Hoje é vinte de abril, por volta das nove da noite. Bárbara sai do carro da mãe e fica de pé na calçada. É um HB20 preto, de quatro portas. O lugar está aceso, em contraste com o céu nublado. As luzes amarelas espalham um brilho aconchegante, enquanto a rua ao redor permanece escura, com o asfalto molhado refletindo a iluminação.
Do outro lado da rua, na esquina, há uma mercearia com bar. A parede vermelha chama atenção na noite úmida, destacada pelas luzes quentes. A porta está aberta, e mesas simples ocupam a calçada. Algumas pessoas conversam em tom baixo, sentadas ali fora, com copos suados apoiados na madeira. O clima é calmo e um pouco abafado, dando a sensação de que a chuva pode voltar a qualquer momento. O bar passa a impressão de ser rústico, um lugar seguro no meio da noite.
A mãe da Bárbara sai do carro. Geovanna, de 45 anos, tem o rosto sério quase o tempo todo, mas com traços delicados. O cabelo castanho-claro é liso e cai até os ombros. Ela usa uma blusa azul e passa uma sensação de cuidado, mas também de firmeza. As duas vão até a faixa de pedestres.
Com o tempo passando, o semáforo enfim fecha, agora elas podendo passar. Bárbara anda ao lado da mãe. Atrás delas, invisível para quase todos, o Sub da Bárbara se mantém quieto, seguindo sua consciência, atento a tudo ao redor, olhando através daquela máscara preta.
A manifestação havia acontecido na noite anterior no hospital, logo depois de Bárbara acordar da perseguição.
Bárbara acordou aos poucos. Não estava mais na cama, mas numa poltrona reclinável, com o braço estendido e um acesso de soro pingando lentamente. A cabeça pesava. Antes que conseguisse entender direito onde estava, sentiu uma mão pousar com cuidado em seu ombro.
— Olá, Bárbara. Eu sou a enfermeira Rosane. Tudo bem? — disse a mulher, surgindo por trás e se agachando ao lado esquerdo dela.
— Oi... — Bárbara piscou algumas vezes. — Que horas são? E... acho que tô bem. — Ela se espreguiçou enquanto falava, o corpo ainda meio lento.
— Que bom ouvir isso. — Rosane se levantou e foi até o suporte do soro, conferindo o gotejamento. — Mas a gente precisa conversar. Principalmente com o Doutor Benjamin, que quer trocar uma ideia com você.
— Que horas são?
— Agora são quinze para as nove da noite.
— Como eu cheguei aqui? — perguntou Bárbara, com a testa franzindo.
— Uma técnica te identificou na emergência e fomos até o seu quarto, mas você não estava lá. — A enfermeira suspirou, sem esconder o incômodo. — O Doutor chamou a atenção dela, pediu pra olharem as câmeras... e aí vimos que você tinha sumido. Agora há pouco, te encontraram caída na calçada, ali perto da Maria Fumaça.
— Quem me encontrou?
— Uns adolescentes que estavam passando. Um deles veio correndo pedir ajuda.
Bárbara apenas aceitou, ainda tentando juntar as peças. A enfermeira já se afastava quando Bárbara chamou:
— Enfermeira! — Rosane parou e se virou.
— Pois não?
— Comida. — Bárbara juntou as mãos, quase em súplica. — Eu tô morrendo de fome. — A enfermeira sorriu de leve.
— Tudo bem. Já trago alguma coisa pra você.
E saiu da sala, provavelmente para chamar o Doutor Benjamin também. Bárbara olhou para si mesma e percebeu que ainda estava com as mesmas roupas que usava quando esteve naquele lugar. A boca não estava mais seca, e a visão havia voltado ao normal, mas um desconforto persistia no peito, incômodo o bastante para não ser ignorado.
Ela ergueu o olhar ao redor. A sala era pequena e, com várias poltronas alinhadas, naquele momento, estava apenas com dois idosos no canto e nenhum enfermeiro. E na sala restava apenas o silêncio e a luz fria de uma única lâmpada acesa no centro do teto, iluminando tudo de forma desigual.
Pouco tempo depois, Bárbara percebeu que sua respiração estava fora do normal, mais pesada. Inspirava fundo, mas o ar parecia não preencher completamente os pulmões. O peito apertava, não como dor aguda, mas como um peso constante, insistente.
As imagens voltaram em fragmentos, os lugares distorcidos, a sensação de não pertencer àquele espaço, a dúvida constante entre estar sendo observada ou perseguida. Pensou se aquela versão de mundo paralelo tinha sido real, se tudo o que viveu tinha de fato acontecido ou se o cérebro, à beira do colapso, havia criado algo para suportar o medo.
Mas o terror sentido ali ainda estava presente demais para ser ignorado. Ela via os fatos, estava usando as mesmas roupas, e estava meio suja por ter se arrastado no chão. Um ponto que não ignorava, era o que a enfermeira tinha dito sobre ela desaparecer ali e aparecer lá.
Ela tenta voltar às memórias como, o começo, meio e fim de uma história, todos os passos, e quando ela voltou pra quando se jogou da maria fumaça. As lágrimas vieram, primeiro silenciosas, depois mais intensas, sacudindo o corpo. Chorava não apenas pela confusão, mas pelo medo cru de ter quase morrido.
Com esforço, Bárbara se levantou. As pernas ainda fracas ameaçavam ceder a cada passo. Ela se apoiou no suporte de soro e começou a andar devagar, o metal rangendo baixo enquanto era arrastado pelo chão. Precisava de privacidade, de ar, de água no rosto e de qualquer coisa que a ajudasse a se sentir melhor. O banheiro ficava ali mesmo, dentro da sala de hidratação.
O espaço era pequeno e frio. Azulejos claros, já um pouco amarelados pelo tempo, refletiam a luz forte da lâmpada no teto. O cheiro de desinfetante era intenso, quase sufocante. Havia uma pia larga, um espelho manchado por respingos antigos e, ao fundo, a privada encostada na parede, sem qualquer divisória que desse conforto, mas tendo suportes para alguma pessoa com deficiência.
Bárbara foi direto até a pia. Se olhou, viu que sua aparência não havia mudado em nada, sua boca, seu pescoço, nada fora do normal, se estranhou por conta de lembrar daquele urubu descendo para dentro.
Abriu a torneira e deixou a água cair nas mãos antes de levá-la ao rosto. Respirou fundo, mais de uma vez, enquanto a água escorria pela pele, levando junto o choro, o suor e parte do medo. Quando levantou a cabeça e se encarou no espelho, o rosto estava pálido, os olhos vermelhos.
Foi então que percebeu.
No reflexo, algo estava atrás dela.
Não um movimento brusco, nem um som. Apenas uma presença. Uma figura de pé, próximo à privada, ocupando aquele espaço estreito como se sempre tivesse estado ali. Aquilo não aparecia inteiro no espelho, apenas o suficiente para confirmar que Bárbara não estava sozinha.
O coração disparou, num reflexo rápido, Bárbara girou o corpo, puxando o suporte de soro junto e segurando-o com força, erguendo o metal como uma arma improvisada, pronta para reagir antes mesmo de entender quem — ou o que — estava ali.
— Que porra é você? — Diz enquanto luta para manter o suporte de soro erguido. O braço treme; o metal range baixo.
Então ela enxerga melhor.
Uma moça parada na sua frente. Usando uma máscara preta no rosto, cabelo curto e preto, cortado rente demais para ser casual. Os olhos — fundos, escuros, pesados — atravessam o veludo da máscara como se não existisse nada ali. Não piscam. Não julgam. Apenas sabem.
A moça leva a mão ao rosto e puxa a máscara ...devagar.
O rosto era parecido, como se Bárbara estivesse se olhando no espelho, mas havia algo diferente: parecia mais jovem, sem marcas de expressão, limpo, pálido, quase cinza, sem olheiras. Havia também um sinal — uma linha preta que se estendia do canto esquerdo da boca até o olho esquerdo.
— Eu sou o seu subconsciente, Bárbara — diz a outra, num tom calmo demais para aquela situação.
Ela cruza os braços e esboça um sorriso. É ensaiado, torto. Um sorriso que parece ter sido aprendido, observado por alguém de fora, não sentido. Como se soubesse o que é um sorriso — mas não por que ele existe.
Bárbara fica confusa. Abaixa o suporte de soro, e ergue a mão direita. Hesita por um instante, tomada pela dúvida. Encosta nela — ou acredita que encosta. A sensação é fraca, incerta, quase imaginada.
— Isso não faz sentido... Eu devo estar delirando. Eu... eu não acredito em você. — Ela engole em seco, os olhos marejados, sem conseguir afastar a mão.
— Mas eu sinto alguma coisa. — respira fundo, confusa. — Talvez... talvez eu esteja errada. Talvez eu possa acreditar. Mas eu não entendo. Como eu te criei?
— Eu sei lá, eu... não sei exatamente o que eu sou. Mas eu sei coisas demais pra ser só uma invenção. Eu sei o que você pensa quando está sozinha. Sei dos medos que você nunca disse em voz alta.
A Bárbara, ouvindo, se senta no chão do banheiro enquanto não tira os olhos daquilo, e o "subconsciente" descruza os braços, abaixa a tampa da privada que fica logo atrás e se senta, ela inclina a cabeça, como se sentisse o próprio raciocínio se formar enquanto fala.
— Eu sempre estive aqui. No acidente... quando o carro te acertou e você apagou, fui eu que te puxei de volta. Não deixei você soltar.
Ela pega a máscara, apoia no colo e fecha as mãos em torno dela.
— Quando aqueles três apareceram... quando você achou que não ia conseguir correr, nem gritar, eu te empurrei para a frente.
Começa a gesticular, as mãos se movendo no ar, tentando se expressar.
— Eu te dei força. Não coragem, força.
Ela respira por um breve momento e logo continua:
— Eu sei o que eu sou... mas não sei como vim parar aqui. Não sei quando deixei de ser só pensamento. Nem por que agora eu consigo falar, tocar, existir.
— E como eu te criei? Desse jeito? — pergunta Bárbara, a voz carregada de confusão.
O subconsciente de Bárbara veste um casaco preto com gola de pelo sintético. Por baixo, um cropped preto e uma calça larga da mesma cor, completando o visual com sapatilhas pretas.
— Agora eu tenho que saber de tudo? Eu não te controlo, você me controla! Você me criou, acho que eu nasci aí dentro — se inclina e toca na testa da Bárbara. — Não como uma pessoa de verdade, mas como um reflexo. Um pedaço teu que ganhou forma.
Bárbara se levanta e volta a encarar o espelho. Em instantes, as duas estão lado a lado, como gêmeas. Ela joga água no rosto e esfrega bem os olhos. Como quem não quisesse que aquilo fosse real.
— Ainda estou aqui — diz o subconsciente.
Alguém bate à porta.
— Bárbara? Sou eu, a enfermeira Rosane. Está tudo bem por aí?
As duas se encaram por um instante. Então, o subconsciente desaparece num piscar de olhos, como se nunca tivesse estado ali. Bárbara respira fundo e abre a porta.
— Oi, está tudo sim. Eu só precisava jogar um pouco de água no rosto. Está tudo certo por aqui.
— Que bom! — responde Rosane.
Atrás dela, surge um idoso, mais baixo que as duas, usando óculos de fundo de garrafa.
— Olá, Bárbara. Boa noite. Fico feliz em saber que você está bem. Eu sou o Doutor Benjamin. — Ele estende um leve sorriso. — Prazer em conhecê-la. Você poderia me acompanhar até a minha sala?
Bárbara troca um olhar rápido com Rosane, que lhe devolve um sorriso tranquilo, quase encorajador. Depois de um segundo de hesitação, ela concorda com a cabeça.
Seguem pelo corredor. O hospital está lotado. Pessoas ocupam leitos improvisados, outras caminham apressadas, conversas se sobrepõem, monitores apitam, macas passam de um lado para o outro. O ar é pesado, carregado de vozes, dor e pressa.
— O seu caso é... peculiar — continua o Doutor, como se retomasse um fio invisível. — Muito peculiar.
Seguindo-o, Bárbara não conseguiu ignorar a calvície reluzente. Sob a luz do hospital, brilhava tanto que quase servia de espelho. Ela piscou, tentando se concentrar. Por fim, param diante de uma porta estreita. A sala para a qual entram, parece algo, menos um consultório, mais como um espaço improvisado para fazer curativos e ataduras — fria, funcional, sem qualquer traço de conforto.
O Doutor Benjamin contorna e se senta à mesa metálica encostada na parede. Ele pega uma pasta que estava por ali dentre várias outras, abre com cuidado excessivo e folheou algumas páginas, os papéis estalando no silêncio do ambiente.
— Pode se sentar, Bárbara — diz, apontando para a cadeira à sua frente.
Ela obedece, acomodando-se devagar. A enfermeira Rosane permanece por mais um instante, observando a cena, antes de sorrir para Bárbara.
— Qualquer coisa, estarei logo ali fora.
Em seguida, ela deixa a sala e fecha a porta com cuidado. O clique suave da fechadura ecoa mais alto do que deveria, deixando os dois sozinhos. Uma coisa Bárbara se questiona é se Rosane trará algo pra comer.
— Bárbara... você é uma adulta. Mas vou fazer essa pergunta como faria a uma criança. — Ele cruza as mãos sobre a mesa, pensativo, olhando pra baixo. — Você prefere a notícia boa ou a notícia ruim?
Um aperto se forma no peito dela, sufocando ela naquela sala pequena. A ansiedade cresce, deixando as mãos suadas, o coração acelerado. Por um instante, ela pensa em pedir para não ouvir nenhuma.
— A ruim — responde por fim, incerta, mas sustentada por uma estranha convicção. Nada poderia ser pior do que andou acontecendo ultimamente.
O doutor Benjamin ajusta os óculos, demora alguns segundos a mais do que o necessário, como se escolhesse cada palavra com cuidado.
— Você tem um tumor no cérebro.
Ele faz uma pausa curta — e ela tentando ver se o que escutou é uma piada de mal gosto...
— No hipocampo, localizado no lobo temporal. — continua, apontando para a própria cabeça. — Ele é grande. Muito grande. Grande demais para o que seria... aceitável.
Bárbara sente flutuar naquela cadeira.
— Para ser sincero — completa ele, sendo direto —, não era nem para você estar andando. Nem falando. O fato de você estar aqui, consciente, conversando comigo... é, no mínimo, inexplicável.
O doutor Benjamin retira da pasta as imagens da ressonância magnética e começa a explicar, apontando detalhes, descrevendo números, áreas, riscos. Mas as palavras não chegam até ela. O som fica abafado, distante, como se Bárbara estivesse com a cabeça submersa dentro de um copo d'água.
Atrás de Benjamin no fundo da sala, o "subconsciente" aparece novamente. Ele gesticula de forma desesperada, balançando a cabeça em negação, a boca se movendo sem parar.
"Não! Não! Diga não!"
A voz dela grita, atravessando o ruído abafado.
— Diga não!
— Não! — Bárbara responde, alto demais, antes mesmo de entender por quê.
O doutor Benjamin a encara por um instante, assustado, como se não esperasse aquela resposta. Ainda assim, não questiona. Apenas aceita, pega as imagens da ressonância e as guarda de volta na pasta, deixando as folhas sobre a mesa.
Em seguida, abre a gaveta ao lado com um rangido curto e retira duas folhas.
— Certo... pois bem. Seu soro já terminou — diz, num tom excessivamente calmo. — Preciso que você assine aqui.
Ele desliza uma das folhas pela mesa. Bárbara, ainda atordoada, pega a caneta e assina sem ler, a mão levemente trêmula.
O doutor se levanta. Caminha até o fundo da sala e retorna trazendo a roupa do dia no acidente e os pertences de Bárbara, que deixa com cuidado sobre a mesa.
Por fim, estende a ela a segunda folha, já assinada.
— Este é o seu atestado médico, tenha uma boa noite, senhora Ribeiro.
No automático, Bárbara se levanta. O corpo se move antes que a mente acompanhe. Assim que ela dá o primeiro passo para fora da sala, o subconsciente reaparece ao seu lado e segura seu braço, puxando-a com pressa.
— Precisamos ir embora. Agora. Tá com o celular? — pergunta, quase imperativa e sumindo no ar.
Bárbara não responde. Apenas concorda com a cabeça, sentindo-se arrastada pelos próprios pés. Ao alcançar um trecho mais vazio do corredor, ela finalmente tira o celular do bolso. A tela acende e vibra na mesma hora.
Há várias mensagens não lidas. Do pessoal do trabalho, perguntando por que ela ainda não apareceu. De amigas da Eliza, cheias de preocupação, emojis deslocados, perguntas sem resposta.
E, acima de tudo, mensagens da mãe. Muitas. Uma atrás da outra. Chamadas perdidas. Áudios não ouvidos. Bárbara sente o peito apertar. O polegar paira sobre a tela, incapaz de escolher por onde começar.
Ela decide responder depois, prefere agora ir direto para casa — ou para qualquer lugar que não fosse ali. O subconsciente volta, estendendo a mão.
Bárbara segue para a parte da frente do hospital — não a entrada principal, mas o lado de fora, já voltado para a rua. O ar ali é diferente, menos estéril, misturado com fumaça de escapamento e cheiro de comida quente.
Ela pega o celular e solicita um Uber. Nenhum motorista aceita. A tela fica parada, girando, enquanto o tempo passa devagar demais.
Perto do meio-fio, uma senhora vende salgados numa caixa térmica apoiada numa banqueta improvisada. Bárbara se aproxima quase por instinto. Compra um salgado e uma Coca-Cola.
Ela se sentou no meio-fio mesmo, perto de onde comprou, come devagar, como se o simples ato de mastigar fosse um lembrete de que ainda está ali, viva. O refrigerante desce gelado, trazendo um alívio breve, quase reconfortante. Por alguns minutos, tudo parece comum demais para o que acabou de acontecer.
Ela confere o celular outra vez. Ainda nada. Nenhum Uber aceitou a corrida.
É então que sente.
Um aperto no peito. Não exatamente dor — algo diferente. Um movimento estranho, interno, quase pulsante. Como se houvesse algo vivo ali dentro, se ajeitando, despertando.
Bárbara para de mastigar. O salgado fica esquecido na mão. O barulho da rua continua ao redor, carros passando, vozes distantes, mas tudo parece se afastar enquanto aquela sensação cresce, silenciosa e inquietante.
O subconsciente aparece novamente.
— Não deve ser nada. Bom, ao menos não é falta de comer, e agora você está forte! Fica bem, deve ser só a poluição ou uma bronquite atacando... ninguém mandou ficar sentada num banheiro de hospital.
Bárbara não liga, apenas termina de comer e, quando menos percebe, um motorista havia aceitado a corrida e estava a seis minutos de distância.
Pouco depois, ele chega.
O carro para alguns metros à frente. Bárbara se aproxima, confere a placa no celular e abre a porta traseira.
— Boa noite, Robson? — diz, entrando e puxando o cinto de segurança.
— Boa noite! Sim, Bárbara, né? — responde o motorista, ajustando o retrovisor. — Tudo certo?
— Isso, tudo sim, graças a Deus — mente, olhando pela janela enquanto o carro arranca devagar.
O carro segue e logo para no semáforo.
Bárbara pega o celular outra vez. Os dedos hesitam por um segundo antes de tocar no contato da mãe. A ligação começa a chamar. Um toque. Dois. Ela encosta a cabeça no banco, os olhos fixos no reflexo escuro da janela, esperando um grande alarde da mãe.
— Mãe?
— Bárbara! Graças a Deus... você tá bem, minha filha? Onde você tá? — a voz vem apressada, carregada de preocupação.
— Tô indo pra casa agora. Já saí do hospital, tive alta. — responde, tentando soar normal.
— Meu Deus... eu fiquei tão preocupada. Você sumiu, não respondia... eu estava indo te ver agora pouco! — a mãe suspira do outro lado. — Mas tá tudo bem agora, né? O médico falou alguma coisa?
— Falou, sim... — Bárbara hesita. — Depois eu te explico com calma. Não quero falar disso agora.
— Tudo bem. O importante é você chegar em casa. Vem pra minha casa meu bem! Comer, descansar... — a voz suaviza. — Eu sabia que você ia ficar bem, vem pra cá pra eu cuidar de você!
Bárbara, observando as luzes da rua pelo para-brisa. Por alguns segundos, tudo parece... normal.
Então a dor volta.
Um aperto violento no peito, mais forte que antes, como se algo pressionasse seus pulmões por dentro. Ela leva a mão ao peito, a respiração falha.
— Mãe... espera... — a voz sai falhando, rouca.
Um baque seco ecoa. Depois outro.
Algo atinge o para-brisa.
O motorista instintivamente avança, mas antes que qualquer um entenda o que está acontecendo, pássaros começam a se chocar contra o carro. Um, dois, vários. Corpos negros surgem do nada, batendo asas desesperadas, se jogando contra o vidro.
— Meu Deus! — grita Bárbara. — Mãe, tem alguma coisa errada!
O para-brisa trinca. Estilhaça.
O carro puxa bruscamente para a direita e sobe a calçada e para, sem bloquear a pista. O silêncio vem rápido demais.
— Socorro! Mãe, socorro! — Bárbara grita para o celular antes de desligar, com as mãos tremendo.
Ela abre a porta e cai quase de joelhos no asfalto, ofegante. O ar parece pesado, difícil de puxar.
Quando se levanta e olha para dentro do carro, vê o motorista imóvel, a cabeça caída de lado.
Morto.
Ao redor dela, o som de asas.
Um bando de pássaros pretos surge no céu, rodopiando, voando em círculos cada vez mais baixos, envolvendo Bárbara como uma sombra viva. Como urubus vendo sua próxima carniça.
Então o subconsciente reaparece ao lado de Bárbara. Não diz nada. Apenas está ali, firme.
— Eles vêm.
Antes que Bárbara pergunte quem, passos ecoam atrás do carro parado. Três silhuetas surgem da escuridão da rua. Ela reconhece de imediato. Os mesmos rostos. Os mesmos corpos. Os mesmos que haviam tentado quebrá-la mais cedo.
O estômago se revira. A dor no peito cresce de uma vez, insuportável, como se algo estivesse tentando sair à força. Bárbara se dobra, levando a mão à boca. Ela vomita. Não é a comida que tinha acabado de comer
Algo preto escorre de sua boca — espesso no começo, depois se desfazendo no ar como fumaça viva. A substância sobe, se espalha, pulsa, e some.
No mesmo instante, o peso no peito desaparece. A respiração volta. Bárbara entende.
— Ele estava me seguindo... — murmura. — Esperando eu ficar fraca.
— Ava — diz o subconsciente. — Eles sempre esperam.
Os três homens avançam alguns passos, confiantes demais. Achavam que encontrariam alguém quebrada, caída, pronta.
— Então quer dizer que alguém conseguiu um Sub! Que coisa! E ainda consegue manifestar... Parabéns! — diz o cara do boné branco.
O homem de calça azul fica visivelmente inseguro e lhe dá um tabefe.
Bárbara se endireita devagar. As pernas ainda tremem, mas não cedem. Vê que chamam de "Sub", aquilo então sim é o subconsciente dela. Ela se posiciona ao lado do seu Sub, os dois olhares seguem na mesma direção.
As sombras dos pássaros giravam, como um presságio. Bárbara inspirou fundo. Sub e Bárbara avançaram. Bárbara já tinha treinado antes de entrar na perícia, mesmo não trabalhando sempre em grupo, ou indo nos lugares. Ainda assim, frequentemente se imaginava em situações de perigo.
O de calça azul avança apenas um passo. Ergue o dedo indicador e aponta para ela. Por trás dele, os pássaros se lançam de uma vez, como projéteis vivos. Um deles a atinge por trás do pescoço.
Ela cai, morta.
Ou deveria cair.
Antes que o corpo toque o chão, o Sub aparece na frente dela. Num movimento impossível de acompanhar, ele atravessa o peito dela com a mão... puxa uma linha branca — fina, brilhante, pulsando como se fosse feita de luz. Ele a puxa como um arco e solta. Então desaparece num piscar
Quando está a um palmo do chão, para. O corpo dela, já sem força, é puxado de volta. Ela se ergue do próprio eixo ...como se mãos invisíveis a segurassem pelo centro do peito.
E fica de pé outra vez.
Os três que observavam a cena recuam ao mesmo tempo, O cara que tinha um boné branco começa a entrar como numa dança para poder se preparar para uma batalha. O que carregava várias sacolas, tremendo, enfiou a mão em uma delas e a rasga de uma vez.
De dentro salta uma criatura grotesca — uma baleia com quatro pernas curtas e grossas, do tamanho de um cavalo. A pele úmida e escura brilha sob a luz, e a boca desproporcional se abre e fecha no vazio, mordendo o ar com desespero faminto.
— Cachorrão, toma cuidado! — grita o de boné branco para o homem de calça azul.
Bárbara avança antes que o animal chegue perto e o agarra pela cauda escorregadia e, com um giro brusco, o arremessa contra o "Cachorrão".
A criatura não hesita. A mandíbula se expande além do que parece possível, rasgando espaço e a carne num único movimento. Ela o abocanha da cintura para cima. O que sobra apenas as pernas — por um segundo absurdo, ainda de pé. Então os joelhos cedem. E eles tombam no chão.
Ao cair no asfalto, as sirenes já cortavam a rua. As viaturas dobraram a esquina em alta velocidade, luzes vermelhas e azuis piscando nos prédios. A criatura vira fumaça junto com a outra parte, sumindo no ar.
Os dois que restaram deram apenas dois, três passos para trás, indecisos entre correr ou lutar. Ela agarrou uma das sacolas do homem que havia soltado a criatura e o puxou com força, trazendo-o para perto como quem puxa alguém pela gravata.
O homem virou o rosto e levou um soco forte de baixo para cima. A mandíbula se quebrou ao meio com o impacto, ele foi lançado levemente no ar e caiu de lado, espalhando dentes pelo asfalto.
Viaturas frearam de vez. As portas se abriram quase ao mesmo tempo. Botas bateram no chão. Os faróis iluminaram a cena: o homem caído, os outros paralisados, um correndo ao longe e sacolas espalhadas... e Bárbara, respirando pesado, o punho ainda fechado — ensanguentado — com o olhar vidrado no corpo no chão.
Dos carros desceram rostos que ela já conhecia da delegacia. Um deles a encarou: Henrique, que apontava a sua arma para Bárbara.
— De novo você? Vocês demoraram. — disse Bárbara, cravando os olhos em Henrique como se quisesse atravessá-lo.