A Princesa e A Mendiga
— Mendiga é teu cu. — Diz Verônica, bem baixinho, respondendo mentalmente a uma ofensa que simulou sobre sua própria aparência no cenário atual.
A ruiva está parada na frente da porta de um apartamento no bairro Rio Branco em Porto Alegre de um prédio antigo, mas muito bem preservado. Algo do tempo em que ainda faziam imóveis com chão de parket e três quartos sem custar uma fortuna. Hoje, custa, e a ruiva talvez tivesse dinheiro para quase comprar um desses se vendesse todas suas coleções. É uma troca tentadora, mas ainda longe de acontecer.
A ruiva estava parada na porta de Sabrina enquanto trajava suas vestes mais comuns. Jaqueta preta de couro, uma blusa regata cavada branca do AC/DC e calças de brim azul. Os tênis eram all-star botinha preto com rebites. Nas costas, uma mochila cheia e com pedaços de itens aleatórios saindo pelos bolsos que não conseguiram ser fechados.
Ela já bateu nessa porta algumas vezes na vida e toca de novo hoje ainda estranhando algumas peculiaridades. Tudo nela se destaca dos demais imóveis do condomínio, o que leva à dúvida se a habitante e proprietária não pagava multas constantes por sair desse padrão. Gente esquisita é normal no Submundo, mas na Superfície se destacar tem seu custo.
Um cheiro de incenso estranho sai pelas frestas da entrada. Algodão-doce? Um incenso de algodão doce? Não é isso o que se espera vindo de trás de uma porta de ébano super escuro com adornos de cerejeira japonesa e enfeites dourados. Todos esses detalhes ainda sintonizam com a estranheza de uma aldraba feita com crânio humano sob resina junto a detalhes decorativos que ajudam a parecer falso para quem não estiver muito atento.
Todas as interações de Verônica e Sabrina até hoje foram esporádicas, geralmente comerciais ou trocas de acenos ao cruzarem caminhos. Pensando agora, a postura comum da Princesa Necromante, que será conhecida melhor nos próximos momentos, era diferente quando Tomás estava junto. Perto do irmão de Verônica, Sabrina ficava ainda mais fria, mas como se a baixa temperatura também a afetasse. Enquanto a ruiva pensava, a loira abria a porta para atendê-la:
— Bonsoir, cara Verônica, como posso ajudá-la? — Diz Sabrina após abrir a porta e estendendo a sua mão com apenas um dedo levantado para que Verônica beijasse. A loira e seus olhos violeta se contrastavam com as roupas de seda fina que cobriam seu corpo. Roupas que não viam as ruas, mas se viam nos espelhos todos os dias, visto que haviam cristais espalhados em detalhes e botões. Uma princesa em suas vestes de casa.
— Oi, — e Verônica beija a mão de Sabrina como se fosse a coisa mais natural a se fazer perante quem claramente é uma princesa. Em seguida, ela fica irritada ao perceber que agiu sem pensar e a postura de elegância agressiva de Sabrina. — como eu falei pelo Talária — E Verônica apontou para o app de mensagens do Submundo em seu celular. — Eu preciso de uma ajuda tua.
— Que tipo de ajuda, ma cherie? — Diz Sabrina com uma sobrancelha levantada perante a má educação recorrente de plebeus que, mais uma vez, se repete na sua presença. — E o chevalier Tomás, não veio junto? — A loira busca com os olhos o pirilampo vermelho pelo corredor.
— Ele não vem hoje. Ainda está se recuperando da última batalha. A regeneração dele ajuda, mas não faz milagres. E, também, eu preciso é de um cérebro bem específico hoje, não de músculos. Claro, se não for quebrar as tuas unhas. — Disse Verônica, soltando veneno depois de se conter até agora por precisar de Sabrina.
— Oh, claro. Sendo assim, é de minha noblesse oblige ajudar uma… pleb… pessoa em necessidade, depois de ter me ajudado tantas vezes. — Respondeu Sabrina de forma pomposa, doce, mas fria como um marshmallow na geladeira. Sabrina convidou, com gestos, Verônica a entrar.
— Preciso obter informações que se foram com os mortos. — Verônica entrou depois de Luciferina, fechou a porta e cumprimentou as duas pelúcias vivas, Harperino e Purserino, como quem cumprimenta gatos e cachorros ao chegar na casa de alguém.
O interior do apartamento de Sabrina definitivamente não parece de um porto-alegrense, muito menos do século 20, quando provavelmente foi construído. Os móveis e decoração misturavam o que se veria em um castelo medieval, mais especificamente em um quarto de princesa, com o que se veria em um cemitério da mesma época. Eletrodomésticos, no entanto, quebravam o padrão junto com as pelúcias espalhadas pela casa, apesar de apenas duas se mexerem.
— Falar com morto é um pouco difícil. Falar com mortos específicos ainda mais. Obter resposta, então… — Diz Sabrina, enquanto deposita delicadamente um dedo no próprio queixo. — Posso precisar de algum catalisador ou um local como um portal.
— Imaginei que, para vossa majestade, — e Verônica fala com um tom pomposo e disfarçadamente debochado, enquanto faz gestos exagerados com as mãos — algo assim estivesse entre suas capacidades e intelecto. Conheço um lugar conhecido por ter uma boa conexão com o outro lado. Podemos ir lá.
— Ah, ma cherie, mesmo Princesas podem evoluir e, como Necromante, tenho muito o que crescer em poder e conhecimento ainda. — Responde Sabrina, com uma pequena risada perante ao que entende ser Verônica tentando ser mais elegante. — Há quanto tempo o defunto se foi? — A loira dá as costas e complementa sua fala avisando que vai para seu quarto escolher um vestido.
— Uns vinte anos. — Verônica começa a olhar a decoração da sala e da casa com mais cuidado. Espia aqui, cheira ali, dá umas voltas perdidas. Sua mão passa devagarmente por uma pilha de joias, seus dedos enrolam algumas pedras aleatórias, mas logo solta ao perceber a harpia de pelúcia encarando até sua alma.
Em seguida, sente um puxão na sua calça. O ursinho de pelúcia parece querer mostrar algo e a leva até um quarto. Nesse quarto, há estantes com livros de capas que desafiam qualquer noção de sacralidade, instrumentos de cirurgia, e outros objetos macabros. Parecia o quarto de brinquedos de uma princesa necromante. No meio, um pequeno altar.
— Então, pode dar algum trabalho, mas dá para fazer. — Diz Sabrina, com sua voz pomposa, enquanto separa sua lente e suas jóias que brilham como o verde de vagalumes do inferno.
— Mas os seus… bichos de estima…
— PEW — A harpia interrompe Verônica em desaprovação.
— Nobres cavaleiros, por favor, eles são meus nobres cavaleiros. Pode usar pelúcias, mas bichos de estimação é ofensivo. — Sabrina responde com voz de nariz empinado.
— Desculpe, não sabia. — Responde Verônica enquanto é conduzida pelo ursinho até o pequeno altar. Sobre ele, há símbolos inscritos em um círculo onde repousa o fenrir de pelúcia que ela mesma trouxe para Sabrina algum tempo atrás e uma caixa de refrigeração onde ela sabia que estavam partes dos mortos. — Mas eles não são espíritos? — O urso começa a mostrar empolgação enquanto faz grunhidos apontando para o lobo em cima do altar.
— Meus cavaleiros são criados a partir de ectoplasma de mortos sim, mas a energia espiritual é usada para gerar um novo espírito. Como a nobre que sou, jamais faria algo tão sujo. O que faço é criar os mais poderosos, interessantes e leais seguidores para a fundação do meu reino. — Sabrina fica parada na porta do quarto onde Verônica está. — Vou tomar meu banho, me arrumar e, então, saímos.
— Certo. Sobre o local, acho que tu vai gostar, princesa, é um castelo ali no centro, com um local usado como portal para se comunicar com os que já foram.
— Perfeito. Depois do banho. — E a loira vai para sua suíte.
Enquanto Sabrina se lavava, secava e vestia, Verônica olhava mais algumas coisas curiosas na casa. O urso novamente a puxa, desta vez até a cozinha, e pede para que ela alcance o pote de mel de cima da geladeira que a harpia parece se recusar a entregar. A ruiva pega o pote e dá para o urso que começa a festejar e se lambuzar como uma criança comendo doce.
— Purserino! Que mal educado de tua parte. Usar a gentileza da visita plebeia para fugir do teu castigo. Vamos fazer uma revisão de etiqueta e noblesse oblige na volta. — A Princesa Necromante repreendeu o urso de pelúcia, mas quem sentiu as palavras foi a “plebeia” Verônica, que imediatamente passou as mãos pelos objetos da casa e subtraiu alguns sem nem mesmo a harpia perceber.
Sabrina, não, Luciferina estava pronta. Um vestido preto longo feito à mão, com materiais similares a seda, cheio de babados e desenhos de flores, e turmalinas negras espalhadas. Uma tiara e outras joias de obsidiana adornam o resto do corpo. Em todos os objetos e na lente de contato, o verde da luz de um vagalume do inferno se destaca. Abaixo de tudo isso, um salto. — Estou pronta, vamos lá?
— Sim. Nosso destino é o Castelinho do Alto da Bronze. — Responde Verônica, ainda incomodada com ter sido chamada de plebeia. — Eu acho que a tua coroa não vai caber no capacete, viu? — E começa a se retirar da casa junto com Luciferina, sendo que é esta quem abre a porta.
— Hahahaha — Ri Luciferina com a mão na boca enquanto caminham pelo corredor do prédio. Harperino acompanha pousado no ombro da menina e Purserino caminha ao seu lado. — Ah, não vamos de moto, ma cherie. — As duas entram no elevador. — Nós vamos em meu cavalo. — E aperta no botão do subsolo.
— Olha, amiga… Ir cavalgando até o centro não vai ser desconfortável?
— Hahahaha — Luciferina ri de novo com a mão na boca, como se estivesse perante uma criança ingênua, enquanto a porta do elevador abre para o estacionamento. A loira pega uma chave do bolso e aperta o botão de abrir o carro. O automóvel que responde é uma Ferrari negra perolada.
— Ah, entendi. — Diz Verônica enquanto bota sua mochila no banco de trás e senta na carona.
— E que tipo de informação nós queremos pegar nesse ritual? — Pergunta Luciferina enquanto senta com imponência e capricho no banco, veste luvas e fecha a porta.
— Uma receita de sorvete. — Responde Verônica.
— Essas pessoas não têm coisas mais importantes para pedir para ti?
— Trabalho é trabalho, né? As criaturas pagam, eu faço. De vez em quando surge uma esquisitice dessas. Sabe aquela sorveteria na Cidade Baixa, a Gioielli?
— Já ouvi falar, mas sempre me pareceu.. coisa de povo… — Responde Luciferina, abrindo o portão de saída da garagem.
— Era a melhor sorveteria da cidade até um tempo atrás. Na Superfície. Já no Submundo era a melhor do estado, com destaque no mundo todo pelo uso de ingredientes de origem desconhecida. Daí, as receitas eram passadas de geração para geração e, na última vez, o pai achou o filho indigno de herdar os segredos. Por isso, o sorvete perdeu qualidade há mais de década. O velho morreu e o filho ficou sem legado.
— Só agora esse rapaz quis a receita? — Pergunta a nobre necromante enquanto vira uma esquina.
— Nah, ele nem tem interesse. Acontece que o Anderson Tavares, um ricaço do Submundo, acabou de voltar para Porto Alegre depois de décadas e quer colocar a receita na sua coleção. Ele é apreciador de comida e quase iniciou uma facção uma vez só para ter Proto-Humanos tematizados. Acabou ficando só em coletar e comer mesmo.
— Eu acho que posso precisar de um serviço teu também.
— Ah, é? Mais uma pelúcia? — Pergunta Verônica, com uma risada.
— Não. Ainda não consigo invocar e controlar quatro ao mesmo tempo. Só que como tu viste, ainda não consegui nem concluir o ritual da terceira.
— Pensei que tu precisava daqueles cadáveres quase frescos, inclusive. Vai precisar de novos? Não faço assassinatos, mas às vezes sobra algo quando o Tomás luta e…
— Ainda servem. Quanto antes, mais sofisticado e nobre é o material. O que falta é outra coisa. Preciso de uma vela, ainda não sei que tipo, e aí que vou pedir o trabalho, mas ela precisa ser especial e ajudar com o elemento “gelo”. — Luciferina estaciona o automóvel. — Vocês fiquem aqui e cuidem do carro. — Diz a menina para suas pelúcias enquanto desce do carro.
— Vamos por aqui. Está nos últimos segundos da visitação. — Verônica atravessa a rua com sua amiga gótica.
Le Château Noir
O local é o Centro Histórico de Porto Alegre, onde há um pequeno castelo que um político mandou construir há muito tempo atrás. Ele havia abandonado a esposa para morar com a amante jovem no local e, por ciúmes, a mantinha presa no segundo andar do castelo. Os registros históricos dizem que ela fugiu e as lendas dizem que ela foi assassinada lá, mas a verdade só o Submundo sabe: ela fugiu e foi assassinada no caminho.
— Boa noite, meninas, estamos fechando já. — Diz uma vigia.
— Olha, mas tu não sabes com quem estás falando, por isso vou te perdoar desta vez. Saia de vez da entrada que eu, a nobre princesa da morte, Luciferina, e esta mocinha aqui queremos passar. — Luciferina fala de forma tão pomposa, nobre e autoconfiante que a vigia automaticamente pega e beija a mão da menina antes de perceber o que tinha acabado de ouvir. Em seguida, a vigia sacode a cabeça e demonstra irritação.
— Calma, não precisamos disso. Aqui. — Verônica apresenta um cartão para a vigia.
— Ah, tá, passa. — Respondeu a moça. Ela não sabia o que exatamente era aquele cartão, mas o treinamento mandava liberar a porta quando alguém o apresentasse.
— Cartão de Marmota. — Explica Verônica para Luciferina enquanto entram no local.
— E simplesmente tem um local para rituais de necromancia aqui de forma acessível à Superfície?
— Há, claro que tem. Não, né? Só quando se conhece a Dani. — Disse, enquanto liderava o caminho para descer uma escada em direção a um andar de subsolo.
— Quem é Dani?
— A Danifica… — e Verônica se interrompe perante a ingenuidade e capricho da amiga. Muito tempo convivendo com Tomás faz esquecer que não dá para fazer piadas de quinta série com todo mundo. — Nada, deixa. Na verdade, tem uma sala um tanto discreta que poucas pessoas sabem que existem, menos ainda sabem o que tem atrás e, por fim, entrar nela é um obstáculo final difícil. — Verônica parou na frente de uma porta cheia de inscrições, botões e decorações que parecem móveis.
— Nossa, parece um enigma.
— E é. Só entra quem descobre. Por sorte, aprendi bastante na infância com meus pais que eram arqueólogos.
— Ok, estou curiosa. — Luciferina levanta uma sobrancelha.
— É. Meus pais eram arqueólogos e faleceram em uma missão. Nunca descobri qual ou como, e tento investigar isso, sem muito sucesso. Quando aconteceu, uma colega de trabalho deles e minha madrinha ficou comigo por um tempo até me entregar para a Srta. Rosa me criar. Tomás já estava lá, crescemos juntos. — Verônica falava enquanto mexia nos botões da porta, tentando decifrar o quebra-cabeça.
— Então tu trabalha como marmota para encontrá-los? Que nobre.
— Ahahaha, não para isso apenas. Eu já admirava o trabalho deles, mas por ser pequena, nunca me levavam junto, só me davam presentes das viagens. Foi aí que comecei minhas coleções. Só que não sobram muitos lugares novos para ir na década de 20 do século 21, né? Ainda mais com Proto-Humanos com todo tipo de poder indo de um lugar a outro. Mas um dia quero descobrir algo novo, ir onde nenhuma Adriana jamais Esteves. Até lá, me contento com o trabalho atual.
— Quem sabe te contrato para descobrir o local perfeito para o meu Reino? Permito até o teu nome em uma das praças do Castelo Real.
— Isso seria ótimo, vossa majestade.— Responde Verônica com uma risada de canto de boca. — Depois da senhorita. — E abre a porta para ela entrar. — O local está limpo. — Verônica passa o dedo nas paredes e móveis para mostrar a falta de pó que poderia “incomodar a princesa”.
— Muito obrigado por verificar para mim. — Diz Luciferina, sem perceber o subtom das palavras de Verônica. — Vamos ver o que temos aqui. Uma pequena câmara de pedra, castiçais e uma mesa circular de pedra no centro com o alfabeto gravado.
— E o que dá para fazer com esse lugar que parece… meio morto?
— Preciso de um copo. — Luciferina abre a mão e estica em direção à ruiva como se esta fosse um mordomo.
— Deixei minha mochila no carro, mas… — Verônica coloca a mão dentro da jaqueta e retira um martelinho. Ela estica o braço para entregar o objeto para Luciferina e logo recolhe. — Espera um pouco. — A ruiva bota a outra mão dentro da jaqueta, retira um frasco de rum, enche o martelinho, vira na boca e aí sim entrega para Luciferina usar. — Pronto, pode pegar.
— Em algum momento, vamos beber alguma coisa decente. — Responde Luciferina ao cheirar o martelinho com uma careta. A menina coloca o copo no meio da mesa com a boca para baixo e, em seguida, pega um alfinete que estava preso no seu vestido. Faz um furo no dedo até sair sangue e começa a contornar cada letra do alfabeto incrustada na mesa de pedra. Em seguida, pega um pano com álcool e passa no dedo. Ao perceber o olhar curioso de Verônica, explica: — Necromancia não é desculpa para bagaceiragem.
— Legal, se tivessem me falado que era só um jogo do copo, nem teria saído de casa. — Diz a ruiva.
— Eu entendo a frustração e ela é legítima. Jogo do copo neste tipo de pedra e em lugar preparado para ter portal, no entanto, dá outro resultado. Estás pronta para começar?
— Começa tu, eu que não vou mexer com essas coisas. Depois vou te pagar de alguma forma, mas isso aí é só contigo. — Verônica fala pensando em fazer piada de pagar com o corpo, só que Luciferina poderia entender de forma literal. Melhor evitar esse tipo de brincadeira com uma necromante.
— Tudo bem, eu entendo. Qual o nome de quem vamos chamar?
— Mário Gioielli. Foi o cara que inventou toda a receita. — Respondeu Verônica, começando a ficar desconfortável ao cair a ficha do sobrenatural que estava para acontecer perante ela.
— Mário Gioielli, estás aqui? — Luciferina aponta a palma da mão para o copo, mas nada acontece.
— Não era para botar a mão no copo e ele ir respondendo?
— Capaz que vou deixar um defunto plebeu me dar esse trabalho. — Luciferina tira os olhos de Verônica e olha novamente para a mesa. Com a mão apontada, agora uma energia da cor de vagalumes começa a contornar o seu corpo.
A luz, no entanto, não trouxe calor. O ambiente ficou gélido. Verônica, que, por conta do verão, usava uma jaqueta leve só para manter o estilo e se manter confortável ao pilotar sua moto, sentiu falta de um mais pesado.
— Mário Gioielli, eu, Luciferina, ordeno que responda. — Luciferina usou pomposidade e imponência em sua voz fria. O copo se mexeu sozinho e soletrou “eu estou aqui”.
— CACETA! — Verônica tomou um susto e parou de tremer apenas por frio. Agora estava receosa com os mortos.
— O copo é muito lento e tenho mais o que fazer, vou usar esse material apenas de catalisador. Mário Gioielli, eu ordeno que apareça e fale diretamente comigo.
— Como pode? Uma mera ragazza achar que me ordena?
— AI, PORRA! — Verônica corre para perto da porta fechada quando um homem com vestes de colono italiano aparece falando um português com forte sotaque.
— No entanto, apesar do questionamento, tu estás aqui. — Responde Luciferina. — Eu preciso de uma informação.
— Vá, vá, de que informação tu precisas? Que é tão importante a ponto de me tirar de onde eu estava? Confortável a comer umas porpetas com fettuccine.
— Precisamos da receita de sorvete da sorveteria Gioielli. — Disse Luciferina, enquanto Verônica estava de olho arregalado e não se atrevia a participar do diálogo.
— Mi hanno chiamato dos mortos para perguntar tal besteira? Por que não pediram a meus pronipote?
— Meu caro, senhor. — Luciferina muda para um tom mais cordial. — De fato, peço-lhe mil desculpas pela forma que me comuniquei. Fiz isso apenas para… agilizar o processo e não usar muito do teu tempo, além de eliminar mediadores desnecessários. A receita que é segredo da tua família merecia uma conversa mais rosto a rosto.
— Signorina Luciferina. — Mário se curva um pouco em cumprimento e continua sua fala, também em tom cordial. — Entendo, mas pergunto novamente, por que vir até mim e não ir até meus herdeiros?
— Senhor Mário, seus descendentes a perderam. A geração atual foi deserdada pela anterior, que encontra-se morta. Agora, sobram clientes blasfemando sobre seu nome e um amante da haute cuisine contratou a minha amiga para ajudar a reviver sua receita enquanto mantém seu legado vivo. — Luciferina mostra Verônica em um gesto simples, mas educado, de mão.
— Capisco… — Responde Mário, olhando para a ruiva curioso com o medo em seu rosto. Estar há tanto tempo morto pode fazer alguém esquecer de como vivos temem a morte. — Aguarde um minuto. — Mário fecha os olhos, se concentrando. Sua boca mexe rápido e em ritmo frenético, como se estivesse conversando com alguém de forma bem acelerada. — Hmmm… — Ele abre os olhos. — Ricardo Gioielli foi o último descendente meu a ter as mãos sobre a receita. Confirmei que sua versão escrita, atualizada, está nos documentos da fábrica. E, sem os ingredientes que produzimos lá, a receita não serve para nada.
— E onde está essa fábrica?
— Procure por Irerêwerá, a ilha onde comecei a produção. Poucos sabem de sua existência, muito menos conseguem chegar lá, pois a ilha se esconde. Agora que vocês sabem o nome, se ela quiser ser encontrada, será. Não posso dizer mais do que isso. — E Mário some pela própria vontade, apesar de Luciferina tentar usar seus poderes para mantê-lo ali.
O brilho ao redor da princesa gótica desaparece e o calor volta ao local para alívio de Verônica que para de tremer. De frio. De medo? Jamais tremeu. Em seguida, Luciferina pega o copo e pede um pouco de licor para Verônica que acha engraçado como a loira espera que ela carregue todo tipo de bebida alcoólica nos bolsos.
Então, Verônica tira uma garrafa de licor de cereja e serve Luciferina, que bebe com um sorriso no rosto ao sentir sua energia voltando. O ritual cansou mais do que sua postura elegante deixava parecer. As duas se mexeram para limpar suas sujeiras e o sangue da mesa, mas não tinha mais nada lá, assim como a porta já estava aberta como um convite do lugar para que se retirassem. Verônica voltou a se sentir tensa e liderou a saída com passos rápidos. Foram caminhando até o carro, onde o urso e a harpia estavam dormindo entediados.
Após entrar no carro, Luciferina pergunta.
— Vamos aonde agora?
— Só conheço dois lugares que poderiam ter informações sobre isso e, em um deles, não posso te levar. — Verônica sente outro calafrio ao lembrar das bibliotecárias mandando guardar segredo dos livros ocultos. — O outro, é no Museu da PUC, vamos para lá.
Cicerone
— Por que eles teriam essa informação? E eles estão abertos em dia de semana à noite? — Perguntou Luciferina dando a partida.
— Como Proto-humana, imagino que te passem despercebidas facções como essa, né? O Museu não tem interesse em territórios, lutas entre Proto-Humanos ou algo assim. Eles se dedicam a obter e cuidar de coleções de artefatos, documentos e até seres de interesse do Submundo. Preservar a história natural e tecnológica é importante em todas as camadas. Inclusive, até seria útil terem Proto-Humanos para reforçar a segurança, mas não sobra muito dinheiro por não terem fins lucrativos. Os sistemas que usam já são bastante caros e quase invioláveis. Espero que não saibam quem foi uma das pouquíssimas pessoas que já conseguiu entrar e sair de lá sem ser pega…
— Olha, manter a noblesse oblige com uma gatuna só é fácil no Submundo. E isso porque roubar de museu deve ser o menor dos crimes, perante a lei da Superfície, que as pessoas cometem nesta camada da sociedade.
— É, roubar túmulos, por exemplo, é bem pior. — Verônica responde com pequena alfinetada à sua cliente.
— Hihihi. — Ri Luciferina de volta, um pouco constrangida, um pouco debochada. — Chegamos, mas tem luzes acesas ainda. Usaremos a porta da frente mesmo?
— Sem problemas. — Responde Verônica saindo do carro e, em seguida, pegando o ursinho no colo enquanto a harpia pousa no ombro de Luciferina. Deixá-los mais tempo sozinhos no carro seria sacanagem.
— Só deve ter pessoas do Submundo e os guardas por aqui, imagino. — Diz Luciferina enquanto elas sobem as escadarias que levam da calçada à entrada do Museu.
Verônica guarda sua resposta ao chegarem perto dos guardinhas e mostra seu cartão ao primeiro que encontra. Os vigias olham estranho para o cartão, para as pelúcias que parecem vívidas demais e fazem uma reverência a Luciferina. Um segundo depois de ser curvarem alguns graus, mostram-se confusos com a figura de vestes chamativas, mas abrem a porta para as meninas sem perguntar nada. Assim que fecham, Verônica responde.
— A princípio, sim, ninguém mais da Superfí…— E é interrompida.
— VÊ!!!! — Bianca grita ao longe, vindo do corredor da botânica, ainda cheia de faixas em diferentes partes do corpo.
— Puta que pariu. — Verônica resmunga baixinho enquanto bota a mão no rosto.
— Amiga sua? — Luciferina pergunta, de forma fria e direta.
— SIIIIIIIIIIIIIIM, somos grandes amigas. Quase irmãs! Ah… — Em seguida, toda a animação de Bianca se esvai. Após a animação de ver um rosto amigável, sua mente se conecta às cicatrizes dos eventos recentes.
— Ela mora na mesma república do Tomás.
— Entendi. — Luciferina responde, levantando um pouco o nariz.
— Que fofas essas pelúcias! Meu nome é Bianca, prazer em conhecê-la. — Bianca se prepara para cumprimentar Luciferina, que dá sua mão para ser beijada.
— Sabrina. — A princesa necromante usa seu nome real enquanto mantém-se gelada e seca.
— Haha. — Bianca ri confusa, após beijar a mão. — Vê, vi no jornal que o louco do ácido foi encontrado morto. Não gosto de morte por morte, mas… — e Bianca baixa a voz, quase cochichando, ao menos para os padrões da menina. — entendo por que o Tomás fez isso com quem me atacou e também atacou as meninas do lugar que ele trabalha. — Verônica suspira aliviada que o trabalho dos Homens de Preto de manipular a memória da mente de Bianca tenha funcionado.
— Tomás fez isso? O cara do ácido só foi encontrado morto, não entendi a conclusão… — A ruiva ficou confusa com essa parte do relato que também devia ter ficado de fora.
— Todas as noites desde que aquilo aconteceu eu tenho pesadelos de uma mãe d’água gigante me afogando em ácido e tentando me devorar, — Bianca espreme seu rosto em agonia — mas em seguida, Tomás e Ulisses aparecem para me salvar. — suas expressões se misturam com um pouco de alegria. — Sei que é a Natureza tentando me dizer algo, mas Ulisses é um sensível e corajoso artista que faria tudo por mim, e não teria a força física e visceral de matar.
— Hahaha, como se meu irmão de criação fosse um grande herói. Ele é melhor do que parece e se deixa ser, mas é um idiota que só pensa em se provar forte. — Diz Verônica.
— Melhor? A única coisa que se fala por aí é que Tomás Vachet, o campeão da Srta. Rosa, só serve para brigar. — Diz em voz baixa um homem de mais ou menos sessenta anos, cabelo grisalho, camisa branca e calça jeans, e que assustou as meninas ao ter chegado sem ninguém perceber.
— E o senhor é? — Luciferina, de fria passa a congelada e, sob sua presença forte causada por uma desconfiança, o senhor que se aproxima se ajoelha rapidamente e beija sua mão.
— Professor Hemerson. Eu sou o curador do Museu e a pessoa com quem vocês provavelmente querem conversar, uma vez que estão aqui a esta hora. — Responde o senhor, se levantando confuso com o que acabou de fazer como se fosse algo totalmente natural.
— Professor, não sei como tu conhece o Tomás, mas ele é uma ótima pessoa para quem vê bem de perto. — Protesta Bianca.
— Um pesquisador deveria se informar mais sobre algo antes de julgar. — Ainda que precisasse das informações do homem, ouvir essas palavras sobre seu irmão fez Verônica ficar levemente irritada. — Tomás teve seu pai, capoeirista e professor de capoeira, morto perante seus olhos na mão de um neonazista. Carlos Vachet era, além de um herói e líder comunitário que tirou muitos jovens do crime através de educação, um lutador muito habilidoso.
— Um brutamontes vingativo que transformou o mundo no seu objeto de vingança. — Responde o homem em tom de desdém e deboche.
— Errado novamente. Tomás acredita que participar de uma luta é manter seu pai vivo através da capoeira. A arrogância e excesso de autoconfiança não é só sobre ele, é sobre manter a lenda do seu herói viva. Quando ele vence, é a capoeira do seu pai que vence.
— Por que ele luta tanto assim? Pensei que ele fosse só um guarda-costas. — Diz Bianca, o que serve de lembrança para Verônica não falar demais em sua frente.
— Ah, só para se manter afiado. Bianca, o que tu tá fazendo aqui? — Verônica se lembra de perguntar.
— Eu ajudo na área de botânica pela minha bolsa, assim como posso fazer minhas pesquisas também, mas já estou de saída. Preciso ir para casa preparar a jantinha do Ulisses! Ele sumiu desde aquele dia, então, preparo comidinhas gostosas toda noite para receber quando aparecer de novo. Vou indo! — Bianca se despede e sai.
— E vocês estão aqui por…? — Pergunta o Professor Hemerson.
— Olha, sei que vocês têm bastante registros sobre o passado da cidade. Eu preciso de informações sobre Irerêwerá. — Diz Verônica e Professor Hemerson arregala os olhos.
— Como vocês sabem sobre esse lugar? — Pergunta o Professor, depois de olhar para os lados e baixar o volume da voz.
— Um morto nos contou. Precisamos de algo de lá.
— Um morto o que? — O Professor se surpreende, olha para Luciferina novamente e enfim nota que tipo de pessoa ela é. Também percebe que as pelúcias começaram a se mexer sozinhas e, em especial, a harpia parece olhar diretamente em sua alma como se fosse um rato a ser caçado. — Não sei como vocês duas meninas conseguiram falar com um fantasma e quem era ele para dar essa informação, mas melhor eu mesmo explicar antes que vocês investiguem por aí e espalhem o nome de forma imprudente. Venham comigo.
O professor lidera a caminhada do hall do museu até uma portinhola de acesso a outro saguão. A exposição ali é bem diferente. Estátuas esquisitas, animais exóticos e fantásticos representados em pinturas ou empalhados, fotos de ruínas do mundo todo. Seu andar se encerra no meio de um corredor com ilustrações de um pampa coberto em neve, tigres dente de sabre lutando contra ursos, caçadores lutando contra preguiças-gigantes, e alguns indivíduos com vestes e armas distintas, únicas. Verônica entra no lugar pensando em fingir surpresa, mas acaba expressando uma surpresa real ao ver aqueles objetos do ponto de vista de uma observadora, não uma ladina em missão.
— O que vocês sabem sobre a história do Submundo? — Pergunta o Professor, dando um arfar com o nariz e abrindo um sorrizinho.
— Sei que ele existe praticamente desde o início da civilização humana. — Responde Verônica, revirando os olhos perante a expressão do homem.
— Na verdade, desde muito antes, ruivinha. — Diz o Professor, enquanto Verônica se segura para não responder. — Os Proto-Humanos, que antigamente eram chamados de Campeões, e que recebem outras nomenclaturas conforme local e tempo, nem sempre foram ferramentas de disputa entre as chamadas facções. Informações como essa só temos por conta de relatos diversos. Não apenas escritos, não apenas desenhados, mas também diretamente de pessoas do passado.
— Conversando com os mortos? — Luciferina levanta uma sobrancelha.
— Bem vivos, na verdade. Existem alguns… bolsões do tempo neste mundo. Locais que sobrevivem isolados do tempo ou o atravessam mais lentamente e onde foi possível conversar com remanescentes de diferentes eras do passado. Um desses locais é uma ilha gélida chamada Irerêwerá, que fica no meio da Laguna dos Patos, do período Hiboriano.
— Ué, mas não tem ilhas lá, muito menos locais estranhos como esse. — Diz Verônica.
— Não tem se ela não quiser estar lá, mocinha. Parece que há algum tipo de barreira ou proteção que esconde a ilha esconde e filtra os acessos. Quem chega lá, costuma ter consciência de que preservá-la é importante. Inclusive, se um morto com conhecimento do local contou sobre ele a vocês, ele ao menos acredita que vocês merecem a chance de ir lá. Não entendo o porquê dessa crença, mas parece existir.
— Ok, resolvido. — Conclui Verônica e olha para a loira. — Luciferina, liga pra Maria Júlia e pede uma lancha. A chefia do Carpe&Die não vai negar isso para uma das proto-humanas mais importantes dela. Se vamos navegar de um lado para o outro, que seja rápido em uma lancha.
— Nem pensar! — Diz o Professor
— Como? — Pergunta Verônica, irritada.
— Se aquela mulher chegar a considerar que esse lugar existe, vai tentar de tudo até encontrá-lo e montar um pub ou um café na ilha. A Srta. Rosa também é perigosa. Ela deve, ao menos, vender essa informação para alguém. É importante que esse lugar se mantenha em segredo e só entre quem precisa conhecê-lo. Falando nisso, já que vocês vão para lá, tenho um trabalho a pedir. Esperem um pouco. — Professor Hemerson se retira.
— Não é nobre, não tem noblesse oblige, mas acha que é um. — Reclama Luciferina com cara de nojo. — Como ele tem tanto conhecimento, além de condescendência?
— Uma marmota velha costuma manter e receber muita informação ainda. Típico caso de bom currículo, não tão boa pessoa. Bem, depois disso, vou ter que esperar o Tomás se recuperar para ir comigo. Sozinha, sem nenhum Proto-Humano junto, não vai rolar. Sei sobreviver, mas não sei se isso vai ser suficiente.
— Eu, Luciferina, lhe darei a honra de ter minha companhia por mais tempo.
— Vai ficar mais cara essa dívida e não sei se terei como te pagar.
— Pois… não se preocupe. Me interessei pelo local. Acho que lá posso encontrar o que estou procurando há tempos para finalizar meu ritual. Até porque… o bom senhor Gioielli falou para mim sobre a ilha, não para ti, nem para o Tomás.
— Esta caixinha aqui, veja bem. — Volta o Professor Hemerson. — Espera-se que haja uma dessas por lá. — Ele mostra uma pequena caixinha de madeira com adornos verdes, vermelhos e brancos, e o abre. — E dentro da caixa deve ter artefatos como este. — Dentro da caixa revela-se uma pedra vermelha em formato engraçado, parecendo o nariz de um animal, junto com dois gravetos curvos com ramos espelhados. — Se, por sorte, chegarem lá e conseguirem sair, tragam para mim.
— Vai sair caro, viu? — Diz Verônica.
— Toda a informação que dei já devia ser suficiente, mas tudo bem. Tragam e negociaremos, mocinhas.
— E por que tu mesmo, detentor de todo conhecimento e esperteza, não vai até lá pessoalmente e pega esse artefato? — Finalmente Verônica se irrita.
— Eu não consegui acessar a ilha ainda… — O Professor responde cabisbaixo e um pouco constrangido, enquanto Verônica solta uma risada rápida e ácida, e Luciferina leva a mão à boca e dá sua risadinha nobre clássica, mas para dentro, ainda que audível.
Verônica tira fotos do objeto e as duas saem do local discutindo como e quando iriam procurar a ilha, concluindo que encerrar a busca o quanto antes seria o melhor. Não sabiam exatamente como chegar ou se chegariam lá, mas sabiam que ficar navegando de um lado para o outro e simplesmente desaparecer do nada no meio da Laguna com certeza chamaria a atenção de barcos ou de pessoas das margens. Logo, resolvem dirigir até a Zona Sul, parte de Porto Alegre que dá acesso à Laguna dos Patos.
Chegando perto das margens da laguna, Verônica diz que o próximo passo, naturalmente, é roubar uma embarcação, ainda que à contragosto de Luciferina. Afinal, era só trazer o barco de volta depois e colocar qualquer dano na conta da Srta. Rosa. Isso seria suficiente para resolver problemas.
O Último Canto do Cisne
Apesar da imaginação pirata de Verônica, a sorte não estava com elas naquela noite. Como se o carma tivesse encontrado a ruiva antes mesmo do seu crime acontecer, não encontraram nenhuma embarcação à mercê de um roubo. Exceto por um pequeno barquinho em formato de cisne.
Sem muitas opções, as duas meninas, o urso e a harpia subiram no barco e começaram a pedalar. O silêncio da laguna só era interrompido por ondinhas causadas pelo vento e pelas vozes de Verônica e Luciferina que começaram a conversar e rir sobre infortúnios e perrengues passados e similares a esse. Uma conversa que estava prestes a morrer.
De tédio, as conversas e as risadas morreram. As duas passaram mais de hora navegando lentamente com o motorzinho mixuruca. Não sabiam por onde andar, estavam só esperando pecharem na ilha de alguma forma. Só que, ao mesmo tempo que elas não encontravam nada, algo as encontrou.
Crack
Uma lança atravessou o pescoço do cisne e se prendeu. Uma corda, amarrada à lança, começou a puxar a embarcação. Os quatro olharam para a origem, mas não viam nada além do fim da corda se perdendo no infinito. A harpia de pelúcia tentou bicar a corda, mas, antes de chegar na metade, a maré começou a se levantar com uma onda gigante. Só que lagunas não possuem ondas gigantes.
Ao olhar para baixo, viram a embarcação sendo levada pela cabeça de uma serpente marinha. Uma criatura que a própria presença faria qualquer ser humano sentir-se minúsculo e insignificante. O medo de serem devoradas foi seguido por uma sensação talvez ainda pior: a indiferença.
A serpente parecia estar apenas de passagem e ignorando suas existências.
O suor frio escorria das testas nervosas das meninas. Verônica tentava procurar, na sua mochila, objetos úteis para ajudá-las. Luciferina tentava pensar em como atacar a criatura para afastá-la. Suas ações e pensamentos perderam objetivo quando o corpo da cobra terminou de passar e um coice de seu rabo as jogou em direção ao nada — que então já virou algo — e tudo se espalhou sobre uma praia de neve à beira de uma floresta glacial.
Antigo Mundo Novo
A bola de fogo já tinha aparecido ao horizonte e seu calor começava a deixar a pele da ruiva avermelhada tanto pelo reflexo direto quanto pelos raios defletidos pela neve da praia. Um som pesado e ritmado de passos de rinoceronte fazia o chão tremer. O gelo em que estava estatelada não era tão confortável, mas Verônica sentiu falta dele quando foi erguida no ar pela garra de uma criatura e colocada sobre seu dorso. Sem forças para se mexer, aos poucos abriu os olhos para presenciar o seu fim, mesmo com a visão embaçada.
A distância para o chão era de dois metros e meio, mais ou menos. O dorso em que estava era troncudo. Logo, conseguiu entender, que na verdade, estava no ombro de uma criatura bípede. Mesmo assim, se jogar e correr seria impossível no momento.
Seu nariz sentiu o cheiro de tecido mofado, de suor úmido, de fumaça e, por fim, do perfume adocicado de lenha. Percebeu também o cheiro ancestral de carne sendo assada e seu corpo reagiu salivando os lábios com o pouco de água que ainda tinha. Logo, os lábios se secaram ao concluir quem seria o próximo alvo do espeto.
Ao erguer um pouco a cabeça e os olhos, Verônica enxerga uma figura humanoide menos robusta e mais esbelta, mas que ainda assim é capaz de quebrar seu crânio com as mãos. A criatura segurava algo parecido com uma faca e reclamava enquanto mexia em um cisne maior que um humano. Estava decepcionada ao ter confundido o barco com um pássaro de verdade.
O fim chegou: como a garra de um urso pegando um peixe no rio para devorá-lo, a mão do humanóide que carregava Verônica a ergueu perto da fogueira. Pelo jeito, as criaturas tinham mais desenvolvimento cultural do que um urso e a matariam lentamente antes de assá-la como churrasco. A mão abaixou a jovem ruiva e a depositou sentada em um tronco.
Enquanto tentava pensar em uma forma de roubar o facão, a visão embaçada de Verônica se recuperou um pouco e, no seu foco, uma mão feminina forte colocou uma grande cuia de chimarrão.
“Tchê, guria. Não fica mosqueando. Te gruda neste mate pra te aquecer um pouco. O povo de fora não aguenta esse frio não.” Disse a mulher, para quem Verônica direcionou o olhar em seguida. Ela media algo como um pouco mais de dois metros de altura, usava um vestido belo e simples de prenda otimizado para ela se mexer de verdade, e tinha um facão preso à cintura. “Bueno, Conrado,” disse a mulher, com um sotaque de portuñol castelhano para o homem gigante, ”agora pega a cara-pálida que caiu por lá”.
O homem responde com algo que parece um tupi-guarani, mas arcaico, tanto em sotaque quanto em variação. Logo parece perceber que Verônica não entende e diz. “Piá, não te acanha e te aprochega nessa carne aí enquanto vou buscar tua amiga. Tu estás fraca, precisa encher o bucho.” Enquanto isso, Conrado se afasta e caminha em direção ao outro lado da praia.
O efeito revigorante da erva-mate começou a afetar Verônica enquanto ela sorvia o líquido em entre seus lábios — uma sensação que parece feitiçaria a qualquer um que não conhece o chimarrão. A reflexão de Verônica foi interrompida por um som oco que chegou em seus ouvidos junto à visão de um mochinho sendo colocado na sua frente. Dois sons menores e também ocos vieram a seguir quando duas cumbucas são depositadas no mochinho.
Em uma das vasilhas, Anita deposita uma única costela de um grande animal, e o cheiro da carne faz a boca de Verônica salivar tanto e tão quente que quase encheu novamente a cuia de chimarrão. Na outra, Anita coloca um pedaço de moranga caramelizada. O estômago de Verônica e o chimarrão começam a roncar juntos. Então, a ruiva entrega a cuia para Anita.
Conrado se aproxima novamente. Verônica finalmente consegue enxergá-lo, todo pilchado, com lenço vermelho no pescoço, chiripá na parte inferior, e botas grossas de um couro que não pode ter saído de um animal comum. As mãos do homem novamente lembram armas. O gigante carregava Luciferina e a colocou no tronco, ao lado de Verônica, enquanto Anita alcançava a cuia cheia para a loira.
Sem voz, as duas desfiaram as carnes com os dentes como criaturas vorazes. A pomposidade e elegância de Luciferina foram devoradas pela fome e cansaço que sentia. O vestido já rasgado agora se via coberto de gordura animal que respingava na roupa ou que ela esfregava no tecido acidentalmente com a mão.
A cor voltou aos rostos das meninas enquanto se atracavam na comida e ignoravam a sua volta. No entanto, o som da natureza que vinha de dentro da mata as acertava em volumes e ritmos inéditos e começou a ficar mais nítido conforme os estômagos se enchiam e aniquilavam a fome, dando lugar a outros sentidos. A costela gorda nas mãos de Verônica caiu quando ela finalmente se deu conta do cenário que estava a poucos passos dela.
Pisadas ainda mais fortes do que a de Conrado tremiam a terra, movimentos mais majestosos do que Anita atravessavam obstáculos, grunhidos brutais e quebradiços de criaturas digladiavam-se, piados agudos de criaturas aladas rasgavam os céus, e gorjeios graves de urubus macabramente celebravam ansiosos para levar a recompensa da batalha dos outros.
Esses dois humanóides gigantes e robustos, que há pouco a fizeram temer pela vida, eram minúsculos comparados às árvores de tronco maciço cujas alturas desafiavam os limites conhecidos de crescimento vegetal e os bicos afiados de aves colossais que perfuravam as nuvens entre imponentes morros e montanhas.
Um único som agradável se iniciou com a primeira cena carismática que Verônica conseguiu perceber desde sua chegada na ilha. Conrado dedilhou o início de uma milonga em uma gaita cordeona enquanto cantava a lenda de uma mulher que desafiou a floresta e foi abençoada por Caá-Yari, uma história com pontos similares a algo que Verônica já ouviu. A letra mostrava como Conrado abominava magia, mas via uma exceção na protagonista da sua canção.
O encantamento com a música é ofuscado quando as duas gurias percebem, atrás de um galpão de onde a mulher vai e vem, uma serpente cuja cabeça seria capaz de engolir todos ali em uma abocanhada. A criatura imóvel encara as árvores da mata como um aviso e as partes de seu corpo sem couro e sem carne mostram que a ameaça não é a serpente. Ambas finalmente ficaram confortáveis com o casal ao concluir que, se Anita e Conrado as quisessem de café da manhã, seus corpos já estariam no espeto há tempos.
“Sou Anita Borghetti e meu marido se chama Conrado Borghetti. Somos Campeões do tempo em que a Ciméria era mais do que esta ilha perdida no tempo. Não fomos fortes o bastante em nossa Era, mas suficientes para proteger este local e guiar quem chegasse aqui”.
“Verônica Rocha”. E a ruiva apertou a mão de Anita, pensativa sobre o que significa não ser forte o suficiente para eles. “Luciferina, a Princesa Necromante”. A palavra necromante fez Conrado suspender a música um segundo e Anita paralisar pelo mesmo tempo. Em seguida, voltando à normalidade, Anita não entende o braço estendido de Luciferina, que estava crente que teria sua mão beijada. A mulher de pele morena pega a mão de Luciferina e aperta normalmente.
“Estamos procurando por uma fábrica de sorvete”. Disse a ruiva, e Conrado, que já tinha encerrado a música, franziu o rosto. Anita e seu marido refletem sobre as palavras. Então, algo parece vir à mente da mulher. “Ah, aquele galpão de ferro com umas máquinas e uns bicho esquisito onde faziam uns doce bom. Sei, oh, Conrado. Tu lembras como chegar lá?”
“Lembro, mas, tchê, desse jeito elas não vão. Olha essas roupas de guria da capital e ainda tudo estrupiada. Não sobrevivem um passo.” Responde Conrado. Anita olha para elas e concorda. “Bah, vou arranjar uns trapo para vocês.” diz a mulher.
“Vocês vão conseguir se defender dos bichão?” Pergunta Conrado. “Eu levo vocês lá”. Ao passo que Luciferina está pronta para aceitar ajuda, Verônica responde. “Com meu arsenal da mochila, eu sempre consigo sobreviver. Podemos ir sozinhas.”
Conrado caminha até a fogueira e traz uma mochila que estava secando perto do fogo e fedendo a fumaça. O homem balança a sacola na frente de Verônica e mostra que está vazia. “Deve ter caído tudo na água”. Ela demonstra decepção.
Com um tom nobre e honrado, ainda recuperando o orgulho, Luciferina diz. “Queria ter trazido minha Garra, mas não esperava que ia precisar dela tão cedo. Sem problemas, já, já, meus nobres cavaleiros nos encontrarão. Sinto que estão bem.” Conrado se sente inspirado na autoconfiança daquelas que estão na sua frente, pede que esperem e também se recolhe para dentro do galpão. Em seguida, traz um embrulho de pano, que abre no chão, mostrando diferentes armas de estilos, tempos e culturas variadas. “Fica de presente, peguem o que quiserem. Nem cabem na minha mão mesmo.” Diz Conrado.
Verônica olhou fascinada para os itens dispostos e os pegou conforme as explicações de Conrado a atraíram. Dois facões de aço de damasco, um sabre de osso de smilodon e uma viola que possuía lâminas de machado em seu corpo.
Já Luciferina encontrou algo ainda mais inusitado. Um martelo meteoro feito com o corpo de uma longa e robusta cascavel, tendo o rabo de chocalho em uma ponta e a boca aberta, funcionando como garras na outra. Após uns testes, a loira percebeu que a Cascavel funcionava de forma parecida à Garra.
Após as meninas esperarem durante mais uns pedaços de carne, Anita apareceu novamente e pediu desculpas explicando que o couro da outra serpente marinha que ela pegou dias atrás estava um pouco mais difícil de cortar ainda. A mulher gigante as convidou para entrar no galpão e as ajudou a se vestir como uma mãe vestindo suas filhas.
Verônica agora trajava uma jaqueta de couro com padrões de pele marrom de cobra no exterior e forro de lã por dentro. A blusa também era de lã, branquíssima. Uma calça seguia os padrões da jaqueta, mas em aparência lembrava um brim. As galochas, o cinto e uma nova mochila, por sua vez, eram feitos de couro de smilodon. Os botões, fechos e outros aviamentos eram feitos de ossos.
Luciferina recebeu um pacote fechado. Anita explicou que em algum momento passou por uma, e nesse momento se arrepiou, feiticeira que domava aranhas. Após ajudar a menina, recebeu de presente um vestido feito de teias negras que espantava frio e algumas ameaças com desenhos que remetem à armadilha aracnídea. A roupa nunca coube em Anita, mas dava direitinho em Luciferina.
“Agora, vocês duas vão pegar aquela trilha ali e vão seguir toda vida até perder a praia de vista. Aí, vai ter uma bifurcação, pega à esquerda. Segue, segue, segue, não para. Vai ter uma bergamoteira, duas bergamoteira, na terceira, sem erro, vira à direita e segue de novo. Não tem mais trilha ali, mas não tem erro, vocês se acham ali.”
Após receber algum lanche para a viagem e cantis com água, as meninas finalizaram as preparações. Verônica ajeitou seus facões e seu sabre na guaiaca, ajeitou a mochila e a viola machado nas costas, e tomou o passo adiante da caminhada. Luciferina a segue em passos ágeis, firmes, mas graciosos. Com energia completa, sabia que não importasse o tamanho do perigo, ele deveria se curvar perante sua realeza.
O vento soprava forte entre as árvores. O balançar das folhas, as criaturas se arrastando, os frutos caindo e não chegando ao chão. Se de alguma forma a ilha permitiu às gurias que chegassem lá, talvez não fosse um convite, mas uma armadilha para atraí-las e devorá-las. O medo, a tensão e a adrenalina voltaram conforme se afastaram do local aconchegante que estavam e seguiam a trilha que não estava tão bem demarcada quanto parecia nas instruções que receberam. A falta de pessoas passando ali definitivamente dificultou a demarcação dos caminhos a seguir.
O vento que soprava parecia querer empurrá-las para fora como um último aviso sobre o lugar onde estavam para entrar. Se Verônica misturava medo e excitação, Luciferina tremia e suava as mãos, mas forçava-se a continuar caminhando com firmeza e graça. Não poderia aceitar ser menos majestosa do que qualquer criatura daquela floresta.
Ao longe, a trilha branca e sinuosa provocava estranheza aos olhos das meninas. Ia de um lado para o outro e parecia rebolar para confundí-las os sentidos. Verônica esfregou os olhos para ver se a ilusão ia embora. Luciferina percebeu que era algo orgânico e disse a si mesma ser a própria ilha dançando para entreter Sua Realeza, a Princesa. Ambas estavam erradas e viram a trilha ao longe correr e mostrar-se, na verdade, uma onça de pêlo branco ponta para devorá-las.
Verônica sacou seu sabre, mas Luciferina sabia que a Proto-Humana e a Realeza ali era ela e seria uma desonra para sua carreira e sua noblesse oblige se esconder atrás de alguém. A loira afastou a ruiva para o lado e tentou ordenar a onça se ajoelhar, mas o frio havia ressecado sua garganta não permitiu o som sair. O nervosismo de Verônica crescia. Mais uma vez, totalmente convicta de que deveria ser reverenciada, Luciferina gritou com voz rouca, baixa, quase inaudível para que a criatura se curvasse. Verônica estava com as pernas firmes, mas olhos bambos.
A criatura, que em dois pés teria altura de Conrado, saltou, mas Luciferina finalmente deu sua ordem. Uma voz firme, grave, convicta, mas real — não de uma princesa, mas de uma rainha — ordenou que a criatura se ajoelhasse. Ao mesmo tempo, a gótica jogou a cabeça da Cascavel em direção à onça branca no ar, cravou a criatura pela garganta e puxou com toda a força até uma rocha sólida e baixa na frente das meninas. Com o crânio rachado, cabeça e pescoço ensanguentados, o felino estava ajoelhado perante Luciferina, ao menos após a morte.
O momento de glória durou alguns segundos até Verônica notar algo no animal. Apesar do tamanho, parecia ter algo estranho nas suas proporções. Patas e cabeça maiores que o corpo, um rabo curto, e um focinho não desenvolvido. Quase como se fosse apenas um filhote de um animal gigante.
A astúcia de Verônica ajudou a hipotetizar e concluir a realidade, mas a realidade não estava ali para saudá-la. Um rugido felino imponente, o chão tremendo e árvores sendo derrubadas denunciaram um animal muito maior vindo de trás. A mãe ou o pai daquela onça branca já tinha sentido o cheiro do final de seu filhote e estava pronto para cobrar a conta.
Luciferina e Verônica dispararam em frente, seguindo a trilha. Nenhuma delas tinha poderes que aumentavam suas capacidades físicas humanas por padrão, mas estar muito bem em forma ajudava a correr mais rápido que outras pessoas. Verônica era forte para se defender, escapar e sobreviver na cidade contra pessoas ainda mais fortes. Luciferina era uma Proto-Humana necromante que não dependia apenas de suas invocações, tinha força o suficiente para aguentar e dar uns socos e chutes em outras pessoas, assim como usar sua Garra. O que as seguia, no entanto, não era uma pessoa.
Como uma avalanche derrubando tudo no caminho, uma massa branca e peluda corria tombando árvores, esmagando animais e destruindo pedras. Quando a onça enorme estava a apenas alguns metros das meninas, Luciferina entendeu que não dava para fugir correndo nessa direção.
A loira pegou Verônica pela mão, arremessou a cabeça da Cascavel em um galho e as puxou para o tronco médio de uma goiabeira cujos frutos eram maiores do que uma cabeça humana. Elas conseguiram respirar um segundo enquanto esqueciam que o animal era capaz de subir em árvores. Em algumas fungadas, a onça branca identificou o cheiro e começou a escalar a goiabeira.
Luciferina e Verônica pularam para árvores de lados opostos e começaram a saltar de galho em galho indo na mesma direção. Agarrando e pisando em galhos, ramos, cipós, rabos de animais, o que estivesse no caminho como obstáculo era usado como plataforma para o próximo passo de sobrevivência. Um resbalo, no entanto, fez Luciferina ficar dependurada pela Cascavel.
A onça pintada cuja cabeça era maior que Conrado pulou para abocanhar Luciferina, mas se atrapalhou no ar quando uma dor fina, mas profunda, de uma pequena agulha lhe perfurou a pele lateral do pescoço. Verônica tinha saltado atrás da onça e mirado sua nuca, mas o couro e os órgãos eram grossos demais e a arma resbalou pelo lado. A ruiva tentou puxar a arma rasgando pele e músculo, só que a dor não chegou no animal, que, enfurecido, se sacudiu para derrubar a guria.
O movimento todo fez Luciferina, Verônica e a onça caírem das árvores. O felino vinha mais de cima, de cabeça, mas caía mais rápido e mastigaria as meninas após apanhá-las no ar. As duas conseguiram se projetar para os lados e se agarrar em galhos, ao passo que Verônica esticou o braço com o sabre e conseguiu rasgar um fio inteiro desde a boca até a coxa traseira do felino em um corte que, para o gato gigante, não foi profundo, mas doeu.
Luciferina, por sua vez, tinha caído mais baixo, e arremessou a Cascavel por cima de um galho, como uma roldana, e acertou a mandíbula da serpente na pálpebra da onça, a dependurando pela cabeça. Uma surpresa agradável mostrou o olho do felino gigante se esverdeando, mostrando que a presa da cobra ainda possuía glândulas de peçonha. Não mataria, mas causaria dor. Enquanto isso, sabendo que não tinha força para segurar a onça por muito tempo, Luciferina balançou para que o animal se machucasse nos troncos maciços e nos galhos pontiagudos. Por fim, o deixou cair de costas no chão e fazer um barulho de pedras e costelas quebrando.
Não suficiente, Luciferina apontou para os facões de Verônica, que logo os arremessou. A princesa pegou as lâminas no ar com graça, saltou com pompa e majestosamente caiu na garganta da onça com as pontas dos facões perfurando o animal. Golpes dilacerantes, mas precisos, selvagens, mas elegantes, com sangue a pintando de vermelho, mas parecendo carmesim. Parecia uma princesa cujo trono seria feito de peles e ossos.
A necromante também estava ali, pois seus cortes foram cirúrgicos para acertar traquéia, artérias e vasos sanguíneos laterais. O conhecimento de anatomia era amplo. Por fim, saltou do animal e o puxou para ficar de barriga para baixo. Não se dorme desleixadamente perante uma princesa.
As duas mancharam o pelo branco do animal com o vermelho do sangue ao limpar suas mãos. Depois, retomaram o fôlego e procederam a caminhada ao encontrarem a trilha.
Verônica foi novamente à frente, apontando buracos, pequenos animais que poderiam lhes pegar, cortando partes de mato que atravessavam o caminho e identificando passagens recentes de animais. A audição e o olfato estavam em sintonia com a visão, alertas aos pisares e rastejares das criaturas, aos cheiros de peles, penas e escamas. Dentro do que uma humana perspicaz e sobrevivente vinda da cidade era capaz, claro. Não era sua primeira na mata, mas suas trilhas em reservas naturais não se comparavam a Irerêwerá.
O caminho passou por restos de placas com runas antigas, meio apagadas. A madeira e a ferrugem das sinalizações estavam mais envelhecidas do que qualquer objeto que encontraram com os Borghetti. A trilha era margeada com ruínas de guaritas de pedra no caminho.
O passo das meninas estava apressado. O cheiro de sangue poderia atrair mais animais e não estavam dispostas a descobrir que tipo de criatura tenta devorar aquela onça. O aroma de madeira úmida da neve também as aceleravam ao queimar suas narinas com o frio e seus olhos ardiam com os raios que atravessavam as folhas e defletiam no tapete branco do solo. Encontraram a bifurcação e, mesmo se não tivessem recebido orientações de dobrar à esquerda, o fariam.
Na outra direção, viram a carcaça fresca de um javali mais roliço que as árvores atravessada por lanças da grossura do braço de um homem e rasgada por garras robustas como daquela onça. Algo disputou aquela presa e elas não gostariam de estar ali quando aparecesse o vencedor da competição. Checaram novamente se seus calçados não deixavam pegadas de sangue e partiram para o lado desejado.
Entre as árvores, alguns espaços eram chamativos. Áreas amplas demais para serem clareiras naturais, com pasto morto, casas de pedras roídas ou madeira podre e restos de cercas. Um vilarejo atravessado pela fauna e flora, coberto por frutos caídos, ervas daninhas e fezes de animais, sem quaisquer sinais recentes de vida humana.
Verônica nota que, à medida que se aproximavam da bergamoteira onde deveriam virar, as ruínas pareciam menos arruinadas, mais robustas, com material de melhor qualidade. Camadas da sociedade separadas de forma clara e fisicamente em uma civilização antiga. As ruínas mais sofisticadas dessa cidade apresentavam pedaços de couro sobre os telhados, vasos de cerâmica quebrados, a cabeça de uma boneca de pano na lateral da trilha.
Verônica não ouviu murmúrios de fantasmas, mas conheceu os ecos de um passado. Muretas e muralhas separaram cada camada de casas, todas caídas, mas tentando ser mais altas do que as mais próximas da periferia. Verônica experimentava pela primeira vez, de verdade, algo que seus pais já tinham experimentado em vida. Parou, olhou para os céus, e deu um pequeno sorriso, mas logo continuou liderando o caminho.
As duas dobraram após a árvore que deveriam dobrar e prosseguiram. Uma estrutura robusta e estranha apareceu sobre suas vistas e por entre as árvores. Os vestígios de presença humana se integravam com a floresta de forma que a vegetação respeitava o espaço daquela magnânima construção.
Ruínas sólidas de um castelo antigo se revelaram no final da trilha, mas algo menos que centenário também. Os espaços entre as pedras quebradas, janelas tortas, e arcos onde deveriam ter portas podres de madeira estavam remendados com placas de metal, vidraças transparentes, persianas de escritórios modernos e um portão de garagem que permitiria facilmente a passagem de um caminhão. Na frente do mesmo, o capim estava marcado por pneus que queimaram o solo muitas vezes.
Verônica apontou para Luciferina as marcas na estrutura que denunciavam que animais e seres com comportamento humano tentaram entrar recentemente ali. Do lado do castelo, um grande campo com cercas ainda em pé estava vivo com bovinos brancos gigantes. Após muito procurar e se aproximar mais da estrutura, finalmente encontraram a entrada. Uma porta cromada com um painel digital do lado.
A aproximação da estrutura também trouxe outra percepção. Gemidos animais de dor escapavam pelas pequenas frestas da entrada de metal frio. Verônica e Luciferina ficaram apreensivas. A ruiva se aproximou do painel, o removeu e, em poucos minutos, conseguiu conectar os fios para que a porta abrisse. O primeiro pensamento foi sobre ter sido muito fácil, o segundo foi que fazia sentido não ter tanta dificuldade. Se alguém tivesse atravessado toda a ilha até chegar ali, a segurança de um painel hi-tech não o impediria de atacar a fábrica em atividade. Entraram no local.
As meninas se depararam com o grande saguão de uma fábrica que anteriormente deveria ser uma sala do trono. Bonsais apodrecidos com cacau e morangos gigantes estavam espalhados, tonéis com leite azedo também, e máquinas de mistura e outros dispositivos possivelmente de fábricas de sorvete atravessavam todo o carpete real. Ao longe, onde seria o trono, uma mesa com computador ainda ligado. Foi aí que Luciferina percebeu que poderia ligar o interruptor e enxergar direito.
As meninas prosseguiram caminhando até chegar no computador. A tela mostrava as anotações de Ricardo Gioielli falando sobre como temia que a visão predatória de seu filho danificasse a harmonia natureza-homem-magia-máquina que conseguira alcançar naquele lugar. Confissões de um diário de quem parece prestes a ser encontrado morto, pois temia pela sua vida após deserdar seu filho do segredo da família. Por fim, um código numérico que Verônica entendeu exatamente o que era.
Agora era possível identificar com maior clareza a origem dos gemidos animais: uma de três portas que ficavam no fim da sala do trono.
A porta central estava trancada como um cofre. A ruiva reproduziu a senha apontada pelo computador e abriu. Dentro da sala, encontrou muitos objetos chamativos. Moedas de ouro de uma sociedade que não existia mais, armas de cerimônia que nunca viram uma gota de sangue, joias e outros objetos interessantes.
Sua mão passou rápido no quadro ao fundo com a receita do sorvete que apontava os ingredientes especiais, inclusive o leite de “vaca-das-neves”, que já vinha pastoso e não precisava ser fevido para matar microrganismos nocivos a humanos, pois já não os permitia proliferar. Verônica encontrou a caixinha que tinham pedido no museu, abriu e viu que os galhos eram, na verdade, chifres de algum cervídeo e, a pedra vermelha, de fato um focinho. Deu de ombros, botou a caixinha na mochila com mais um monte de objetos e foi em direção à saída.
Ao mesmo tempo, Luciferina entrou em uma sala ao lado, de onde vinham os gemidos animais. A princesa viu várias carcaças de bovinos gigantes abandonados e, entre eles, um único espécime vivo. Uma vaca-das-neves enorme de pêlo completamente branco, olhos azuis, e algo ainda mais bizarro. Seus chifres e dentes eram transparentes e cristalizados, como esculturas de gelo maciço. Luciferina encontrou o que queria, mas, ao mesmo tempo, seu coração apertava perante o animal que devia estar preso ali há ao menos vinte anos.
A vaca tinha sua pelagem rasgada e carcomida por ratos e insetos. Sua boca estava suja de sangue com sofrimento, pois, herbívora, tentou sobreviver comendo o que passasse, mas não era capaz de digerir carne direito. Seu olhar para Luciferina implorava por um fim na dor.
Luciferina pegou um facão que encontrou jogado no caminho com outras ferramentas, caminhou lentamente até a vaca-das-neves e se curvou perante ela. A Princesa Necromante, de joelhos, murmurou preces ao mundo dos mortos, se ergueu e cortou rapidamente a garganta do animal. Emocionalmente, a vaca estava melhor, mas a dor física ainda puxou um último mugido, tão alto que quebrou as janelas da fábrica.
A princesa novamente se curvou para o animal, deixou o facão velho no chão e se dirigiu até a porta para encontrar Verônica. A missão estava cumprida e era só ir embora antes da noite chegar. No entanto, outra coisa chegou antes da lua. Um terremoto foi se aproximando cada vez mais forte e resultou no estrondo de chifres que cravaram no portão gigante e o derrubaram enquanto um touro-das-neves enorme entrou enfurecido.