Enquanto houver Sol - Titãs
Quilômetros depois, a estrada realmente ficou ruim. Sujeira, lama, a moto derrapando, um esforço constante para não atolar. Ana se segurava em mim, carros que cruzavam nosso caminho dificultavam a pilotagem. A chuva fina não chegava a formar grandes poças, ainda assim garantia que toda a terra ficasse encharcada até virar lama.
- Ricardo, eu não tenho certeza das saídas que vamos tomar.
- Conte as saídas, lembra? Geografia e matemática. Além disso, não conte se a saída for muito estreita, você tem feito um bom trabalho.
A moto derrapou um pouco, Ana se segurou mais forte em mim.
- Se eu errar?
- Eu também vi o mapa. Você não está sozinha nisso.
Mesmo com toda a tensão na voz, Ana não estava cometendo erros.
Um carro passou perto demais.
A moto escorregou.
Quase caímos.
Mal consegui mantê-la de pé.
Ana me abraçou tão forte que senti dificuldades para respirar. Não podia soltar o guidão da moto. Respirei fundo e tentei manter a voz calma.
- Foi um susto. Estamos bem.
Ana ainda me abraçava com força. Senti que ela afrouxou um pouco os braços. Consegui respirar mais livremente.
Pensei em parar a moto, mas naquela lama era melhor continuar em movimento.
Não tenho certeza de quanto tempo passamos naquela situação: baixa velocidade, o abraço forte dela nas minhas costas, chuva, estrada ruim.
Ana se mantinha calada.
Baixei uma das mãos por um instante e coloquei a minha sobre as mãos dela no meu peito.
Ana finalmente relaxou. Ela não soltou minha cintura, mas senti que estava voltando a si.
Um pequeno solavanco me fez retornar a mão ao guidão. Ouvi um suspiro pelo rádio. O capacete dela tocou minhas costas.
- Vamos conseguir. A estrada está melhor do que eu esperava.
Falei isso sem acreditar muito na última parte.
Continuei:
- Esses sustos acontecem de vez em quando, mas vamos superar.
Aumentei um pouco a velocidade.
Quilômetros se seguiram de estrada ruim.
Ana levou um tempo para voltar a me ajudar na navegação.
A chuva se mantinha, fina, fria e constante.
Comecei a ter dúvidas em algumas saídas, Ana estava lá para me ajudar.
Após uma curva mais difícil nos deparamos com uma subida mais íngreme.
- Ana, segure-se bem.
Depois de falar isso senti um aperto vindo dos braços dela.
A moto derrapou, o peso dela jogava contra nós dois, quando tentei acelerar, senti a roda traseira cavar na lama, fiz a traseira jogar um pouco para o lado e diminuí a velocidade.
- Vamos cair.
- Está tudo bem, Ana. A moto consegue, está tudo bem.
- Mas…
- Eu conheço cada peça, eu sei que vai dar.
A moto continuou subindo com dificuldade, o capacete de Ana se apoiou nas minhas costas.
- Vamos garota, mostra pra Ana do que você é capaz.
- Vê que está tudo indo bem… Senti a moto derrapar e ir pro lado.
- Vamos lá companheira, mostre que nós dois já superamos isso várias vezes.
A subida era difícil, fomos superando, a inclinação finalmente foi diminuindo, fomos chegando ao topo.
Estávamos quase lá quando um carro passou por nós.
Um banho de lama.
Uma pedra bateu no painel da moto.
Senti a moto quase cair, mas mesmo com todo o peso consegui nos manter de pé.
- Ana, você está bem, algo te machucou?
- Está tudo bem, só foi um susto.
Finalmente chegamos ao topo, Só então eu notei que a música havia parado, os controles de som não funcionavam, e havia algumas rachaduras no painel.
Seguimos viagem, a chuva finalmente parou, a lama ainda estava na estrada, mas já estávamos mais acostumados à dificuldade, pegamos mais uma saída.
A cidade que encontramos era pequena, poucas ruas, um posto de gasolina com duas bombas, asfalto que mal existia na estrada principal, um bar que fazia as vezes de restaurante.
Depois de tirar as roupas de chuva, já na mesa do bar Ana perguntou.
- Estamos muito atrasados?
Estendi a mão e ela me entregou o mapa. Fiz um exame rápido.
- Acho que vamos chegar meio dia depois de amanhã, talvez um pouco mais cedo. Vou descansar um pouco aqui e tentar alcançar a próxima cidade antes da meia-noite.. O traçado para a partir daqui, a estrada volta a ficar boa poucos quilômetros depois dessa cidade. Seu casamento é a tarde do quinto dia. Vai dar certo.
Vi os olhos dela preocupados. Toquei a mão dela. Não sabia direito o que falar. Tentei sorrir. Ela sorriu de volta.
Enquanto comíamos, um homem chegou perto e falou.
- Bela moto, meio machucada, mas tá bonita.
Olhei confuso
- Sim, eu mesmo a construí.
- Você conseguiu pilotar na lama com todo o peso dela? Ele fez um assovio com a boca - Quer vender?
- Não, obrigado. Eu preciso dela na estrada. Nem faço ideia de quanto ela vale, entende?
- Pago a vista, posso até oferecer um valor. O tom dele pareceu mais incisivo, foi aí que eu notei outras pessoas em volta dele.
- Amigo, eu não vou vendê-la. Entende?
Devo ter feito uma expressão séria, pois o sorriso inicial dele foi sumindo. Ele ia falar algo quando outro homem tocou o ombro dele. O estranho olhou pra trás e voltou a olhar pra mim.
- Desculpa incomodar, é que é uma bela moto.
- Eu entendo, falei com um sorriso forçado.
Eles se afastaram e saíram do bar.
- O que foi isso?
- Um admirador. Fiz aspas com os dedos - Às vezes acontece, alguém que quer a moto e tenta comprar ou tenta ficar amigo demais.
- Está tudo bem então?
- Sim. Vamos comer, abastecer e sair. Mantive a voz calma, eu não queria deixar ela mais preocupada do que já estava.
Na saída do bar olhei em volta. Não havia estranhos nos esperando.
Subi na moto, o ronco do motor estava um pouco diferente, talvez eu não tivesse notado antes por causa da estrada ruim. pensei comigo: vou revisar na próxima cidade.
No posto, depois de abastecer, pagar o combustível.
- Bela moto! Foi o que ouvi antes de levar um soco, ainda atordoado, procurei quem havia atacado, era o homem do bar.
Me levantei, tentei revidar, levei outra pancada pelas costas, não vi quem bateu, mas percebi que era do grupo do bar.
O “admirador” me deu mais um soco, eu caí no chão, tentei me levantar
O grupo começou a me rodear.
Ana se jogou sobre mim. Encarava o grupo.
Pequena e trêmula
Eu sabia que ela não conseguiria impedir nenhum deles.
O “admirador” deu um passo.
Ela não saiu do lugar.
Escutei palmas secas, um assovio.
O grupo se afastou, o “admirador” subiu na minha moto. Ele saiu com o ronco do motor diminuindo com a distância.
Eles se dispersaram. Ficamos eu e Ana ali…
Depois de um tempo no chão eu ergui, Ana tentou me ajudar, devo ter feito um movimento brusco, ela se afastou, Tentei sorrir
- Obrigado
Aceitei os cuidados dela.
Ela tentava limpar os machucados com a manga da camisa.
O dono do posto se aproximou e nos mostrou o caminho para o posto de saúde.
A caminhada foi curta. Lá, sentei na fila de espera enquanto Ana pegava a ficha. Eu queria falar sobre o atraso no casamento. Ana parecia preocupada demais em cuidar de mim para pensar nisso.
Minutos depois fui chamado para o atendimento, ganhei uns pontos no supercílio, até aquele momento não havia notado o sangue ou a dor.
Durante todo o atendimento, a médica discutia com outro homem que entrava e saía da sala. Ela dizia que não conseguia usar o equipamento para atender os pacientes. O outro homem respondia que já tinha sido difícil conseguir aquele aparelho.
A médica falou enquanto fazia a sutura.
- Olha, eu já estou dando pontos em pacientes quando deveria estar fazendo exames oftalmológicos, como era no meu contrato. O equipamento está quebrado, não dá pra fazer os exames
Ana saiu da sala, a médica terminou de limpar a minha ferida e me liberou.
Ao sair da sala Ana e o homem do consultório estavam me esperando no fim do corredor. Antes que eu chegasse até eles, o homem entrou em uma sala fechada.
- Ricardo, você consegue consertar equipamentos médicos?
- Talvez, depende…
- O equipamento deles está quebrado.
- Eu acho que ouvi isso lá na sala.
Ana andou na direção da sala em que o homem entrou.
- Eu acho que você consegue ajudar.
- Ana eu nunca mexi em nada do tipo.
- Eu sou o cara da TI. Ana estreitou os olhos. - Sou o cara da informática…
Entramos na sala.
- É esse aqui um fotocoagulador.
Ana tocou em um equipamento que parecia servir para apoiar a cabeça. Havia algum tipo de lente para o médico usar e fios correndo pela estrutura.
- Eu não trabalho com isso.
- Você sabe eletrônica?
- Sim, mas…
- Você consertou um motor com um ovo.
- Foi um radiador.
- Não faz diferença, Eu te explico como funciona. Você conserta.
- Acho que assim deve dar. Toco no equipamento. Você entende desse tipo de coisa…
- Eu vendo equipamentos médicos.
O homem que estava sentado numa cadeira de um birô que deveria ser do médico nos interrompeu.
- Então vai dar certo?
- Acho que sim, mas preciso de ferramentas, você tem como conseguir? Alicates, chaves de fenda e philips, ferro de solda…
- Não se preocupe, eu consigo. Esperem aqui.
Enquanto o homem não voltava, Ana me explicou para que o equipamento servia, como funcionava e qual era o defeito.
Ele disparava um laser no olho para tratar pontos doentes da retina.
Mas aquele equipamento não estava fazendo isso.
Quando o homem voltou, me pus a trabalhar.
O trabalho em si não era difícil.
Havia uma solda fria e problemas na regulagem de potência.
O complicado era deixar tudo dentro das especificações que Ana me passava.
Ora o laser estava forte demais e poderia causar danos.
Ora estava fraco demais e não produziria efeito algum.
Passamos um bom tempo nisso, um ajuste fino até que Ana disse que estava tudo certo.
Ana mostrou ao homem do birô que o equipamento já estava funcionando. Ele se levantou, testou o equipamento e sorriu.
- Você é bem talentoso, sabe consertar ar condicionado?
E apontou para o ar da sala, que não havia sido ligado durante todo o período que eu estava ali. Entendi que ele também estava quebrado.
- Eu sou o cara da TI.
Ana já começou a rir.
- Você consegue?
- Sim. E fui consertar o ar quebrado.
Ana ficou conversando com o homem enquanto eu trabalhava.
Meia hora depois, estava tudo pronto.
Segui Ana até a saída do posto.
Havia uma ambulância estacionada.
Ana abriu a porta e entrou.
- Eu não estou tão machucado assim.
- É nossa carona, você consertou os equipamentos em troca disso aqui.
Foi como se um peso saísse das minhas costas.