Túnel do tempo - Frejat
De manhã durante o café estava repassando a rota com Ana. O perfume dela pela manhã trouxe aquela lembrança de proximidade. A surpresa veio quando voltamos ao estacionamento.
- O que houve com a moto? Ana perguntou.
- Eu não sei. Falei enquanto me abaixava na altura da moto, passei a mão no tanque onde havia um amassado, a sinaleira estava pendurada por um fio, o meu reflexo no retrovisor estava duplicado por uma rachadura, senti com os dedos uma rachadura no para lamas da frente, mostrei para Ana - De imediato é a sinaleira, o retrovisor e esse amassado no tanque.
- Ela ainda vai funcionar?
- Claro que sim, isso aqui não é nada, ela tá praticamente inteira - Inspecionei a moto, vi alguns arranhões e uma cor diferente no paralamas e da frente e no protetor do motor - Acho que um carro bateu nela ontem a noite, os machucados foram pequenos. O cara deve ter levantado a moto e depois ido embora.
Ana respirou fundo, como se um peso saísse dos ombros dela
- Mas eu tenho que ir numa loja de motos para trocar o retrovisor e a sinaleira.
- Isso vai demorar muito?
- Nããão... vai ser rápido
Uma hora e meia depois, após comprar um retrovisor e uma sinaleira de modelos diferentes dos originais, estávamos de volta à estrada.
- Tem certeza que vai ficar tudo bem?
- A estrutura da moto é forte, está intacta, uns amassados e trocar umas peças pequenas não atrapalha em nada. Esse tipo de acidente acontece de vez em quando.
- Ainda bem que não demorou muito pra consertar.
- Sim, eu acabo fazendo isso algumas vezes nas estradas. Mas ainda temos música.
Ana me ajudou na navegação e conversamos, paramos para almoçar uma cidade antes de Balsas. Comemos num lugar mais simples, comida gostosa. No telefone Ana conversou mais um pouco com a família. Tivemos um descanso menor e voltamos para a estrada.
- Como você se acostumou com essa vida?
- Parece não combinar com o nerd que você conheceu, mas pense bem, eu ainda aprendo coisas, conserto coisas, e vivo algumas aventuras, antes no RPG, agora na moto.
- Mas com aviões não é mais fácil?
- Você está certa, mas tem aqueles momentos que só a estrada numa moto dá. Um amanhecer, o vento no rosto, uma noite com estrelas, lugares que ninguém vai, pessoas diferentes, e no final voltar pra casa.
- Hum… Parece uma das poesias que você escreveu pra mim.
- Foi você que me fez gostar de poesia, mas eu já não escrevo mais.
- Eu gosto. Clara já leu uma das suas?
- Ela achou umas folhas guardadas lá em casa.
- Ela gostou?
- Sim, ela disse que eu tinha talento.
- Porque você parou?
- Nunca parei pra pensar num motivo, só parei.
- Ela tem razão, você tem talento.
- Devo estar enferrujado. Mas eu ainda leio sempre que posso, poesia e literatura.
- Então… O poeta ainda está aí.
Eu não respondi, fiquei em silêncio. A música saía dos alto falantes, melodiosa, calma, vento abraçando, pensei comigo. Não sei.
Mais alguns quilômetros, instruções de Ana. Na moto, uma luz no painel acendeu. Fui diminuindo a velocidade.
- O que houve?
- Temperatura.
- O que?
- A temperatura do motor subiu, tem que parar.
- Como assim?
Dirigi para o acostamento, estacionei. O cheiro de vapor era evidente, me agachei perto do motor, vi o vapor saindo de um furo no radiador.
- Tá tudo bem? Você consegue fazer alguma coisa? Ana falou com a voz num tom mais sério, preocupado.
- É um furo no radiador, deve ter sido por causa do cara que bateu na moto, o furo deveria ser pequeno mas a pressão abriu mais ele.
- Dá pra consertar?
- Vai ser um pouco complicado e vai demorar, estamos no meio da estrada.
- Mas vai dar certo não vai? Eu tenho como ajudar? Procurar alguém pra ajudar?
- Eu dou um jeito. Fui até um alforge, peguei uma bolsa de ferramentas e comecei a vasculhar. - O importante é conseguir água.
Ana pegou uma garrafa de água mineral que compramos pela manhã. Eu falei
- Água mineral não é tão boa pro motor. Vasculhei a bolsinha de ferramentas. Cadê a cola epóxi, pensei comigo mesmo.
Ana estava olhando pros lados, mexeu no celular - Aqui não tem sinal… Olha, tem uma casa ali.
- Onde?
- Ali. Ela apontou com o dedo.
Olhei na direção e sorri.
Ana olhou pra mim, com um ar preocupado.
- Vamos lá. Guardei a mala de ferramentas, e comecei a caminhar na direção da casa, Ana me acompanhou.
- Você não vai mais consertar a moto?
- Lá na casa deve ter uma coisa que vai ajudar.
Ela estreitou os olhos - Será que alguém lá tem telefone? Ou sabem consertar motos?
- Se tiver vai ser bom. Mas com o que eles têm lá eu vou dar um jeito.
No tempo que levamos para chegar à casa Ana ficou em silêncio, às vezes olhava pra mim, eu dava meu sorriso, ela olhava para longe.
Na casa eu chamei os moradores, quando uma mulher apareceu na porta Ana perguntou se tinha telefone na casa, a mulher disse que não, eu pedi ovos e uma garrafa velha com água limpa. Ana me encarou. A dona da casa fez uma cara estranha, expliquei que era pra minha moto, ela olhou pra mim com um pouco de preocupação e mandou esperar.
A mulher voltou com uma garrafa grande e velha de café cheia de água, e dois ovos, eu me ofereci para pagar, ela recusou. Ana tentou falar mas nenhum som saiu da boca dela. Eu agradeci e fiz um sinal para Ana voltar comigo.
Ana ficou ao meu lado com um olhar preocupado, mas não falou nada até voltar para a moto. Quando eu me agachei perto do radiador, Ana perguntou;
- Você vai comer isso? Ela te deu café?
- Não é isso, é pro vazamento, abro a garrafa e mostrei que havia água. Enchi o radiador. O vazamento começou.
- Mas ainda tá vazando.
Peguei um dos ovos, quebrei a casca no topo, Ana se mostrou preocupada, despejei o ovo no radiador, ela viu, arregalou os olhos, tentou falar alguma coisa, o fluxo de água foi diminuindo até parar, fui completando a água até o vazamento parar, o radiador encheu.
- Pronto… Isso deve segurar até chegarmos na próxima cidade
- O que você fez?
- Particularmente eu não sei o motivo, mas ovo fecha furo no radiador.
Subo na moto, fiz um aceno para Ana subir na moto. Algumas horas depois, já a noite paramos numa cidade antes do planejado. Parei numa pequena pousada, Ana foi resolver nossas acomodações enquanto eu trabalhava na moto.
No jantar, Ana quebrou o silêncio.
-Minha mãe e Lucas estão preocupados. Vai dar tempo? Vai dar tudo certo? É seguro?
- Sim! Eu vedei o vazamento.
- A gente está na cidade certa?
- Ainda não, mas estamos no caminho certo. Já estamos na Bahia.
Ela respirou fundo. Eu segui falando
- Esse trecho é novo pra mim, o mapa mostra que a estrada é boa. Não tivemos nenhum contratempo sério.
Os olhos dela se moveram de um jeito que eu reconheci, ela estava tensa. Falei.
- Você já é uma boa navegadora, o mapa está ajudando, a moto resistiu a tudo, e ainda temos trilha sonora. Pode acalmar sua família.
Ana olhou pela janela do restaurante. Eu sabia que ela estava preocupada. Olhei na mesma direção que ela e falei:
- Vamos dar um passeio na cidade?
- Ahn?
- É uma cidade pequena, sempre tem uma praça na frente de uma igreja com barraquinhas de lanches, pessoas, algo bom pra ver.
Ela permaneceu sem falar
-Você está tensa, precisa relaxar, temos uma boa folga, se você não relaxar, não vai descansar. Esse passeio vai ser bom pra nós dois.
- Eu não sei.
- Dê uma chance para o lugar.
Ana acabou aceitando. Saímos para caminhar pela cidade. Encontramos uma pequena praça, havia uma igrejinha, cordão de luz atravessando o espaço, algumas barraquinhas de comida, crianças correndo, jovens namorando.
- É lindo, Ana falou enquanto olhava para o lugar.
- Se acha bonito agora, deveria procurar uma cidade dessas no São João, ia ter muito mais barracas, bandeiras, música e animação.
Ela seguiu andando na praça com crianças passando em volta dela, Ana tentando desviar com um sorriso no rosto. Linda, isso passou por minha mente um instante. Desviei o pensamento.
Ela olhou para mim com brilho nos olhos
- Obrigada pela dica. Acho que vou tentar depois com Lucas.
Sorri de volta - Não há de que.
Mais um pouco de silêncio, enquanto ela caminhava pela praça comprou um algodão doce, eu já estava cheio. O lugar era simples, mas a atmosfera era encantadora.
Sentamos num banco, ela com os dedos sujos, tentava limpar na barra da blusa.
Olhei pra ela, falei
- Você ainda faz isso?
Ela ficou vermelha
- Bem, tem hábitos que não mudam. Ela apontou para cima e moveu o dedo em círculos - Então essa é a sua vida?
- Quando não estou trabalhando... Sim.
- Sempre assim, quebra a graça das conversas com esse jeito técnico.
- Eu só respondi…
- Não o que eu perguntei.
- Como assim?
- Deixa pra lá. Ela falou enquanto ria.
Eu permaneci em silêncio, com a cabeça levemente inclinada
Ela olhou um pouco pro lado, fez um sorriso menor, falou
- Sabe, eu pensei que nunca mais ia te ver. Bem, depois de tudo… do término, do Marcos.
Devo ter feito uma expressão triste porque ela tentou falar algo, mas eu estendi a mão e respondi.
- A gente não deu certo… Já tinha acabado… Você já não estava mais comigo quando ficou com o Marcos.
- Eu sei, mas não foi bom te ver daquele jeito.
- Eu fui idiota indo atrás de você.
- Mas…
- E ir tomar satisfação com um cara que tinha mais que o dobro do meu tamanho ia ter aquele resultado.
- Mas ele te provocou também.
- Eu não deveria ter aceitado a provocação. E ser visto daquele jeito… Não foi o meu melhor lado, nem a melhor situação.
Ela não falou nada. Eu também fiquei em silêncio por um tempo.
- Mas já passou, eu segui o trabalho, a estrada, você pelo jeito está muito feliz com seu trabalho e com Lucas.
Ela me deu um sorriso, mas eu não entendi, não totalmente.
- Você tinha razão, esse lugar ajudou a relaxar, é pacífico e animado, você fala do São João, mas quando eu voltar pra esse tipo de lugar eu vou vir assim fora de época. Pra ter essa sensação de novo.
- Cada época dá um clima diferente, São João é a festa e animação. Se for verão, vai ter muito mais crianças. No inverno vai estar muito frio e os casais vão estar mais grudados. Outono vai ser meio a meio, crianças e casais. E agora que é primavera tem isso. Aponto pra grama verde, algumas flores, árvores vistosas, tem esse ar de coisa viva. E se o céu estiver limpo você vai ver algumas estrelas.
Olhamos pra cima. Vi algumas constelações. Ela continuou:
- Estrelas, você sempre tentou me levar pra ver, mas eu nunca fui.
- Você sempre dizia que não iria pro meio do nada no frio da noite.
- Eu deveria ter ido, realmente é bonito.
- Se você acha bonito com a luz mais fraca dessa cidade, você ia se encantar com a noite sob o céu sem luzes artificiais pra apagar as estrelas, São tantas que nem parece o mesmo céu que vemos todas as noites.
Ela apenas ouviu, apontei para o norte - Vê aquelas estrelas, ali estão Lira, o Cisne e a Águia.
Ela se aproximou e tentou ver onde apontei através do meu dedo.
- Também tem Pegasus, Flecha e Raposa.
- Como alguém consegue ver tudo isso nas estrelas?
- Tem que usar um pouco de imaginação. Tentei fazer o formato das constelações com o dedo.
Ela sorriu. Ela tremia um pouco, eu percebi que a noite estava ficando fria.
- Vamos descansar.
- Sim.
Eu não tinha notado antes, mas ela estava abraçando o próprio corpo, tentando se esquentar. Enquanto caminhava, dei o meu casaco pra ela.
- Eu já estou usando um e você vai ficar no frio.
- Você está tremendo. O caminho até a pousada não é tão longo, e eu gosto de frio, lembra? Cachorros, vento e motoqueiros.
Ela riu e aceitou o casaco.