O ar no subsolo era diferente. Não era o mofo úmido de uma adega comum, mas um frio seco, filtrado, que cheirava a metal ionizado e óleos raros. Tiān Shù descia os degraus de metal fosco, o feixe de sua lanterna cortando as trevas como um bisturi. A cada passo, o peso da realidade parecia esmagar seus ombros.
— O que você fez, vovô? — o pensamento martelava em sua têmpora. — Por que transformar nossa casa em um bunker de guerra? —
Ao atingir o final da escadaria, o feixe de luz revelou um corredor longo, cujas paredes não eram de terra ou tijolos, mas de placas de liga reforçada. Subitamente, um estalido elétrico percorreu o teto. Uma sequência de tochas de plasma, disfarçadas como arandelas de ferro antigo, acendeu-se em cascata. O fogo não oscilava com o vento, era uma chama azulada, constante, iluminando relevos que fizeram o coração de historiador de Tiān Shù saltar.
Dragões. Centenas deles.
Entalhados nas paredes com uma maestria que desafiava qualquer dinastia conhecida, os dragões pareciam seguir seus movimentos. Seus olhos eram feitos de pequenas gemas que refletiam a luz azul, criando a ilusão de que as criaturas estavam prestes a saltar do metal para devorá-lo.
— Isso não é possível... isso já virou ficção científica misturada com algumas besteira Wuxia — murmurou Tiān Shù, a voz falhando. — Você era um bibliotecário, vovô. Você reclamava quando eu perdia o controle remoto da TV. Como você construiu isso sozinho? Ou será que... você nunca esteve sozinho?
Ele caminhou pelo corredor, a sensação de ser um intruso em sua própria linhagem crescendo a cada segundo. No fim do corredor, o espaço se abria em uma câmara circular. No centro, sobre um pedestal de obsidiana, repousava uma estátua de um dragão esculpido em um jade tão puro que parecia emitir luz própria. A criatura estava enrolada sobre si mesma, majestosa e terrível, e entre suas mandíbulas cerradas, repousava um cilindro de pergaminho lacrado com cera escarlate.
Tiān Shù aproximou-se. O silêncio ali era absoluto, o tipo de silêncio que precede uma avalanche. Ele estendeu a mão, os dedos trêmulos hesitando a centímetros do jade frio.
— "Dói agora. Depois você agradece.”
A frase de Xuan Zhao ecoou novamente. Tiān Shù cerrou os dentes.
— Espero que o "depois" seja agora, vovô. Porque eu estou morrendo de medo.
Ao tocar o pergaminho, o dragão de jade emitiu um clique mecânico. As mandíbulas se abriram suavemente, entregando o documento. Tiān Shù rompeu o lacre. A caligrafia era inconfundível: traços fortes, precisos, sem hesitação. A tinta ainda parecia fresca, carregando o cheiro de pinho que sempre emanava das roupas do velho.
— "Prezado Tian Shu, Se você estiver lendo isso, significa que fui assassinado. Não tente dourar a pílula com termos como 'partida' ou 'descanso'. Eu fui caçado. E você, meu neto, provavelmente será o próximo alvo. Sinto muito por ter destruído novamente a imagem de avô rural que você se forçou a acreditar. Eu sei que dói descobrir que sua vida foi uma encenação, mas o teatro acabou. Você não se lembra agora, pois sua mente não suportou o treinamento, mas o sangue que corre em você não pertence a este tempo comum. Você deve entrar em contato com seu 'outro eu' e recordar as lições do passado antes que seja tarde demais.
— Se descobriu este pergaminho, o tempo de luto acabou. Você está correndo perigo imediato. Saia desta casa. Agora. Há uma passagem secreta atrás da estátua que o levará pelo coração da floresta. Não use as estradas principais. Se os cães de guarda dos Nove Abismos aparecerem, os sistemas de defesa desta câmara se ativarão para protegê-lo, mas eles são apenas um atraso, não uma solução.
— Corra. Procure a Associação de Artes Marciais. O mundo dos malfeitores e das seitas ocultas virá atrás de você como hienas. Eles buscam o que eu protegi por toda a vida. Eles buscam a Chave do Tesouro do Céu.
Tiān Shù sentiu o chão sumir sob seus pés. Ele releu a última frase três vezes, o papel amassando-se sob seus dedos.
— O Tesouro do Céu? — a voz dele saiu como um sopro. — Isso... isso é um mito. Um conto de ninar para crianças que querem ser imperadores. Uma fonte de riqueza, poder e conhecimento proibido que poderia dobrar o mundo... Não pode ser real.
Ele olhou para a estátua de jade, depois para as paredes blindadas. A negação, sua velha amiga, tentava protegê-lo, mas os fatos eram brutais. Um ataque cardíaco não constrói bunkers. Um bibliotecário não tem sistemas de defesa automatizados contra "assassinos encapuzados".
— "Guerreiros Dragões"... — ele riu, uma risada nervosa, quase histérica. — Quer dizer que o velho que me ensinou a amarrar sapatos era uma das lendas que protegiam o equilíbrio do mundo? E o que isso me torna? Um alvo? Uma ferramenta?
Ele fechou os olhos, tentando organizar o caos em sua mente.
— Outro eu... entrar em contato com o outro eu...O que o vovô queria dizer com isso?
Ele sempre fora apenas Tiān Shù, o acadêmico preguiçoso, o neto que preferia livros de história a exercícios físicos. Mas, no fundo da sua mente, havia um ruído. Uma memória bloqueada, como uma porta trancada em um corredor escuro da infância.
De repente, um som abafado veio de cima.
Vrum.
Uma vibração pesada. Não era o vento. Era o som de motores de alto desempenho parando em frente à casa de madeira.
— Droga... — Tiān Shù sentiu o suor frio escorrer pelo pescoço. — Eles chegaram? Estou fodido!
Ele olhou para o pergaminho, depois para o caminho atrás da estátua. Sua mente de historiador queria ficar e catalogar tudo, entender cada segredo daquele bunker. Mas o instinto de sobrevivência, algo mais primitivo e afiado que começava a despertar em suas entranhas, gritava para ele se mover.
"A firmeza do caráter começa na ponta do pincel.”
Que analogia de merda a propósito!
Tiān Shù guardou o pergaminho no bolso interno da jaqueta. Ele não era um guerreiro. Suas mãos eram feitas para virar páginas, não para quebrar ossos. Mas, ao olhar para a estátua de jade, ele sentiu uma conexão estranha. Como se o dragão estivesse esperando por ele.
— Certo, vovô. Você ganhou. Velho maldito! Que tipo de avó não ensina o mínimo de artes marciais?? Nunca viu Dragon Ball? Yu Yu Hakusho? Que seja não tenho mais tempo
Ele avançou para trás da estátua, encontrando uma alavanca oculta na base do pedestal. Antes de puxá-la, ele olhou para cima, para o teto de metal que o separava dos assassinos que, naquele exato momento, deviam estar arrombando a porta da frente.
— Se eu não sobreviver a isso, você vai ter que me explicar muita coisa na próxima vida — sibilou ele.
Com um puxão seco, a parede de pedra atrás do dragão deslizou, revelando um túnel estreito e escuro que exalava o cheiro de terra úmida.
Tiān Shù não olhou para trás. Ele mergulhou na escuridão, enquanto, acima dele, o primeiro som de uma explosão anunciava que a caçada ao último herdeiro do Dragão de Jade havia começado oficialmente.
Tiān Shù sentia-se como se estivesse vivendo em uma simulação que acabara de sofrer um erro crítico. Ele sempre se sentiu um estranho no vilarejo, alguém que não se encaixava na rotina pacata, mas ele atribuía isso à sua inteligência acadêmica. Agora, a verdade era mais sinistra...ele fora condicionado a ser comum. Cada vez que ele tentava lembrar de algo antes dos nove anos de idade, uma névoa cinzenta se instalava em seu cérebro. O "outro eu" que o avô mencionou não era uma metáfora poética, era uma parte de sua mente que foi selada por ele mesmo
Enquanto corria pelo túnel, ele sentia seus músculos reagirem com uma eficiência que ele não sabia que possuía. Seus passos eram silenciosos. Sua respiração, embora rápida, era controlada. O medo estava lá, mas não era paralisante. Era como se, ao entrar naquele bunker, uma chave tivesse sido girada em sua espinha dorsal.