Bárbara estava deitada em uma cama de hospital. Acordou lentamente, com uma dor incômoda no peito e, ao compreender onde estava, a lembrança do acidente veio inteira. Isso a fez sentir-se menos viva, menos tudo.
Quando recuperou um pouco mais a consciência, percebeu que a visão turva não era apenas confusão; o quarto parecia envolto por uma névoa. Não era imaginação. Tudo à sua volta tinha um tom acinzentado. Pensou que fosse efeito do clarão, mas logo notou a umidade do ar, acima do normal.
Reconheceu o quarto assim que conseguiu focar melhor. O padrão das paredes claras, a poltrona encostada ao lado da cama, o frigobar pequeno — tudo denunciava a Santa Casa. Já esteve ali outras vezes, para fazer exames ou buscar material no laboratório para algum caso, e desde então aquele lugar sempre lhe vinha à mente quando passava pela Avenida Mato Grosso.
Nessas ocasiões, lembrava-se também da Subway ali perto do hospital. Agora, essas memórias voltavam com força, como um déjà vu desconfortável. Tentou chamar por alguém, mas não obteve resposta. Sem esperar mais, puxou o suporte de soro e saiu do quarto. Um cheiro de mofo escapava pela porta.
Seguiu pelo corredor, cambaleando, o pé direito meio dormente, arrastando-se, torta, como se o corpo estivesse atrasado em relação à vontade. O chão frio grudava na sola do pé, e a cada passo o eco voltava sozinho, seco demais.
Parou. Ouviu... nada. Nenhum carrinho de metal, nenhum bip distante, nenhuma voz atravessando as paredes finas. O silêncio não era calmo — era fundo demais. Pesado. As luzes do corredor estavam acesas, mas algumas piscavam, criando sombras longas sobre cadeiras vazias e portas entreabertas.
Um suporte de soro permanecia no meio do caminho, largado, como se alguém tivesse soltado aquilo às pressas. Havia uma maca encostada torta na parede, lençol amarrotado, manchado. Estava sozinha. Sozinha em um dos hospitais mais cheios da cidade.
O medo veio sem aviso, um arrepio subindo pela espinha, travando a respiração. Não era só ausência de som — era ausência de gente. Como se algo tivesse acontecido ali e o lugar ainda não tivesse entendido. Seguiu em frente, sentindo que atravessava um espaço que tinha sido abandonado no meio de alguma coisa.
Ao se aproximar da recepção, viu um relógio na parede marcando 18:32. Estava parado; o ponteiro dos segundos tremia, mas não avançava. Seguindo em direção à entrada, encontrou o mesmo vazio, o mesmo silêncio frio, como se fosse madrugada.
O toldo de concreto, avançando para fora, parecia ainda mais pesado naquele silêncio. As paredes azuladas e os blocos de vidro da fachada refletiam a luz do anoitecer: um céu roxo, coberto pela mesma névoa que pairava no ar.
As palmeiras se moviam lentamente, alinhadas como sentinelas silenciosas. À frente, a fachada enorme em tons de azul e bege permanecia imponente, mas deslocada naquele vazio absoluto.
Tudo parecia grande demais para estar tão morto. Mais adiante, o portão branco que dava direto para a rua estava escancarado, aberto como um convite perigoso; qualquer pessoa poderia entrar ou sair, se houvesse alguém ali. As luzes de alerta piscavam sem parar, num ritmo mecânico que tornava o silêncio ainda mais pesado, como se cada lampejo anunciasse que algo estava errado demais para ser ignorado.
Depois de algum tempo, voltou para dentro do hospital; estava muito frio, e aquele pijama velho e fino não ajudava. O corpo respondia melhor, voltou a andar normalmente, como se aquele mal-estar inicial tivesse ficado para trás.
Retornou ao quarto onde acordara e observou o espaço com mais atenção, procurando algum sinal de explicação. Nada. Apenas um calendário preso à parede indicava a passagem do tempo: dois dias haviam se passado desde que chegara ali. Dois dias apagados. Fora isso, não havia pistas, nem marcas, nem respostas. Faltava um dia para o seu aniversário.
Sentou-se na cama, retirou a agulha do soro com cuidado e soltou o suporte que arrastara consigo desde que acordara. Limpou o local e improvisou um curativo com um band-aid encontrado em uma das gavetas. O gesto simples trouxe uma estranha sensação de normalidade. Depois de tanto perambular, sentia-se melhor. Descansada demais, talvez. Havia muito tempo que não se sentia tão disposta.
Caminhou novamente pela Santa Casa, seguindo para a parte mais interna de um dos corredores que conhecia bem. Perto do fundo, quase escondida entre duas portas de serviço, havia uma mesa encostada na parede — o ponto improvisado onde funcionários deixavam roupas doadas, esquecidas ali até alguém ter tempo de organizar.
Já tinha passado por aquele lugar outras vezes. Nunca tinha prestado atenção de verdade. Escolheu sem pensar muito: uma calça larga cinza, uma blusa rosa, um casaco preto e um par de tênis branco, todos dobrados de qualquer jeito, cheirando a sabão barato.
Vestiu-se ali mesmo, de costas para o corredor, sentindo o tecido áspero contra a pele ainda sensível. Ao sair daquele trecho, ajeitou a roupa por instinto, puxando o casaco nos ombros, como se pudesse cruzar com alguém a qualquer momento — mesmo sabendo que não havia ninguém.
O corpo começou a cobrar enquanto andava. Primeiro um vazio estranho, depois pontadas mais fortes, quase doloridas, que a fizeram diminuir o passo. A fome veio assim, atrasada, despertada pelo movimento. Parou, apoiando a mão no estômago, e percebeu então que não comia desde antes de acordar naquele quarto — talvez há dois dias, talvez mais. Até ali, a dor, o medo e o cansaço tinham abafado tudo. Agora não.
Tentou encontrar algo no hospital: máquinas de lanche nos corredores, copos esquecidos em balcões, restos em mesas de descanso. Nada funcionava, nada sobrará. Nem o cheiro. Um prédio enorme, cheio de salas e corredores, incapaz de oferecer um pedaço de pão. A fome apertou de novo, empurrando-a para frente. Se quisesse continuar andando, teria que sair dali.
Atravessou o portão aberto da Santa Casa e seguiu pela calçada, ainda com a sensação de estar fazendo algo errado. Só então o vento frio bateu no rosto — a primeira coisa que parecia viva desde que despertou ali.
Caminhou até a Avenida Mato Grosso. A via se estendia larga e vazia, recortada por ilhas de concreto com árvores altas no centro, feitas para obrigar carros invisíveis a contorná-las. Àquela hora, o lugar deveria estar em movimento. Em vez disso, havia apenas silêncio.
Seguiu pela Mato Grosso até o cruzamento com a 14 de Julho. Em uma das ilhas, sob a sombra de uma árvore antiga, havia um trailer de cachorro-quente. Mesas de plástico gastas estavam espalhadas ao redor, imóveis, como se tivessem sido abandonadas no meio de uma conversa.
O cheiro familiar ainda pairava no ar, forte o bastante para fazer seu estômago se contorcer. Entrou no trailer. Estava vazio. Potes, freezer, tudo limpo demais, seco demais. Não havia comida, nem sinais de alguém ter estado ali recentemente.
Saiu e continuou andando, com a fome latejando, sentiu até por um momento suas pernas falhando e uma dor no abdômen.. Pensou então na delegacia. A mais próxima de que se lembrava era a DHPP, a Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa.
Ficava a poucos minutos dali. Talvez estivesse aberta. Talvez não. Mas era um lugar sólido, concreto, onde poderia tentar entrar, encontrar um rádio, qualquer meio de comunicação. Ou ao menos confirmar que ainda existia alguém além dela naquele mundo suspenso.
E isso, naquele momento, já parecia esperança suficiente. Ela desceu e virou na Avenida Calógeras, seguindo em frente. Acompanhou os antigos trilhos do trem, paralelos à rua, um caminho longo e demorado até a delegacia. Sabia disso. Ainda assim, escolheu não apressar o passo.
Queria mais espaço, mais tempo. Tinha medo de seguir rápido demais e, na pressa de chegar, acabar passando por alguém sem perceber, perder a única chance de encontrar outra pessoa.
O percurso era aberto, exposto. O viaduto Sylvio Cesco surgia à frente como uma linha elevada cortando o caminho. À medida que se aproximava, o silêncio parecia se espalhar ainda mais, ampliado pelo concreto e pelo vazio ao redor. Seus passos ecoavam baixos, abafados pela poeira e pelo vento que vinha dos trilhos.
Já quase no final do viaduto, alguém apareceu. Ela não viu quando surgiu. Não ouviu passos, nem movimento.
Foi então que alguém estava ali. A poucos metros dela, parado no meio, como se tivesse surgido do nada, entre um piscar de olhos. Ela não o viu se aproximar.
Não ouviu passos, nem o arrastar de um pé sequer. Um segundo antes, o caminho estava vazio. No seguinte, ele ocupava o espaço. O grito escapou antes que pudesse pensar, mais de susto do que de medo.
— Oi! Olá! Tudo bem!? — disse rápido, erguendo um dos braços e acenando, tentando soar normal. — Você me deu um susto, cara!
Ainda mantinha certa distância, mas só o fato de haver outra pessoa ali fazia tudo parecer menos irreal, como se aquela figura fosse a prova de que não estava imaginando tudo sozinha.
Ele permaneceu imóvel. Não respondeu, não desviou o olhar, não demonstrou reação alguma; apenas a encarava. Era um homem negro, usava chinelos e tinha as tranças presas em um coque alto.
Vestia uma calça azul de tom forte e estava sem camisa. No pescoço, pendia um colar com a imagem de um lobo, que balançava levemente a cada movimento mínimo do corpo. Na mão direita, segurava uma garrafa de bebida; na esquerda, uma sacola de lixo preta, estufada, pesada demais, como se ali estivesse tudo o que possuía.
Ela deu alguns passos à frente, ainda tentando aceitar que aquela presença era real. O rapaz permanecia parado à sua frente, no centro do viaduto.
Um movimento atrás dele — não colado ao corpo, mas alinhado demais para ser visto antes. À medida que ela avançava, duas figuras saíram por trás, como se se soltassem da sombra projetada por ele. Um passo para a direita e outro para a esquerda.
Dois rapazes. Até então, escondidos pelo próprio alinhamento.
Em segundos, o espaço se reorganizou. O que antes parecia uma única presença agora se abria em três, fechando o viaduto diante dela.
Um deles parecia ter saído direto de uma festa: boné branco, short jeans claro, uma blusa azul forte. Andava solto demais para aquele silêncio. O outro aparentava ser mais velho.
Usava uma blusa bege amassada, tinha rugas marcadas no rosto, barba e bigode ralos, e longos dreadlocks caindo pelos ombros. Carregava várias sacolas de lixo, presas às costas como mochilas improvisadas.
O espaço ao redor pareceu encolher. Ela se sentiu coagida, encurralada entre eles e o vazio atrás de si. O homem sem camisa deu um passo à frente, avançando com a perna esquerda.
Foi o suficiente. Sem tempo para pensar, ela virou o corpo e saiu correndo. Olhou por cima do ombro enquanto fugia.
O homem carregado de sacolas permanecia parado, observando. O rapaz do boné caminhava, sem pressa. Já o homem da calça azul corria atrás dela, os chinelos batendo no asfalto, cada vez mais próximos.
Ao se aproximar da Maria-Fumaça da Orla Ferroviária, as pernas começaram a falhar de vez, o peso do corpo ficando errado, atrasado. Precisou diminuir o passo, sentindo quase escorregar, tendo também uma dor por todo o abdômen, como se sem energia o corpo estivesse cobrindo.
Atrás dela, havia movimento demais para ser ignorado. Perto demais. O trem erguido à sua frente não parecia um abrigo — parecia a única coisa que quebrava o espaço aberto. Inclinado, sustentado como peça de exposição, alto demais para parecer acessível, mas não alto o suficiente para impedir alguém decidido.
Não foi vontade. Foi uma escolha. Se continuasse correndo, cairia. Se parasse, seria alcançada. Subir era risco. Ficar era certeza.
A base de concreto e a lateral metálica formavam um caminho improvisado, quase convidativo. Mesmo sabendo que não fazia sentido, acabou cedendo. A pintura que antes fora preta agora estava cinza, descuidada, com a ferrugem aparecendo. Sentiu nojo, mas apoiou as mãos ali mesmo.
Subiu com dificuldade, apoiando o pé na borda da estrutura e se agarrando às saliências do próprio trem. O metal era frio e áspero sob as mãos. Precisou se puxar, usando mais força do que imaginava, até conseguir passar pela abertura lateral. Aquilo não era uma entrada feita para pessoas, apenas um vão, um espaço estreito que tolerava corpos, mas não os acolhia.
O interior era pequeno demais. Apertado. O teto baixo a obrigava a se curvar, e a inclinação acentuada fazia tudo parecer fora de eixo, como se o chão estivesse sempre prestes a escorregar sob os pés.
Como se um fosse cair sobre o outro. O espaço, já reduzido, tornava-se ainda mais sufocante pelo ângulo do trem, inclinado para cima, apontando para o céu de um jeito quase absurdo.
Lá dentro, a sensação era clara: não parecia um trem parado, mas um trem eternamente subindo, congelado em um esforço impossível. Foi então que ela entendeu, tarde demais, que aquele caminho não era fuga, mas fim.
Ao olhar de volta para a abertura por onde entrou, encontrou os olhos dele. O cara a encarava com um sorriso doentio, torto, indecente demais para aquele silêncio.
Um sorriso de quem observa sem pressa, como um tarado diante da próxima vítima, certo de que, ali dentro, não havia mais para onde correr. Então, do ombro dele, um urubu se desprendeu.
Era pequeno, mas completamente negro, negro demais, como se tivesse sido moldado a partir de cinzas. A ave abriu as asas devagar e, por um instante, pareceu menos um animal e mais algo que havia acabado de tomar forma.
O urubu tinha por volta de quarenta e cinco centímetros e voou direto até o rosto de Bárbara, batendo as asas perto demais, o vento quente e seco invadindo a respiração. As garras seguraram a gola da blusa, e o bico tocou seus lábios, forçando, insistente. Ela tentou virar o rosto, puxá-lo para trás. Gritou, curto.
A ave forçou o bico entre os lábios dela. Não foi um golpe, nem força bruta — foi insistência. Pressão contínua, cruel, até a mandíbula ceder alguns centímetros. Bárbara se debatia, agarrava o ar com as mãos, as unhas raspando no nada.
A visão falhou. Não enxergava mais o corpo inteiro do urubu, apenas o peso dele colado ao rosto. Tentou empurrá-lo, mas já não sabia onde terminava o bico e começava o corpo. Foi então que ele começou a mudar.
As penas se retraíram contra a carne, como se fossem puxadas para dentro. O corpo afinou, perdeu volume onde não deveria, tornando-se algo errado, impossível. Ainda preso à boca dela, começou a se comprimir, vértebra por vértebra, deslizando para dentro.
Entrava sem quebrar nada — pior que isso, com precisão. À medida que avançava, ocupava espaço demais, empurrando por dentro, fazendo o peso crescer onde não havia lugar. O ar desapareceu. O peito não obedecia mais.
A visão de Bárbara começou a falhar. As bordas escureceram, manchas tremiam diante dos olhos, e o mundo parecia se afastar dela. Sem pensar, foi até a janela lateral do trem e se jogou.
O corpo caiu de lado, pesado. O impacto arrancou o ar dos pulmões e deixou tudo suspenso por um segundo longo demais. O chão era frio, sentia a sujeira ficar em tudo, e fazia como se não fosse um lugar onde ela pudesse se mover.
Mesmo assim, algo a puxou de volta.
Alguma força, não coragem, apenas o suficiente para fazê-la dobrar os braços, apoiar o peso e se erguer. Quando ficou de pé, nada se manteve no lugar. A visão oscilava, as pernas erravam o chão. Bárbara não tinha noção de onde estavam aqueles três. A última imagem clara era o viaduto ficando para trás, dissolvido em distância e luz fraca.
Depois disso, não sabia se tinham parado, se observavam à distância ou se vinham atrás dela. A ideia de estar sendo perseguida grudava na cabeça, insistente, mesmo sem som algum confirmando.
Ela andou sem direção, como se alguém a empurrasse por trás. A força, porém, não ajudava: tropeçava mais do que avançava, até que o corpo desistiu antes da mente.
Caiu outra vez, agora devagar, como se o corpo já não reagisse. Arrastou-se por instinto até alcançar o meio-fio e ali ficou, a calçada fria contra a pele.
E tudo escureceu.