O táxi parou com um solavanco seco quando o asfalto simplesmente deixou de existir. Dali em diante, apenas terra batida, sulcos de rodas antigas e o cheiro familiar de barro úmido misturado com fumaça de lenha. O motorista coçou a nuca, olhando adiante como se o carro se recusasse a continuar.
— É até onde eu vou, garoto. Se eu entrar aí, fico atolado.
Tiān Shù assentiu em silêncio, pagou a corrida e desceu com a mochila nas costas. Assim que a porta bateu, o som do motor se afastando pareceu arrancar a última conexão com o presente. Restou apenas o vento.
O vilarejo diante dele parecia menor do que na memória.
Sempre é assim… quando a gente cresce, o mundo encolhe.
As casas de tijolos antigos e madeira escura se alinhavam ao longo do caminho estreito, telhados curvos, varais com roupas balançando, galinhas ciscando perto das cercas de bambu. A névoa fina das montanhas envolvia tudo com um ar quase onírico. Por um instante, ele teve a sensação de ter atravessado décadas no tempo.
Se não fosse o peso no peito, poderia jurar que ainda era uma criança correndo descalça por ali.
Ele deu o primeiro passo.
A terra rangeu sob o solado.
Depois outro.
O coração batia mais rápido a cada metro.
— Estou de volta…
O cheiro atingiu primeiro, era um arroz cozinhando, óleo quente, chá de ervas. O mesmo cheiro de todas as manhãs de sua infância.
E então vieram os rostos.
Uma senhora que varria a frente da casa parou no meio do movimento. Ela apertou os olhos, tentando focar melhor.
— …Shù?
Ele piscou, surpreso.
— Tia Lin?
A mulher largou a vassoura na mesma hora.
— Meu Deus do céu! É você mesmo!
Ela se aproximou apressada, segurando o rosto dele com as mãos enrugadas, analisando-o como se temesse que fosse uma ilusão.
— Olha só pra você… ficou tão alto… tão magro… igualzinho quando era pequeno, só que esticado!
Apesar do tom brincalhão, os olhos dela já estavam vermelhos.
— Faz anos que você não aparece, garoto ingrato.
Tiān Shù tentou sorrir.
— A universidade… eu fiquei ocupado…
Desculpas vazias.
As palavras ficaram presas na garganta.
Outras portas começaram a se abrir. Um homem carregando baldes de água parou. Duas crianças cochicharam. Um senhor encostado no muro arregalou os olhos.
— Ei… não é o neto do velho Zhao?
— É o menino Shu!
— Ele voltou…
As vozes se misturavam, baixas, respeitosas. Não havia festa, nem alegria exagerada, era apenas uma recepção morna, sincera, atravessada por uma tristeza coletiva.
Como se o vilarejo inteiro estivesse de luto.
Um senhor de barba grisalha, o ferreiro que ele lembrava vagamente, se aproximou batendo a mão pesada em seu ombro.
— Você cresceu bem — disse. — Seu avô ficaria orgulhoso.
A frase acertou como um soco.
— Ele… falou de mim? — Tiān Shù perguntou sem perceber.
O homem soltou um riso curto.
— Falava sempre. Fingindo que não, claro. Aquele velho teimoso.
— “O garoto só estuda, vai virar cabeça grande sem musculo”, ele dizia — acrescentou a tia Lin. — Mas depois passava a tarde inteira contando vantagem pros outros.
— “Meu neto entrou na universidade da capital.” — o ferreiro imitou a voz rouca. — “Não é qualquer um, não.”
O mundo pareceu parar.
Tiān Shù ficou imóvel.
—…Ele falava isso?
O avô quase nunca elogiava na frente dele.
Quase nunca dizia nada.
Então… ele se gabava… pelas minhas costas?
Um calor dolorido subiu pelo peito até os olhos. Ele desviou o rosto, limpando rapidamente com a manga.
Que ridículo… chorar na frente de todo mundo…
— Ei, ei — a tia Lin suavizou a voz — não segura isso sozinho. Hoje ninguém aqui vai fingir que está forte.
Ela apertou sua mão.
— Seu avô ajudou esse vilarejo mais do que você imagina. Consertava telhado, cortava lenha pros velhos, levava remédio pra quem não podia ir à cidade… Ele era ranzinza, mas tinha coração grande.
— A gente vai sentir falta dele — murmurou o ferreiro.
O silêncio que se seguiu não era constrangedor. Era pesado. Respeitoso.
Tiān Shù olhou ao redor.
Cada rosto ali carregava uma memória do velho.
Ele não era só “seu avô”.
Era parte da estrutura daquele lugar.
Como um pilar que ninguém percebe… até cair.
— Obrigado… — Tiān Shù disse, a voz baixa, quase falhando. — Por cuidarem dele… quando eu não estava.
A tia Lin balançou a cabeça.
— Tolo. Ele é que cuidava da gente.
Ela apontou para o fim da rua.
— Vá. Sua casa ainda está lá. O pessoal já começou os preparativos do funeral.
A velha casa de madeira surgia ao longe, meio escondida entre árvores, exatamente como nas lembranças.
A cadeira na varanda ainda estava lá.
Vazia.
O vento balançava a porta, rangendo devagar.
Tiān Shù respirou fundo.
Cada passo em direção àquela casa parecia mais pesado que o anterior.
Não era apenas o retorno de um neto.
Era o retorno de alguém que finalmente entendia… tarde demais… o amor silencioso que sempre esteve ao seu lado.
Simultaneamente, um homem de traços atraentes e cabelos castanhos desembarcava de um avião. Enquanto caminhava pelo saguão, mantinha uma conversa séria ao celular.
— Cheguei agora. O voo atrasou, mas estou em solo. Indo atrás do garoto agora.
Do outro lado da linha, em um templo em Pequim, um idoso tomava seu chá calmamente.
— Li Weizin, ande logo antes que mãos erradas o alcancem primeiro.
— Mestre, por favor... O senhor fala com o melhor. Eu garanto que ninguém encosta um dedo no garoto.
— Sendo assim, o rapaz já era.
— Ei! Um pouco de confiança não faz mal, sabia?
— Confiança? Você é um desocupado, isso sim! Um inútil estagnado que não sabe usar as artes marciais direito!
— Ora, seu velho rabugento! Quando eu voltar, a gente resolve isso no soco!