Isso - Titãs
O outro dia começou nublado. No café da manhã Ana estava empenhada examinando os mapas.
- Bom que você está aplicada hoje. Ainda bem que está decorando o caminho. Não dá para examinar o mapa se chover.
Ela permaneceu em silêncio, balançou a cabeça, comeu e analisou os mapas. Olhei para a concentração dela, sorri, comi, dei uma rápida olhada no mapa por cima do ombro dela e liguei para casa. Clara atendeu no segundo toque.
- Alô, querida.
- Oi viajante. Ri da piada - Está de bom humor… A viagem está dando certo.
- Só problemas pequenos, encontrei uma boa cidade, daquelas que você gosta.
- Isso só está aumentando sua dívida comigo.
- Ok! Ok! Senhora banqueira, eu vou pagar. A risada melodiosa veio até mim.
- É bom mesmo que pague! Seu irmão quer falar com você.
- Vou falar com ele à noite.
Conversamos mais um pouco e depois voltei para a moto. Ana veio conversando no telefone, estava um pouco tensa. Não tentei ouvir a conversa. Me concentrei em examinar a moto.
Ana chegou até mim. Eu estava abaixado ao lado da moto.
- Ela tá bem? Aconteceu alguma coisa ontem à noite?
- Está bem e forte. Bati no banco - Nenhuma falha ou vazamento, estrutura forte, não vai deixar a gente na mão.
Ela deu um suspiro, subimos na moto, voltamos à rotina, estrada, vento, instruções, música, ela conversava menos. O dia estava mais frio.
O trânsito ia diminuindo aos poucos, horas já haviam passado quando depois de um desvio a estrada mudou, alguns buracos e diferenças em relação ao que o mapa mostrava não eram incomuns, passei a ter mais cuidado. Algumas gotas de água bateram no capacete, mais uma parada rápida, roupas de proteção pra mim e Ana. Ela ficou engraçada usando aquela roupa de chuva verde limão. Clara tem um gosto estranho pra essas coisas.
A estrada se manteve no mesmo estado, só que depois, havia muitos buracos.
- Ana, você tem certeza que é o caminho certo?
- Sim, eu vi a placa com o nome da estrada uns quilômetros atrás, você vai virar à direita duas saídas à frente.
A chuva não estava muito forte, mas as nuvens à frente me diziam que ela já havia começado antes mesmo de chegarmos àquele trecho.
Duas saídas depois, a estrada realmente mudou, sem acostamento, asfalto sumindo, e a chuva pra dificultar.
- Ana…
- O que?
Tive de me concentrar na estrada, o asfalto acabou, chegamos à lama. Tive de diminuir a velocidade.
- O que foi Ricardo?
- Saímos da rota.
- A placa antes da saída dizia que era o caminho certo.
A lama atrapalhou um pouco a pilotagem.
- Ana, estamos numa estrada de terra, eu programei uma rota asfaltada. Temos de voltar, achar a rota certa.
- Eu revisei a rota. Essa estrada encurta o caminho.
- Como assim? Fui diminuindo a velocidade, procurando um lugar para parar e voltar.
- Não para. Deve ser só um trecho ruim.
- Sim, é um trecho ruim, uma linha traçada, eu te falei disso. Você tem ideia de em que cidade saímos da minha rota? Parei a moto num canto da estrada.
- Eu não decorei os nomes de todas as cidades. Porque você está parado?
- Vamos voltar. Você tem ideia de há quanto tempo saímos da rota?
- Eu não tenho certeza do tempo, umas 2 e meia, 3 horas.
- Quanto?
O silêncio tomou o rádio, fiquei calculando…
- Ricardo…
Minha mente fazia as contas. Três horas para voltar. Talvez mais três para recuperar a rota.
- Ricardo…
A chuva não estava tão forte, mas estava contínua, as rodas não haviam afundado na lama…
Senti um toque no capacete. Quase uma batida
- Ricardo… Você tá me ouvindo?
- Sim.
- Você vai voltar?
- Estou calculando. Testei a lama com a bota...
- Preciso ver o mapa, mas na chuva você vai ter que me ajudar pra ele não molhar.
- Quanto tempo pra voltar a rota certa?
- Umas 6 horas. 3 pra voltar, 3 no caminho certo.
Olhei para o chão e achei uma pedra. Fui um pouco mais à frente e coloquei o apoio da moto sobre ela. Eu e Ana descemos da moto.
Peguei o mapa e tentei cobrir o máximo que podia, abrindo só o suficiente. Ana se esforçou para cobrir o mapa também. Olho pra ela - Você tem ideia de onde estamos, não precisa ser um lugar exato.
Ana percorre o mapa com os dedos, tentando não deixar muitas gotas molhar o papel. - Depois desta entrada. Ela para o dedo - Vê depois daqui não tem muitos desvios.
Minha mente fazia as contas.
Ana estava com a voz preocupada - Você está bravo, eu errei muito?
Olhei pra ela.
- Essa não é a questão. O erro não é importante agora.
Ela desviou um pouco o olhar. Olhei o caminho de volta, olhei o caminho à frente, olhei o mapa, olhei para Ana. - Você decorou essa rota?
Ana não fala, apenas balança a cabeça afirmativamente. Analisei um pouco mais o mapa. A moto permanecia ali, tocando sua música.
- Vamos em frente. Tem uma cidade e um posto no caminho. A estrada ainda é transitável.
Fechei o mapa.
- Você decorou a rota e eu também vi o mapa.
- Sim. Ela tentou mostrar determinação na voz.
- Vamos em frente.
Olhei para a moto, ela começou a tombar devagar, vi a pedra de apoio escorregar, e com um som molhado ela estava no chão.
- Ricardo. Ouvi Ana falar.
Fui até a moto. Com algum esforço levantei a moto, Ana tentou ajudar.
Olhei para a moto, mais alguns arranhões na pintura, espuma do estofado à mostra em alguns lugares, amassados novos no tanque.
Passei a mão sentindo os amassados, minha boca se curvou num meio sorriso.
- Estou te judiando muito, companheira.
Senti os arranhões na pintura.
- Eu vou te deixar novinha quando tudo isso acabar.
Ana permaneceu calada.
Se aproximou de mim. Segurando o mapa no peito.
Seguimos em frente.