A primeira coisa que Felix percebeu…
foi o silêncio.
Não era ausência de som.
Era presença de ordem.
O carro se movia suavemente pelas ruas de Yokohama, cortando a noite como se fizesse parte dela. Nada de buzinas agressivas, nada de motores berrando em cada esquina como em Los Angeles.
Só luzes.
Luz branca.
Luz vermelha.
Reflexos limpos no asfalto molhado.
Felix apoiou a testa no vidro.
Observando.
Tentando sentir alguma coisa familiar ali.
Mas não tinha.
— You okay? — a voz do pai veio baixa.
Felix não respondeu de imediato.
Ele não queria parecer fraco. Nunca quis.
— Yeah.
Mentira simples.
Automática.
O pai assentiu, voltando a focar na estrada.
Eles não conversavam muito desde… aquilo.
Desde a separação.
Desde o silêncio que veio depois da traição.
Desde o momento em que tudo que era “casa” virou só… um lugar vazio.
Felix fechou os olhos por um instante.
Na cabeça dele, o som era outro.
Motores gritando.
Risos.
Dinheiro trocando de mão.
Noites rápidas demais pra pensar.
Los Angeles não dormia.
E ele também não.
Aqui… parecia que até a cidade respirava com calma.
E aquilo incomodava.
O carro parou.
— Chegamos.
Felix abriu a porta.
O ar era frio. Úmido. Grudava na pele.
Ele olhou ao redor.
Prédios organizados demais. Ruas estreitas demais. Tudo… no lugar certo.
Menos ele.
O apartamento era pequeno.
Limpo demais.
Sem personalidade.
Sem história.
Felix largou a mala no chão e caminhou até a janela.
Lá embaixo, a cidade continuava viva… mas de um jeito diferente.
Mais contido.
Mais silencioso.
Mais… distante.
— School starts tomorrow — disse o pai.
Felix assentiu sem virar.
— Got it.
Silêncio de novo.
Sempre ele.
Quando o pai saiu do cômodo, Felix passou a mão pelo rosto.
Respirou fundo.
E pela primeira vez em muito tempo…
Ele não sabia o que fazer.
🏫 O dia seguinte
A escola foi pior do que ele esperava.
E ele já esperava que fosse ruim.
Olhares.
Muitos.
Alguns curiosos.
Outros julgadores.
Alguns… simplesmente vazios.
— Gaijin…
A palavra veio baixa, mas clara o suficiente.
Felix não entendeu tudo ali.
Mas entendeu o suficiente.
Ele caminhava pelos corredores como sempre fez:
Postura firme.
Olhar reto.
Confiança construída.
Mas por dentro…
Nada encaixava.
As aulas eram um borrão.
Palavras que ele não compreendia completamente.
Explicações rápidas demais.
Risos em momentos que ele não entendia.
Ele não era burro.
Longe disso.
Mas ali… inteligência não bastava.
No intervalo, ele saiu.
Precisava de ar.
Foi andando sem rumo.
Sem pensar muito.
Seguindo o instinto que sempre teve.
E foi assim que ele encontrou o posto.
⛽ O primeiro sinal
O lugar era pequeno.
Quase escondido.
Nada chamativo.
Mas tinha algo ali.
Não era o prédio.
Nem as pessoas.
Era… o clima.
Felix encostou próximo à entrada, observando.
Um carro chamou sua atenção imediatamente.
Baixo demais.
Simples demais.
Mas… errado.
Ele se aproximou um pouco mais.
Os olhos analisando sem esforço.
Suspensão mexida.
Rodas diferentes.
Algo ali não era de fábrica.
— Você entende de carro?
A voz veio calma.
Sem pressa.
Sem tentativa de impressionar.
Felix virou o rosto.
Um garoto japonês, mais ou menos da mesma idade, estava encostado próximo à bomba de combustível.
Olhar tranquilo.
Mas atento.
— Yeah… I guess.
Resposta automática.
Mas o olhar de Felix já tinha mudado.
Agora ele também estava avaliando.
— Esse carro — Felix apontou com o queixo — não parece rápido.
O garoto deu um pequeno sorriso.
Quase imperceptível.
— Ele não precisa parecer.
Silêncio.
Mas não era desconfortável.
Era… medido.
— Você corre? — perguntou o garoto.
Direto.
Sem rodeio.
Felix demorou meio segundo.
Só meio.
Mas foi o suficiente.
— Corria.
O garoto observou ele com mais atenção agora.
Como se estivesse encaixando peças.
— Aqui é diferente.
Felix soltou um leve sorriso de canto.
Confiante.
Quase automático.
— É sempre a mesma coisa.
O garoto negou devagar.
— Não… não é.
Aquilo ficou no ar.
Pesado.
Simples… mas carregado.
Felix sentiu.
Não como provocação.
Mas como aviso.
— Ren — disse o garoto, finalmente.
Felix assentiu.
— Felix.
Mais um silêncio.
Mas dessa vez…
Parecia o começo de alguma coisa.
Ren virou levemente o rosto na direção da rua.
Faróis passaram ao fundo.
Carros comuns.
Mas o olhar dele… não era comum.
— Se você realmente corria… — disse ele, ainda olhando para frente — então você vai descobrir rápido.
Felix cruzou os braços.
— Descobrir o quê?
Ren olhou de volta.
Direto.
Sem emoção.
— Que aqui… você não é ninguém.
O vento passou leve entre os dois.
Levando embora qualquer sensação de conforto que ainda existia.
E pela primeira vez desde que chegou ao Japão…
Felix sentiu algo familiar.
Desafio.