Tesoura do Desejo — Alceu Valença
É 2007.
Não temos celulares de ponta.
Não temos internet confiável.
E eu aqui estou, caído de novo.
Chão quente, gosto ferroso na boca, dor.
Uma decisão estúpida, alguém está gritando para que eu fique no chão.
Quanta estupidez, por que sempre tento recuperar coisas?
Engraçado é que a lembrança da primeira vez no chão me incomoda mais do que a situação presente.
E por que tudo isso? É óbvio que foi por causa de uma garota, sempre é sentimento falando mais do que a razão, orgulho cobrando seu preço...
Mas aqui estamos quase no fim da história, e você ainda não sabe como vamos chegar a esse momento.
Vamos voltar uns dias, para quando essa viagem começou.
O que eu faço da vida? Conserto de coisas que empresas acham importantes, centrais de informação, hubs logísticos, coisas cujos donos pagam caro para serem mantidas funcionando.
Eu viajo pelo país para consertar essas coisas.
Estava voltando de um dos meus trabalhos. Estava no restaurante do aeroporto esperando a comida.
Quando a encontrei.
Linda como sempre.
Ela me viu e sorriu.
Sabe aquele sorriso que ilumina?
Então.
Ela veio até mim.
- Oi Ricardo, quanto tempo não te vejo, o que você faz aqui? Faz anos que não nos vemos, você está com uma cara boa? Vai pegar algum voo? Ela perguntou.
- Oi Ana, que bom te ver, eu apenas parei pra comer. Não vou pegar nenhum avião, só aconteceu de eu estar aqui perto quando estava com fome. Eu prefiro viajar de moto.
Ela sorriu surpresa - O nerd virou um motoqueiro? Isso eu não esperava. Eu vou viajar, estou esperando o próximo voo. Que você tem feito da vida? Nós não nos vemos desde que... Você sabe...
- Bem, eu ainda sou o nerd, conserto computadores, mainframes, servidores, coisas tão nerds quanto na nossa época. Eu só acrescentei o gosto pela estrada à equação. E não precisa ficar envergonhada de falar do passado, eu fui idiota, eu meio que mereci aquilo. E você? O que tem feito?
- Estava aqui a trabalho, agora vou para um compromisso importante na Bahia.
Eu falei - Parece que você vai pra algum negócio mais lucrativo.
- Mais ou menos.
Ela sorriu, um tanto envergonhada.
- Eu vou casar ...
Eu procurei alguma coisa para responder.
Mas não encontrei.
Ela me olha, inclina a cabeça.
- Tudo bem?
- Não é bem isso... Balancei a cabeça.
- Só não esperava ouvir isso hoje.
- Estou feliz por você.
De verdade.
- Parabéns. Dei o melhor sorriso que pude.
Ela sentou e conversamos, coisas sem importância, trabalho, vida nos últimos anos, preço alto das coisas, papo furado. A comida veio, comemos e alguns minutos depois eu estava me despedindo pois ela falou que o voo dela já estava quase na hora. Saí para comprar algumas lembranças. Afinal, por que aeroportos são tão caros? Comprei uns doces para meu irmão e uma pulseira para Clara.
Estava saindo do aeroporto quando vi Ana. Ela falava ao celular e gesticulava de um jeito que eu conhecia bem.
Preocupação.
Caminhei na direção dela devagar, cheguei a tempo de ouvi-la falar.
- Como assim greve? O acidente foi há dias...
Ela nem notou minha chegada.
Esperei alguns segundos.
Quando ela olhou na minha direção, fiz um pequeno aceno.
Ana olhou para mim, fez um sinal para que eu esperasse e continuou falando.
- Tem certeza mãe?... E um ônibus?... A greve fez as passagens esgotarem... Ela faz uma expressão de frustração. Alguém pode vir me pegar?... Quantos dias pra chegar aqui?... Alugar? Você sabe que eu não tenho carteira, nem sei dirigir... Não, Não vou adiar... Ok eu já ligo pra você.
Ana olha pra mim - Deu tudo errado, você ouviu um pouco da conversa...
- Sim, eu ouvi. Greve, sem passagens de ônibus... você ainda não aprendeu a dirigir?
Ela mostrou um pouco de irritação nos olhos, percebi que falei besteira, fiz aquela cara de desculpas que eu uso as vezes. Ela respirou fundo e falou muito mais pra si mesma do que pra mim.
- O que eu faço? Nenhum taxista vai atravessar o país por mim. Talvez...
Ela ficou em silêncio por um instante.
Então olhou para um grupo de vans estacionadas próximas ao terminal.
Nesse instante eu falei - Calma... Nada de soluções desesperadas, você está pensando nas vans?
- Sim
- Você conhece rotas? - falei sério.
- Não.
- Então como vai saber qual vai pegar?
- Eu dou um jeito.
- Em cada cidade?
- Claro.
- Ana... Você está tentando improvisar uma viagem de milhares de quilômetros.
Ela abriu a boca para retrucar. Parou antes de qualquer frase. E desviou o olhar.
Um pensamento me ocorreu, olhei para o estacionamento...
- Bem... Eu tenho uma opção...
- Qual? Ela olha pra mim com esperança e um pouco de descrença.
- Talvez você não goste... Olhei pro estacionamento...
Ela olhou para o estacionamento sem entender o que eu estava procurando. Ficou em silêncio por alguns segundos...
- Ricardo, você está sugerindo a sua...
- Sim, a minha moto. Não deixei ela terminar a frase.
- Até a Bahia?
- Sim
- Você tá doido? Ela olhou para as vans, pro estacionamento, e pra mim. ficou em silêncio por um tempo
Respondi - Eu faço isso o tempo todo.
- Como? Ela falou com descrença.
- Eu só preciso de um mapa, e chego a qualquer lugar do país.
Ela me olhou por alguns segundos. Eu estava falando sério. Isso pareceu preocupá-la ainda mais.
Ela suspirou.
- Ok! Vamos ver. Ela cabe nós dois? E minha mala? Ela aguenta a viagem?
- É segura, é uma custom. Ana estreitou os olhos, aquela cara de dúvida, continuo falando.
- Aquelas motos de filme americano de motoqueiros. Eu montei ela peça por peça, eu sei do que ela é capaz. Sua mala é pequena, dá pra por na moto.
Ela ficou com aquele ar de descrença, só que menos preocupada.
Chegando no estacionamento, paramos ao lado da minha moto.
- Vê? Ela está pronta para enfrentar qualquer coisa.
Abri os braço como se estivesse apresentando o veiculo.
- Chega a qualquer lugar, desde que exista uma estrada até lá.
A moto era de um azul escuro, limpa, um brilho discreto, grande, com um apoio para as costas do passageiro, e alforges.
O rosto de Ana relaxou um pouco, ela circulou a moto, tocou no banco, os alforges o apoio para as costas.
- Não sei... Parece melhor do que eu esperava. Quanto tempo vai levar essa loucura? Você disse que faz isso o tempo todo.
Sorri - Vou considerar isso uma aprovação. A viagem leva uns quatro dias , dá para fazer mais rápido, mas não vale a pena. Quando a gente começa a correr, a estrada cobra a conta. E como bônus...
Mostrei um alto falante discreto nos alforges traseiros.
- Ela toca música, teremos trilha sonora.
Ana olhou para a moto, a boca se curvou um pouco - ótimo o casamento é em 5 dias, no fim da tarde, dá tempo.
Assenti com um movimento, pensei. Dá tempo.
Peguei capacetes dos alforges, entreguei um capacete pra ana fico com outro.
Ana dá um sorriso - Você não costuma viajar sozinho?
- Às vezes eu tenho companhia. Os capacetes tem um rádio, você pode falar comigo sem o barulho do vento.
Pego algo da minha bolsa, algo que parece uma revista. - Isso aqui é um mapa do brasil. Pra qual cidade nós vamos?
- Vitória da Conquista.
- Certo estamos em Belém. Folheio as páginas - Hum... paro em algumas páginas, passo os dedos no papel, olhei para Ana e falo - Ótimo! Está tudo certo, 4 dias.
Ela dá um sorriso genuíno.
Continuo - Pra ficar mais eficiente, você vai ser minha navegadora.
Ana arregala os olhos - Como assim?
- É só você me dizer as quando estiver perto das entradas e desvios da estrada, é simples.
- Simples? eu nunca viajei assim.
- É só seguir o mapa, olha aqui. Mostro as linhas no mapa. tá vendo? Você só precisa avisar quando estivermos perto de coisas como essa aqui. aponto no mapa.
- Isso é fácil pra você... que tá acostumado. Pra mim parece uma prova de geografia.
Expliquei com calma - É só seguir as linhas pelos números está vendo cada linha tem letras e números, é como se fosse o nome da estrada. Quando estiver perto de onde as linhas mudam de nome, você me avisa. Também tem placas na estrada que vão te ajudar a saber que hora nós vamos mudar de estrada. É simples, você conta as saídas antes da saída certa e segue as placas da estrada.
- Geografia e matemática? Ela retruca.
- Você tinha boas notas em matemática e geografia, em poucos quilômetros vai ser você que vai estar me corrigindo pra não pegar uma saída errada.
Ela respirou fundo, olhou pra mim e segurou o mapa.
Expliquei para ela a primeira parte da rota. Onde vamos parar pra almoçar, que avisos ela teria de me dar.
Prendi a mala dela no bagageiro. Tirei um casaco de couro e um simples. Entreguei o casaco de couro para ela, vesti o simples.
Ela olha estranho. - Está calor.
- Na estrada o vento deixa tudo mais frio, e o couro protege.
- Você vai na frente, você deveria usar o mais quente.
- Eu gosto do vento frio me abraçando, é um dos motivos pra mim viajar de moto. Só cachorros e motociclistas sabem como é bom o vento no rosto.
Ajudei Ana a vestir o casaco. Depois ajustei a cinta do capacete dela.
Ela fez uma careta retrucando - Está apertado
- É o sinal de que você está segura.
Subi na moto, Ana subiu na garupa. - Isso realmente está acontecendo?
- Sim. Eu respondi.
O motor ganhou vida. O som grave ecoou pelo estacionamento. Ana apertou o mapa contra o peito. Alguns instantes depois deixávamos Belém para trás. Foi assim que nossa viagem começou.