O som do metal sendo arrastado ainda ecoava na cabeça de Felix.
Mesmo dias depois.
O Toyota MR2 SW20 estava parado no fundo de um pequeno galpão.
Ou o que restava dele.
Lataria torcida. Vidros quebrados. Estrutura comprometida.
Não tinha conserto.
Felix ficou alguns segundos olhando.
Em silêncio.
— Eu pago.
Ren, encostado na parede, ergueu levemente o olhar.
— Você não precisa.
Felix respondeu sem hesitar:
— Eu pago.
Não era orgulho.
Era… regra.
Dinheiro que ele tinha juntado nos Estados Unidos.
Noites mal dormidas. Corridas ilegais. Risco.
Tudo indo embora… ali.
Ren observou ele por alguns segundos.
Depois assentiu.
— Então paga.
Sem discussão.
Sem drama.
E assim… Felix ficou quase sem nada.
🚗 O carro provisório
Com o pouco que sobrou, ele alugou algo simples.
Nada de especial.
7
Um Nissan Silvia S13.
Motor dianteiro.
Tração traseira.
Equilíbrio honesto.
Nada de surpresas violentas.
Nada de armadilhas.
Felix entrou no carro pela primeira vez… e sentiu.
Controle.
— Finalmente… — ele murmurou.
Ren estava do lado de fora.
— Esse você não vai culpar.
Felix ligou o motor.
— Esse eu vou usar.
🌆 Dias que viram rotina
Os dias começaram a se repetir.
Mas não de forma vazia.
Manhã:
Escola.
Ainda difícil.
Ainda distante.
Mas agora… suportável.
Felix já reconhecia palavras.
Expressões.
Olhares.
Ainda era um estranho.
Mas não completamente perdido.
Tarde:
Trabalho informal no posto com Ren.
Observando.
Aprendendo.
Escutando.
Mais do que falava.
Noite:
Direção.
Sempre direção.
🌙 Evolução
As primeiras noites foram cautelosas.
Felix ainda carregava o erro na memória.
Mas o Nissan Silvia S13 respondia diferente.
Primeira curva—
Controle.
Segunda—
Confiança.
Terceira—
Fluidez.
Ele não lutava com o carro.
Ele… guiava.
— Melhor — disse Ren uma noite.
Felix não respondeu.
Mas sabia.
Ele estava reconstruindo tudo.
Do zero.
Sem pressa.
Sem ego.
Mas não sem ambição.
👤 O nome que ninguém ignora
Foi numa dessas noites que Felix ouviu pela primeira vez.
Eles estavam no posto.
Alguns carros parados.
Gente conversando baixo.
— Ele apareceu ontem.
— Sério?
— Faz tempo que não desce…
Felix olhou de canto.
— Quem?
Silêncio curto.
Ren respondeu:
— Você já viu.
Felix franziu a testa.
— O RX-7.
O ar mudou.
— Nome dele é… Kurokami.
(Kurokami)
— “Cabelo negro” — Ren completou.
— Mas ninguém chama assim.
— Chamam de quê?
Ren olhou pra ele.
— Fantasma da montanha.
Silêncio.
— Ele nunca corre duas vezes seguidas.
— Nunca aposta alto.
— Nunca fala com ninguém.
Felix cruzou os braços.
— E perde?
Ren respondeu simples:
— Não.
Aquilo ficou.
Gravado.
🌫️ O peso invisível
Nos dias seguintes…
Felix começou a notar.
Marcas na estrada.
Pontos de frenagem.
Linhas perfeitas em curvas impossíveis.
— Foi ele — disse Ren.
Sempre ele.
Como se estivesse… em todo lugar.
Mas nunca presente.
🏠 Casa que esfria
Enquanto isso…
em casa…
O silêncio voltava.
— You’re going out again?
Felix pegou a chave.
— Yeah.
O pai encostado na cozinha.
Braços cruzados.
Cansado.
— You just got here.
Felix deu de ombros.
— I’m not staying locked inside.
O pai respirou fundo.
— You don’t even know this place.
Felix respondeu seco:
— I don’t need to.
Aquilo bateu.
Silêncio.
Mais pesado que antes.
— Just… be careful — o pai disse.
Felix já estava na porta.
— I always am.
Mentira.
🌙 Foco
De volta à rua…
De volta ao volante…
Felix não pensava mais em Los Angeles.
Nem na escola.
Nem na casa.
Só na estrada.
Só nas curvas.
Só em uma coisa.
Aquela curva.
A que ele não viu.
A que destruiu ele.
E no cara que…
viu.
Felix apertou o volante do Nissan Silvia S13.
Olhos focados.
Respiração estável.
— Eu vou alcançar você…
Não era raiva.
Era direção.
E pela primeira vez…
Felix não queria só correr.
Ele queria entender.