Kimi no Shiranai Monogatari - Supercell
Algum tempo depois, me dirigi até a rodoviária, acho que queria me despedir de alguma forma.
Vi Ana sentada num banco, cabisbaixa. Me aproximei.
- Por que você ainda está aqui?
Ela levantou os olhos surpresa.
- Você está bem?
Ela se levantou, passando as mão nos machucados no meu rosto.
- Deu tudo certo.
Olhei pro estacionamento, ela acompanhou meu olhar.
- Você deveria ter ido para seu casamento.
- Como eu iria me casar seu idiota? Como eu ia fazer isso sabendo que meu amigo tinha ido se matar.
- Eu voltei.
Sorri.
Ela respirou fundo. Sorriu.
- Você parece tranquilo demais.
- Eu não percebi.
Ana suspirou. Eu perguntei
- Você já falou com sua família, avisou que não está a caminho do casamento?
- Não sabia o que falar.
- Quer uma carona?
Ana riu.
- Você não tem jeito.
Eu ri.
- Avise que está indo pra casa. Diga que esta tudo bem, que vai pro seu casamento. Pode pôr a culpa em mim.
- Não seja convencido, seu bobo.
- Então vamos comer, preciso de um descanso antes de encarar a estrada.
Saímos da rodoviária. Durante o lanche, Ana ligou para a família, não tentei ouvir a conversa. Mas o jeito como ela gesticulava, baixava a cabeça e diminuía o tom da voz , me fez imaginar que ela estava levando uma bronca.
Liguei para Clara, ao me ouvir, ela pareceu menos preocupada do que pela manhã. Disse que Arthur estava cobrando meu retorno. Eu disse que ia ficar em casa muito mais tempo dessa vez. Depois disso, a voz dela pareceu mais leve. Sorri.
Compramos casacos novos, abasteci e nos preparamos para retomar nosso caminho
O sol já estava se pondo, a estrada crescia à nossa frente, o véu da noite ia caindo.
Ana estava em silêncio. A respiração no rádio estava calma, tive a impressão de que ela estava aproveitando a viagem.
- Está com frio? Esse casaco não é tão bom quanto o de couro, mas ao menos não fede a sujeira.
- Não se preocupe, tá quentinho aqui. E você aproveitando seu vento no rosto?
- Sempre.
- O som da moto está diferente.
- Eu sei, acho que forçaram ela demais depois do roubo. Mas o motor ainda parece disposto.
O tempo seguiu. Quase não havia carros na estrada, rodamos por mais alguns quilômetros quando um barulho estranho veio do motor.
- Vamos ter que parar um pouco.
- Tudo bem.
A voz de Ana me pareceu calma.
Sem pensar muito fui aos alforjes. A mala de ferramentas ainda estava lá. Só então percebi que aquele grupo nunca tinha dado muita importância para ela.
Pedi para Ana segurar uma lanterna e comecei a trabalhar.
Minutos se passaram, eu notei que Ana estava tremendo um pouco. Fiz sinal para ela parar.
- O que? Ana perguntou.
- Você está com frio, espere um pouco. Ela assentiu
Peguei gravetos secos no acostamento, tirei um pouco de combustível do motor e fiz uma fogueira.
- Está quente agora, ela falou com a voz mais suave.
Voltamos ao trabalho. Em algum momento Ana foca a luz no tanque.
- Deneb?
- Você deu um nome pra moto?
- Não fui eu que dei.
Ela franziu as sobrancelhas.
A lanterna caiu das mãos dela, e se apagou ao cair, sumiu no chão
Ela estava se esforçando para procurar, achou a lanterna e estava tendo dificuldade para ligar.
- Não precisa se preocupar a fogueira está iluminado o suficiente. quando eu precisar de mais luz lhe aviso
Ana se sentou ao meu lado.
Ela deve ter se distraído.
- Você tinha razão, o céu é totalmente diferente sem as luzes da cidade.
Olhei pra Ana e ela estava admirando a Via Láctea.
- Lembra das constelações naquela direção? Lira, Cisne e Águia. apontei para o Norte.
- Você fala os nomes, mas só você sabe os formatos. ela olhou na direção que eu apontei.
- Tem um conjunto mais fácil aquelas ali. Altair, Deneb e Vega.
- Você deu o nome de uma estrela pra moto?
- Não fui eu que dei esse nome, Acho que ela ganhou hoje.
Ana inclinou de leve a cabeça. Continuei
- Pense assim, só aconteceu por sorte.
Acho que ela não entendeu, mas aceitou a resposta.
- Então ela tem um nome de uma daquelas estrelas.
- Sim, uma das estrelas do triângulo do verão.
- Então ela faz parte de uma constelação que está sempre no céu.
E apontou para as três estrelas uma de cada vez como se estivesse reconhecendo elas.
- Não é bem assim, aquelas estrelas só ficam juntas alguns meses por ano, e são vistas melhor por três meses já no fim do inverno.
- Mas o nome é Triângulo do Verão.
- Sim porque elas foram nomeadas no hemisfério norte. Lá é verão.
Ela olhou para o céu intrigada.
- Tem uma lenda por que surgiu por causa disso. Por elas serem vistas melhor no verão.
Ana olhou pra mim, para o nome na moto, não falou nada como se esperasse eu continuar.
- Existia um casal, A princesa tecelã, e o pastor de bois.
Ela olhou pra mim com aquela expressão de dúvidas.
- A princesa é a estrela Vega. Ana apontou para a mesma estrela em reconhecimento, voltei a minha explicação
- Altair é o Pastor.
Ela repetiu o gesto apontando para Altair
- Mas e Deneb? quem é ela na história?
- Já vamos chegar lá. Esses dois trabalhavam muito, e esse trabalho era importante para os deuses.
Ana assentiu com a cabeça.
- Até que um dia eles se encontraram, se apaixonaram.
- É por isso que eles estão unidos no céu?
- Não, pois eles não estão exatamente unidos, quando eles se apaixonaram, deixaram de fazer os seus trabalhos, e os deuses os puniram, separaram o casal e puseram cada um deles de um lado da via láctea. Eles não estão unidos, todo o universo está os separando.
- Mas…
- Então o casal ficou triste, dizem que a princesa derramou suas lágrimas, e o sofrimento deles era tanto que os deuses se compadeceram dos dois, e lhes concederam um momento.
- Um momento?
- Se eles fizessem bem seus trabalhos, uma vez por ano eles iriam se reencontrar.
Ana continuou ouvindo.
- A lenda tem várias versões nesse ponto. Tem uma versão que eles se encontram através de uma ponte, em outra um pássaro, ou uma barqueira une o casal.
- Entendi.
- Mas em todas as versões,a ponte, o pássaro ou a barqueira são a mesma estrela no céu, todas são Deneb.
Ana olha para estrela, fica em silêncio por um tempo olha para a moto. Depois fica contemplando o céu.
- Bonito. Ana falou e suspirou.
- Por causa disso existe um festival.
- Então as pessoas fazem um festival para comemorar esse reencontro, sabendo que no fim eles vão se separar, nesse ciclo, ano após ano.
- Sim…
Olhei para o céu. Não sei pra onde Ana estava olhando, mas as estrelas estavam lindas aquela noite.
Ficamos ali olhando as estrelas por mais um tempo.
- Bem, vou voltar ao meu trabalho.
Ana permaneceu ao meu lado, iluminando o motor quando eu precisava.
O tempo passou, eu já tinha resolvido quase todas as questões que havia percebido, mas Deneb não ligava.
Ana se afastou um pouco buscando o calor da fogueira.
Limpei e coloquei uma das vela de volta no motor, pus a chave na ignição
- Vamos lá amiga, eu prometo, vai ser a última vez.
O motor deu um ronco engasgado, irregular, foi se ajustando até voltar a um ritmo mais normal.
Ana veio sorrindo - Sabia que você ia fazer funcionar.
Mais uma vez estávamos na estrada, a Deneb já não ia tão rápido, mas estava constante, firme no nosso destino.
Ana estava encostada no apoio traseiro.
Eu sabia que já passava da meia noite pois Altair já não podia mais ser visto no céu.
Foi então que um som inundou a noite, uma música, os alto falantes de Deneb voltaram a tocar.
Uma música em japonês, com melodia doce.
A letra falava sobre uma noite estrelada, sobre separação, palavras nunca ditas e um tempo que passou.
Aquela melodia embalou a noite.
Ouvi um suspirar, dentro de mim agradeci a Deneb.
- Música bonita, Ana falou pelo rádio.
- Sim, é verdade.
- Sobre o que ela fala?
- Estrelas.