THE CREATOR OF THE ENDING 1 CAPITULO DO 1 VOLUME O COMEÇO DO FIM voz do narrador ecoava pelas páginas amareladas do livro histórico, recontando a lenda com aquela pompa dramática de quem reconta o início do mundo:
“...E assim, quando toda a esperança parecia perdida diante da escuridão, o grupo dos três heróis lendários ergueu-se. A elfa curandeira, Kurë, the Miracle; o defensor inabalável, Dendësia, the Hard; e o guerreiro destemido, Shpëtimtar, the Savior. Juntos, em uma batalha que sacudiu os alicerces da terra, eles enfrentaram, derrotaram e mataram Demon i Gjatë, the King of Demons — a criatura profetizada como o fim de toda a humanidade. No entanto, após a queda do Rei, sussurros sombrios começaram a cruzar as terras... Boatos de que o seu poder apocalíptico não desapareceu, mas foi herdado em segredo por alguém misterioso...”
Ploft.
O som seco do livro sendo fechado cortou o silêncio do quarto.
Quem segurava a obra era a própria Kurë. A elfa lendária tinha longos cabelos marrom-claros que emolduravam perfeitamente seu rosto, destacando suas íris verdes e as marcantes orelhas pontudas de sua raça. Com seus 1,60 de altura, ela vestia uma capa verde oliva sobre um vestido branco-amarelado de mangas longas, que lhe dava um ar protetor, quase materno. Ela olhou para o livro e deu um suspiro baixo, murmurando para si mesma:
— "Sussurros sombrios"... Quem escreve essas coisas adora um drama.
Deitada na cama ao lado, olhando para ela com olhos brilhantes e cheios de uma inocência puramente infantil, estava sua filha, Mrekulli. A garotinha, de apenas 1,30 de altura, puxara os mesmos cabelos marrom-claros da mãe, embora os usasse curtos, e ostentava as mesmas íris verdes e expressivas. Ela se revirou nos lençóis, puxando a coberta até o queixo, e perguntou com aquela curiosidade implacável de criança:
— Mamãe... o que aconteceu com os outros heróis depois disso? Para onde o tio Dendësia e o tio Shpëtimtar foram? Eles ainda lutam contra monstros super malvados?
Kurë sorriu de forma calma e serena, embora houvesse uma pitada de nostalgia em seu olhar. Ela estendeu a mão, tocando a cabeça da filha e dando um tapinha de leve e carinhoso em seus cabelos.
— Eu não faço a menor ideia, minha pequena... Nós simplesmente nos espalhamos pelo mundo assim que o Demon foi derrotado. Sabe como é, obrigações, aposentadoria... Cada um seguiu seu próprio caminho. Mas agora chega de histórias. Você tem que dormir. Amanhã é um novo dia e eu não quero ver você bocejando no café da manhã.
— Ah, mas eu queria saber se eles... — Mrekulli tentou protestar, mas os olhos pesados pelo sono a traíram. Ela concordou com a cabeça, fechando as pálpebras.
Kurë apagou a lamparina com um sopro leve e saiu do quarto de pontas de pé, fechando a porta com um estalo quase imperceptível.
Ao andar pelos corredores de sua casa, Kurë cruzou os braços sob o peito e soltou um longo e pesado suspiro. Ela olhou para as próprias mãos e percebeu que, ironicamente, não estava com nem um pouco de sono.
— Que ironia... passo o dia inteiro mandando os outros dormirem e eu fico aqui, parecendo uma coruja — resmungou. — Afinal... é um tanto chato dormir sozinha depois de passar tantos anos no meio daquela gritaria da jornada. O silêncio chega a incomodar.
Ela olhou para a janela, vendo o luar banhar as árvores.
— É melhor eu sair para fazer algo cansativo. Qualquer caminhada boba que gaste minha energia e me dê um pouco de sono.
Ela caminhou até o canto da sala e pegou seu fiel cajado de madeira. Saindo de sua toca protetora, ela começou a caminhar pela noite silenciosa. Concentrando-se, Kurë injetou uma parcela de sua mana na ponta da madeira, fazendo uma bola verde brilhante flutuar ali, iluminando o caminho como uma lanterna mágica pessoal.
Ela caminhou calmamente pela vila dos elfos onde morava, observando as casas silenciosas e os telhados cobertos de musgo, até chegar aos limites da velha cerca de proteção que dividia a segurança do vilarejo e os mistérios da floresta. Sem hesitar, Kurë usou o cajado como apoio, pulou a cerca com a agilidade típica de sua raça e começou a se embrenhar pela floresta densa e escura.
O silêncio da mata era quebrado apenas pelo estalar de pequenos galhos e o som de seus passos nas folhas secas. De repente, o instinto de batalha que ela refinou em mil combates disparou. A atmosfera mudou. O ar ficou mais pesado. Ela sentiu uma presença. Alguém estava ali, oculto nas sombras das árvores mais antigas.
— Quem está aí? — Kurë perguntou, sua voz perdendo toda a doçura e tornando-se afiada. — Apareça de uma vez.
À frente dela, revelando-se sob a luz prateada do luar que passava pelas frestas das folhas, surgiu uma figura. Era uma demônia de pele acinzentada, longos cabelos pretos que contrastavam com seus profundos e enigmáticos olhos vermelhos. Ela vestia um vestido preto de mangas curtas, com mangas pretas longas por baixo, cobrindo seus braços de forma elegante. A criatura não exibia presas, não rosnava e demonstrava uma postura totalmente calma, serena e quase... civilizada. Era Shkatërrim.
— Faz tempo que não nos vemos, Kurë — disse Shkatërrim, com a voz mansa, inclinando levemente a cabeça, sem esboçar qualquer sinal de hostilidade.
A reação da elfa foi instantânea e violenta. O olhar de Kurë tornou-se frio como o gelo do norte. Em um movimento fluido, ela ergueu o braço e apontou a ponta brilhante do seu cajado diretamente para o espaço entre os olhos da demônia.
— E esta será a última vez também — respondeu Kurë, a mana verde oscilando de forma perigosa e ruidosa na ponta do cajado, prestes a disparar um feitiço de perfuração mortal.
Shkatërrim nem sequer piscou ou tentou desviar. Ela apenas ergueu levemente as mãos, espalmadas, em um gesto puramente pacífico que quase parecia uma piada vindo de um monstro.
— Antes que você decida ativar esse cajado e espalhar meus miolos pela grama... eu só quero avisar que estou completamente sem magia demoníaca. Zero. Nada.
Kurë franziu os olhos, mantendo a mira firme, a luz verde iluminando o rosto cínico da demônia.
— E você acha que eu ligo? Assim fica consideravelmente mais fácil matar. Eu saí de casa para dar um passeio, não para ficar batendo papo furado com uma demônia no meio do mato.
— Eu quero genuinamente conversar com você, Kurë. Se eu quisesse lutar, não teria vindo sozinha e desarmada — insistiu Shkatërrim, mantendo a serenidade, embora houvesse uma leve pitada de deboche em seu tom calmo.
Ignorando completamente o apelo, Kurë bufou.
— Demônios não conversam. Eles enganam.
A elfa ativou sua magia. Um feitiço de luz verde destrutiva disparou do cajado com um estrondo. No mesmo milésimo de segundo, Shkatërrim simplesmente dobrou os joelhos e se sentou no chão, sem demonstrar a menor intenção de se defender. O controle de Kurë sobre a própria magia era tão absurdamente cirúrgico que, ao ver a oponente se render daquela forma, ela desviou o curso no último instante: o disparo passou raspando pelas orelhas de Shkatërrim, cortando alguns fios de cabelo preto e dissipando-se no ar logo atrás, sem destruir absolutamente nenhuma árvore da floresta ao redor.
Antes que a elfa pudesse recarregar o fluxo de mana para um segundo tiro, Shkatërrim estendeu a mão rapidamente de onde estava sentada e segurou o cajado de Kurë por baixo, interrompendo o movimento físico e forçando uma trégua.
— Viu? Você não me matou — Shkatërrim disse, olhando de baixo para cima, fixando seus olhos vermelhos nos verdes da elfa. — Agora... nós podemos finalmente conversar como duas pessoas civilizadas, ou vai gastar mais mana à toa?
Kurë puxou o cajado de volta com um puxão ríspido, respirando fundo para controlar a irritação, mas sem baixar totalmente a guarda.
— Fala logo o que você quer, Shkatërrim. Meu tempo é precioso e eu tenho uma filha dormindo em casa.
— Eu quero aprender magia humana — respondeu a demônia, sem rodeios, como se estivesse pedindo uma receita de bolo.
Kurë piscou uma, duas vezes, e então soltou uma risada curta e genuinamente incrédula com o absurdo daquilo.
— Você só pode estar de brincadeira. Você é uma demônia. Você sabe perfeitamente que magias humanas usadas pela sua raça são infinitamente mais fracas, patéticas e ineficientes. O sistema de vocês é puramente baseado em instinto e poder bruto. Por que diabos você iria querer aprender a nossa magia?
— Quero isso puramente para garantir a minha própria sobrevivência — explicou Shkatërrim, cruzando as pernas no chão com total tranquilidade. — Vou ser direta, já que você gosta de eficiência. Após a queda do Demon i Gjatë, eu acabei herdando o poder dele. Sou a nova Rainha dos Demônios, tecnicamente falando. Só que há um pequeno detalhe técnico... O poder dele veio acompanhado de uma maldição de retenção. Ele está completamente selado dentro de mim.
Kurë congelou, a mente trabalhando a mil por hora.
— Um selo?
— Sim. Eu só poderei usar essa força daqui a exatos 500 anos — Shkatërrim continuou, apontando para o próprio peito. — Até lá, para o meu próprio povo, eu sou uma anomalia fraca. Um alvo fácil para outros demônios que querem o trono, e uma presa óbvia para magos como você. Eu quero aprender a magia humana para ter ferramentas estratégicas e não morrer antes do cronômetro zerar. É uma troca de tempo por conhecimento.
Kurë estreitou os olhos, processando a informação bombástica. O ser que carregava o potencial para destruir o mundo estava bem na sua frente, totalmente vulnerável, sentada na terra como uma estudante pedindo ajuda.
— E por que, em nome de todo o meu povo e da memória dos meus amigos, eu ajudaria um monstro como você a sobreviver? Eu deveria te apagar da existência agora mesmo e resolver o problema do futuro de uma vez.
Shkatërrim sustentou o olhar com uma seriedade gélida, perdendo o tom de deboche por um breve segundo.
— Porque se você me ajudar a passar por esses 500 anos... eu te dou a minha palavra de demônio: quando o meu poder finalmente despertar e o selo quebrar, eu garanto que não irei caçar, escravizar ou exterminar a linhagem dos elfos, como o antigo Rei fez no passado. Vocês estarão seguros sob o meu novo regime.
Kurë ergueu uma sobrancelha, o tom de voz misturando pura ironia com uma ameaça velada.
— Ah, que generosa... Então quer dizer que, no seu plano original, você estava planejando passar o rodo na minha raça assim que acordasse?
Shkatërrim deu de ombros, sem demonstrar a menor vergonha ou o menor remorso, mantendo a honestidade brutal que definia sua espécie.
— Inicialmente? Sim. Era o plano padrão. Sabe como é, diretrizes de demônio, orgulho de raça... Mas eu sei me adaptar. Uma aliança agora me parece muito mais vantajosa a longo prazo do que uma vingança boba.
O silêncio reinou na floresta por longos e agonizantes segundos. O vento noturno balançava as copas das árvores, jogando folhas secas entre as duas, enquanto a elfa lendária e a herdeira dos demônios se encaravam em um duelo silencioso de vontades.
Por fim, Kurë soltou um longo, pesado e audível suspiro de derrota. Ela abaixou completamente o cajado de madeira, batendo a base dele no chão, e massageou as têmporas, sentindo o peso de seus séculos de vida.
— Certo... Que os deuses me perdoem por isso, mas eu aceito. Eu vou ensinar os fundamentos da magia humana para você. Mas se você tentar gracinha, eu quebro esse pacto na mesma hora.
Os cantos dos lábios de Shkatërrim se curvaram em um leve, quase imperceptível sorriso de alívio.
— Sabia que você seria razoável, Miracle. Isso é ótimo. Temos um acordo.
A demônia relaxou a postura, retirando completamente a tensão do ambiente. Kurë guardou seu fluxo de mana, apagando de vez a luz verde da ponta da madeira, deixando o local iluminado apenas pelo luar. Toda aquela descarga repentina de adrenalina, a discussão absurda e o fato de ter acabado de fechar um pacto de quinhentos anos com o pior inimigo da humanidade tinham finalmente cobrado o seu preço físico.
— Satisfeita? Ótimo. Porque toda essa adrenalina bizarra acabou me dando um sono terrível... — reclamou Kurë, soltando um bocejo genuíno e virando as costas para refazer o caminho em direção à cerca da vila. — Eu vou dormir antes que eu me arrependa. Eu começo a te ajudar com essa idiotice amanhã à noite. Não se atrase.
Shkatërrim permaneceu sentada na escuridão, observando a silhueta da elfa sumir entre as sombras das árvores, sabendo que o seu jogo de sobrevivência de cinco séculos tinha acabado de começar da forma mais interessante possível.
FIM DO 1 CAPÍTULO DO 1 VOLUME