentamente.
Até a bainha.
Depois voltaram.
Ela olhou novamente para Isamu.
Depois para Kidd.
Depois outra vez para Isamu.
Sua expressão começou a mudar.
O coração parecia ter entendido antes da mente.
Ela respirou um pouco mais forte.
— Espera...
Sua voz falhou.
— Cadê...
Ela olhou outra vez ao redor da mesa.
Como se ainda esperasse encontrá-lo.
— Cadê...
Sorriu sem perceber.
Um sorriso pequeno.
Cheio de esperança.
— O Veyrion?
Silêncio.
Ninguém respondeu.
Selka abaixou os olhos.
Nyra parou completamente de brincar com a lâmina.
Brakk fechou lentamente os punhos.
Ravik desviou o olhar.
Isamu apenas abaixou a cabeça.
O silêncio...
Durou segundos intermináveis.
Freeda começou a estranhar.
Seu sorriso foi desaparecendo.
Ela olhou para Kidd.
Esperando que ele quebrasse aquele silêncio.
E ele quebrou.
Baixinho.
Quase sem força.
— Ele morreu.
...
O mundo pareceu congelar.
Freeda permaneceu imóvel.
Nem piscou.
Sua mão continuava segurando a garrafa de saquê.
Mas seus dedos começaram a tremer.
— ...
— Não...
Ela olhou novamente para Isamu.
Depois para Ravik.
Depois para Kidd.
Como se esperasse que alguém dissesse que era mentira.
Que era uma brincadeira cruel.
Que Veyrion apareceria pela porta rindo.
Mas...
Ninguém dizia nada.
Sua voz saiu trêmula.
— O...
Ela engoliu seco.
— O que aconteceu?
Antes que Kidd pudesse responder...
Ravik falou.
Foi a primeira vez que encarou Freeda diretamente.
Seu olhar era pesado.
Cheio de ódio.
— A Igreja.
Uma única frase.
Mas carregava anos de rancor.
Freeda permaneceu imóvel.
Ravik continuou.
— Mais especificamente...
Respirou fundo.
— Os Shinpan-Kan Número Cinco...
— Kagetsu.
— Número Quatro...
— Seinaru.
Fechou lentamente o punho.
— E...
Seu olhar endureceu completamente.
— Yang.
Só aquele nome já fez Kidd cerrar discretamente os dentes.
Ravik apoiou os cotovelos na mesa.
— Yang...
— Capturou o Isamu.
Apontou discretamente para ele.
— Pretendia executá-lo publicamente.
— Em troca...
Sorriu de maneira amarga.
— Receberia o cargo de vice-presidente de Celestria.
Freeda olhava sem interromper.
Ravik respirou lentamente.
Como se revivesse tudo.
— Nós descobrimos.
— Corremos até lá.
— Pensamos que seria só mais um resgate.
Baixou os olhos.
— Mas...
Sua voz falhou.
— O Veyrion...
Sorriu de forma triste.
— Fez exatamente o que qualquer capitão faria.
Levantou novamente o rosto.
— Ele ficou na nossa frente.
Flash.
Veyrion lutando com os três.
Sangue.
Explosões.
O sorriso dele.
"Vocês fogem."
"Eu seguro eles."
...
Ravik fechou os olhos por um instante.
— Nós...
— Não conseguimos salvar ele.
Silêncio.
A voz dele ficou ainda mais baixa.
— Perdemos nosso capitão.
A sala inteira permaneceu imóvel.
Freeda apenas olhava para a mesa.
Seus dedos apertavam tanto a garrafa de saquê que pareciam prestes a quebrá-la.
Então...
Isamu finalmente falou.
Pela primeira vez.
Sua voz saiu baixa.
— Eu devia ter morrido naquele dia.
Todos olharam para ele.
Ele não levantou a cabeça.
— Se eu não tivesse sido capturado...
— O capitão nunca teria precisado ir até lá.
Ravik imediatamente respondeu.
— Para com isso.
Isamu ignorou.
— Foi por minha culpa.
— Não foi.
Ravik bateu a mão na mesa.
— Já chega dessa palhaçada.
A voz dele ecoou pela casa.
— Quantas vezes você vai repetir isso?
Isamu finalmente levantou os olhos.
Ravik continuou.
— Você acha que conhece o Veyrion melhor do que eu?
— Melhor do que qualquer um aqui?
Silêncio.
— Se fosse eu.
— Se fosse o Brakk.
— A Selka.
— A Nyra.
— O Drogan.
— O Lorian.
— Ou qualquer pessoa dessa mesa...
Ele apontou para todos.
— Ele faria exatamente a mesma coisa.
— Então para de tentar carregar uma culpa que nunca foi sua!
O silêncio voltou.
Isamu permaneceu olhando para Ravik.
Por alguns segundos.
Então...
Apenas abaixou a cabeça novamente.
Sem responder.
Kidd observava tudo em silêncio.
Depois...
Respirou fundo.
Olhou para Freeda.
— Essa...
Sua voz ficou pesada.
— É justamente a razão da proposta.
Ela finalmente ergueu os olhos.
Kidd continuou.
— Eu passei vinte anos tentando esquecer o mar.
— Passei vinte anos tentando acreditar que tinha feito a escolha certa.
Baixou lentamente a cabeça.
— Mas...
Sorriu de forma triste.
— Eu descobri a morte do meu filho sem sequer poder vê-lo uma última vez.
O silêncio voltou a dominar a casa.
A lareira estalava lentamente.
Kidd olhou para sua velha espada apoiada ao lado da cadeira.
Passou os dedos sobre o cabo.
— Existe um homem...
Sua voz endureceu.
— Que eu preciso encontrar antes de morrer.
Os olhos dele perderam completamente qualquer traço de alegria.
Billy fechou discretamente os olhos.
Kidd continuou.
— E existe outro...
— Que precisa pagar pela morte do Veyrion.
— Yang.
Respirou fundo.
— Não quero apenas vingança.
Levantou lentamente.
— Quero destruir aquela cidade.
— Quero acabar com a Igreja.
Olhou diretamente para Freeda.
— Mas...
— Eu não consigo fazer isso sozinho.
Silêncio.
Freeda permaneceu completamente imóvel.
O fogo da lareira refletia em seus olhos.
Ela olhou pela janela.
As crianças ainda brincavam na neve.
Os moradores ainda riam.
A paz.
A paz que ela levou décadas para encontrar...