O grupo está reunido numa antiga fazenda, agora sem o carro às 18:00, um antigo estábulo onde grama não nascia mais dentro, apenas do lado de fora, Henrique estava sentado no meio, usando seus poderes para poder chegar perto do galpão.
20:00, sem esperanças. Jair ficou sentado, ansioso e com medo de descobrirem seu poder, Francisco dormia no canto, Henrique ainda sentado no meio no lugar, tentando achar alguma coisa e Bárbara pensando no que iam fazer.
Jair possui o Sub “Duas Caras”. Ele consegue criar uma duplicata, mas ela possui apenas um objetivo, como limpar a casa ou cozinhar. Quando termina de cumprir esse objetivo, a duplicata desaparece. Jair não adquire as memórias dela, e a duplicata consegue interagir e conversar normalmente, de modo que ninguém perceba a diferença. Caso ela seja impedida de cumprir seu objetivo ou, de alguma forma, seja aniquilada, outra duplicata surgirá e voltará a realizar o objetivo anterior.
Nisso ele não sabia da volta de Henrique, ele tinha feito uma duplicata para cuidar da comida até alguém aparecer, quando ele viu Henrique na frente do galpão acenando para voltar, soube no instante que ele estava em perigo.
— Henrique, vamos lá, quanto tempo mais iremos esperar?
— O tempo que precisar Jair, estou usando pássaros para ter uma visão aérea, mas estamos longe demais, consigo ver eles arrumando o lugar agora.
— Isso quer dizer que eles não vão envolver mais gente, mas por que?
Francisco se senta.
— Nem todo mundo tem um Sub, e alguém deve estar de olho no carro do Henrique que ficou.
Bárbara acena para Francisco levantar e vão até o Jair.
— Então, como podemos sair daqui? Você tem alguma ideia?
— Bárbara, eu não sei o que te dizer, minha intenção era deixar vocês seguros...
Jair, que estava sentado no chão, também se levanta.
— Criei minha segunda face para levar a caminhonete até Campo Grande, então, quando ele chegar lá, ele vai sumir e daí vou ter que criar outra que vá até lá e traga a caminhonete.
— Podemos pegar a caminhonete do Henrique.
Henrique se levanta, vai até eles.
— Levaram, não está mais no galpão.
Todos ficaram desanimados. Francisco olhou para cima, e Jair começa a esfregar os olhos, com sono e Bárbara senta no chão ali mesmo.
Dentro desse estábulo, onde apenas a lua ilumina, o lugar começa a escurecer por conta das nuvens. Ventos fortes traziam brisa fria, o que os deixava acordados.
— Eu sei o que fazer, mas não sei como fazer.
— E o que seria, Jair?
— Henrique, primeiro precisamos passar pela floresta e ir para as linhas de trem.
— Espera, a Floresta Maldita?
— Sim.
— Não, vai ser impossível nós sairmos dali vivos.
Francisco intervém.
— Como assim? Do que vocês estão falando?
— Chico, eu não sei como explicar para vocês. Não é a floresta em que eu fiquei desaparecido, fiquei em uma dessas qualquer. Essa floresta que estamos falando é essa que está bem ao nosso lado.
— Então, o que tem lá?
— Possível que seja alguma criatura que tem o alcance limitado, mas ela mexe com as pessoas, te transporta para outro lugar. Houve uma moça que entrou e, um ano depois, voltou, como se nada tivesse acontecido. Ela mexe com o espaço e tempo, impossível para a gente passar. Tá, espera. Jair, o que tem a ver a floresta?
— Por conta dos produtos, existe um trem que passa às 23:00 de hoje e ele vai levá-los para um lugar seguro.
— E hoje tem carga? Poderíamos nos infiltrar para irmos com as cargas.
— Não, mas o trem vem todo dia no horário fixo das 23:00, é como parada para o maquinista descansar. Existe um caminho que os rapazes usam para chegar até o trem. Mas, é por trás do galpão que fica a rota, esperar eles saírem vai tomar muito tempo, ainda é 20:27 da noite.
Então, todos param e pensam.
— Você consegue trazer sua segunda face de volta?
— Ainda não. Por quê, Bárbara?
— Então, assim que puder fazer ela aparecer aqui, faça ela nos guiar no caminho certo.
— Talvez dê errado.
— Temos outra escolha? Temos menos de 3 horas para conseguir atravessar essa floresta... o que mais temos a perder? Alguma outra ideia?
Quando ela acaba de falar, Jair fez um gesto para todos se afastarem. Ele se agacha no chão, nisso, uma mão surge, Jair puxa e outra aparece. A segunda face fica de pé, Jair sussurra no ouvido dela. Então a duplicata se vira e fala para todos.
— Me sigam.
Com isso, quando estavam saindo do lugar, seguindo a duplicata. O jair original que estava atrás fala.
— Gente, segue ele, eu prefiro voltar ao galpão, e ficar por aqui, assim posso tentar enrolar eles.
— Tudo bem, Jair, tome cuidado.
— Você também Henrique, tomem cuidado pessoal!
Quando ele se vira para seguir caminho, ele se lembra.
— Gente, espera!
Voltam para escutar o que ele tinha a dizer.
— Prestem atenção, pois esta é a rota que vocês deverão seguir: Ao pegarem o trem aqui, vocês passarão por três paradas. Na primeira parada, vocês chegarão a outro local, uma indústria abandonada. Não desçam ainda. Na segunda parada, haverá uma baldeação. Nesse ponto, vocês deverão descer do trem, esperar e pegar o próximo trem que segue pela faixa da direita. Depois disso, sigam até a terceira parada. Ao chegarem, desçam e saiam dali o mais rápido que puderem. Vocês estarão em Campo Grande. Longe de tudo? Sim. Mas estarão, finalmente, na cidade.
Então ele segue o caminho de que vieram, enquanto o restante se redirecionaram novamente para a floresta.
Esse estábulo, ficava perto de uma rua de chão que em minutos chega na cidade, e próximo dela, também está uma fazenda abandonada e desativada, onde não se sabe ao certo motivo, mas possivelmente foi por conta da criação das fazendas mais atualizadas e por conta dos novos produtos que agora estavam sendo foco da pequena cidade.
Seguiram caminho, um atrás do outro, o Henrique logo atrás da duplicata e o Francisco no meio e a Bárbara atrás.
— Chico, segura a mão da Bárbara e também segura a minha mão.
Entrando, tudo escureceu. Poucas partes da floresta eram capazes de ser enxergadas. Pouco tempo depois, Bárbara tropeça e cai no chão, e uma coceira aparece subindo pelo seu pé, até que ela não está mais na floresta: estava de volta em casa.
Na sala, sua mãe, sentada no sofá, assistia à novela, e seu pai passava a mão em seu ombro.
— Vem, minha filha, vamos sentar.
Então, ela se junta a eles e assistem à televisão. Ela troca de canal, passando para algum desenho infantil, onde havia crianças brincando no parquinho. Uma das crianças fica sozinha, em um espaço vazio, e, no sofá, seus pais somem, mas ela fica encarando a televisão. Outra criança aparece de costas e começa a virar a cabeça para a tela. Cinzas aparece ao lado dela. E, lentamente, passa a encará-la.
Ela se levanta, indo em direção ao seu quarto. E dentro viu uma cena de quando era mais nova, ela estava se recusando a tomar algum tipo de remédio. Ela não se lembra disso.
— Toma a porcaria do remédio, Bárbara! Puta que pariu, toma logo!
Então, a mãe dela vira a cabeça.
— Então você está querendo fugir de mim, né?
E a mãe começa a sair correndo freneticamente atrás da filha. Quando Bárbara virou para abrir a porta, deparou-se com um corredor iluminado, com paredes cor-de-rosa e extenso. Correu e correu. Cinzas, ao lado dela, lado a lado, cabeça a cabeça, corriam em sintonia, até que as duas viraram uma só: seu cabelo ficou roxo, suas roupas mudaram e ela também ficou mais rápida.
Conseguiu enxergar uma entrada, como a de uma caverna, onde repassou por tudo o que havia vivido até aquele momento e, com isso, ficou repetindo: correndo, fugindo da sua mãe. Não olhou em nenhum momento para trás, mas, quando decidiu olhar e enfrentar, caiu como se estivesse no fundo de uma piscina. Tentou nadar para cima, buscando a superfície, mas não conseguia alcançar.
Nadando, indo para cima e tentando enxergar algo, o céu noturno apareceu. Ela não estava mais nadando, e sim de pé, agora em uma plataforma de madeira que dava para uma cabine de sinalização de trem. Logo ao lado, havia uma mata densa junto a uma floresta.
Seu casaco havia mudado, e o cabelo já não chegava a bater nos ombros; além disso, estava com um tipo de ondulado definido. Ela olhou em volta e viu a cabine, com o relógio marcando 22:42. Enxergava bem, pois havia uma lâmpada externa na cabine que iluminava sua porta. Quando olhou para o lado, na floresta, viu luzes e o que parecia ser música eletrônica vindo de lá. Nisso, afastou-se e foi para um dos lados da cabine, para ficar escondida e de olho no que viria
Esperando mais um pouco, Francisco, Henrique e a Duplicata saíram do matagal. Francisco havia rejuvenescido mas sua barba ainda estava grisalha e tinha perdido sua boina. Henrique continuou o mesmo, mas a duplicata voltou para a terra, transformando-se como água e caindo com tudo onde estava.
— Chico! Puta que pariu, ele se foi, e a Bárbara ainda está lá!
Henrique chegou perto de Francisco.
— Henrique, se acalma.
Na floresta, Bárbara para eles tinha caido, nesse meio-tempo, os meninos entraram em desespero, e todos soltaram as mãos. Francisco tentou puxá-la de onde Bárbara estaria caída, mas, quando segurou uma raiz que estava no lugar dela, foi puxado, como se a raiz tivesse virado uma corda.
Henrique olhou para trás, e tudo voltou como se estivesse de dia. Ele voltou no tempo, mas não quis sair dali; continuou entrando mais na floresta. Seguindo adiante, viu uma cadeira, onde ela estava, com raízes em volta, segurando a cadeira ali. Ela também estava em uma parte onde as árvores não a cobriam, e a luz do céu caía sobre a pequena área onde estava a cadeira.
Ele a ignorou e continuou indo, até que, novamente, voltou ao mesmo lugar.
— É sério isso?
Ele entendeu que, não importasse para onde fosse, iria voltar àquele lugar. Então, foi até a cadeira e tentou tirá-la do lugar. Em seguida, subiu nela para ver se conseguia enxergar alguma coisa, mas, nisso, algo como um grande tronco ou raiz o levantou junto com a cadeira em direção ao céu, em grande velocidade. Subindo e subindo, ele se agachou na cadeira e se segurou nela. Ficou de noite e de dia; só dava para ver o céu piscando, enquanto o Sol e a Lua passavam.
A duplicata de Jair apareceu no ar, andando tranquilamente em direção a Henrique e estendendo a mão para que ele saísse da cadeira. Quando ele se levantou e pôs o pé onde seria o ar, voltou ao mesmo lugar onde estava a cadeira na floresta, com a única diferença de que agora era noite.
— Não solte mais a minha mão.
Com isso, ele o guiou até chegar à plataforma de trem. Foi até a cabine de sinalização e viu que eram 21h18.
— E os outros?
— Eu vou voltar e buscar eles.
Então, Jair voltou e entrou novamente na floresta. Henrique esperou muito, mas, quando o relógio marcou 22h25, ele se enfureceu. A ansiedade, o medo de alguém ter se ferido e a sensação de estar sendo inútil foi grande demais, por pensar que tudo poderia ter sido culpa deles, falaram mais alto. Ele voltou correndo para a floresta.
Ao pisar na floresta e dar alguns passos, as luzes de um grande salão de festas se acenderam. Nisso, viu Francisco amarrado, preso a uma cadeira no meio do salão. Cinzas apareceu por trás.
— Não fica com medo.
— Cinzas? Que bosta é essa? Cadê a Bárbara?
— Dormindo. De algum jeito, não estou mais com ela. Francisco caiu perto dela, e agora ele está comigo.
Henrique estava sobre um palco. Olhou em volta; o lugar tinha paredes brancas, e tanto o piso quanto o palco eram de granito. Quando pulou do palco para a pista, o lugar mudou de novo. Agora, Francisco estava mais longe dele.
— Cinzas, cadê você? Por que o Chico está desacordado?
— Ele está bem, Henrique. Eu tenho um plano.
— Plano? Apareça, vai! Você precisa deixar todos irem! É você quem está impedindo a gente de ir para o trem?
— Não, claro que não. Mas tenho medo. Não tenho culpa de que essa ZONA me separou da Bárbara. Agora eu não sou mais parte dela. Eu não sei se ela morreu.
— Morreu? Você está aqui! Surgiu dela e tem as mesmas memórias.
— Eu me dividi, Henrique. Uma parte minha ainda está na Bárbara. Essa outra não quer ir tão cedo.
— O que é essa “ZONA”? E como assim você se dividiu?
— Henrique, eu não vou te responder o que é ZONA. E estou sendo sincero.
— Apareça!
Henrique, enquanto conversava com Cinzas que não aparecia, ia em direção a Francisco, que estava na cadeira, mas não saía do lugar. Quando deu alguns passos, as luzes ficaram ligadas apenas onde ele estava e onde Francisco estava. Ele parou e gritou para Cinzas aparecer. Todas as luzes se acenderam, e Cinzas apareceu no meio do salão, entre Henrique e Francisco.
Ela avançou, saindo correndo disparada em direção a ele. Henrique tentou dar a volta para chegar até Francisco, mas Cinzas conseguiu alcançá-lo e puxar seu pé. Ele começou a chutar o rosto dela, que se desfigurou como massinha de modelar, fazendo com que ela o soltasse. Ele ficou de pé, e as luzes se apagaram novamente, para logo depois voltarem.
Henrique voltou para a frente do palco. Cinzas estava ao seu lado, um pouco mais à frente, enquanto, no fundo do salão, Francisco não estava mais na cadeira, mas no chão, dormindo, largado, com as pernas abertas e as costas escoradas na parede.
— Quem chegar por último é a mulher do padre!
Cinzas correu em direção a Francisco. Henrique não ficou parado: correu e quase alcançou Cinzas, mas o salão parecia aumentar de tamanho, fazendo com que a distância entre eles ficasse cada vez maior.
Confetes e explosões de fumaça de várias cores foram acionados, e uma música eletrônica dos anos 2000 começou a tocar.
Ele se sentiu diferente. Quando novamente chegou perto de Cinzas, estendeu o braço e, com isso, conseguiu atirar, em vez de liberar, um de suas bolhas. Ainda acordado, conseguiu impedir Cinzas de avançar. Ele conseguiu lançar uma bolha e controlar Cinzas.
Mas ele logo foi repelido, e isso também o afetou: suas pernas ficaram bambas e ficando a poucos metros de Francisco. Cinzas aproveitou a oportunidade e passou disparada por Henrique, pulando sobre Francisco. Henrique, porém, começou a correr e pulou, fechando os olhos, dando um salto de fé.
Ainda com os olhos fechados, não percebeu que Cinzas havia chegado primeiro e, de algum jeito, conseguido entrar em Francisco, da mesma forma que entrava em Bárbara.
Henrique conseguiu chegar até Francisco.
— Eu… consegui?
Todo o salão se quebrou como vidro, revelando um grande céu azul.
Henrique se segurou e conseguiu chegar até Francisco, abraçando-o durante a queda livre. Nisso, até a boina que ele usava voou e ele acordou.
— Henrique!
— Chico!
— Por que estamos caindo?!
— Eu não sei!
— Cadê a Bárbara?
— Eu também não sei!
Vendo a distância que ainda faltava, Francisco deu um abraço forte em Henrique. Quando se aproximaram mais do chão, algo puxou Francisco. Os dois estavam de olhos fechados, mas os abriram assim que sentiram um puxão. Então, perceberam que estavam saindo da floresta: era a duplicata de Jair que os havia puxado.
Eles se levantaram e começaram a correr para fora da mata, chegando novamente ao local onde Bárbara os havia visto.
— Me acalmar? Porra, o Jair mentiu para mim, Chico! Mentiu! Ele não disse para aquela coisa nos levar em segurança, mas disse que faria de tudo! A Bárbara não está aqui com a gente! E é culpa sua ter deixado ela soltar a sua mão!
— Minha? Aquela floresta, como vocês chamam, é maldita e cheia de artimanhas! Nos manipulou do início ao fim!
Então, ela saiu de trás da cabine de sinalização e foi caminhando até eles. Os dois olharam na direção dela quando ouviram seus passos sobre a madeira antiga.
— Henrique, talvez todos nós estejamos em segurança.
Eles viram que Bárbara estava diferente e deram de dois a quatro passos para trás.
— Cheguei agora há pouco, o trem das onze chega em menos de vinte minutos.