Henrique começa a pegar uma estrada que leva eles para fora da cidade. Onde para os outros que estão ali dentro, não fazia sentido ele pegar essa rota, se eles estavam até minutos antes, atrás daquele atirador.
— Para onde estamos indo? — Pergunta Francisco.
— A um lugar perto daqui, que vão cuidar de gente. Principalmente da sua perna ferida.
— Não se preocupe com minha perna, ela está bem melhor do que no começo… quem são vocês? E por que me ajudaram?
Bárbara olha para Henrique, querendo saber o que ele vai responder, se ele vai ser sincero, ele olha para ela e se pergunta se vai ser sincera. Henrique fecha os olhos, pensativo, logo fala.
— Meu nome é Henrique, trabalho como detetive para polícia, somos da mesma delegacia.
— E a moça?
— Sou perita, fico no laboratório, prédio ao lado dele e me chamo Bárbara.
— Entendi… então, o que levou vocês a me encontrarem ou se intervirem no bar?
Bárbara responde sem pensar muito.
— É meu aniversário, saí com familiares.
— Feliz aniversário, quantos anos?
— Vinte e três.
Ela olha para o Henrique, se perguntando, como ele chegou no bar na hora certa.
— Henrique, como você sabia que eu estava no Bar?
Francisco confuso pergunta.
— Você não chamou ele para seu aniversário?
— Não, eu estava no internada na Santa Casa ontem, minha mãe chamou só a família além de conhecer ele para chamá-lo.
Henrique se sentiu culpado, por ter sido pego, como se estivesse fazendo algo de errado.
— Eu estava te seguindo, pois o delegado mandou eu ficar de olho em você, tentar entender como é o seu Sub e esse tipo de coisa.
Bárbara ficou encarando, estranhando.
— Cara, era só falar que precisava ficar me acompanhando para qualquer lugar. Eu ia entender, e qualquer um da minha família também ia.
Ele ficou quieto, preferindo ficar calado do que argumentar no que na sua opinião, uma discussão sem peso e fundamento. Nisso ela fica olhando para a estrada.
— Então, vocês também têm um Sub?
— Sim e o meu é diferente do normal.
— Como assim?
Cinzas aparece no banco de trás com o Francisco, como se estivesse ali fazia tempo.
— Quem é você agora? Outro com Sub desenvolvido?
— Eu sou o Sub da Bárbara, Cinzas, prazer.
Francisco encara e se senta melhor no banco, indo para o meio.
— Qual é o seu poder, Bárbara?
— Não sei, pergunta pro Cinzas.
Cinzas puxa o Francisco para o canto em que estava sentado.
— Eu não sei como faço, mas quando a Bárbara está prestes a morrer, consigo enxergar uma linha, como a vida dela. Nisso, eu consigo dar corda, e ela volta mais forte.
— E você só consegue fazer isso?
— Sim.
— Não tem nenhuma consequência?
Bárbara e Cinzas falaram ao mesmo tempo:
— Como assim “consequência”?
Bárbara olha para trás; seu Sub desaparece no ar, dá a sensação de que entrou nela.
— Bárbara, o que você sabe sobre esses subconscientes desenvolvidos?
— Nada, eu consegui isso após ficar internada, tô tratando como se eu tivesse superpoderes.
— Nossa, é bem recente. Ele não te falou nada?
Henrique vira para se defender.
— Não tive tempo, ela estava passando por muita coisa. Uma coisa de cada vez.
— Você quer que eu explique ou eu explico?
— Pode falar, vou focar na estrada.
Bárbara tira o cinto de segurança e se vira para olhar bem para Francisco, querendo ficar preparada.
— Bárbara, existem certas pessoas com potenciais de que, quando a sua consciência se desliga, existe um tempo até se ligar de novo. O subconsciente da pessoa tem um potencial de se desenvolver, ele pode vir com consequências. Por conta de um desenvolvimento que teve um tempo de abertura muito pequeno, entre outros fatores, muitas justificativas para que um Sub se desenvolva de uma maneira péssima.
— Eu estou com um tumor no cérebro.
Francisco abre um pouco os olhos, como quem não esperava, e Henrique vira para ver a cara dela. Ela agiu de maneira seca, falou sem querer apenas cortar o que Francisco estava dizendo. Ela volta a se sentar normalmente e coloca o cinto de novo.
— E o que esse tumor te faz?
— Henrique, quando eu estava no hospital, o doutor me explicou que eu não devia nem estar andando. Eu tenho quase certeza de que tenho pouco tempo de vida, então não ligo. Acho que deve ter um tempo fixo para eu morrer, e a única coisa que me impede é o Cinzas, que não me deixa morrer antes da hora.
Henrique fica olhando para ela enquanto tentava ver a estrada.
— Sinto muito… ele não te disse nada? Como quanto tempo deve durar essa sua resistência?
— Não, chuto que ele não tenha falado muito tempo.
Cinzas surge como fumaça, parecendo a alma saindo do corpo de Bárbara.
— Ele não especificou quantos dias tinha para Bárbara, apenas “alguns dias”.
Ela volta para dentro, e todos ficam quietos.
Henrique começa a se incomodar por algo.
— Então, Francisco… posso te chamar de Chico?
— Pode.
— O que aquele cara do bar queria contigo?
— Eu sou perseguido desde mais novo por conta do meu Sub.
— E o que seu Sub faz?
— Bem, eu consigo fazer cristais, fazer eles aparecerem da forma como eu quiser, e uso isso como arma. Eles também podem ser consumidos, e isso faz o Sub ficar mais forte. Como um upgrade: aquele que engolir ou injetar tem o seu Sub melhorado, com capacidades a mais.
— Aqueles cristais roxos esverdeados, no bar… é aquilo?
— Sim.
Ele, que estava sentado, se deita um pouco e levanta o pé para mostrar a ferida dela, e nela há cristais preenchendo o buraco da bala.
— E eu posso usar isso como forma de me regenerar, como um curativo, mas só consigo fazer isso comigo mesmo.
— Como você descobriu que, se alguém ingerir isso, vai ter uma certa evolução?
— Faz tempo, se não me engano quando eu estava trabalhando e um amigo meu se feriu gravemente. Quando eu fui socorrê-lo, botei o cristal na ferida, estancar, e nisso ele adquiriu um Sub. E, com isso, eu comecei a ser procurado.
Fica um clima meio estranho para o momento, Henrique fica quieto, percebendo que estava entrando em uma parte íntima do Francisco.
Bárbara não querendo ficar de fora também faz perguntas.
— E o que te trouxe para o Bar?
— Complicado, sendo direto, eu não sou daqui, de Campo Grande, sou de outro estado, e fiquei anos longe da minha família, fiz isso para deixá-los seguros, longe de mim. Mas eu queria ver quem eu podia. Descobri que minha irmã mais nova estava aqui.
— Chegou quando na cidade?
— Agora vai fazer umas 3 horas.
Bárbara tenta conectar pontos, pela coincidência do Chico aparecer e eles estarem bem ali do lado para socorrê-lo.
— E aquele cara, o atirador, tinha realmente um Sub, ou era só um monstro? Conseguia mudar de forma e tinha vários pedaços de pele pelo corpo. Sei disso porque eu deixei um buraco na barriga dele.
— Talvez, com um Sub desenvolvido, quaisquer capacidades podem ser moldadas a partir de qualquer coisa.
— O que faz nossos poderes serem diferentes ou o que limita eles?
Henrique cerrou as sobrancelhas, como se também já tivesse essa mesma dúvida.
— Bom, o delegado me ensinou que essa diferença vinha da maneira como as mentes eram construídas, como digitais.
— Eu também acho que é algo biológico e químico, pois cada formação de cérebro é diferente, mas acho que os principais pontos que fazem os Subs serem diferentes é o que o consciente já passou, os traumas, como se o Sub fosse um espelho dessa jarra já fragmentada.
Todos pararam para refletir sobre, pensando em que pegar para tomar como verdade.
— Na minha opinião, depois de ouvir o que vocês disseram, a diferença vem da forma como as mentes são construídas. Existe parte química e biológica nisso, já que cada cérebro se forma de maneira única, mas o que mais pesa mesmo são as experiências do consciente — principalmente as rachaduras de um vaso trincado. Cada um com seu vaso de barro com suas partes rachadas.
— Você simplesmente repetiu o que a gente falou, Bárbara.
— Eu sei…
Ela cruza os braços.
— Henrique, pergunta… para onde nós estamos indo mesmo?
— Para o lugar onde o Sérgio me achou.
Francisco pergunta:
— Quem?
— É o delegado, ele também tem um Sub.
— Ah, tá.
— Henrique, quantas pessoas ali na delegacia têm Sub como a gente?
— Tem bastante até, Bárbara, tem gente que tem um Sub, não sabe usar ou sequer enxergar. Assim como tem gente que consegue só ver, ou só usar.
— Acho que entendi, muito talvez, muitos casos.
Francisco pega um caderno dentro de uma bolsa que estava do seu lado e entrega para Bárbara com ele já aberto.
— O que é isso?
— Um caderno de anotações meu. Foi esse mês que comecei a escrever tudo o que eu sei sobre, além de anotações para achar meus parentes. O que está aberto aí é uma maneira que eu consegui de dividir os Subs.
— Henrique, você sabe de algo do tipo?
— Não, pode ler em voz alta, quero ouvir.
— Tá bom.
Bárbara tenta dar uma olhada melhor no caderno antes de ler, vendo o caderno limpo, e a ortografia do Chico sendo algo decente se surpreendendo ao ver que consegue entender muito bem sua caligrafia.
Ela apoiou o caderno nas mãos, passando o indicador pela borda do caderno antes de começar.
— “Classificações de um Sub…” — Puxou um pouco mais pra perto e continuou.
— “Classe Ômega — Sub Colapsado. Esse é o tipo mais perigoso… Não porque seja forte, mas porque é instável demais. O poder simplesmente existe além do que a mente do usuário consegue suportar. É como tentar enxergar tudo ao mesmo tempo — dimensões, pensamentos, realidades — sem nenhum filtro.”
Ela engoliu seco, não parou.
— “E aí… a pessoa quebra. Pode entrar em estado vegetativo, perder quem é, ou simplesmente se desconectar da realidade. Não há controle aqui. Só destruição.”
— “Classe Delta — Sub Degenerativo. Esse até funciona… no começo. O problema é o preço. Cada uso cobra algo do usuário — memória, sanidade, o próprio corpo. É um poder que consome quem o possui, lentamente. Você pode até ver o futuro… mas, a cada visão, deixa de ser quem era. No fim, o poder vence — e o usuário desaparece aos poucos.”
— “Classe Beta — Sub Assimétrico. Aqui já começa a ficar mais ‘normal’. O poder é útil, sim… mas vem com efeitos colaterais incômodos. Nada que destrua de imediato, mas suficiente pra desgastar. Dor, cansaço, confusão mental… Às vezes até mexe com as emoções. Tipo ler pensamentos — útil, claro — mas e quando você já não sabe mais seu pensamento e o que é dos outros?”
— “Classe Alfa — Sub Estável. Esse é difícil de possuir mesmo sendo o melhor pra maioria. Um poder forte, confiável, com efeitos colaterais leves. Dá pra usar, treinar, evoluir… sem pagar um preço absurdo por isso. No máximo um cansaço aqui, um estresse ali. Algo administrável. É o tipo de habilidade que realmente pode ser dominada.”
— “Classe Sigma — Sub Absoluto. Agora isso aqui… é raríssimo. Um poder praticamente perfeito. Sem falhas aparentes, sem consequências conhecidas. Total controle, total liberdade. Manipular o tempo, por exemplo, sem sofrer nada por isso. Parece até injusto — e talvez seja. Mas são poucos… muito poucos que chegam nesse nível.”
Ela ficou em silêncio por um segundo antes de continuar.
— “Classe Psi — Sub Adaptativo.”
A voz dela diminuiu um pouco, mais concentrada:
— “Esta não é só sobre ter poder… é sobre entendê-lo. Aqui, o usuário não apenas usa — ele molda, adapta, evolui o próprio Sub. É alguém que aprende em tempo real, que transforma a habilidade conforme precisa. O controle é máximo, e o potencial… praticamente ilimitado. Não é só poder. É consciência sobre o poder. Mas ele é um que progride, se modifica, então ao mesmo tempo que pode trazer efeitos ruins como um Beta, pode nem sequer surtir efeito negativo como um Sigma.”
— Ok, o meu seria o Alfa, certo?
— Eu diria que sim.
— Você criou essas caracterizações ou alguém já tinha feito e você só escreveu por cima?
— Um pouco dos dois. Já existiam algumas ideias, tem várias exceções… detalhes como alcance, atributos, campo. O que eu fiz foi mais organizar uma parte do que existe invés de inventar tudo. Deixei muita coisa de fora.
Um breve silêncio se formou, mais denso dessa vez. Chico quebrou a pausa:
— Eu chamei o meu de “Ponta de Areia”. Quando eu era mais novo, ouvia essa música o tempo todo.
— O meu é “Olho nos Olhos”. Dei esse nome antes mesmo de saber que isso tudo tinha um nome.
— Faz sentido cada um escolher do seu jeito. Fica mais… pessoal.
Chico virou o olhar para Bárbara.
— E você? Por que “Cinzas”?
Henrique demorou um pouco para responder.
— Não fui eu que escolhi… foi ele.
— Ele?
— Meu Sub. Tinha uma música que eu dançava com meu pai… meio samba. Chamava “Cinzas”. Foi esse o nome que ele quis.
Bárbara fecha o caderno e devolve para Francisco que o põe de volta na mochila. Com o tempo, o grupo caiu em silêncio outra vez, agora não estava mais desconfortável, era como se cada um estivesse mergulhado nas próprias memórias.
O tempo passou devagar. Sem perceberem, o cansaço tomou conta. Bárbara e Francisco acabaram cochilando quase ao mesmo tempo, enquanto o silêncio se acomodava entre eles.
O Henrique começa a querer cochilar no volante, ele não estava cansado ou com sono; algo estava forçando aquele cansaço nele. A caminhonete começa a falhar também.
Ele sente um cheiro doce do lado de fora, ele já tinha sentido, não tinha se importado, quando sentiu novamente, ele olha para o lado de fora e vê uma criatura azul, humanoide e pequena como um pássaro, ela sorri para ele quando põe a cabeça para fora. Quando põe a cabeça de volta, para dentro do carro, ele dá um cochilo, luta para não dormir.
— Acordem!
Ficou gritando, repetindo, chacoalhou a Bárbara e nada.
— Deixa comigo!
Cinzas aparece do lado de fora do carro, segurando-se na porta do passageiro.
— O que você tá fazendo?
— Eu não sei. Por que você não para o carro?
Ele tenta frear, não consegue. O freio estava cortado.
— Eu não consigo!
Ele sobe para o teto do carro e vê uma bola brilhante grudada em cima do carro. Quando para e olha mais de perto, outra criatura aparece. Ela abre um grande sorriso e avança para atacar Cinzas, atravessa o corpo dele como se Cinzas fosse um fantasma, caindo no asfalto e ficando para trás.
A criatura que estava do lado da porta do Henrique avança, ele fecha a janela a tempo. As mesmas criaturas pequenas começam a sair do capô do carro subindo pelo para-brisa até o teto para tentar atacar Cinzas, quando pulam para atacá-lo, acabam caindo no asfalto..
Alguns entram naquela bolha e com isso, mais e mais dessas criaturas começam a brotar dela, a bolha começa a crescer e flutuar até ficar bem alto e as criaturas ficavam se amontoando e caindo. Até que explode como uma bolha de sabão.
Cinzas ficou parado, em cima, todas as criaturas tentavam atacar ela, e caíram no asfalto e ficaram para trás. Ela desce de volta.
— Oi.
— Oi, o que aconteceu?
— Nada de mais, eles todos caíram no asfalto.
— Sim, eu vi no retrovisor.
Ela fala isso olhando para o retrovisor, com isso, uma massa azul, com o que seria as criaturas se amontoando se mesclando. Virando um só, gigante. Maior que um banheiro químico. E corre atrás do carro.
Cinzas vai para atrás do Banco e chacoalha o Francisco e ele acorda.
— O que está acontecendo?
— Finalmente! Puta que pariu, estamos sendo atacados!
— O que? por quem?
— E eu sei lá, poha!
— Onde?
— Olha pela janela!
Ele se senta e abre a janela, vê a criatura.
— Puta merda.
— Faz alguma coisa!
Ele fica da cintura pra cima pra fora do carro. Enquanto ele fica lançando cristais. Os cristais acertam a criatura, que aos poucos, vai diminuindo de tamanho. Em pouco tempo, a criatura fica pequena, voltando para aquele tamanho pequeno e chega a alcançar o carro.
O carro está diminuindo a velocidade cada vez mais.
A criatura se segura no parachoque do carro e aos poucos sobe. Francisco ficou um certo tempo ali se segurando do lado de fora, e quando estava voltando para dentro do carro, ela pula na cabeça dele. Francisco consegue entrar no carro, se debatendo, tentando tirar a criatura da sua cabeça.
O carro quase parando, Henrique decide usar seu poder, ele precisa ficar parado para poder usar..
— “Olhos no Olhos” — dizendo num tom sutil, dando foco total para o seu poder.
O carro, por sorte, estava bem alinhado, parando aos poucos, sem sair da estrada. Com isso, bolhas de sabão com o que pareciam ser olhos dentro encostam na criatura.
Henrique força o controle sobre a criatura. Ela cai no colo do Francisco e fica tentando se moldar de diferentes formas, chegando, em um momento, a se parecer com o rosto de Henrique gritando. Chico pega a criatura e a joga na estrada.
Sub de Henrique, “Olhos nos olhos”, consegue controlar, ou apenas observar seres de porte pequeno a partir do momento em que joga, como bolhas de sabão, seu poder sobre a criatura — ou criaturas. Ele também sente o que a criatura sente. Ou seja, se estiver vendo através de uma formiga e ela for pisada, ele sentirá a dor de ser esmagado.
Quando a criatura azul é jogada na estrada, ela cai debaixo da roda do carro, numa velocidade lenta, como um rolo compressor.
Henrique grita, berra de dor. Sente como se seus ossos estivessem passando por um cilindro de massa, sendo esmagados lentamente. Como o carro estava quase parando, em vez da dor passar rápido, ela se prolonga, ficando cada vez mais lenta e intensa.
Com isso, ele afunda o pé no acelerador, segura firme o volante, olhando para frente e gemendo de dor, tentando suportá-la enquanto quer chegar o mais rápido possível em “Campo Novo”.