O silêncio daquela estrada… não era natural.
Era pesado.
Como se a própria montanha estivesse esperando.
A subida até o ponto de largada foi lenta.
O Toyota MR2 SW20 parecia diferente à noite. Mais baixo. Mais fechado. Como se escondesse alguma coisa.
Felix mantinha as duas mãos firmes no volante.
Dessa vez… sem arrogância.
Ren estava no banco do passageiro.
Quieto.
Observando.
— Lembra do que eu falei — disse ele, sem olhar.
Felix manteve os olhos na estrada.
— Sobre?
— Não tentar ganhar.
Felix soltou o ar pelo nariz.
— Eu não corro pra perder.
Ren virou levemente o rosto.
— Então você vai aprender rápido.
Eles chegaram.
Um pequeno recuo na estrada.
Nada marcado.
Nada oficial.
Só… presença.
Outro carro já estava lá.
Parado.
Esperando.
Baixo. Leve. Antigo.
Mas diferente de tudo.
8
Um Mazda RX-7 FC3S.
Faróis levantados cortando a neblina.
Postura baixa.
Silencioso demais.
— Esse é…? — Felix começou.
Ren interrompeu.
— Só dirige.
O outro carro não acelerava.
Não provocava.
Não fazia nada.
E isso era pior.
Os faróis piscaram.
Uma vez.
Duas.
Silêncio.
Felix apertou o volante.
Respirou fundo.
E arrancou.
Primeira curva—
Mais controlado.
Mais atento.
A traseira ameaçou sair.
Ele corrigiu.
Limpo.
Segunda curva—
Mais rápido.
Mais confiança.
O carro respondeu.
Dessa vez… obedecendo.
Terceira curva—
Ele entrou melhor.
Mais preciso.
Menos bruto.
— Isso… — ele murmurou.
Nos espelhos—
O RX-7.
Colado.
Sem esforço.
Sem erro.
Felix apertou o maxilar.
Quarta curva—
Ele tentou aumentar o ritmo.
O MR2 reagiu.
A traseira saiu.
Ele segurou.
Mais firme agora.
— Tô pegando…
Ren não respondeu.
A estrada começou a descer.
Curvas mais fechadas.
Mais perigosas.
Felix entrou.
Freio.
Redução.
Virada.
Acelerador.
O carro deslizou.
Controlado.
Limite.
Mas vivo.
Ele estava melhorando.
Rápido demais.
Nos espelhos—
O RX-7 ainda ali.
Mas… não se aproximava.
E nem precisava.
Aquilo irritou.
— Ele não tá tentando — Felix disse.
Ren respondeu baixo:
— Tá.
Felix franziu a testa.
Mais uma sequência de curvas.
Esquerda. Direita. Fechada.
Felix começou a conectar tudo.
Movimentos mais fluidos.
Menos reação.
Mais antecipação.
E então—
Ele viu a oportunidade.
Uma leve abertura.
Uma linha melhor.
— Agora.
Ele acelerou.
Entrou mais forte.
Mais agressivo.
O MR2 respondeu.
A traseira saiu—
Mas ele segurou.
Perfeito.
Ele se aproximou.
Colado.
Pela primeira vez…
Ele estava alcançando.
— Isso! — escapou.
O RX-7 à frente…
não mudou.
Não defendeu.
Não fechou.
Só continuou.
Como se estivesse esperando.
Felix viu a brecha.
Curva aberta.
Linha limpa.
— Agora eu passo.
Ele jogou o carro.
Entrou com tudo.
E foi aí—
Que a estrada mudou.
A curva fechava mais do que parecia.
Muito mais.
— …!
Instinto.
Tarde demais.
Felix virou o volante mais.
Freou.
Tentou corrigir.
Erro.
O peso do MR2 mudou rápido demais.
A traseira veio.
Violenta.
O carro girou.
O mundo virou faróis, asfalto e escuridão.
Impacto.
Som de metal.
Vidro.
Silêncio.
E então—
Nada.
O carro estava de lado.
Quase de cabeça pra baixo.
Parado.
Felix abriu os olhos.
Respiração descontrolada.
Ouvidos zunindo.
Ele estava… vivo.
Devagar.
Ele se soltou.
Saiu.
Cambaleando.
O ar frio bateu no rosto.
Forte.
Real.
O MR2…
destruído.
Amassado.
Virado.
Sem chance.
Felix ficou olhando.
Sem piscar.
Passos atrás dele.
Ren.
— Você tá bem?
Felix não respondeu.
Mais um som.
O RX-7.
Parando.
A porta abriu.
Mas Felix não olhou.
Ele não queria ver.
Não agora.
Seus olhos estavam presos no carro.
No erro.
Na curva.
Naquele momento exato.
Onde ele achou que tinha vencido.
E perdeu tudo.
O vento passou.
Levando o cheiro de borracha e metal.
Felix respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
E então…
ele riu.
Baixo.
Sem humor.
— Eu achei… que tava ganhando.
Silêncio.
Ren não respondeu.
Porque não precisava.
Felix fechou os olhos por um segundo.
E quando abriu…
não tinha mais frustração.
Tinha outra coisa.
Algo mais pesado.
Mais perigoso.
Foco.
— Aquela curva… — ele disse baixo.
— Eu não vi ela.
Ren respondeu:
— Ele viu.
Felix assentiu devagar.
— Eu vou aprender.
Não foi promessa.
Foi decisão.
E naquela noite…
naquela estrada…
Felix deixou de ser só mais um cara que corria.
E virou alguém que…
precisava vencer.