A primeira coisa que Felix percebeu…
foi que o carro não parecia perigoso o suficiente.
E isso incomodou ele.
O poste de luz acima falhava de leve, piscando em intervalos irregulares, jogando sombras sobre a lataria vermelha já desgastada.
Baixo. Compacto. Antigo.
Sem presença.
Sem intimidação.
— Esse? — Felix perguntou, sem esconder o tom de dúvida.
Ren estava encostado ao lado, braços cruzados, como se já esperasse aquela reação.
— Esse.
Felix deu alguns passos ao redor do carro.
Observando.
Não como curioso…
Mas como alguém acostumado a julgar máquina.
A pintura já não refletia direito. Pequenos riscos, marcas de uso. Nada ali gritava potência.
Mas o que realmente chamou atenção foi outra coisa.
— Ele é… estranho.
Ren inclinou levemente a cabeça.
— Como?
Felix agachou um pouco, olhando a traseira.
— Distribuição de peso… não parece padrão.
Ele passou a mão pelo teto, caminhando ao redor.
— Motor não tá na frente.
Ren assentiu.
— Não.
Silêncio.
Felix soltou o ar pelo nariz, um meio sorriso surgindo.
— Então é isso.
Ele parou ao lado da porta.
— Toyota MR2 SW20.
Ren não demonstrou surpresa.
— Você conhece.
Felix deu de ombros.
— Já vi uns rodando. Nunca levei a sério.
Ele abriu a porta, olhando o interior.
Simples. Apertado. Focado.
Sem luxo.
Sem distração.
— Motor no meio… tração traseira… — Felix murmurou.
— Isso aqui gira fácil.
Ren respondeu seco:
— Muito.
Felix entrou no carro.
A posição de dirigir era diferente.
Mais encaixada. Mais baixa.
Mais… conectada.
Ele girou a chave.
O motor respondeu.
Sem exagero.
Sem grito.
Mas com presença.
Felix segurou o volante.
Testou o peso.
Curto. Direto.
Sem folga.
— Não parece tão ruim — ele disse.
Ren não se moveu.
— Anda.
Felix engatou a primeira.
Saiu devagar do posto.
Entrou na rua.
Primeira curva.
Simples.
Nada demais.
Ele virou o volante como sempre faria.
Natural.
Instintivo.
E o carro respondeu.
A traseira escapou.
Rápido.
Seco.
Violento.
— …!
Felix corrigiu no reflexo.
Contraesterço.
Acelerador.
Segurou.
Por pouco.
O carro voltou.
Mas não de forma suave.
Quase como se tivesse resistido.
Felix ficou em silêncio.
Os olhos agora mais atentos.
— Ok…
Segunda curva.
Dessa vez ele entrou mais leve.
Mais cauteloso.
Mesmo assim—
A traseira ameaçou sair de novo.
Menos agressivo.
Mas ainda imprevisível.
Felix apertou o volante.
— Que porra é essa…
Ren observava da calçada.
Sem reação.
Felix continuou.
Agora mais devagar.
Mais focado.
Terceira curva.
Ele tentou algo diferente.
Entrou mais cedo.
Acelerou de leve.
Erro.
A traseira saiu mais forte que antes.
O carro girou quase 90 graus.
Os pneus cantaram no asfalto.
Felix freou.
Respiração pesada.
Coração acelerado.
Silêncio.
Ele ficou parado por alguns segundos.
Processando.
Então voltou devagar para o posto.
Desligou o carro.
Ficou ali dentro.
Sem sair.
Ren se aproximou.
Parou ao lado da janela.
— E então?
Felix não respondeu na hora.
Os olhos ainda no volante.
— Isso não faz sentido.
Ren inclinou levemente o rosto.
— Faz.
Felix virou finalmente.
— Não. Eu sei dirigir.
— Sei controlar tração traseira.
— Já peguei carro pior que isso.
Ren respondeu simples:
— Não pegou.
Silêncio.
Pesado.
Felix saiu do carro, fechando a porta com mais força do que precisava.
— Isso aí é uma armadilha.
Ren deu de ombros.
— É.
Felix encarou ele.
Esperando explicação.
Ela não veio.
— Por quê?
Ren descruzou os braços.
— Porque aqui não tem espaço pra erro.
Ele apontou levemente com o queixo para o carro.
— Esse… mostra erro rápido.
Felix respirou fundo.
Tentando manter a calma.
— Então você quer que eu aprenda nisso?
Ren assentiu.
— Quero ver se você aprende.
Mais um silêncio.
Felix olhou de volta pro carro.
Dessa vez… diferente.
Não como algo fraco.
Mas como algo…
hostil.
— E se eu não aprender?
Ren respondeu sem hesitar:
— Então você não corre.
Aquilo bateu.
Fundo.
Felix passou a mão no cabelo.
Riu baixo.
Sem humor.
— Você nem me viu correr direito.
Ren respondeu na mesma calma de sempre:
— Já vi o suficiente.
Felix estreitou os olhos.
— E o que você viu?
Ren deu um pequeno passo pra trás.
Como se estivesse se afastando da conversa.
— Vi alguém rápido… em linha reta.
— Vi alguém confiante… sem motivo.
— Vi alguém que ainda não bateu de verdade.
Silêncio.
Aquilo não era provocação.
Era diagnóstico.
Felix não respondeu.
Porque não tinha resposta pronta.
Ren virou de leve.
— Amanhã à noite.
Felix ergueu o olhar.
— O quê tem?
Ren olhou por cima do ombro.
— A estrada vai te responder.
E dessa vez…
Felix não sorriu.
Ele só olhou pro carro novamente.
E pela primeira vez…
Sentiu dúvida.