Send Me on My Way - Rusted Root
A primeira parte da viagem foi bem tranquila, o céu estava azul, a estrada com pouco trânsito, Viajávamos ao som da minha playlist. .
Ela estava mais quieta do que lembrava, deve ser por causa da viagem, e a pressa para chegar no casamento. Falava apenas as instruções da estrada
- Vire à direita em 2 km. Eu virei à esquerda.
Mais à frente na estrada, Ana falou - Acho que tem um quebra-molas à frente.
Diminuí a velocidade em preparação.
- Olha o caminhão! Ela falou em algum momento
- Está tudo bem, ele está distante e não estamos correndo.
Surpreendentemente ela não está errando muito, como eu havia decorado aquele trecho não existia perigo de desvio. Essa dinâmica se manteve até pararmos para o almoço numa churrascaria de beira de estrada.
- Viu como você é uma boa navegadora?
Ana levantou uma sobrancelha, deu um meio sorriso - Boa? Eu sei que você estava ignorando parte do que falava. Parece que você conhece a estrada.
- Já vim até Paragominas algumas vezes, e só por que você errou um pouco não significa que você é ruim.
- Mas eu errei, isso quer dizer que eu não sou necessária.
- Só agora no início.
- Como assim?
Dei meu meio sorriso de desculpas.
Ela respirou fundo - Você ainda é ruim em conversar com pessoas.
- Eu tento
- Ok
- A comida aqui é boa, você ainda gosta de churrasco? Você avisou em casa que já está a caminho?
Ana arregalou os olhos e procurou o celular na bolsa para ligar para os parentes.
Caminhamos em direção à churrascaria
- Sim mãe tá tudo bem, eu vou chegar em 4 dias… Não mãe, de moto… O Ricardo… Sim esse Ricardo… Ele não está correndo na estrada… A moto é grande… Vai dar tudo certo… Ana olha pra mim... Minha mãe quer falar com você.
Me entregou o telefone.
- Oi Dona Cida há quanto tempo?
- Oi Ricardo, Você está bem? Ana me disse que você está ajudando.
- Eu estou bem. Sim dona Cida eu vou dar uma carona para Ana chegar aí.
Pelo visto Dona Cida continua igual, preocupada com a filha, me cobrandou pra ser cuidadoso, para chegar a tempo, em algum momento ela pediu pra falar com Ana.
Eu devolvi o telefone. Ana ficou em silêncio ouvindo o telefone e falou.
- Amor!
Me afastei um pouco e fui procurar uma mesa pra nós dois.
Minutos depois, Ana sentou-se à mesa
- O cheiro da comida é bom.
- Sim, eu gosto bastante daqui, a carne é muito boa, eu pedi rodízio para nós dois.
- Você ainda lembra do que eu gosto, a moto é mais confortável do que eu esperava.
- É uma moto para viagens, conforto é importante, ela não corre tanto, mas chega a qualquer lugar sem fazer você sofrer no caminho .
- Você ta querendo parecer um… Deixa eu ver… Um cavaleiro da estrada, tipo o personagem que você tinha naquele jogo, o RC… RT…
- RPG. Ana acena a cabeça eu continuei
- Quem era o cavaleiro era meu irmão, Arthur, eu era o artífice - Ana estreita os olhos e eu falo
- É um personagem que constrói e conserta coisas.
- É mesmo. Ana respondeu.
Fiquei um momento em silêncio, o garçom chegou com os pratos de comida e outro chegou com a primeira rodada de carne.
Ana sorriu, escolheu sua porção de carne, montou um prato, eu fiz o mesmo. Ela fala entre garfadas.
- Você não tem nem um compromisso de trabalho? Cinco dias não é muito tempo sem trabalhar?
- Eu só preciso estar no próximo trabalho em uma semana e meia. Eu vou adiantar um pouco o compromisso. Estou aproveitando nossa viagem como uma aventura na minha folga.
- Hum… Entendi, e o Arthur, o que ele está fazendo da vida? Ele dizia que queria ser soldado ou policial.
- Ele abriu uma oficina de carros.
- Como? Ele virou mecânico? Ele deve ter mudado bastante.
- Ele é ainda o mesmo cara grande e forte de sempre, mas agora está mais ajuizado, é na oficina dele que eu trabalho na moto.
- Arthur tomou juízo, você é motoqueiro, o mundo mudou bastante.
- E você está se casando. Marcos como ele está?
- Eu não sei, deixei aquele babaca pouco tempo depois que vocês dois…
- Alcatra? Um garçom interrompe a conversa.
- Quero. Ana respondeu, depois que o garçom saiu da mesa, Ana voltou a falar - Passei dias fazendo dieta pra caber no vestido, não faz mal eu comer só mais um pouco hoje.
- Então quem é o sortudo?
- Lucas. Os lábios dela se curvaram, um sorriso involuntário, a voz dela ficou mais alegre - Você não o conhece, ele é o coordenador do hospital de trauma da cidade, eu o conheci há 3 anos. Ele trabalha demais, mas sempre tenta compensar comigo, e de vez em quando eu preciso viajar por causa do trabalho então as coisas se equilibram
Sorri - Ele parece ser um cara legal.
Acho que Ana percebeu o meu silêncio pois ela falou
- E a sua companheira de viagens? Eu senti cheiro de perfume e shampoo feminino dentro daquele capacete.
Deu um sorriso tímido
- Clara, eu costumo viajar com ela sempre que posso, ela trabalha com Arthur, ela é navegadora quando estamos juntos.
- Vocês parecem bem unidos.
- Temos muito carinho um pelo outro.
Ana virou um pouco a cabeça. Pegou mais carne oferecida pelo garçom, comeu um pouco de molho escorreu pelo lábio, usou o dedo para limpar depois lambeu o dedo.
Depois de um tempo de conversa, Ana pegou o mapa, abriu numa das páginas e perguntou - Porque as estradas têm cores diferentes?
Pus o dedo sobre o mapa
- Olhe aqui a cor e o tipo de linha indica a qualidade e tipo da estrada. As cores são pra diferenciar se a estrada é estadual, federal ou municipal, pra nossa viagem não faz muita diferença.
- Certo
- Linhas contínuas são estradas em bom estado, com traçado elas são ruins.
- Entendi.
- Vamos usar essa rota aqui. Passo o dedo pelas linhas, viro páginas e mostro o percurso. A maior parte é estrada federal e estadual.
- Eu acho que vi umas estradas com traçados que parecem ser o caminho mais rápido.
- Não! As traçadas indicam estradas ruins, pouca infraestrutura, cidades menores.
Ana balança a cabeça.
- No geral é só prestar bem atenção na rota escolhida, ir com cuidado e vamos chegar ao destino.
Terminamos de comer, pagamos a conta. Minutos depois de um descanso, e de repassar a próxima rota, estávamos de volta à estrada.
A estrada continuava calma. Ana já conversava sobre coisas aleatórias.
- As suas músicas, tem umas que eu entendo outras não, elas são até bonitas mas nem sei que língua é, não parece inglês.
- As músicas que você não entende são em japonês, o estilo é City Pop.
- City o que?
- City pop.
- Esse nome não é em inglês?
- Sim, é o nome do estilo tipo funk, Rock.
- Ah! Mas você sabe japonês?
- Sim, eu aprendi.
- Pra seu trabalho?
- Não, é meio vergonhoso dizer o porquê.
- Pera aí, isso me lembra uma coisa, você aprendeu pra assistir aqueles desenhos japoneses que você via com legenda?
- Sim… É melhor do que a vez que aprendi latim pra jogar RPG com mais realismo.
A risada de Ana invadiu o rádio. - É por isso que você sabia latim na escola? Pra jogar um jogo?
- Para interpretar um personagem do jogo.
Ana continuou rindo
- Só você pra ser assim.
- Ita sum ego.
- Não faço ideia do que você tá falando. Eu sou a normal, lembra? — ela falou, rindo.
- Ok, vamos deixar as minhas esquisitices pra depois.
- Vire à esquerda no próximo cruzamento.
Segui as instruções dela, a estrada foi cheia de conversas amistosas, ela realmente se esforçou como navegadora, chegamos a Imperatriz ainda estava anoitecendo. Parei num hotel.
- Eu vou ligar pra casa e ver se tem quartos pra nós dois, ligue pra sua família. Entreguei a mala de Ana, peguei a bolsa de um dos alforges, e segui pro hotel. No caminho peguei meu celular.
- Alô. Uma voz doce saiu do telefone.
- Clara? Você ainda está na oficina, Arthur está aí?
- Seu irmão já foi pra casa, alguma novidade? Já está voltando?
- Eu vou demorar pra voltar, estou ajudando uma amiga.
- Sempre assim, sempre arruma uma desculpa pra ficar mais na estrada.
- Você deveria mostrar algum ciúme.
A voz dela ficou um pouco mais séria sem perder a doçura
- Você é apegado demais na estrada para eu te cobrar, você sabe como nós dois somos. Quem é amiga?
- Ana, você não conhece.
- Esse nome não me é estranho… Ela é aquela sua ex que seu irmão fala às vezes?
- Sim, é ela, ela vai casar, eu estou dando uma carona pra ela, por causa de toda essa bagunça com os aviões.
Houve um pequeno silêncio no telefone
- Então dê os parabéns a ela por mim. Está tudo bem com você? A viagem foi tranquila? Algum problema na moto?
- Está tudo bem.
- Você sempre fala isso.
- Eu sei me virar, você sabe disso.
- Sim, eu sei. Vai demorar quantos dias.
- Uns 4 dias da carona, mais uns 3 pra voltar pra casa.
- Você me deve uma viagem com você. Ela falou com uma voz quase melosa
- Eu prometo que vamos viajar na próxima volta.
- Eu vou cobrar… Seu irmão preparou seu presente pra próxima viagem.
- A caminhonete? Eu já falei pra ele que não faz o meu estilo.
- Então fale com ele, porque ele disse que vai fazer você usar nem que seja um pouco, e segundo ele tem o mesmo estilo vintage da sua moto.
- Já disse pra ele que não é por causa da aparência, é algo…
- Você já me disse que é difícil de explicar.
- Bem, você sabe…
Continuamos conversando, sabendo do dia um do outro.
O restante da noite foi tranquilo, Hotel, quartos separados, jantar, e descanso.
Acho que ouvi um barulho no estacionamento durante a noite, mas o cansaço do dia me manteve dormindo.