Capítulo 125 — O Último Convite (Parte 3)
O antigo reino de Vorthal...
Agora...
Era apenas uma lembrança.
O vento atravessava as enormes ruas de pedra levando poeira, cinzas e pequenos pedaços de madeira carbonizada.
Casas destruídas permaneciam exatamente como haviam ficado após a batalha de Karthus e Ren há muito tempo atrás.
Janelas quebradas.
Bandeiras rasgadas.
Estátuas partidas ao meio.
Nenhuma voz.
Nenhuma criança.
Nenhum comerciante.
Somente...
Silêncio.
No centro daquele reino destruído...
Erguia-se o enorme castelo negro.
As muralhas estavam rachadas.
As torres haviam perdido parte de sua estrutura.
O enorme portão permanecia aberto, pendurado apenas por uma das dobradiças.
O vento atravessava seus corredores como se lamentasse tudo o que havia acontecido ali.
...
No grande salão do trono...
A luz da lua atravessava o teto parcialmente destruído.
Os antigos vitrais coloridos estavam espalhados pelo chão em milhares de pedaços.
O enorme tapete vermelho agora estava coberto por poeira.
No fim daquele salão...
Ainda permanecia o velho trono negro.
Rachado.
Coberto por marcas de batalha.
Mas ainda imponente.
...
Passos.
Lentos.
Precisos.
Uma figura caminhava pelo corredor.
Cada passo ecoava pelo castelo vazio.
Sem pressa.
Como se aquele lugar ainda lhe pertencesse.
Até finalmente parar diante do trono.
Número Um.
Seu longo manto escuro balançava suavemente com o vento que atravessava o salão.
Seus cabelos negros refletiam a luz da lua.
Ele permaneceu alguns segundos apenas observando o trono.
Em silêncio.
Então...
Sentou-se.
As mãos repousaram naturalmente sobre os apoios do trono.
Seu olhar percorreu lentamente todo o salão destruído.
As marcas nas paredes.
Os pilares quebrados.
As bandeiras de Vorthal caídas ao chão.
Ele fechou os olhos.
Por um instante...
Parecia ouvir novamente o reino vivo.
Soldados treinando.
Moradores conversando.
O som das espadas.
As gargalhadas.
Os corredores cheios.
...
Tudo desapareceu.
Quando abriu os olhos novamente...
Só existia silêncio.
Sua voz ecoou baixa.
— Vocês...
Olhou para o teto destruído.
— Arrancaram tudo.
Respirou lentamente.
— Meu reino...
— Meus homens...
— Minha história.
Ele levantou devagar.
Caminhou alguns passos.
Ao lado do trono havia uma pequena mesa de pedra quebrada.
Sobre ela...
Repousava um objeto coberto por um velho tecido negro.
Número Um segurou o pano.
Retirou-o lentamente.
Uma coroa.
Negra.
Não era feita apenas de metal.
Parecia viva.
Pequenas veias escuras percorriam sua estrutura.
Como se pulsassem.
No centro...
Uma pedra vermelha emitia um brilho fraco.
Na base da coroa...
Uma antiga inscrição.
Rei Demônio.
Número Um passou os dedos lentamente sobre aquelas letras.
Seu olhar permaneceu fixo nelas.
Yang tinha contado aquela história.
Anos atrás...
O ancestral mais temido daquele mundo havia carregado aquela coroa.
O chamado...
Rei dos Demônios.
E depois de uma batalha que entrou para as lendas...
Número Um havia derrotado aquele ser.
Desde então...
A coroa permanecia guardada.
Esperando.
...
Ele a ergueu lentamente.
O vento aumentou.
As cortinas rasgadas começaram a balançar.
A lua foi parcialmente escondida pelas nuvens.
O salão inteiro pareceu escurecer.
Sem dizer uma única palavra...
Número Um colocou a coroa sobre a cabeça.
No mesmo instante...
Uma onda gigantesca de Kai negro percorreu todo o castelo.
As paredes estremeceram.
As bandeiras rasgadas levantaram com a força do vento.
As pedras do chão começaram a vibrar.
Por alguns segundos...
Parecia que o próprio reino havia despertado.
Número Um abriu lentamente os olhos.
Agora...
O brilho branco de seus olhos parecia ainda mais intenso.
Ele observou o horizonte através do enorme buraco na parede.
Ao longe...
O continente.
Celestria.
Sua voz saiu firme.
Sem raiva.
Sem gritar.
Mas carregada de convicção.
— Esperem por mim...
Fechou lentamente a mão.
— O verdadeiro rei de Kaelthar...
— Ainda não terminou sua história.
---
Dias depois.
Na antiga cidade onde os poucos sobreviventes de Vorthal permaneciam...
A neve havia dado lugar a um céu cinzento.
No centro da cidade...
Uma área completamente aberta servia agora como campo de treinamento.
O som de metal ecoava sem parar.
CLANG!
Uma katana envolvida por Kai de fogo desceu violentamente.
Shizuna desviou no último instante.
Seu braço esquerdo foi completamente coberto por gelo cristalino.
Ela girou o corpo.
Um enorme arco de gelo atravessou o campo.
Kaien saltou.
Seu Kai explodiu sob seus pés.
As chamas empurraram seu corpo para o alto.
Ainda no ar...
Ele girou a katana.
As chamas desenharam um círculo flamejante.
— HAAAH!
O golpe caiu.
Shizuna cruzou o braço junto de sua katana.
Uma parede de gelo surgiu à sua frente.
BOOOOM!
O impacto espalhou vapor por todo o campo.
Os dois desapareceram entre a fumaça.
Segundos depois...
Faíscas.
Explosões.
Gelo sendo partido.
Chamas iluminando tudo.
As espadas se chocavam sem parar.
Mais distante...
Sentado sobre uma pedra.
General Zareth observava tudo em silêncio.
Seu corpo continuava completamente enfaixado.
Mesmo assim...
Um pequeno sorriso surgiu.
— Eles evoluíram...
Dentro da fumaça...
Kaien avançou outra vez.
Sua armadura agora era muito diferente da antiga.
Mais escura.
Mais pesada.
A antiga marca de "Número Seis" havia desaparecido.
No braço...
Uma nova faixa.
Comandante.
Ele atacava com muito mais precisão.
Muito mais controle.
Shizuna bloqueou outro golpe.
Sorriu discretamente.
— Está aprendendo.
Kaien respondeu apenas com outro ataque.
Ela desviou.
Seu braço de gelo acertou o peito dele.
Kaien deslizou vários metros.
Parou.
Respirando fundo.
Shizuna também respirava mais forte.
Ela guardou lentamente a katana.
— Chega.
Kaien fez o mesmo.
Os dois ficaram alguns instantes recuperando o fôlego.
Depois...
Shizuna sorriu de leve.
— Você melhorou muito desde o dia em que chegou a Vorthal.
Kaien abaixou a cabeça.
— Ainda estou longe.
— Está mais perto do que imagina.
Ela olhou para a cidade.
— Perdemos muita gente.
— Alguém precisava crescer.
O silêncio voltou.
Kaien observava sua própria espada.
Depois de alguns segundos...
Perguntou.
— Se...
Parou por um instante.
— Se encontrarmos a Aoi novamente...
Shizuna permaneceu olhando para frente.
Sem responder imediatamente.
O vento passou entre eles.
Ela fechou os olhos.
Depois respondeu com calma.
— Eu farei o que acreditar ser necessário naquele momento.
Sua voz não demonstrava ódio.
Mas também não demonstrava hesitação.
Ela começou a caminhar em direção à pequena base improvisada.
— Até lá...
— Continue ficando mais forte.
Kaien permaneceu sozinho.
O vento balançava sua capa.
Em sua mente...
Vieram lembranças.
Treinos.
Missões.
Conversas.
Aoi rindo.
Depois...
A imagem dela entrando no navio da Igreja.
Desaparecendo no horizonte.
Ele fechou lentamente a mão sobre o cabo da katana.
Olhou para o céu.
Sem dizer uma palavra.
---
Muito distante dali...
Em uma pequena cidade abandonada...
As tábuas rangiam com o vento.
Casas vazias.
Janelas quebradas.
Nenhum morador.
Dentro de uma antiga residência...
Uma mesa estava completamente coberta por documentos.
Mapas.
Projetos.
Relatórios.
Arquivos roubados de Celestria.
Yang caminhava lentamente ao redor da mesa enquanto analisava cada folha.
Eryndor permanecia de braços cruzados.
— Perdemos o artefato...
Disse ele.
— E o Ren.
Yang não respondeu imediatamente.
Pegou outro documento.
Leu algumas linhas.
Só então falou.
— Perdemos uma ferramenta.
Não a guerra.
Eryndor franziu a testa.
Yang espalhou vários documentos sobre a mesa.
— Veja.
Apontou para diferentes nomes.
— Engenheiros.
— Pesquisadores de Kai.
— Médicos.
— Cientistas.
— Todos trabalharam para a Igreja em algum momento.
Outro mapa foi aberto.
Marcado com dezenas de pontos vermelhos.
— Aqui...
— Laboratórios subterrâneos abandonados.
— Armazéns.
— Centros de pesquisa esquecidos.
Yang sorriu.
— Eles esconderam conhecimento por décadas.
— Nós apenas vamos... aproveitá-lo.
Eryndor começou a entender.
Aproximou-se da mesa.
Yang continuou.
— Sem Ren...
— Precisamos de algo maior.
Seu dedo percorreu lentamente o mapa.
— Não criaremos apenas um guerreiro.
— Criaremos um exército.
Ele ergueu os olhos.
— Eu entregarei meu sangue.
— Meu Kai.
— Para essas pessoas.
— Eles descobrirão como reproduzir parte dessa energia.
— E então...
Olhou para vários relatórios anatômicos.
— Corpos sem vontade própria poderão carregar fragmentos desse poder.
Eryndor permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Imaginando aquilo.
Yang continuou.
— Não sentirão medo.
— Não sentirão dor.
— Não discutirão ordens.
— Apenas avançarão.
A expressão de Eryndor mudou.
Pela primeira vez...
Sorriu.
— Um exército impossível de intimidar...
Yang assentiu.
— Enquanto isso...
Entregou uma pilha de documentos para Eryndor.
— Quero todos esses especialistas.
— Convença quem aceitar.
— Traga quem recusar.
Depois entregou outro mapa.
— E passe por esses laboratórios.
— Tudo o que puder ser aproveitado...
Traga.
Eryndor guardou cuidadosamente os papéis.
Yang continuou
— Eu farei massacres em cidades pequenas e grandes, todas que ficam fora do continente.
— Não por diversão, mas por matéria prima.
— Trarei os corpos das pessoas que matarei, e transformarmos eles em guerreiros de Kai com a ajuda das pessoas que você irá trazer.
Eryndor entendeu.
Seu Kai começou a emitir pequenos relâmpagos.
— Então...
Sorriu.
— Finalmente vamos construir a verdadeira Aetheryon.
Yang fechou a pasta restante.
Seu olhar voltou-se para a janela.
Na direção do continente.
— Quando estivermos prontos...
Disse calmamente.
— Celestria verá nascer uma guerra como jamais imaginou.
Eryndor assentiu.
Num clarão de relâmpagos negros e dourados...
Desapareceu.
Yang permaneceu sozinho na casa.
Observando o mapa.
Em silêncio.
Como um jogador que acaba de mover a primeira peça de uma longa partida.