Capítulo 125 — O Último Convite (Parte 2)
O silêncio dentro da cabana parecia mais pesado do que antes.
Ninguém ousava interromper os pensamentos de Freeda.
Ela permanecia parada diante da janela, observando a neve cair lentamente sobre New Moon.
Lá embaixo...
Algumas crianças corriam pela rua principal.
Um homem carregava lenha nos ombros enquanto sua filha pequena tentava ajudá-lo, mesmo sem força alguma.
Mais adiante, uma senhora colocava sopa quente em tigelas para alguns trabalhadores que voltavam das plantações.
Não havia medo.
Não havia gritos.
Não havia sangue.
Era...
Paz.
...
Freeda apertou lentamente a garrafa de saquê entre os dedos.
Sua voz saiu baixa.
Quase como se estivesse falando apenas para si mesma.
— Demorei tanto...
— Tanto tempo...
Ela respirou fundo.
— Para encontrar um lugar como esse...
O vento bateu contra a janela.
Ela fechou os olhos.
— Depois daquele dia...
— Depois que todo mundo se foi...
— Eu passei anos andando sem destino.
Sua voz começava a perder a firmeza.
— Passei por ilhas destruídas...
— Vi crianças morrerem de fome...
— Vi guerras começarem por orgulho...
— Vi pessoas matarem por diversão...
Ela sorriu de maneira amarga.
— Então eu encontrei New Moon.
Olhou novamente para fora.
— Aqui...
— Ninguém pergunta quem você foi.
— Só perguntam quem você quer ser daqui pra frente.
O silêncio tomou conta da casa outra vez.
Kidd permaneceu ouvindo.
Sem interrompê-la.
Freeda virou lentamente o rosto.
Encarou Kidd.
— E agora...
— Você aparece depois de vinte anos...
Sua voz endureceu.
— Assustando o meu povo.
— Dizendo que quer destruir a Igreja.
— Dizendo que quer voltar ao mar...
Ela caminhou lentamente até a mesa.
Parou exatamente em frente a Kidd.
— Você realmente acha...
— Que é tão simples assim?
Kidd sustentou seu olhar.
Sem desviar.
— Não.
Freeda franziu a testa.
Kidd continuou.
— Eu sei melhor do que qualquer pessoa...
— Que não é simples.
Silêncio.
Ele apoiou os braços sobre a mesa.
— Eu sei...
— Porque fui eu quem destruiu tudo.
Billy abaixou discretamente a cabeça.
Os Kurotsume permaneceram em silêncio.
Kidd continuou.
— Eu também queria paz.
— Também queria esquecer.
— Também tentei convencer a mim mesmo...
Sorriu de maneira triste.
— Que abandonar o mar tinha sido suficiente.
Respirou lentamente.
— Mas toda vez...
— Toda maldita vez...
— Que eu fechava os olhos...
Flash.
Seu antigo bando.
Risadas.
O navio navegando.
Freeda discutindo com Billy.
Um pequeno Veyrion tentando levantar uma espada grande demais.
Depois...
Fogo.
Destruição.
Sora.
Corpos espalhados.
Sangue.
O sorriso desapareceu.
— Eu lembrava deles.
Sua voz falhou pela primeira vez.
— Todos.
Olhou diretamente para Freeda.
— Inclusive de você.
A mulher permaneceu imóvel.
Ele deu um passo à frente.
— Você acredita que eu abandonei vocês.
— E eu entendo.
— Porque foi exatamente isso que pareceu.
Respirou fundo.
— Mas...
— Eu nunca fugi.
— Nunca.
Seus olhos endureceram.
— Eu lutei.
— Até não conseguir mais levantar minha espada.
Billy fechou lentamente os olhos.
Como se revivesse aquele dia.
Kidd continuou.
— Depois...
— Fiz um acordo.
— Um acordo que me obrigou a abandonar tudo.
Freeda apertou os dentes.
— Um acordo...
— Que custou meu bando.
— Minha esposa.
— Meu filho.
Sua voz ficou pesada.
— E mesmo assim...
Sorriu de maneira amarga.
— Eu continuei vivo.
Silêncio.
Freeda desviou o olhar.
Kidd respirou fundo.
— Se você me odeia...
— Tem todo direito.
— Se quiser me culpar...
— Faça isso.
— Porque eu também me culpo.
Os olhos dele perderam completamente qualquer brilho.
— Todos os dias.
Ninguém dizia uma palavra.
Apenas o som da madeira queimando na lareira preenchia a casa.
Então...
Kidd levantou lentamente a cabeça.
E encarou Freeda com firmeza.
— Mas...
Sua voz voltou a ficar forte.
— Antes de morrer...
— Eu preciso acabar isso.
— Pela minha esposa.
— Pelo meu filho.
— Pelo nosso bando.
— Por todo mundo que ficou naquele dia.
Ele deu mais um passo.
— Me dê...
— Só mais uma chance.
Silêncio.
Longo.
Pesado.
Freeda permaneceu imóvel.
O olhar perdido.
Ela parecia lutar contra si mesma.
Até que...
Olhou discretamente para Isamu.
O garoto permanecia sentado.
Ainda usando aquele casaco.
O mesmo casaco...
Que um dia pertenceu ao pequeno Veyrion.
Ela sorriu sem perceber.
Um sorriso pequeno.
Cheio de saudade.
...
Flash.
Um garoto de cabelos escuros escondido atrás dela durante uma tempestade.
— Tia Freeda...
Ela ria.
Bagunçava os cabelos dele.
— Capitão nenhum pode ter medo de trovão.
O menino fazia bico.
— Eu nem sou capitão...
Billy ria alto.
Kidd aparecia ao fundo carregando peixe.
Todos riam.
...
O flash desapareceu.
Freeda respirou fundo.
Os olhos já estavam marejados.
Ela virou o rosto rapidamente para que ninguém percebesse.
— Aquele idiota...
Sorriu baixinho.
— Chorava por qualquer coisa.
Billy riu.
— Chorava mesmo.
Kidd sorriu.
— Até de medo de altura.
Freeda balançou a cabeça.
— E agora...
Olhou novamente para Isamu.
— Criou uma tripulação...
Silêncio.
Ela respirou profundamente.
Depois...
Endureceu novamente o rosto.
Virou de costas.
Abriu lentamente a porta da cabana.
O vento frio entrou imediatamente.
Lá fora...
Um homem usando armadura prateada aguardava.
Era o comandante da guarda de New Moon.
Ao vê-la...
Curvou-se.
— Lady Freeda.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois falou.
— Durante minha ausência...
O homem ergueu a cabeça.
Ela continuou.
— Você ficará responsável pela ilha.
Os olhos dele arregalaram.
— Lady...
— A senhora...
Ela apenas interrompeu.
— Cuide das pessoas.
— Como eu cuidei.
— Não deixem faltar comida.
— Nem proteção.
— Nem esperança.
O comandante permaneceu em silêncio.
Depois colocou o punho sobre o peito.
— Será uma honra.
Freeda assentiu.
Voltou lentamente para dentro da casa.
Todos já tinham entendido.
Mas ninguém teve coragem de perguntar.
Ela caminhou até a mesa.
Parou diante de Kidd.
Ficaram alguns segundos apenas se encarando.
Então...
Ela soltou um longo suspiro.
— Você continua sendo um velho insuportável.
Kidd sorriu.
— Eu sei.
Ela cruzou os braços.
— Continua convencendo as pessoas do pior jeito possível.
Billy riu alto.
— Também sei.
Freeda finalmente...
Sorriu.
Foi um sorriso pequeno.
Mas verdadeiro.
O primeiro desde que eles chegaram em New Moon.
— ...
— Mas...
Olhou para todos os Kurotsume.
Depois para Kidd.
— Acho que essa velha ainda consegue segurar uma arma.
Brakk abriu um enorme sorriso.
Drogan bateu forte na mesa.
Selka levou as mãos à boca.
Nyra soltou uma risada.
Lorian apenas fechou os olhos por um instante.
Ravik sorriu de lado.
Isamu respirou aliviado.
Billy bateu nas costas de Kidd.
— Eu falei que ela ia aceitar.
Kidd riu.
— Eu também sabia.
Freeda olhou feio para os dois.
— Não exagerem.
Pegou novamente a garrafa de saquê.
Deu mais um gole.
— Ainda nem comecei a me arrepender.
Todos riram.
Pela primeira vez...
Aquela casa voltou a lembrar o antigo navio dos Piratas de Kidd.
O clima pesado havia desaparecido.
Ainda existia tristeza.
Ainda existia saudade.
Mas...
Pela primeira vez em muitos anos...
Também existia esperança.
Kidd levantou lentamente sua velha cutlass.
Apoiou-a sobre o ombro.
Sorriu olhando para seus antigos e novos companheiros.
— Então...
— Vamos voltar para o mar.
E, do lado de fora da cabana...
Enquanto a neve continuava caindo sobre New Moon...
Um novo capítulo da história dos Piratas de Kidd...
Finalmente começava.