Bárbara morava sozinha havia algum tempo. Sentia saudades da mãe e do gato Pudim, que fazia parte da família havia mais de oito anos. Pagando aluguel e encarando a rotina solitária, sentia-se devastada enquanto encarava o teto mofado do quarto. Por volta das quatro da manhã, despertou e pegou o notebook para rever alguns casos; fez isso por simplesmente ter acordado de repente, seu sono nunca foi o dos melhores.
Poucos meses antes de se mudar de casa, ingressou na perícia da Polícia Civil e, desde então, vivia ocupada, carente e frequentemente com fome. Respirava fundo, como se finalmente sentisse o peso de ser adulta, e as lembranças da mãe, sempre pronta a lhe dar sermões, voltavam à tona sempre que pensava nisso.
Daqui a três dias, Bárbara vai completar vinte e três anos. Estava ansiosa e triste: o aniversário cairia numa segunda-feira, o que não deixava muita esperança para qualquer tipo de comemoração.
Era sexta-feira, dezessete de abril. Por volta das seis da manhã, Marceline enviou uma mensagem sugerindo que, à noite, descarregassem as mágoas. Bárbara visualizou, mas não fez muita questão da ideia — nem de "descarregar", nem de fazê-lo acompanhada de outras pessoas. Em vez disso, deixou o celular de lado e começou a se arrumar para mais um dia de serviço.
Bárbara se levantou, sentindo o chão frio sob os pés. Caminhou até o guarda-roupa e, por alguns instantes, ficou apenas observando as roupas penduradas.
Mesmo com 1,67 de altura, precisou ficar na ponta dos pés para alcançar a arara enquanto decidia o que vestir. Optou por uma calça jeans escura e uma blusa social azul, que costumava usar nos dias de plantão. Era simples, mas transmitia uma imagem profissional.
Prendeu o cabelo em um coque apressado, deixando algumas mechas caírem sobre o rosto. Solto, ele ia até o ombro. No espelho, notou olheiras profundas e uma feição triste. Passou um pouco de base, um leve batom e respirou fundo.
Percebeu que precisava, com urgência, voltar à cabeleireira para retocar o tom cobre-escuro do cabelo ondulado. Colocou o crachá da perícia no pescoço, pegou o casaco surrado — o mesmo que usava desde a faculdade — e saiu de casa com a pasta de documentos debaixo do braço.
A rua ainda estava quieta quando Bárbara trancou a porta e abriu o portão para sair. O sol nascia tímido, refletindo no asfalto úmido da madrugada anterior. Ela atravessou a calçada, pegou o ônibus das seis e meia e, durante o trajeto, manteve o olhar fixo na janela, observando as pessoas que corriam para seus compromissos.
A entrada da delegacia se destacava de longe. Um portão largo, vigiado dia e noite, dava acesso a um complexo maior do que parecia à primeira vista. O prédio principal ficava recuado, protegido por árvores antigas que sombreavam o asfalto marcado por setas, cones e faixas de "pare".
Não era um único edifício, mas um conjunto: blocos baixos e outros mais altos espalhados pelo terreno, ligados por caminhos internos e corredores abertos, como se o lugar tivesse crescido conforme a necessidade.
Grades azuis delimitavam o espaço, e o movimento constante de viaturas, servidores e visitantes mantinha uma sensação de funcionamento contínuo, mesmo quando tudo parecia quieto. Do lado de fora, o verde tentava suavizar a rigidez institucional. Por dentro, porém, a estrutura deixava claro que ali não era um lugar de passagem, mas de permanência. Onde as coisas se acumulavam e esperavam: casos, pessoas, histórias. Algumas resolvidas. Outras, não.
Ao chegar à delegacia, cumprimentou o vigia da guarita e seguiu até o seu prédio. Era no térreo que trabalhava, passando por um corredor estreito até sua sala principal. O cheiro de café forte tomava conta do ambiente. Ligou o notebook e começou a revisar alguns relatórios; mais um dia se desenhava à sua frente.
Acomodou-se na cadeira, abriu uma das pastas e retomou o relatório da madrugada anterior. Os olhos ardiam, mas ela se esforçava para manter a concentração. Às vezes, o som contínuo do teclado era interrompido pelo toque do telefone ou pelo eco distante de vozes no corredor.
A manhã se arrastava, com o ar-condicionado fazendo mais barulho do que ajudando a aliviar o calor. Na mesa ao lado, Cláudio, um dos peritos mais velhos e sempre bem-humorado, resmungava como de costume, esquecendo-se, mais uma vez, de algum laudo atrasado.
— Esses casos não acabam nunca — dizia, mexendo o café frio no copo plástico.
Bárbara apenas achava aquilo fofo; fazia-a se sentir mais leve. Aprender a ouvir mais do que falar. No fundo, admirava o jeito calmo de Cláudio, embora nunca admitisse.
Por volta das onze e meia, o movimento no setor começou a crescer. Chegaram novas amostras, uma caixa lacrada com vestígios de um caso que ela já havia ouvido mencionar antes. O cheiro de reagentes químicos e papelão misturava-se ao perfume barato de algum colega que passava por ali. Bárbara organizava os materiais com cuidado, calçando as luvas e ajustando o jaleco descartável.
O tempo parecia correr de forma irregular, ora rápido, ora lento demais. Em certo momento, recebeu uma atenção invasiva e desconfortável de uma colega mais velha, aquelas que ficam falando qualquer coisa para chamar a atenção, passou para comprimentar, mas logo começou a comentar sobre o trabalho da Bárbara, o que a fez errar uma anotação. Suspirou, apagou e reescreveu. Não gostava quando as coisas saíam do controle; e logo pediu para que a Suzane saísse do lugar.
Quando o relógio marcou dez para o meio-dia, ouviu Cláudio comentar sobre o almoço e percebeu, só quando ele disse, que também estava com fome. Guardou o que havia feito, tirou as luvas e soltou o cabelo preso.
A rotina podia ser cansativa, mas era ali, entre laudos e papéis, que se sentia um pouco mais próxima de algo que fazia sentido — de ser importante, de estar fazendo algo verdadeiramente proativo.
Bárbara saiu da delegacia pouco depois do meio-dia, com o estômago reclamando mais alto que o resto do dia. Foi até a marmitaria e restaurante da esquina, a mais comentada de Campo Grande. Não havia fachada chamativa, só uma placa antiga, torta, e o cheiro de comida caseira escapando pela porta aberta. Lá dentro, o espaço era pequeno e sempre cheio, separado da cozinha por um balcão de inox marcado pelo tempo, de onde vinham sons de panelas e vozes apressadas.
O cardápio, escrito à mão num quadro-negro, quase não mudava: arroz, feijão grosso, bife acebolado, frango ensopado, salada simples e a farofa de sempre. Bárbara pediu uma marmita grande, prevendo a tarde longa. Enquanto esperava, observou o entra e sai de gente de uniforme e roupa de obra.
Depois de almoçar, vinha sempre aquela vontade de se deitar no chão gelado da parte interna do estacionamento. Um hábito recorrente, tenta todos os dias, durante o intervalo, se deitar com a sobra de uma mangueira gigante; uma árvore que parecia ser maior que todo o estacionamento.
Houve uma vez em que tentou alcançar uma manga e falhou; depois disso, nem tentou mais. Muitos passavam por ali para fumar, alguns deixavam os carros estacionados por causa da sombra e, nos momentos pós-almoço, havia quem se deitasse no banco traseiro para descansar.
Às vezes, como naquela tarde, quando a melancolia apertava, Bárbara tentava se animar o mais rápido possível. Sabia que, se entrasse de imediato para retomar o trabalho, o lugar pareceria ainda mais vazio, como se tivesse engolido a exaustão e a confusão que ficavam do lado de dentro.
Mesmo assim, atravessou o corredor de volta à sala onde estava mexendo num caso antes do almoço — um caso antigo, arquivado depressa demais, envolvendo a morte de um garoto em uma briga de rua com o filho de um empresário local. Lembrava-se de ter visto algo sobre aquilo em um plantão meses antes, mas nunca havia tocado diretamente nas evidências.
Quando virou o corredor de volta à sala de evidências, Bárbara avistou de longe o investigador Henrique, parecendo ter saído da sala, ele sendo um homem de presença pesada e reputação ambígua: moreno, alto, de cabelos crespos, sempre vestido de forma excessivamente formal para o calor da cidade.
Ele passava por ali naquele corredor estreito, fora do próprio setor, andando como se tivesse acabado de sair da sala de evidências. Instintivamente, Bárbara apressou o passo. Só ao chegar, viu que não tinha trancado a porta, agora estava escancarada. Durante todo o intervalo do almoço ela estava aberta. Ela foi a última a sair daquela área do prédio, a maioria já estavam saindo; e como sempre, o Cláudio deixava esse trabalho pra ela.
Se alguém tivesse entrado ali, teria acesso a provas, pastas e registros lacrados. Bárbara respirou fundo, tentando se convencer de que tudo estava no lugar. Ainda assim, conferiu prateleiras, caixas e etiquetas. Não encontrou nada fora do padrão — pelo menos, nada que conseguisse notar naquele momento.
A pasta estava aberta sobre a mesa estreita da sala de evidências, espremida entre armários metálicos altos demais para o espaço. A sala era pequena, abafada, com o ar pesado de papel antigo e o cheiro persistente da cera de madeira que impregnava o piso gasto. Ao revisar o caso, passando por cima, releu mais de uma vez, ela sentiu um incômodo. Até perceber que o laudo de toxicologia não batia com a data do registro da coleta, e a assinatura do perito estava datada antes do acidente.
Tornou a conferir os papéis. O coração acelerou. No laudo do corpo de delito, a inconsistência se repetia: coleta e assinatura não coincidiam no tempo. O zumbido voltou, constante, preenchendo o silêncio apertado da sala.
Bárbara saiu apressada, pegou o jaleco por reflexo, mais por protocolo do que por necessidade, mas seguiu em frente sem vesti-lo. O setor dos investigadores ficava em outra parte do lugar, do prédio mais à frente da delegacia, no segundo andar de outro prédio antigo.
Subiu as escadas de concreto e atravessou o corredor comprido, onde o som mudava e o ar parecia menos abafado. Ao passar por uma das salas de reunião, com a porta aberta, viu Cláudio sentado à mesa com outros dois policiais mais velhos, discutindo algum ponto da legislação, papéis espalhados e vozes baixas, concentradas. Não parou.
O departamento dos investigadores estava parcialmente vazio; muitos já tinham saído para a rua ou ainda estavam no almoço. Naquela sala grande ficavam vários investigadores. A mesa de Henrique ficava na ponta, bem perto do corredor, mas voltada para o lado oposto. Ele digitava algo no computador quando Bárbara se aproximou. Ao perceber sua presença, virou-se na cadeira, como se já estivesse esperando.
— Precisamos conversar — disse Bárbara, num tom baixo demais para ser um convite e sério demais para ser opcional.
Ele apontou para uma sala vazia logo ao lado, com a porta entreaberta. Qualquer um poderia entrar e era bem visível, mas por conta do restante do pessoal não ter voltado, parecia ser recíproco aquela sala. O espaço era pequeno e abafado, cheirava a poeira e desinfetante velho, com uma mesa no centro, uma televisão na parede e cadeiras ao redor. Henrique entrou primeiro. Bárbara entrou em seguida, fechou a porta e acendeu a luz. Sentiu os ombros ficarem tensos.
— Você mexeu naquele caso de manhã, né? — perguntou ela, escorando-se na parede.
— Estava revisando — respondeu ele, num tom que tentava parecer inocente demais.
— Revisando? — Bárbara sorriu, sem humor.
— Isso é perigoso. Tem coisa que é melhor deixar como está — disse ele, revirando os olhos.
— Você sabe que esse caso é do Augusto, um dos empresários mais importantes do Centro-Oeste, do estado e de Campo Grande. Que porra você tinha que mexer nas evidências?
Eles ainda nem tinham se acomodado na sala quando Henrique apagou a luz, parecendo que queria tudo escondido. O ambiente não ficou totalmente escuro. A janela, coberta por cortinas com frestas largas, deixava a claridade do corredor entrar, recortando o espaço em faixas opacas. Algumas dessas linhas de luz alcançavam o rosto de Bárbara. Henrique, de costas ao terminar de apagar a luz, virou-se. A blusa branca assumia um tom creme sob a iluminação fraca, e o rosto cheio de pintas se perdia; não era possível distinguir onde uma terminava e a outra começava.
Então o toque veio rápido e suave, um deslizar de dedos no braço, perto do cotovelo. Não foi agressivo, mas foi invasivo. Frio. Repulsivo. Um contato que não deveria existir ali. Bárbara recuou um passo, ficando presa contra a parede, mas ele continuou.
— Não se mete nesse caso. Esse tipo de assunto só gente grande resolve. Gente que protege a gente.
O "a gente" soou como aviso e ameaça ao mesmo tempo. Ele inclinou o rosto perto demais.
— Você me entende, né?
Ela conseguiu apenas dizer:
— Eu quero sair.
Henrique abriu espaço, como se estivesse fazendo um favor. Ela abriu a porta e, antes que fosse embora, ele disse mais coisas — algo ambíguo, como se um limite tivesse sido cruzado e, ao mesmo tempo, definido. Bárbara entendeu ali que ele era sujo, como aquela sala.
— Só um aviso. O pior não é mexer no que não devia. É continuar vivendo sabendo que alguém percebeu — disse ele, olhando para baixo, para o crachá. — Depois que alguém repara em você, nada volta a ser distraído. Você me entende, Bárbara?
Ela o encarou por alguns segundos e fechou a porta, sem olhar para trás.
E assim ficou. A delegacia seguiu no automático: passos apressados no corredor, portas batendo, telefones tocando em algum lugar distante. Para Bárbara, porém, tudo parecia abafado, mesmo tentando continuar com o serviço, era como se o ar tivesse ficado espesso demais para atravessar os pulmões. Quando o relógio marcou seis da tarde, ela estava de volta à sala de evidências. Sozinha. A luz branca do teto projetava sombras duras sobre as caixas empilhadas, transformando os armários em blocos fechados, sem profundidade. Os lacres e etiquetas que antes eram apenas rotina agora pareciam tortos, excessivamente visíveis.
Pensou no caso adulterado, mas não nos detalhes técnicos; pensou no gesto. No toque rápido demais para ser acidente. No sorriso que veio depois, como se fosse algo ensaiado. Lembrou-se de Cláudio comentando certa vez, entre um café e outro, que Henrique "não era de confiança", dito com aquele ar de vizinha velha e fofoqueira que ele tinha — grisalho, barrigudo, sempre sabendo demais sobre gente que não aparecia nos corredores por acaso. Na época, Bárbara tinha rido. Agora, a lembrança não tinha graça nenhuma.
O que mais a incomodava não era o medo imediato, mas a sensação de deslocamento. Trabalhar ali sempre fora exaustivo, mas seguro, até perceber que havia pessoas que se sentiam à vontade demais para ultrapassar limites. Pessoas que sabiam exatamente onde parar para não deixar marcas.
Bárbara apoiou as mãos na bancada de aço frio no centro da sala e respirou fundo. Fechou os olhos por alguns segundos, tentando se ancorar em algo concreto. Sabia que não esqueceria aquela sensação tão cedo. E sabia, com um desconforto silencioso, que aquela sala já não era apenas um lugar de trabalho.
O silêncio, que antes lhe trazia uma espécie de ordem, agora pesava no peito. Ainda assim, era ali que conseguia ficar. Havia culpa misturada ao alívio, como se permanecer entre provas e papéis fosse a única forma de manter algum controle, mesmo que mínimo, mesmo que artificial.
Havia a sala que dividia com Cláudio, mas a sala de evidências era o espaço onde passava a maior parte dos dias. Sua mesa ficava na outra sala, de frente para a de Cláudio, separadas apenas por uma distância curta demais para evitar conversas e longa demais para permitir intimidade. Ao lado, a sala de evidências, com armários altos e alinhados, cheios de caixas numeradas, e a bancada de aço onde ela manuseava tudo o que precisava examinar. No canto, uma mesa menor, usada mais como apoio do que como lugar de trabalho, sempre acumulando pastas e copos esquecidos.
As cores eram sempre as mesmas: tons mortos, frios, funcionais. Nada ali chamava atenção, nada pedia permanência. A exceção era o chão da sala de evidências, de madeira antiga, escurecida pelo verniz, marcada pelo tempo e pelo vai e vem de quem já tinha passado por ali antes dela. Às vezes, era isso que a mantinha de pé: a sensação de continuidade, de que aquele espaço sobreviverá a outros dias ruins. Mas odiava quando algo caía; demorava para achar.
Mesmo assim, Bárbara sentia que algo havia mudado. O lugar onde costumava organizar o mundo agora parecia estreito demais para o que carregava por dentro. E, ainda assim, era o único em que conseguia ficar.
Ao pegar o celular, Bárbara lembrou da amiga do cursinho que havia mandado mensagem mais cedo, perguntando se ela queria beber mais tarde. Abriu a conversa quase sem pensar e mandou um "oi". E continuou a mexer em coisas do serviço, na sala de evidências, Na mesmo momento, Elizabeth respondeu com um áudio, com o barulho distante de carros e risadas ao fundo.
— Oi, amiga, há quanto tempo! Que bom que finalmente retornou! A gente vai ficar ali na Ary hoje. Eu, a Carol, a Ju... nada muito planejado, sabe? Só sentar, beber alguma coisa e reclamar da vida. Vem se quiser.
Bárbara imaginou que Elizabeth devia estar do mesmo jeito de sempre, despreocupada, quase leve demais para alguém que também carregava seus próprios cansaços. Era fácil visualizá-la andando pelo centro iluminado, rindo alto com as amigas, como se a noite ainda tivesse espaço para ser apenas noite.
Bárbara não respondeu de imediato, mas logo retornou dizendo que iria. Terminou de organizar as coisas no trabalho e foi direto para casa. No quarto, largou a bolsa sobre a mesa da sala e começou a se arrumar sem pensar muito, quase no automático. Vestiu um short curto, daqueles que reservava para dias mais leves, e um top simples, que combinava com quase tudo. Calçou a bota preta — não era a mais confortável, mas deixava o passo mais firme — e pegou o primeiro casaco que encontrou jogado sobre a cama, ainda amassado, mas que a mantinha quente o suficiente para a noite. Chamou um Uber.
Bárbara chamou uma moto na Uber. A rua perto do centro estava mais vazia do que o normal para uma sexta-feira, embora ainda houvesse grupos rindo alto nas calçadas e músicas escapando das janelas abertas dos carros. No trajeto, o vento batia direto em seu rosto, bagunçando o cabelo e levando embora, por alguns minutos, o peso do dia. Aquela sensação a deixava mais leve.
Quando a moto virou a esquina da Praça Ary Coelho e ela desceu, já eram oito da noite. Assim que pisou na calçada, viu Elizabeth, já meio alterada, rindo com um copo de bebida na mão. Perto dela estavam algumas pessoas que Bárbara reconhecia de outras festas, todas amigas de Elizabeth. Usavam shorts e tops como ela, cada uma com seu jeito — nada chamativo, roupas simples, próprias para uma noite no centro. Entre tênis e sandálias, o clima era descontraído, mais conversa do que preocupação com aparência.
Elizabeth levantou o braço ao vê-la. O sorriso largo e o rosto avermelhado denunciavam que já tinha bebido além da conta. Bárbara respirou fundo antes de se aproximar, sentindo que a noite só estava começando.
Ergueu a mão em um cumprimento meio tímido, mas Elizabeth gritou seu nome e foi puxá-la para um abraço típico de quem já estava no sexto copo. Os outros a cumprimentaram em seguida, com batidas rápidas no ombro e beijos no rosto. Havia duas pessoas conhecidas, mas sempre aparecia alguém novo nessas saídas.
Só então, enquanto se deixava ficar ali, Bárbara pensou que queria ter ficado mais tempo na moto — horas e horas, sentindo apenas o vento no rosto, sem precisar chegar a lugar nenhum.
— Chegou tarde, mulher! — Elizabeth disse, balançando o copo.
— Dia puxado — Bárbara respondeu, forçando um sorriso.
Sem pedir licença, pegou o copo da amiga. Ninguém se importou. Deu um gole curto, só para ver se ajudava a soltar a tensão presa na garganta. O gosto era forte, doce demais, mas o calor descendo pelo peito foi quase um alívio. Elizabeth riu.
— Ei! Vou ligar pra polícia! Roubo de bebida é crime grave!
Bárbara devolveu o copo, já um pouco mais solta, com a sensação simples — e rara — de fazer parte de algo que não envolvia laudos, assinaturas tortas ou ameaças veladas.
Ao lado, Maria, de sandália, baixinha, falante, sempre carregando histórias que nunca eram só dela, puxou Bárbara pelo braço, como se a conversa tivesse sido interrompida dias antes.
— Amiga, você não tá entendendo. Deixa eu terminar de contar.
O grupo já começou a rir antes mesmo da continuação, sinal claro de que a história era conhecida ou, pelo menos, aguardada. Maria apontava com o dedo, empolgada.
— Então, lembra do meu ex, o Rogério? Aquele que sumiu do nada e voltou com outra?
— Lembro — alguém respondeu.
— Pois é. A menina tinha ficado antes com um cara do mercado. Um qualquer. E adivinha? O cara virou amigo do Rogério. Assim, do nada. Unha e carne.
As risadas vieram mais altas.
— E o melhor — Maria levantou a sobrancelha, dramática —: no aniversário da Júlia... pá! Aparecem os dois juntos de novo. Porque, claro, a Júlia conhece metade da cidade. Inclusive os dois últimos idiotas que eu queria evitar.
— Tenso — Bárbara comentou, sincera.
E era bom estar ali. Rir de algo bobo. Falar de gente que não importava. Por alguns minutos, o que tinha acontecido mais cedo parecia distante, quase fora de foco. Maria a observou por um segundo a mais do que o necessário.
— Mas e você? Tá com uma cara... pesada. Aconteceu alguma coisa?
— Nada demais. Só cansaço.
Maria fez um som baixo, de quem não acreditava totalmente, mas não insistiu. O assunto mudou. O grupo voltou a rir das coincidências absurdas da cidade grande, das festas em que todo mundo conhece todo mundo, das confusões amorosas que nunca acabam.
Bárbara ouvia em silêncio, deixando as vozes e piadas virarem um fundo confortável, quase um ruído que abafava o resto. Depois de alguns minutos, enquanto discutiam qual bar iriam em seguida, o mal-estar veio. Um incômodo estranho, como se estivesse sentada sobre algo preso dentro do peito.
A noite estava mais fria do que antes, e a praça parecia mais vazia. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a lembrança da ameaça, horas atrás, ainda queimando sob a pele. Passou a mão na nuca e respirou fundo.
— Acho que vou dar uma volta ali, rapidinho — disse, inclinando-se para falar no ouvido de Elizabeth.
— Sozinha? Mas nunca! — Elizabeth segurou a mão de Bárbara e anunciou para a roda, rindo. — Vamos, gente. Vamos andar. A Bárbara precisa respirar.
Como se já estivessem esperando por isso, todos se levantaram quase ao mesmo tempo. Ninguém perguntou nada. Já falavam de fotos, de drinks, de qual seria o próximo destino. O movimento aconteceu rápido demais para alguém pensar.
Bárbara se afastou devagar. As risadas ficaram para trás enquanto ela caminhava pela calçada, deixando que o som dos passos, das vozes misturadas e do vento frio a guiassem. Só sabia que precisava andar. Precisava respirar. Precisava esquecer — nem que fosse por alguns metros, mas ainda perto do grupo.
E todos a duas quadras abaixo, Maria diminuiu o passo e olhou em volta.
— Cadê a Elizabeth? — perguntou, com a voz mais alta do que pretendia.
O grupo parou. Olharam ao redor, tentando lembrar em que momento ela tinha se afastado.
— Ela tava atrás de você, não tava? — disse uma das amigas.
— Acho que foi ver aquela rua à esquerda — outra comentou, sem muita certeza.
Bárbara sentiu um arrepio subir da nuca até os braços. O vento parecia mais frio agora, pesado, trazendo aquela umidade no ar que anunciava chuva.
— Gente, vamos nos separar — disse Bárbara, firme, antes que alguém começasse a entrar em pânico. — Uma vai pela praça, duas pela rua de trás. Eu volto mais um pouco na outra quadra. Se acharem ela, me liguem na hora.
Ninguém discutiu. E isso, de algum jeito, deixou tudo ainda mais sério.
Apenas concordaram, já tensos. Bárbara voltou pelo caminho que andavam sozinha, seguiu pela rua lateral e virou à direita. Assim que dobrou a esquina, os postes se apagaram um a um, como se alguém tivesse passado desligando a cidade atrás dela. Olhou o celular: oito e quarenta.
A rua era estreita, longa demais para aquele trecho do centro. Casas baixas, muros gastos, portões de metal descascados. Um bar fechado, com cadeiras empilhadas do lado de dentro, refletia sua silhueta escura no vidro. O asfalto irregular segurava poças antigas, que não refletiam nada além do breu. O vento arrastava folhas secas pelo chão, fazendo um som áspero e insistente.
Ela sentiu o primeiro arrepio ainda perto da esquina, na que acabava de virar. Depois outro. E mais um. Um incômodo que não vinha do frio, mas de dentro, como se algo estivesse errado na lógica daquele lugar. A cada passo, tinha a impressão de atravessar um espaço que já não pertencia à cidade, como se tivesse saído do mapa sem perceber.
Parou por um segundo. Escutou. Não havia passos. Não havia carros. Não havia vozes. Não era um silêncio comum. Era uma ausência densa, pesada, ocupando tudo. Um silêncio que parecia ter volume. O vento cessou de repente, como se o ar tivesse prendido a respiração junto com ela.
Foi então que sentiu. Algo atrás. Como se estivesse a menos de um metro dela, seguindo, surgindo de repente
Não ouviu, não viu de imediato. Apenas soube. O corpo reagiu antes da mente. Bárbara se virou num reflexo seco enquanto corria e encontrou uma sombra sem forma definida, fria, instável, como se não pertencesse completamente àquele plano.
Não tinha rosto nem contorno claro. Só presença. O arrepio virou formigamento, espalhando-se pelos braços, pelo estômago, pelas pernas. O coração disparou. Não pensou. Correu para o outro lado da rua.
O ar parecia mais pesado, difícil de atravessar. Cada passo era um esforço. Sentia aquela coisa se aproximando, não pelos sons, mas pela pressão na nuca, pela sensação de espaço sendo tomado atrás dela. Sentiu o mundo desacelerar dentro de si, como se algo tivesse alterado o peso invisível das coisas que a mantinham em movimento.
Uma pressão para baixo. Não conseguia mais se mexer, parada no meio da pista. No mesmo instante, as luzes dos postes se acenderam todas de uma vez. E a entidade se foi, aquela pressão se foi.
O mundo voltou.
Ela parou no meio da pista, ofuscada pela claridade súbita, o corpo travado, como se tivesse esquecido como se mover. Para qualquer pessoa que passava por ali, nada estava fora do lugar. A rua seguia viva. Um carro avançou. Do ponto de vista de Bárbara, tudo se dissolveu num branco absoluto, como se o mundo tivesse piscado errado. A buzina soou tarde demais. O impacto veio seco. Definitivo.
Bárbara morreu naquela noite. Cruzou a linha invisível entre existir e desaparecer. O coração cessou. O pulso sumiu. O corpo ficou imóvel no asfalto iluminado. E, ainda assim, respirou de novo.
O ar voltou aos pulmões como um empurrão brusco, antinatural, como se algo — ou alguém — tivesse decidido que não era a hora. O peito se moveu. O coração bateu outra vez.
Ela voltou. Não porque devia. Mas porque alguma coisa a trouxe de volta.